terça-feira, 20 de março de 2012

O PÁTIO


O carro deslizava no asfalto, naquele final de tarde, conduzido máquinalmente, deixando curvas e retas para trás. Seu condutor, um cinqüentão, pele clara, cabelos e olhos escuros, olhar sombrio, absorto em seus pensamentos, não percebia que a paisagem aos poucos ia se modificando. A predominância agora era de arvoredos baixos e retorcidos, característicos dos cerrados nordestinos.  Sem destino certo, Mirson ainda buscava a utopia da felicidade plena.

Durante toda a sua vida, sempre fora assim: metódico, cauteloso, programava, analisava, reprogramava, para depois tomar a decisão. Uma vez decidido, não retrocedia nunca. Chegou a imaginar a possibilidade de, aos dezoito anos de idade, escolher, criteriosamente, uma menina entre oito e dez anos de idade, propor aos seus pais criá-la dentro dos seus moldes e padrões preestabelecidos, para contraírem matrimônio quando ela alcançasse maioridade. Nessa mesma ocasião, ele queria escrever O MANUAL DA VIDA, onde o conceito de sucesso e felicidade resumia-se no seguinte: o indivíduo deveria possuir sua casa, um carro, ter constituído uma família e renda suficiente para sustentá-la antes de completar vinte e oito anos de idade. Caso contrário, seria considerado um fracassado. Abdicou de seus sonhos, suas aptidões, para abraçar uma profissão mais lucrativa, que lhe proporcionasse um futuro garantido. Projetou sua habitação e seu lar. Desenhou e retocou até o aspecto físico dos seus filhos. Mas esqueceu-se do mais importante: a base da estrutura. E aí o castelo desmoronou.

Alguém acenou à margem da estrada. Como havia um posto de combustíveis logo mais adiante e ele estava um pouco cansado, resolveu parar. Sorridente, a moça aproximou-se e ofereceu seus serviços. Mirson levou algum tempo para entender. Era meio conservador para esse tipo de aventura, principalmente em beira de estrada. Como estava com fome, carente de companhia, pediu-lhe que apenas o levasse a um lugar onde pudesse comer e beber algo. Seguiu-a sem muito pensar. Pensou: ao menos dessa vez, faria uma improvisação. Estava no meio do nada, guiado por uma desconhecida, em direção a local ignorado. Completamente diferente de tudo que ele havia vivido. Entraram em uma modesta e minúscula habitação, onde havia mais duas outras pessoas. Mirson começou a entrar em pânico.

- Que impudência, em que armadilha estou me metendo, pensou. Vão me seqüestrar e roubar todo o meu dinheiro, pedir resgate... Calma, refletiu. Não era nenhum pobretão, mas também não era tão rico. Os objetos de valor que carregava eram apenas o relógio, celular e algum trocado para as despesas da viagem. Até mesmo seu cartão de crédito era de um limite modesto. Ainda que levassem tudo, bastava conseguir uma carona até uma agencia bancária mais próxima, um telefonema, e pronto, estaria com dinheiro suficiente para seguir viagem. 

A mais velha do grupo, aparentando pouco mais de trinta anos, como se adivinhasse os pensamentos de Mirson, com voz doce apresentou-se e tratou de deixá-lo confortavelmente acomodado. Chamava-se Nice. 

Era tudo muito simples, a começar pelas pessoas ali presentes. Tudo era improvisado. Sobre o chão de cimento polido depositaram os copos, um prato com mortadela e requeijão, cortados em cubos, e duas garrafas de cerveja geladas. Uma sentou ao seu lado, no sofá-cama, as outras se acomodaram no chão. Mirson estava irreconhecível. Aquele indivíduo enquadrado, taciturno, metódico, totalmente previsível, dava lugar a alguém sorridente, descontraído, um pouco escrachado, de bem com a vida, ainda que meio sem jeito. Era tudo o que ele queria naquele momento. A companhia de pessoas simples, desinteressadas, tratando-o de maneira igual, sem considerar seu status financeiro, social, ou as oportunidades que ele poderia lhes proporcionar.  Ali, não passava de um simples desconhecido se enturmando em um grupo de novos conhecidos.

Bete, uma morena de cabelos longos, meiga e muito sentimental, talvez por causa da filhinha que havia deixado para trás. Apaixonou-se por um belo rapaz, filho de um comerciante rico da cidadezinha em que morava. Ele estudava na capital. No último verão, aquele amor, até então distante, tornara-se realidade. Ele, educado, fino, envolvente, após muitas promessas e juras de amor aconteceu o inevitável. Ela ficou grávida. Ele retornou à capital, ela escondeu a barriga o quanto pôde, até chegar ao conhecimento do seu pai. Ele recebeu a notícia e, passados três dias, chamou-a e disse: - você vai ficar aqui até a criança nascer. Nem guardou o resguardo. Pegou seus poucos pertences e caiu na estrada. Quando chora de saudade, fala “a minha menina”, porque não sabe o nome que deram a ela. Como outras, Bete ainda sonha em conhecer um cara bacana que vai tirá-la dessa vida, buscar sua filha e juntos viverem muito felizes.

Nice havia saído para providenciar mais cerveja. Ao retornar, precisou da ajuda de Léo para trazer tudo. O dinheiro que Mirson havia dado foi suficiente para comprar as cervejas, alguns petiscos e ainda sobrou algum. Era tudo muito barato. Léo e o grupo eram velhos amigos. Sua chegada provocou aquela algazarra. Nice, ainda com um lindo sorriso de traquina nos lábios, pediu silêncio e aumentou o volume do pequeno rádio. Ouviu-se então a voz empostada da locutora da Rádio Comunitária do Pátio, anunciando uma música dedicada a Mirson, um novo amigo da comunidade. Surpreso e emocionado, Mirson agradeceu àquela singela homenagem e fez um brinde ao grupo. Todos sorriram e a algazarra recomeçou.

Nice olhou Mirson demoradamente. Ela tinha um porte de nobreza, cabelos pretos, curtos, cútis clara, olhos negros e brilhantes. As marcas em seu rosto, herdadas da vida, ainda não haviam conseguido ofuscar a sua beleza. Com ar de mãezona, como se estivesse a perceber o quanto ele estava fragilizado, necessitando de carinho, não de sexo, mas de um colo, um aconchego, sentou-se ao seu lado, afagou seus cabelos, alguns fios brancos já despontando, com ternura beijou-lhe o rosto e acomodou-o em seu peito. Mirson, como uma criança dócil, deixou-se ficar. Os olhos marejados e um soluço preso na garganta.

Léu era hilário. Simpático, estatura mediana, não era do tipo musculoso, nem era esquelético. Poucos sabiam, mas por detrás daquela figura brincalhona e sorridente escondia-se uma triste história.  Estava cursando o segundo semestre de arquitetura, quando descobriu, verdadeiramente, sua opção sexual. Apaixonou-se por um colega de turma, com quem teve a sua primeira experiência com alguém do mesmo sexo. No começo da puberdade, foi comido por uma prima mais velha, mas a experiência não deixou boas recordações. Agora era algo muito diferente, inexplicável. Não conseguia passar um dia sem vê-lo. Amava e sentia-se amado. Em casa, o olhar apaixonado não passou despercebido dos familiares. Começou então a indagação. Quem seria, como ela era, qual a família a que pertencia? No princípio, o mistério continuou. A relação amorosa entre os dois, guardada a sete chaves, com bastante discrição, passava despercebida. Depois com o passar do tempo, veio o descuido, e finalmente a descoberta. O seu pai então o chamou para uma conversa esclarecedora. Ele, o pai, no fundo não queria ouvir a verdade. Queria ouvir qualquer coisa, menos a verdade. Léu já não agüentava mais aquela situação e confessou. Confirmou todo o boato. A expulsão de casa pelo seu pai já era esperada. O que destruiu verdadeiramente a vida de Léu foi saber, por terceiros, que seu amante, pressionado, ou por conveniência, havia negado tudo. Léu, abatido, arrasado, com um fio de esperança ainda tentou, por mais de uma vez, uma conversa olhos nos olhos. A esperança se foi e o encontro não aconteceu.  

Todos já haviam saído em busca de clientes. Mirson e Nice ficaram ainda conversando um pouco. 

            - Temos muito que aprender com as crianças, disse ela. Elas sabem como ser felizes: cultivam hábitos simples que passam despercebidos ou até mesmo repudiamos. Veja, por exemplo, como elas bebem água. Elas mastigam. E a comida, a papinha. Elas preferem meter a mão no prato e lambuzar tudo. É incrível, mas ingerindo dessa forma a água e os alimentos têm outro sabor. Experimente imitá-las e faça você mesmo essa constatação! Mirson fez cara de nojo, ela sorriu e reafirmou: “verdade! quando crianças, somos envolvidos pelo véu da inocência, somos espontâneos, autênticos, desconhecemos a mentira e a falsidade. Depois, aos poucos, vamos sendo adestrados aos moldes da sociedade”. Mirson meneou a cabeça em sinal de concordância. Ele muito bem sabia o que era isso. Vivia num mundo onde as inversões de valores era uma prática normal. Como se adivinhasse seus pensamentos Nice continuou: ”somos os únicos responsáveis pela nossa infelicidade. Precisamos aprender a renunciar, semear harmonia, compreensão e, principalmente, muito amor, amor verdadeiro, amor incondicional”. Percebendo que aquela conversa o estava  deixando taciturno, tratou de quebrar o clima e disse sorrindo: “a verdadeira felicidade está na Terra do Nunca! Vamos agora dar uma volta pelo Pátio e comer alguma coisa. Está bem?”.

Enquanto Nice preparava o seu banho, Mirson foi até seu carro pegar uma muda de roupa limpa. Ao retornar, ela entregou-lhe uma toalha limpa, um sabonete e abriu a porta de um minúsculo banheiro. Ao termino do banho, Mirson encontrou a pequena sala vazia. Apenas ouvia o barulho do movimento lá fora. Sentou-se no sofá-cama e esperou. Não, não era apenas porte de nobreza, pensou, ela realmente era diferente das demais. O linguajar, o conhecimento, o mais simples gesto denotava uma educação requintada. Qual a sua história, de onde teria vindo, por onde andara, teria encontrado no Pátio a sua “Terra do Nunca”? Seus pensamentos foram interrompidos com a sua chegada. Nice havia ido tomar seu banho na casa da amiga vizinha. Estava muito linda. Usava um vestido longo de tafetá, branco, combinando com o arranjo na cabeça, uma maquiagem suave realçando sua pele clara, contrastando com seus olhos e cabelos negros. Guardadas as devidas proporções, era uma verdadeira princesa do agreste. 

À margem da rodovia está instalado o enorme posto de combustíveis, várias bombas de abastecimento, churrascaria, lanchonete, sanitário, etc. Atrás do posto é onde se escondem os excluídos. Nada além de um largo e, em suas extremidades, duas pequenas ruas estreitas, formadas de pequenas construções, a maioria feita de madeira, de forma improvisada. No largo é onde se concentram os poucos bares, alguns ambulantes e a Rádio Comunitária. As redes de água e esgoto, bem como a iluminação pública e privada não existem. Tudo é improvisado. Na verdade é um grande acampamento, onde as pessoas parecem estar prontas para sair a qualquer momento. A movimentação no Pátio começa ao entardecer e continua até altas horas da madrugada. 

Nice era muito querida. Por onde passava faziam festa. Escolheram uma mesa de um bar mais recuado e sentaram. O burburinho, a movimentação de pessoas, as gambiarras lembravam as festas de quermesse. Mas os produtos ali oferecidos eram outros.  Pediram um Vermouth Cortezano e Mirson serviu-o em copos de vidro, únicos disponíveis. Nice pegou seu copo e fez um brinde: “a este nosso momento mágico”. Ergueu a taça de Bordeaux, como uma autentica sommelière, e saboreou o Cabernet Sauvignon. Mirson tomou-a nos braços e, ao som do Bolero de Ravel, começaram a dançar sur la terrasse Du restaurant Du Palais Royal, culminando com o Danúbio Azul de Strauss. Tomaram a carruagem e seguiram até a alcova, onde fizeram amor. Entregaram-se como nunca. Viveram uma paixão digna de um conto Machadiano. 

Já estava amanhecendo. Um carro saía do Pátio e seguia em direção à estrada. Seu condutor, com um leve sorriso nos lábios, antes de transpor a primeira curva, deu uma última olhada através do retrovisor e admirou-se em não se surpreender. As cortinas sempre se fecham no final do ato.                                                                                                                                
Zumbi 01/2012

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

FUSCÃO

Andar de “Fuscão” naquela época era “Status”, mas andei num particularmente “Especial”.
 

Explico:
Estávamos em pleno verão de 1970. Eu, Saruê, Luisão e Tom resolvemos passar o carnaval num interiorzão desses por aí. Sem saber bem o quê, ou mesmo onde ia dar tudo aquilo, iniciamos a viagem. Na verdade foi idéia deles, o Tom tinha o Carro, Saruê providenciou a hospedagem, e por aí vai. Como era o mais velho do grupo, único que não vivia de mesada, fiquei com a maior parte das despesas. Mais que justo.


A bordo de um autêntico CHEVETTE seis cilindros, câmbio alemão, que na ocasião era a bola da vez, iniciamos nossa turnê de quase uma semana. Comparando minha idade, em detrimento dos demais, era quase que o dobro da média do grupo. Inicialmente, por conta da grande discrepância com relação aos pensamentos, idéias, o vocabulário repleto de gírias, próprio da idade me senti um verdadeiro alienígena. Imaginem o que é um adulto em meio a três adolescentes? De duas uma, ou ficava casmurro num canto, ou me tornava um deles; fiquei com a segunda opção. Ao ser aceito pelo grupo, de cara recebi a alcunha de “o velho”. A viagem transcorria maravilhosamente bem. Enquanto isso, como era de lei, enquanto rolava a bebida, surgiam os planos estratégicos para conquista das mulheres, acompanhados de resenhas, gozações, em fim, uma verdadeira zorra. 


Fomos todos para a casa do Saruê, Tom tratou de cuidar do carro, alias, sua maior preocupação, Luizão foi providenciar os ingressos para o baile de Carnaval, e eu sempre a observar, mais do que agir; Na verdade estava mais preocupado em explicar para mim mesmo o que estava fazendo ali, em meio àquele sertaozão, seco, longínquo e sem-graça (até então)


À noite, fomos ao baile no clube. Antes, porém, tomamos o segundo litro de Bacardí pelo gargalo. A partir daí, tudo começou a ficar lindo e maravilhoso. Quando chegamos, a festa já havia começado. As músicas de Moraes Moreira faziam o maior sucesso na época. Lambretinha, Máscara Negra e outras. Suponho que ainda toque em bailes de carnaval, se é que ainda existem. 


    “Olhos negros, tu és tentadores, nas multidões sem cantores...”


O som arrastava a multidão. Meu coração palpitou quando vi a máquina. Um tremendo “FUSCÃO”: Faróis impecáveis, empinados e majestosos, chassi, suspensão e carroceria, impecáveis; chaparia sem um arranhão sequer; mas em meio àquilo tudo o que mais me impressionou foram as Talas Largas, ou seja, a distância entre os eixos da “Traseira”; simplesmente, impressionante!!!!!


Sem pedir licença, cumprimentei discretamente aquela mulher, quer dizer,  aquele carrão, e saí para dar uma “voltinha”. Cara... vou te contar... Alias vou te deixar imaginar... pense o que é dar um passeio naquele “Fuscão” cheirando a novo, perfumado, sentir aqueles faróis firmes, potentes e sempre acesos, a iluminar a imaginação de qualquer exemplar de homem, seja ele idoso, seminarista ou abstêmio, imagine então eu, belo exemplar de “Macho Alfa”?


Olhe, minha habilidade de piloto me valeu, pois sob o meu pseudocontrole senti o poder da máquina. Tudo nele era maravilhoso, e me fazia sentir o quanto era bom ser Homem, e poder pilotar e desfrutar daquela “Máquina Poderosa”. Aquele Fuscão não tinha limites; motor de altíssima cilindrada, não respeitava subida ao contrario, “Adorava Uma Subida”, e saibam, o que ele menos queria mesmo era descer. Era potente, arrogante, enfrentava qualquer situação, por mais adversa que fosse; seja ela poeira, fumaça etc. Em fim, era “Pau Pra Toda Obra” ou, não sei bem se era melhor dizer, que era obra pra um bom “PAU”. Huuuuummm, não sei bem caro leitor, se é melhor lembrar, ou aquietar meu velho coração daquele passeio que até hoje permeia meus pensamentos.


Mas o fato é que passear de “Fuscão” vai além da imaginação de qualquer um de vocês, caros leitores, por mais que descreva aqui, nunca será a mesma sensação de poder dominar aquela máquina quente, ao mesmo tempo, doce, suave, perfumada, ardente, surpreendente, nova, magnífica e calorosa. 



                                                                                                                         Marcos

domingo, 22 de janeiro de 2012

NÃO EXISTEM MAIS MÃOS DADAS COMO ANTIGAMENTE

 
Lembro-me como se fosse hoje. A casa grande, avarandada, antiga, cheia de quartos. Bem no fundo do quintal, cheio de plantas, junto ao portão que dava acesso ao rio, havia a latada, onde ficavam o forno grande, o pilão e o cortiço. As abelhas adoravam lamber o pilão sujo de paçoca de murici, isto é, o resto que eu deixava.

Acordava cedo, nos dias de ir à escola, e minha Vó já estava dando as últimas ordens na cozinha. Ampla, de teto baixo, um fogão a lenha no canto, o pote de barro aparando os pingos d água da talha, com a boca cuidadosamente cobertas de cambraia branca. A porta do fundo dava para a enorme despensa, com seus baús e jiraus cheios de mantimentos. Da minúscula janela, sempre aberta, cravada em grossas paredes, ouviam-se os passos dos transeuntes sobre o calçamento da rua estreita, em direção ao rio.
    - Bença madinha Mariana.
    - Deus te abençoe. Tua mãe já deu a luz?
    - Inda não. É mês qui vem.
    - Passa lá na loja. Separei uns cortes de pano pra ela.
    - Tá.
  
Enquanto acompanhava o Vô, coronel, num prato de coalhada ou batata doce com leite, adoçado com raspa de rapadura, eu apreciava aquele movimento. Na maioria das vezes, enquanto dialogavam, continuavam seus afazeres. Outras vezes Vó Mariana parava para receber uma cuia de murici fresco ou entregar uma garrafa de mel de cana. Era feijão verde, folha de boldo, garrafa de manteiga, jerimum, garrafa de mel, conselhos, consolo e tudo o mais.

Sempre que o velho Galdino abatia um bode, embaixo da latada, no fundo do quintal, lá estava eu esperando o rim, para comer passado na manteiga. Após o sacrifício, o velho esquartejava o animal, trazia uma parte para a despensa e o restante distribuía. Esse pacto silencioso era regiamente seguido pelos compadres, pelos afilhados, pelos sobrinhos, verdadeiros ou por consideração.

Os ovos eram guardados em alguidás de barro, enterrados na areia. Não havia geladeira nem freezer, mas quase sempre havia carne fresca no jirau.

Aquela pequena janela funcionava como um verdadeiro guichê de uma agência bancária, onde transitava a mais forte moeda corrente daquela longínqua cidade sertaneja. O Amor.

À noitinha, na “Hora da Saudade”, programa de grande audiência na época, todos se reuniam nas poucas casas que tinha rádio. Depois, ficavam conversando, sentados nas calçadas, até a hora da ventania, hora de dormir. De mãos dadas, aquela pequena comunidade seguia seu rumo, indiferente às crises internacionais.

Hoje, aquela pequena janela foi substituída por caixas eletrônicos de grandes agências bancárias, com sistemas “on-line” de compensação integrada. Os compadres, os sobrinhos, os afilhados já não existem mais. Já não existem mais mãos dadas. Apenas mãos que apertam botões de controle das telinhas mágicas, na solidão de um mundo moderno.

                                               

                                                                                                                                   Zumbi/1995

LEMBRANÇA

      
      
     
LEMBRO-ME DO TEU OLHAR DISTANTE,
ORA MISTERIOS, ORA SONHADOR,
DO TEU SORRISO MAROTO,
TEUS CABELOS SOLTOS...

LEMBRO-ME DOS TEUS LÁBIOS CARNUDOS
A ENLOQUECER-ME COM TEUS BEIJOS,
TUA PELA MORENA A ENCHER-ME DE DESEJOS...

LEMBRO-ME... LEMBRO-ME...

ENSINASTE-ME, COMO NINGUÉM, A AMAR.
AGORA PEÇO, IMPLORO,
ENSINA-ME A TE ESQUECER.

                                                                                                             
                                                                                                                  Zumbi