O carro deslizava no asfalto, naquele final de tarde, conduzido máquinalmente, deixando curvas e retas para trás. Seu condutor, um cinqüentão, pele clara, cabelos e olhos escuros, olhar sombrio, absorto em seus pensamentos, não percebia que a paisagem aos poucos ia se modificando. A predominância agora era de arvoredos baixos e retorcidos, característicos dos cerrados nordestinos. Sem destino certo, Mirson ainda buscava a utopia da felicidade plena.
Durante toda a sua vida, sempre fora assim: metódico, cauteloso, programava, analisava, reprogramava, para depois tomar a decisão. Uma vez decidido, não retrocedia nunca. Chegou a imaginar a possibilidade de, aos dezoito anos de idade, escolher, criteriosamente, uma menina entre oito e dez anos de idade, propor aos seus pais criá-la dentro dos seus moldes e padrões preestabelecidos, para contraírem matrimônio quando ela alcançasse maioridade. Nessa mesma ocasião, ele queria escrever O MANUAL DA VIDA, onde o conceito de sucesso e felicidade resumia-se no seguinte: o indivíduo deveria possuir sua casa, um carro, ter constituído uma família e renda suficiente para sustentá-la antes de completar vinte e oito anos de idade. Caso contrário, seria considerado um fracassado. Abdicou de seus sonhos, suas aptidões, para abraçar uma profissão mais lucrativa, que lhe proporcionasse um futuro garantido. Projetou sua habitação e seu lar. Desenhou e retocou até o aspecto físico dos seus filhos. Mas esqueceu-se do mais importante: a base da estrutura. E aí o castelo desmoronou.
Alguém acenou à margem da estrada. Como havia um posto de combustíveis logo mais adiante e ele estava um pouco cansado, resolveu parar. Sorridente, a moça aproximou-se e ofereceu seus serviços. Mirson levou algum tempo para entender. Era meio conservador para esse tipo de aventura, principalmente em beira de estrada. Como estava com fome, carente de companhia, pediu-lhe que apenas o levasse a um lugar onde pudesse comer e beber algo. Seguiu-a sem muito pensar. Pensou: ao menos dessa vez, faria uma improvisação. Estava no meio do nada, guiado por uma desconhecida, em direção a local ignorado. Completamente diferente de tudo que ele havia vivido. Entraram em uma modesta e minúscula habitação, onde havia mais duas outras pessoas. Mirson começou a entrar em pânico.
- Que impudência, em que armadilha estou me metendo, pensou. Vão me seqüestrar e roubar todo o meu dinheiro, pedir resgate... Calma, refletiu. Não era nenhum pobretão, mas também não era tão rico. Os objetos de valor que carregava eram apenas o relógio, celular e algum trocado para as despesas da viagem. Até mesmo seu cartão de crédito era de um limite modesto. Ainda que levassem tudo, bastava conseguir uma carona até uma agencia bancária mais próxima, um telefonema, e pronto, estaria com dinheiro suficiente para seguir viagem.
A mais velha do grupo, aparentando pouco mais de trinta anos, como se adivinhasse os pensamentos de Mirson, com voz doce apresentou-se e tratou de deixá-lo confortavelmente acomodado. Chamava-se Nice.
Era tudo muito simples, a começar pelas pessoas ali presentes. Tudo era improvisado. Sobre o chão de cimento polido depositaram os copos, um prato com mortadela e requeijão, cortados em cubos, e duas garrafas de cerveja geladas. Uma sentou ao seu lado, no sofá-cama, as outras se acomodaram no chão. Mirson estava irreconhecível. Aquele indivíduo enquadrado, taciturno, metódico, totalmente previsível, dava lugar a alguém sorridente, descontraído, um pouco escrachado, de bem com a vida, ainda que meio sem jeito. Era tudo o que ele queria naquele momento. A companhia de pessoas simples, desinteressadas, tratando-o de maneira igual, sem considerar seu status financeiro, social, ou as oportunidades que ele poderia lhes proporcionar. Ali, não passava de um simples desconhecido se enturmando em um grupo de novos conhecidos.
Bete, uma morena de cabelos longos, meiga e muito sentimental, talvez por causa da filhinha que havia deixado para trás. Apaixonou-se por um belo rapaz, filho de um comerciante rico da cidadezinha em que morava. Ele estudava na capital. No último verão, aquele amor, até então distante, tornara-se realidade. Ele, educado, fino, envolvente, após muitas promessas e juras de amor aconteceu o inevitável. Ela ficou grávida. Ele retornou à capital, ela escondeu a barriga o quanto pôde, até chegar ao conhecimento do seu pai. Ele recebeu a notícia e, passados três dias, chamou-a e disse: - você vai ficar aqui até a criança nascer. Nem guardou o resguardo. Pegou seus poucos pertences e caiu na estrada. Quando chora de saudade, fala “a minha menina”, porque não sabe o nome que deram a ela. Como outras, Bete ainda sonha em conhecer um cara bacana que vai tirá-la dessa vida, buscar sua filha e juntos viverem muito felizes.
Nice havia saído para providenciar mais cerveja. Ao retornar, precisou da ajuda de Léo para trazer tudo. O dinheiro que Mirson havia dado foi suficiente para comprar as cervejas, alguns petiscos e ainda sobrou algum. Era tudo muito barato. Léo e o grupo eram velhos amigos. Sua chegada provocou aquela algazarra. Nice, ainda com um lindo sorriso de traquina nos lábios, pediu silêncio e aumentou o volume do pequeno rádio. Ouviu-se então a voz empostada da locutora da Rádio Comunitária do Pátio, anunciando uma música dedicada a Mirson, um novo amigo da comunidade. Surpreso e emocionado, Mirson agradeceu àquela singela homenagem e fez um brinde ao grupo. Todos sorriram e a algazarra recomeçou.
Nice olhou Mirson demoradamente. Ela tinha um porte de nobreza, cabelos pretos, curtos, cútis clara, olhos negros e brilhantes. As marcas em seu rosto, herdadas da vida, ainda não haviam conseguido ofuscar a sua beleza. Com ar de mãezona, como se estivesse a perceber o quanto ele estava fragilizado, necessitando de carinho, não de sexo, mas de um colo, um aconchego, sentou-se ao seu lado, afagou seus cabelos, alguns fios brancos já despontando, com ternura beijou-lhe o rosto e acomodou-o em seu peito. Mirson, como uma criança dócil, deixou-se ficar. Os olhos marejados e um soluço preso na garganta.
Léu era hilário. Simpático, estatura mediana, não era do tipo musculoso, nem era esquelético. Poucos sabiam, mas por detrás daquela figura brincalhona e sorridente escondia-se uma triste história. Estava cursando o segundo semestre de arquitetura, quando descobriu, verdadeiramente, sua opção sexual. Apaixonou-se por um colega de turma, com quem teve a sua primeira experiência com alguém do mesmo sexo. No começo da puberdade, foi comido por uma prima mais velha, mas a experiência não deixou boas recordações. Agora era algo muito diferente, inexplicável. Não conseguia passar um dia sem vê-lo. Amava e sentia-se amado. Em casa, o olhar apaixonado não passou despercebido dos familiares. Começou então a indagação. Quem seria, como ela era, qual a família a que pertencia? No princípio, o mistério continuou. A relação amorosa entre os dois, guardada a sete chaves, com bastante discrição, passava despercebida. Depois com o passar do tempo, veio o descuido, e finalmente a descoberta. O seu pai então o chamou para uma conversa esclarecedora. Ele, o pai, no fundo não queria ouvir a verdade. Queria ouvir qualquer coisa, menos a verdade. Léu já não agüentava mais aquela situação e confessou. Confirmou todo o boato. A expulsão de casa pelo seu pai já era esperada. O que destruiu verdadeiramente a vida de Léu foi saber, por terceiros, que seu amante, pressionado, ou por conveniência, havia negado tudo. Léu, abatido, arrasado, com um fio de esperança ainda tentou, por mais de uma vez, uma conversa olhos nos olhos. A esperança se foi e o encontro não aconteceu.
Todos já haviam saído em busca de clientes. Mirson e Nice ficaram ainda conversando um pouco.
- Temos muito que aprender com as crianças, disse ela. Elas sabem como ser felizes: cultivam hábitos simples que passam despercebidos ou até mesmo repudiamos. Veja, por exemplo, como elas bebem água. Elas mastigam. E a comida, a papinha. Elas preferem meter a mão no prato e lambuzar tudo. É incrível, mas ingerindo dessa forma a água e os alimentos têm outro sabor. Experimente imitá-las e faça você mesmo essa constatação! Mirson fez cara de nojo, ela sorriu e reafirmou: “verdade! quando crianças, somos envolvidos pelo véu da inocência, somos espontâneos, autênticos, desconhecemos a mentira e a falsidade. Depois, aos poucos, vamos sendo adestrados aos moldes da sociedade”. Mirson meneou a cabeça em sinal de concordância. Ele muito bem sabia o que era isso. Vivia num mundo onde as inversões de valores era uma prática normal. Como se adivinhasse seus pensamentos Nice continuou: ”somos os únicos responsáveis pela nossa infelicidade. Precisamos aprender a renunciar, semear harmonia, compreensão e, principalmente, muito amor, amor verdadeiro, amor incondicional”. Percebendo que aquela conversa o estava deixando taciturno, tratou de quebrar o clima e disse sorrindo: “a verdadeira felicidade está na Terra do Nunca! Vamos agora dar uma volta pelo Pátio e comer alguma coisa. Está bem?”.
Enquanto Nice preparava o seu banho, Mirson foi até seu carro pegar uma muda de roupa limpa. Ao retornar, ela entregou-lhe uma toalha limpa, um sabonete e abriu a porta de um minúsculo banheiro. Ao termino do banho, Mirson encontrou a pequena sala vazia. Apenas ouvia o barulho do movimento lá fora. Sentou-se no sofá-cama e esperou. Não, não era apenas porte de nobreza, pensou, ela realmente era diferente das demais. O linguajar, o conhecimento, o mais simples gesto denotava uma educação requintada. Qual a sua história, de onde teria vindo, por onde andara, teria encontrado no Pátio a sua “Terra do Nunca”? Seus pensamentos foram interrompidos com a sua chegada. Nice havia ido tomar seu banho na casa da amiga vizinha. Estava muito linda. Usava um vestido longo de tafetá, branco, combinando com o arranjo na cabeça, uma maquiagem suave realçando sua pele clara, contrastando com seus olhos e cabelos negros. Guardadas as devidas proporções, era uma verdadeira princesa do agreste.
À margem da rodovia está instalado o enorme posto de combustíveis, várias bombas de abastecimento, churrascaria, lanchonete, sanitário, etc. Atrás do posto é onde se escondem os excluídos. Nada além de um largo e, em suas extremidades, duas pequenas ruas estreitas, formadas de pequenas construções, a maioria feita de madeira, de forma improvisada. No largo é onde se concentram os poucos bares, alguns ambulantes e a Rádio Comunitária. As redes de água e esgoto, bem como a iluminação pública e privada não existem. Tudo é improvisado. Na verdade é um grande acampamento, onde as pessoas parecem estar prontas para sair a qualquer momento. A movimentação no Pátio começa ao entardecer e continua até altas horas da madrugada.
Nice era muito querida. Por onde passava faziam festa. Escolheram uma mesa de um bar mais recuado e sentaram. O burburinho, a movimentação de pessoas, as gambiarras lembravam as festas de quermesse. Mas os produtos ali oferecidos eram outros. Pediram um Vermouth Cortezano e Mirson serviu-o em copos de vidro, únicos disponíveis. Nice pegou seu copo e fez um brinde: “a este nosso momento mágico”. Ergueu a taça de Bordeaux, como uma autentica sommelière, e saboreou o Cabernet Sauvignon. Mirson tomou-a nos braços e, ao som do Bolero de Ravel, começaram a dançar sur la terrasse Du restaurant Du Palais Royal, culminando com o Danúbio Azul de Strauss. Tomaram a carruagem e seguiram até a alcova, onde fizeram amor. Entregaram-se como nunca. Viveram uma paixão digna de um conto Machadiano.
Já estava amanhecendo. Um carro saía do Pátio e seguia em direção à estrada. Seu condutor, com um leve sorriso nos lábios, antes de transpor a primeira curva, deu uma última olhada através do retrovisor e admirou-se em não se surpreender. As cortinas sempre se fecham no final do ato.
Zumbi 01/2012

