PREFÁCIO
A
princípio, nas páginas iniciais da leitura, imaginamos tratar-se de
uma literatura nos moldes de “autoajuda” – Ledo engano. A
estória
de Ritinha vai nos conduzir por caminhos muito mais reflexivos da
vida. Vivida com simplicidade, mesclando intuição, razão e
religião, articulada em um período, que remonta algumas décadas
passadas, a
estória de Ritinha
envolve ao menos três ou quatro gerações. A leveza da leitura,
ainda que narrando dificuldades enfrentadas por seus protagonistas, é
latente. O contexto é enriquecido
e abrilhantado pela
riqueza de detalhes, trazidas pelo autor, retratando
fielmente cada
uma das gerações. As
paisagens, os ambientes, veículos de transporte, vestimentas e
adereços, até os utensílios domésticos utilizados, nos faz
retroceder no tempo. Outro ponto de destaque é a facilidade com que
ele demonstra os conhecimentos com a agricultura, construção civil,
empreendedorismo, entre outros, plenamente ilustrados neste belo
trabalho.
Para
os leitores mais jovens, este link entre o passado dos avós, geração
rádio Mullard até a geração iPad, terá uma contextualização
retro valorosa, proporcionando uma viagem a um passado remoto,
enquanto que para os leitores das gerações mais próximas, caberá
o saudosismo de um tempo mágico.
A
paquera tímida, o toque na mão, os ensaios de dança de rosto
colado, a sensação do primeiro beijo, são momentos inesquecíveis
das gerações passadas. Talvez,
ingrediente em desuso nos relacionamentos amorosos atuais, insípidos,
e que, acredito, fazem muita falta.
“Faça
por ti que, te ajudarei” – Eis o outro ponto de abordagem desta
linda estória.
Beto e Ritinha enfrentam diversas dificuldades, porém, não
dispensam as oportunidades que a vida lhes reserva.
O amor entre eles, funciona como uma alavanca propulsora, capaz de
erguer o mundo, eliminando qualquer interferência, sendo ela
provocada ou natural. A conexão entre o amor e a força Divina
parece ser a receita que o autor usa como estímulo em nosso
benefício.
Apertem
os cintos e viagem nesta reveladora história
de gerações.
Salvador(Ba), 4 de março de 2024.
Mozart Teixeira
Engenheiro Eletricista e Professor.
O
Anjo Gabriel?
Era
uma noite fria e úmida. Uma garoa fina, insistente, molhava seus
cabelos, e descia por sobre sua face, misturada com as lágrimas, que
teimosamente brotavam dos seus olhos. Ela corria desesperadamente,
tentando fugir daquele lugar, ou melhor, daquela situação. Queria
deixar tudo para trás. Tudo que a afligia. Mal enxergava o caminho.
Com os olhos anuviados, trôpega, vez por outra olhava para trás e,
por sobre a passarela de pedestres da ponte, continuava sua fuga
desesperada. Por mais de uma vez tentou jogar-se por sobre o
alambrado, na esperança de acabar com aquela angustia que dilacerava
seu peito, sufocando-a, esmagando seu coração, imprimindo uma dor
insuportável. Uma queda daquela altura seria fatal. Seu corpo
esfacelaria sobre as pedras do leito do rio quase seco, e aí tudo
estaria terminado. Como num passe de mágica, desapareceriam todas as
angústias, todo o seu sofrimento. Não estaria mais vivendo aquela
vida miserável, não precisaria mais conviver com aquelas pessoas,
não precisaria mais retornar àquela casa cheia de más lembranças.
Tudo deixaria de existir. Ela, o presente, e todo o seu passado de
dor e sofrimento. A garoa persistente deixava a pista escorregadia.
Indiferentes àquele acontecimento, conduzindo seus veículos
reluzentes, garbosamente enfileirados, passavam as pessoas.
Sentindo-se só, desamparada, a jovem não tinha a quem recorrer.
Tudo estava perdido, encontrava-se literalmente num beco sem saída.
Apenas o instinto de sobrevivência prevalecia. Naquele momento de
desespero recusava-se a pensar, raciocinar, até porque já estava no
limite de suas forças, prestes a desfalecer. Inconscientemente,
segurou o ventre na busca de auxílio, como último recurso de um
náufrago à deriva buscando uma tábua de salvação. Ao
tocá-lo, milagrosamente
sentiu suas forças renovarem. Aquele pequenino rebento, não se sabe
como, conseguia transmitir-lhe novas energias, impulsionando-a a
continuar sua maratona. O cenário mudou. Agora era a loba lutando
para proteger sua cria. Abraçada ao seu pequeno tesouro, continuou
sua trajetória. Precisava afastar-se dali, o mais rápido possível,
e deixar de pensar aquelas coisas terríveis que continuavam, a todo
custo, querer invadir seus pensamentos. Nada de mal poderia acontecer
com aquele rebento. Já estava no final da travessia da ponte quando
deparou com um carro branco parado à sua frente, com a porta aberta,
como se estivesse convidando-a a entrar. Naquele momento não pensou
em nada. Apenas entrou e, num fiapo de voz, pediu ao motorista que a
levasse para longe daquele lugar. Num último esforço, fechou os
olhos, e jogou-se sobre o acento do veículo. O carro partiu, e ela
desabou em prantos. Não tinha a menor ideia de quem seria o
motorista, e para onde a levaria. Aquela atitude impensada,
insensata, poderia trazer-lhe consequências desastrosas, complicar
ainda mais sua vida, agravar seus problemas, que já não eram
poucos. Abraçou seu ventre, pensou na criaturinha, e mais uma vez
buscou ajuda, apoio, energia para revitalizar seu corpo debilitado. A
resposta veio clara: “Fique tranquila, estamos protegidas”.
Nunca
havia sentido tanto a falta de um colo, um afago, como agora. Desde
cedo aprendeu a viver sem esses mimos. As poucas palavras que ouvia
da mãe se resumiam em ordens e reclamações. Levou muito tempo para
permitir a aproximação de Beto. Beto agora era seu porto seguro.
Mas, quando o ouviu proferir aquelas duras palavras, não resistiu, e
desabou. Aquela jovem confiante, decidida, desapareceu. Sentia-se
como uma nau à deriva. Precisava agarrar-se a algo para não
sucumbir. Nosso cérebro, nesses momentos difíceis, ativa um
mecanismo de proteção, anestesiando nossos pensamentos,
embaralhando e inibindo nosso raciocínio. Embalada pelo balanço do
carro em movimento deixou-se levar pela imaginação. Ela era agora
uma linda gaivota, voando por sobre um oceano de águas azuis, um céu
límpido, e a brisa a acariciar suas penas alvíssimas. No horizonte
avistava-se uma pequena ilha. Sentia que era ali o seu destino. Lá
encontraria água fresca, muita paz, e uma família feliz à sua
espera. Trazia no bico alimento para seus filhotes. Num voo rasante,
seguiu firme e confiante, em direção ao seu ninho.
Despertou
do sonho quando percebeu que o carro estava parando. Novamente voltou
a preocupar-se. Quem era essa pessoa que a trouxera até ali? O que
ele pretendia? Apesar das indagações, não estava com medo. Ao
contrário, sentia-se segura, mais tranquila, e mais confiante.
Experimentou um pouco de paz no coração. Proporcionalmente à
velocidade do veículo, sua angustia foi se dissipando, restando
apenas alguns poucos soluços espaçados. Naquele momento sentiu o
abraço do seu companheiro de viagem. Sem resistir, docilmente
deixou-se aninhar no peito do desconhecido. O tempo parou. A quietude
do lugar, o perfume inebriante de rosas completou o cenário,
deixando-a entorpecida. Não fez ideia do tempo transcorrido. Não
sabia se era sonho ou realidade. Apenas não queria acordar. Queria
permanecer ali, eternamente, esquecida do mundo, embalando seu
rebento, e sendo embalada.
Acordou
estremecida ao ouvir uma voz, grave e suave ao mesmo tempo,
dizendo-lhe:
–
Não se preocupe. Tudo se resolverá.
Você nunca esteve, nem nunca estará só. Eu
estarei sempre por perto, protegendo você
e a criança.
As
últimas lágrimas de Ritinha, não mais de desespero, mas agora de
uma imensa gratidão,
brotaram dos seus olhos, e salpicaram o peito largo daquele então
desconhecido.
Ritinha,
ainda envolvida por aquele momento mágico, nada questionou. Mais
calma, mais tranquila, olhou pela primeira vez o seu “salvador”.
Era um homem bonito, pele clara, traços finos, cabelos loiros,
aparentando seus trinta
anos. Seus olhos azuis
transmitiam muita ternura, segurança e paz àquela jovem tão
carente de carinho e afeto, principalmente naquele momento de total
desamparo em que se encontrava. Olhou em volta e, de imediato, não
percebeu onde estavam. Apesar da iluminação, viu apenas que o
veículo estava estacionado em uma praça
muito bonita. Agradavelmente
iluminada e bem cuidada, tinha um extenso gramado com árvores
frondosas, muitas flores e bancos acolhedores. A chuva havia cessado.
Respirou profundamente, e sentiu aquele aroma adocicado penetrando em
seus pulmões, arrancando todo aquele resquício de angústia e
temores. O frescor da brisa noturna foi como um bálsamo
tranquilizante. Deixou-a com a alma renovada, pronta para vencer mais
uma noite de tormenta, pois há muito não sabia o que era ter um
sono reparador. Mas, aquela noite seria diferente. Gabriel, o seu
“salvador”, embalaria o seu sono, povoando seus pensamentos,
levando-a a um fantástico mundo desconhecido.
–
Ritinha, Ritinha – era a voz aflita
da vizinha – você está bem?
Já
eram quase duas horas da
manhã, quando a vizinha a encontrou, toda encolhida no batente da
porta, enrolada em seu casaco marrom.
Ritinha
levantou-se assustada, atordoada, sem saber onde estava, e o que
estava acontecendo. Acalmou-se quando reconheceu a vizinha, e
percebeu que estava na porta da sua casa.
No
dia seguinte, ao acordar, Ritinha deparou-se com a realidade nua e
crua. Estava de volta à sua humilde casa, no seu quarto improvisado.
Era um apêndice da sala, separado apenas por uma meia parede, feita
de compensado fino. Tinha um beliche, algumas prateleiras presas na
parede, protegidas por uma cortina de plástico rosa, desbotada, onde
guardava algumas poucas peças de roupa e objetos pessoais. Dividia o
quarto com Marquinhos, seu meio irmão de apenas seis anos, que
dormia na parte de baixo do beliche.
Levantou-se,
mirou-se no pequeno espelho, e viu uma menina moça, pele morena,
traços delicados, cabelos castanhos ondulados, corpo esguio, magro,
de estatura mediana. Mesmo sem os devidos tratos, por falta de
recursos, ainda assim era uma jovem bonita, no frescor dos seus
dezessete anos. Afastou-se um pouco mais do espelho, posicionou-se de
lado, mirou o ventre, e constatou que sua gestação ainda era
imperceptível. Quantos meses mais ainda poderia esconder.
Provavelmente não concluiria o terceiro ano. Abandonaria os estudos
antes de findar o ano letivo. Não suportaria os olhares, e as
línguas maledicentes. Antes disso, estaria longe, muito longe. Mas,
para onde iria?
Estremeceu
ao lembrar-se do episódio do dia anterior. No momento do desespero
quis jogar-se da ponte, na tentativa de libertar-se de tudo.
–
Meu DEUS, não me castigue –
murmurou. Jurou solenemente à Mãe Maria Santíssima que jamais
pensaria fazer aquela loucura novamente. Aquilo foi um pensamento
insano, não dela, mas do maligno que se se aproveitou do seu momento
de fraqueza. O amor que sentia por aquela criaturinha que carregava
no ventre já era muito grande. Seria capaz de dar sua própria vida
por ela.
–
Como seria? – pensou. Se fosse
menina pareceria com ela. Mas, se fosse menino, certamente teria os
cabelos e os olhos de Beto. Também não precisava parecer tanto com
o pai. Alguns traços que lembrasse a mãe seriam bem-vindo.
–
Será que DEUS irá me castigar? –
se perguntou Ritinha. Não, não iria. ELE não negaria um pedido de
sua Mãe Maria Santíssima. Compreendeu e já a perdoou. Mas, a
Helena ELE não perdoou. Porque Helena foi muito má. Ali foi caso
pensado. Mas, bem que Helena poderia ser castigada de outra forma.
Ricardinho era tão doce! Depois de tanto tempo, ao lembrar, Ritinha
sentiu um nó na garganta, e os olhos marejar.
Ricardinho
era coleguinha de Marquinhos. Estudavam na mesma creche escola. Às
vezes Helena se atrasava e, enquanto ela não chegava para pegá-lo,
Ritinha ficava brincando com os dois amiguinhos até a chegada da
mãe. A amizade entre os três foi se estreitando cada vez mais. Qual
não foi o choque quando souberam do falecimento de Ricardinho. Tinha
acabado de completar quatro anos quando foi acometido de um febrão.
Os médicos fizeram de tudo, os pais não mediram esforços, mas não
houve jeito de salvá-lo.
Helena
apaixonou-se perdidamente por um rapaz. Apesar da sua beleza, não
conseguiu despertar nele os mesmos sentimentos que ela nutria por
ele. Ela fazia de tudo para não perdê-lo. O tempo foi passando,
ficaram noivos, mas, como era de se esperar, o rapaz terminou o
compromisso. Helena inconformada pediu que ele reconsiderasse.
Tentaram mais uma ou duas vezes, mas no final acabou não dando
certo. Quando percebeu que o rapaz estava decidido a casar-se com
outra, Helena aproveitou-se de uma dessas tentativas de recomeço, e
providenciou uma gravidez. O pobre moço ficou numa encruzilhada:
abandonar o prematuro ou a felicidade eminente? O que poderia fazer?
Decidiu assumir a criança, e casar-se com a outra. Helena entrou em
desespero. Disse-lhe que se não podia tê-lo, também não queria a
criança. Transtornada, Helena começou a pôr em prática sua
ameaça. Era chá disso, daquilo, querosene, remédios fortíssimos,
e nada de abortamento. Tomava tudo que lhe ensinavam para interromper
a gravidez. O feto que seria um aliado transformou-se num estorvo.
Era um fardo a mais em sua vida, e não estava em seus planos
carregá-lo sozinha. Mimada, acostumada a ter tudo que queria, Helena
não suportava a ideia de assumir aquela responsabilidade. Uma
criança em sua vida seria um verdadeiro transtorno. As suplicas do
seu ex-noivo foram em vão. Pelo contrário, incentivavam-na a
continuar usando o inocente como moeda de troca naquela acirrada
chantagem emocional. Vencido, mais uma vez o pobre moço abriu mão
da sua felicidade para salvar aquela criaturinha inocente e indefesa.
E assim, finalmente, Helena conseguiu realizar o tão almejado
casamento.
Como
se um Manto Celestial cobrisse aquele cenário, ao contrário do
esperado, uma paz infinita começou a reinar sobre aquele casal. O
nobre rapaz, boníssimo, de uma elevada evolução moral e ética,
perdoou Helena. Helena passou uma borracha no passado e, como num
conto de fadas, deram início a uma vida nova. Depois de confirmado o
sexo, começaram os preparativos para a chegada do rebento. Não
mediam esforços. Toda entusiasmada, Helena preparou um quarto
decorado com muito bom gosto, enxoval completo, álbum de fotografia,
e tudo o mais.
Finalmente,
chega o tão esperado e grande dia. Helena já havia providenciado
tudo. Internação em um dos melhores hospitais da cidade,
contratação de um médico renomado, data e hora para realização
do parto cesariano. Nada de parto normal porque ela não suportava
sentir dores, muito menos estragar seu lindo corpo. Nada de
amamentação. Certamente providenciaria uma ama ou recorreria a um
banco de leite materno. O movimento era intenso. Havia um grande
número de entra e sai de amigos e parentes no quarto da parturiente.
O ambiente cheirava a um misto de éter com perfume importado. Os
presentes não paravam de chegar. Helena, em clima de festa, foi
levada para o centro cirúrgico. Durante todo o tempo em que ela
estava em trabalho de parto, o rapaz, futuro pai, permaneceu na
capela do hospital, contrito em suas orações. Pedia pelo seu filho,
que estava chegando, e por Helena. Que nada de mal acontecesse a
ambos. Que o parto transcorresse sem maiores consequências. Que ela
aceitasse a missão sublime de ser mãe, desempenhando
o seu papel com esmero
e dedicação. Que
fosse paciente,
compreensiva, e desse
ao filho muito amor e carinho.
Após
o término dos trabalhos de parto, sem maiores complicações, Helena
foi reconduzida ao seu quarto para o repouso pós-cirúrgico. A
criança, como de praxe na época, após o asseio, foi levada para o
berçário. O rapaz, agora pai, depois de agradecer sinceramente ao
PAI, dirigiu-se ao berçário. Ao chegar ao janelão de vidro, foi
tomado repentinamente de uma grande emoção. Inexplicavelmente
começou a sentir a sensação de uma imensa saudade. Olhou para
dentro do berçário, ainda com aquele aperto no coração, e pensou:
como identificar entre tantos recém-nascidos quem eu procuro? Era
cerca de uma dezena, quase todos bastante semelhantes. Seria uma
missão praticamente impossível. Pensou em pedir auxílio a uma
enfermeira, mas não havia ninguém no berçário. Pensou em
desistir, mas aquela sensação, aquele aperto no coração ficou
ainda mais forte. Foi aí que seus olhos se cruzaram. Era uma
criaturazinha, cujo berço estava próximo ao janelão de vidro,
porém na lateral, um pouco escondido. Não foi um simples olhar.
Naquele momento teve a certeza de que era ele, o seu filho. Era um
par de olhos azuis que, em frações de segundos, disseram-lhe tantas
coisas que ele não teve dúvida. Disse-lhe
o quanto estava agradecido por tê-lo salvo, da imensa alegria de
tê-lo reencontrado, e da grande responsabilidade que teriam
doravante. Cumprir a missão,
com êxito, de pai e filho, unificando e harmonizando a família. O
pai, parceiro, amigo de vidas passadas, não entendeu nada. Apenas
foi tomado por uma grande emoção, enquanto duas lágrimas quentes
rolaram em suas faces.
Era
uma criança linda, meiga e carinhosa. Loiro com os olhos azuis, ele
parecia um anjinho. Herdou a beleza da mãe. A cumplicidade entre ele
e o pai era explicita, e isso incomodava por demais a Helena que,
como os demais, há muito já havia se rendido aos encantos de
Ricardinho. Helena era muito possessiva. Tinha ciúmes de todos que
se aproximavam do seu filho. Até mesmo de Ritinha, apesar da sua
gratidão pelo carinho e cuidados a ele dispensados.
Era
um dia normal, como outro qualquer. O pai, ao sair pela manhã para
mais uma jornada de trabalho, percebeu que Ricardinho despediu-se
dele, com a mesma meiguice de sempre, mas de uma forma mais demorada,
mais especial. O pai sentiu um aperto no coração, como se aquela
despedida fosse mais longa. Achou que era fruto de sua imaginação,
e procurou extirpar aquele pensamento da sua mente. Com o passar das
horas, a angustia aumentava. O pai não via a hora de retornar ao lar
para sentir novamente seu coração encher-se de alegria, ao ver
Ricardinho sorrindo, correndo para abraçá-lo. Foi absorto naqueles
pensamentos que recebeu o comunicado de Helena. Aflita, informava ao
telefone que estava com Ricardinho no Hospital. Deslocou-se
imediatamente para lá. Ao chegar, foi informado que Ricardinho
começou a sentir febre na escola. Deram-lhe um antitérmico, e
deixaram-no repousando, em observação. Ao perceberem que, após
todas as providências tomadas, não houve sinal de melhora,
levaram-no imediatamente para o hospital. Apesar do empenho e
dedicação da competente equipe médica, o quadro clínico
continuava o mesmo. Já era tarde da noite, e Helena, não suportando
ver o filhinho naquele estado, inerte sobre a cama de um hospital,
afastou-se do quarto. O pai, de cabeça baixa e olhos cerrados,
continuou orando, confiante, junto ao leito de Ricardinho,
segurando-lhe a mãozinha, na esperança de uma melhora a qualquer
momento. Em resposta, sentiu seus dedos sendo levemente pressionados.
Ergueu a cabeça, abriu os olhos e, mais uma vez, comunicaram-se
apenas com o olhar. Em segundos, novamente tiveram uma longa
conversa. Não era impressão. Aquele abraço matinal realmente foi
uma despedida. Sentiam-se entristecidos pela separação, mas
agraciados e jubilosos pelo êxito da missão. Caberia agora a
Helena, através da dor, resgatar e aprender a lição. Ao pai,
naquele momento a liberdade cerceada
lhe
estava sendo devolvida.
Seu compromisso como pai havia sido concluído. O elo carnal estava
sendo rompido. E foi-se.
Qual
não foi o desespero de Helena, quando soube da lastimável perda. No
íntimo, sabia que era apenas o começo da colheita de tudo aquilo
que havia plantado. Ainda assim, insistia em não aceitar, não
enxergar. Como a maioria de nós, seres humanos, apontamos o argueiro
nos olhos alheios, mas não enxergamos a trava em nossos próprios
olhos. Preferimos encobertar nossas falhas acusando as faltas
alheias. Tentamos a todo custo sufocar o grito que vem de dentro das
nossas entranhas, clamando, implorando para fazermos a coisa certa.
As batalhas diárias são ferozes, mas para induzir-nos ao erro,
temos fortes aliados como o orgulho, a vaidade e o egoísmo. De tanto
afirmarmos as inverdades, passamos a acreditar piamente nelas como
sendo verdadeiras. Helena, no ápice de sua dor, começou a bradar
para os quatro cantos do mundo:
–
Meu DEUS, o que eu fiz para merecer
tamanho castigo?
Naquela
noite, Beto havia sido muito duro. Ritinha sabia que ele não
aceitaria, de imediato, aquela nova situação, mas não imaginou que
ele teria aquela reação. Descontrolou-se. Ficou indignado.
Classificou-a de imatura e irresponsável. Se ela decidiu sozinha,
que assumisse as consequências. Ele já tinha problemas de sobra.
Agora era cada um por si.
Beto
tinha toda a razão de ficar bravo. O combinado era aguardar o
momento certo e, com cautela, matando um leão a cada dia venceriam
todos os obstáculos. Tinham que ter muita paciência e esperar. Era
pedir com fé e acreditar que as oportunidades iriam surgindo. Mas,
na ótica de Ritinha, Beto era cauteloso demais, precisava às vezes
de um empurrão. Não foi assim a compra da moto, o seu sonho? Alguém
lhe ofereceu uma moto seminova,
a marca e modelo que ele almejava. Vermelha,
linda. Bastaria que ele pagasse um valor como entrada, e assumisse as
prestações restantes. Precisava também de um avalista. Beto tinha
o valor da entrada, podia assumir o pagamento das prestações
restantes, mas não tinha o avalista. O patrão ofereceu-se como
avalista, mas, ainda assim, ele ficou relutante. E se ele adoecesse e
não pudesse mais trabalhar? E se o patrão o demitisse? –
argumentou. Um caso de doença pode acontecer com qualquer um,
argumentou Ritinha. Mas,
ter um patrão como o seu, é uma grande benção. E concluiu –
caso o patrão tivesse a mínima intenção de demiti-lo iria
desencorajá-lo a comprar a moto, seria o lógico.
Tantos
planos… talvez ele não a amasse o suficiente ou, como ele havia
dito, achava-a imatura, não acreditava que ela seria capaz de
arregaçar as mangas, e enfrentar as dificuldades que,
certamente, não seriam poucas.
Juntos, teriam força para vencer todos os desafios. Unidos seriam
mais fortes, seriam uma equipe. Mas, Beto não abria mão dos seus
planos de passar em um concurso, e conseguir um bom emprego.
Prevalecia a base plantada por Dona Zefa, sua mãe. Ritinha, sem
nenhuma perspectiva, os dias passando e, cada vez mais, tornando-se
difícil a permanência naquela casa. Às vezes dava vontade de sumir
no mundo, desaparecer. Marquinhos era o único elo que a prendia
àquela vida miserável. Quanto tempo mais suportaria? Quanto tempo
mais para acontecer uma tragédia. Quem iria protegê-la?
Sentiu-se
tão só, tão desamparada. Instintivamente acariciou seu ventre, e
murmurou baixinho.
–
Não liga não. Ele falou aquilo tudo
porque ficou desesperado. Mas nós te amamos muito, viu. Tudo vai
ficar bem. Gabriel…
Que
tonta que ela era. Não pediu a Gabriel um telefone, endereço, nada.
Como ele iria encontrá-la? Há, mas ele só falou aquilo para
tranquilizá-la. Era o mínimo que poderia fazer naquela situação.
Porque ele protegeria
a ela e a criança? Talvez fosse mais um oportunista querendo se
aproveitar da situação. Não, não poderia ser. No fundo, Ritinha
sentia que ele era especial. Aquele momento mágico que passou ao seu
lado foi surreal. Queria tanto que Beto fosse como Gabriel,
tranquilo, firme, decidido. Como ela se sentiu segura, confiante ao
lado dele. Mas, agora já tem dúvida se foi real ou foi apenas um
sonho, um devaneio. Como fumaça, todo o encanto se desfez, e a
tristeza voltou a imperar naqueles lindos olhos castanhos.
Marquinhos
já havia acordado, e fitava-a com seus olhinhos negros, que mais
pareciam duas quixabas. Ritinha sentou-se ao seu lado, no beliche,
puxou-o em sua direção, e deu um longo abraço apertado,
acompanhado de muitos beijos. Era assim, todas as manhãs, desde
quando ele era pequenino. Dava-lhe banho, servia-lhe as refeições,
levava-o à escola, ajudava-o nas tarefas escolares e, quando
adoecia, medicava-o. Quase todas as noites ela o colocava na cama,
rezava e contava-lhe histórias. Considerava-o como filho. Ela era a
verdadeira mãe de Marquinhos.
–Vou
te contar um segredo – disse-lhe Ritinha – mas você tem que
guardar, e muito bem guardado. Jura?
–
Juro – disse Marquinhos, ao tempo
em que beijava em cruz os dedinhos roliços.
–
Você vai ganhar um irmãozinho ou
uma irmãzinha.
–
Verdade? – falou-lhe Marquinhos com
os olhos arregalados, cheio de entusiasmo.
–
Verdade – repetiu Ritinha com os
olhos marejados, temerosa dos dias difíceis que estavam por vir.
Marquinhos
era uma criança muito prematura e esperta. Percebeu a angústia de
Ritinha. Procurou consolá-la, dizendo que logo, logo, estaria grande
e forte. Teria um bom emprego, ganharia muito dinheiro, compraria uma
casa com um quintal bem grande, onde morariam os três. O irmãozinho
teria um quarto só para ele, cheio de brinquedos. Ritinha sorriu,
abraçou-o agradecendo, e disse-lhe:
–
Já estamos atrasados. Temos muito
que fazer antes de te levar pra escola.
A
tarde estava findando quando Ritinha retornou para casa. Passara
parte do dia cuidando de Larissa, uma das crianças que ela costumava
tomar conta. Era um dos trabalhos que fazia para conseguir algum
dinheiro. Há muito deixara de mandar currículo. Perdera a esperança
de conseguir algum emprego “decente”, ou seja, com carteira
assinada, e tudo o mais. O último que tentou foi a vaga para
auxiliar de escritório, indicação de um frequentador do
restaurante onde a mãe é cozinheira. Mal havia começado a
entrevista, o futuro patrão foi logo passando a mão pelas suas
pernas. Eram inúmeras as propostas libidinosas recebidas. Talvez se
tivesse nascido homem, ou fosse feia, enxergassem além do seu
rostinho bonito, o seu verdadeiro potencial,
sua garra,
seu interesse em aprender, e conquistar um
lugar ao sol. Vencer através dos seus méritos, e não apenas pelos
seus lindos olhos.
Esforçou-se
para voltar cedo, na esperança de Beto aparecer. Pediu a Deus que Zé
do Ouro, o companheiro da mãe, ainda não tivesse chegado.
Desamarrou da cintura o velho casaco marrom, desbotado, vestiu-o,
puxou, repuxou, tentando enfiar
dentro dele todo o seu corpo
encolhido e assustado. Entrou rapidamente em casa, e trancou-se no
quarto. Olhar fixo no vazio, a mente tentando fugir da realidade e a
razão, buscando apenas uma resposta. O que fazer se Beto não vier?
Será
que Beto não imagina o inferno que é a sua vida – pensou Ritinha.
Uma mãe que não demonstra um pingo de amor por ela. Para a mãe,
Ritinha não passava de uma sombra dentro de casa. Talvez tenha
providenciado a gravidez no intuito de conseguir alguma ajuda
financeira do pai. Deu com os burros n’agua. O pai de Ritinha sumiu
no mundo sem dar a menor satisfação, e jamais deu algum sinal de
vida. Parece que esperou somente até o seu nascimento. É possível
que se ele tivesse ido antes, a mãe teria feito um aborto para
livrar-se do fardo. Quem sabe se ele esperasse mais um pouco, teria
se afeiçoado a ela, não iria embora, seria um pai amoroso, e a mãe
não seria uma pessoa tão amarga e revoltada. Talvez fosse até um
pouco mais carinhosa com ela. Melhor não. Melhor assim. Melhor ele
ter ido. Se o pai foi embora é porque não é um bom pai. Um pai de
verdade jamais abandonaria um filho, ainda mais um recém-nascido.
Seria uma decepção bem maior se estivesse hoje
se sentindo
ignorada
pela mãe e pelo pai. Melhor
pensar que ele teve
seus motivos para ir
embora. Talvez pela ranhetice da mãe. E que sente muito pelo que
fez, que sente vontade de vir conhecer a
filha que abandonou, mas não
pode mais voltar atrás. Agora está casado, com uma nova família
constituída. Seria uma atitude muito arriscada, pois, além de poder
ser rejeitado pelo abandonado, correria o risco de desestruturar sua
nova família. Mas Ritinha jamais o rejeitaria. Muito pelo contrário.
O maior presente que sua Mãe Maria Santíssima poderia ofertá-la
seria um único encontro, apenas um, com seu pai. Hoje, não mais.
Mas ha alguns anos atrás, sonhara muitas e muitas vezes com um homem
alto, moreno, cabelos e olhos castanhos, simpático e muito elegante.
Ele chegava a sua casa, e procurava pela mãe. Ritinha, ansiosa por
saber quem seria, o que ele queria com a mãe, respondia prontamente
que a mãe estava no trabalho. Ele então, com uma voz suave, amiga,
perguntava-lhe como se chamava, e se tinha algum parentesco com a
mãe. Ritinha, cheia de orgulho, respondia-lhe que se chamava Maria
Rita da Silva, que tinha seis anos, e era filha dela. O homem, com os
olhos marejados, cheios de ternura, balbuciava então que ela era
filha dele, que ele era seu pai. Ritinha surpresa, olhando aquele
homem enorme, ajoelhado diante dela, com lágrimas nos olhos, quase
que incrédula, pedia confirmação sobre o que ele acabava de dizer,
se ele realmente era o seu pai. O homem, emocionadíssimo, reafirmava
que era o pai dela, e tinha vindo buscá-la. Ritinha, em prantos, se
deixava envolver por aquele abraço fraterno. Por um longo tempo, ela
permanecia desfrutando daquele abraço tão caloroso e aconchegante.
Mas, invariavelmente, ela acordava no meio da noite, chorando
baixinho, abraçada ao travesseiro. Na realidade, Ritinha
não sabe sequer o nome do pai, e nunca viu uma foto dele. O pouco
que sabe a respeito do episódio foi narrado pela mãe, debaixo de
vários impropérios. Para completar, aparece esse pesadelo chamado
Zé do Ouro.
Como
Ritinha gostaria de ter um pai e uma mãe de verdade. Sente inveja de
Beto. Pelo pouco que sabe, ele sim, tem uma família de verdade. Seus
pais o amam, e se preocupam muito com ele. Toda a família gosta
muito de Beto. Até o compadre e a comadre gostam muito dele. E olhe
que não são nem parentes. Mas o consideram como um filho.
As
pessoas se sensibilizam quando vêm um jovem batalhador. Não medem
esforços para ajudá-lo. Uma jovem mãe, séria, cumpridora dos seus
deveres, que se impõe, dificilmente recebe uma cantada. Muito pelo
contrário, recebe muita ajuda, apoio e solidariedade. Ao contrário
do que imaginamos, para nossa felicidade, as pessoas boas são em
muito maior número. Elas fazem a boa ação, mas preferem ficar no
anonimato. Esse era o pensamento de Ritinha. Esse rebento iria
uni-los ainda mais, dar forças para vencer os desafios que não
seriam poucos. Unidos teriam mais forças e, aos poucos, venceriam
todos os obstáculos. Maria e José tinham pouco ou quase nada. Seu
filho nasceu num estábulo, em uma manjedoura. Mas,
tinham união e muito amor,
puro e verdadeiro. E isso foi
o bastante para proteger Jesus
da tirania de Erodes.
Antes de morar com a mãe, Zé do
Ouro vendia joias. Metido a conquistador, andava bem-vestido, e
gabava-se das mulheres que se rendiam a seus pés. Era considerado um
bom partido, disputado entre o mulherio da redondeza. Quando caiu em
desgraça, ou seja, ficou falido, perdeu o status de majestade, e foi
parar no rol dos esquecidos. Segundo sua versão, foi roubado e
perdeu tudo, mas dizem que na verdade foi a jogatina que o levou à
falência. A mãe sempre soube, mas faz vista grossa. Nunca tem, e
está sempre pedindo algum dinheiro a ela.
Ritinha
tinha pouco mais de dez anos quando o viu em casa pela primeira vez.
Na época, já era meio barrigudo, braços peludos, alguns fiapos de
cabelos lisos sobre a cabeça grande, e um olhar meio estranho.
Falido, sem ter onde morar, a mãe era sua salvação. Foi se
chegando de mansinho, todo cordial, até que a mãe o aceitou.
–
Ritinha, venha conhecer Zé do Ouro –
falou a mãe meio ríspida.
–
Ele vai morar aqui com a gente –
sentenciou.
A
princípio era apenas o olhar meio estranho. Com o passar do tempo,
Ritinha percebeu que havia maledicência naquele olhar de Zé do
Ouro. Por mais de uma vez Ritinha tentou alertar a mãe, mas ela
retrucava dizendo-lhe que era apenas fruto da sua imaginação. Não
existia nada daquilo. Era fantasia de menina cheia de coisas na
cabeça. Era só cobrir as vergonhas e pronto, estava tudo resolvido.
E deu a Ritinha o casaco marrom, doação de alguma alma caridosa.
Na
primeira vez que ele, Zé do Ouro, embriagado, tentou agarrar
Ritinha, ela saiu numa desabalada carreira, e foi parar na Pensão de
Dona Romilda, quase vizinha.
Estatura
mediana,
roliça, olhos vivos, depravada, mas tinha um coração de ouro. Essa
era Dona Romilda. Foi dona de Bordel, e contam que fechou seu
“comércio” porque matou um homem. Na ocasião, ela tinha
conhecimento com pessoas influentes, fazia “favores” a políticos
importantes, e o caso foi abafado. Ela gostava muito de Ritinha. Não
tanto quanto seu gato, mas gostava. Dona Romilda conheceu muitos do
tipo Zé do Ouro. Pedia sempre a Deus que nada de mal acontecesse a
Ritinha porque ela sabia, não tinha dúvidas que mandaria aquele
infeliz pros quintos dos infernos. Daquele dia em diante, Dona
Romilda passou a ter atenção redobrada. Quando acontecia de Zé do
Ouro passar chumbado, ela ficava na espreita. Aguardava Ritinha
passar, vindo da escola, chamava-a por um pretexto qualquer, dava-lhe
alguma tarefa, servia-lhe o almoço, e só a liberava quando a mãe
passava.
Ritinha
gostava muito de Dona Romilda. Mesmo com o jeitão meio grosseiro,
dava-lhe carinho e atenção, coisas que não existia em sua casa.
Com o passar do tempo, Ritinha foi se habituando à rotina da pensão,
conquistando, e sendo conquistada pelos seus hóspedes. Até o gato,
arisco, que só aceitava o colo de Dona Romilda, se afeiçoou a ela.
Dona Romilda tinha verdadeira paixão pelo seu gato, e não fazia
segredos. O gato tinha mais mordomias do que Raul, seu velho
companheiro desde os tempos do Bordel. Ficava admirada e satisfeita,
vendo seu gato de estimação sendo alimentado e acariciado por
Ritinha.
Na
pensão, o gato era o “rei”. Na parte mais baixa do teto, no
fundo da sala de refeições, havia uma mesa propositalmente
colocada, sem cadeiras, para nenhum hóspede sentar-se. Sobre essa
mesa havia uma cadeira. Nesse ponto do telhado havia um buraco. Arte
de Dona Romilda para facilitar a subida do gato para o telhado.
Afinal ele era macho, e precisava namorar, dizia ela cheia de
orgulho. O gato comia seu filé, passado na manteiga, descansava um
pouco, depois subia na mesa, pulava para a cadeira e, passando pelo
buraco, ganhava o telhado, e ia ao encontro das gatas. Esse
malabarismo do gato era um verdadeiro espetáculo, apreciado pelos
hóspedes.
Outro
espetáculo na pensão, digno de nota, era quando surgia, entre os
seus frequentadores, discussões sobre política, principalmente
quando o assunto era regime capitalista versos regime socialista.
Aquilo soava como música para os ouvidos de Raul. Não perdia a
oportunidade de mostrar seus conhecimentos sobre as teorias
marxistas.
Quase que
imediatamente, aparecia na sala com suas preciosidades nas mãos.
Eram livros ensebados, com aspecto de terem sido bastante manuseados.
Cartilhas do regime socialista. Raul era meio gago e, quando se
emocionava, evidenciava
ainda mais sua gagueira. Aparecia na sala, empunhando suas
preciosidades, acariciando a capa de algum dos mais prediletos
exemplares, com a mesma reverência e carinho que um pastor afaga sua
bíblia.
–
Poooorqe Max… – começava ele com
seu discurso.
Antes
mesmo de concluir a primeira frase, sua fala era drasticamente
interrompida. Com uma colher de pau na mão, ou algo similar, surgia
da cozinha, nada menos que Dona Romilda, já esbravejando.
–
Ai daí seu corno, cafetão
discarado. Tu nunca soube o que é trabalho, nunca bateu um prego
numa barra de sabão e vem com essas baboseira. Chispa
daqui e deixa meus hóspidis
em paz.
O
pobre do Raul enfiava os livros debaixo do braço, dava meia volta,
e, rapidamente, desaparecia da sala. Aqui e acolá, viam-se cabeças
baixas suprimindo risos.
Trancada
em seu quarto, deitada no beliche de Marquinhos, os olhos vidrados,
olhando para o infinito, Ritinha relembrava uma das ameaças da mãe.
–
Se tu me aparece aqui prenha, te boto
no olho da rua. Já tem muito peso morto aqui vivendo do meu suor.
–
É, essa menina tá meio estranha
mesmo. Aí tem coisa – arrematava Zé do Ouro.
Zé
do Ouro não tomava a carapuça para si, ou fingia que não era com
ele. Achava Ritinha que aquele estrupício estava mesmo era
preparando terreno para, caso conseguisse seu intento, jogar a culpa
em alguém. Imagine se ele sonha que ela não era mais virgem, e
ainda por cima que estava grávida. Ritinha estremeceu só em pensar.
Precisava
tanto de Beto, de seu apoio, sua compreensão e confiança. Já
estava anoitecendo, e ele ainda não havia dado sinal. Beto passava
na moto, dava um toque diferenciado na buzina, e ia esperá-la na
esquina. Era o código.
Recusava-se
a acreditar que ele iria abandoná-la, depois de tanto tempo de
convivência, tantos planos, tantas promessas, tantas juras…
Quase
dois anos mais velho que ela, Beto também tinha suas dificuldades.
Veio do interior para continuar os estudos, graças à benevolência
do
compadre que cedeu um quartinho nos fundos de sua residência.
Ainda
lembra como se fosse ontem. Ele, todo tímido, começou a
aproximar-se dela. Estudavam no mesmo colégio, na mesma série,
porém em salas diferentes. A princípio, ela não deu bolas. Achava
até que ele era um daqueles repetentes, mimados e inconsequentes,
que tudo tinha, e não reconhecia os esforços dos pais. Depois é
que soube o verdadeiro motivo do seu atraso escolar. Por falta de
recursos para manter-se na metrópole foi forçado a parar seus
estudos. No interior, onde morava, tinha apenas uma professora que
lecionava do primeiro ao quinto ano.
Desde cedo, a mãe sonhava com um
futuro brilhante para Beto. Preparava-o para alçar voo. Seu destino
era longe daquele lugar. Moravam modestamente em uma propriedade
rural próxima do vilarejo. Como a maioria dos sitiantes, sobreviviam
de pequenas plantações, e a cria de alguns animais. Quando DEUS
ajudava e tinham uma boa colheita, sobrava algum dinheiro, mas
normalmente conseguiam apenas o necessário para as despesas básicas.
Beto ia a pé, todos os dias, estudar na vila. Depois de algum tempo,
seus pais conseguiram juntar algum dinheiro, e comparam uma bicicleta
usada para ele. Já havia concluído o primário, e agora precisava
continuar os estudos na metrópole, mas como?
Na
opinião de Seu Jairo, o pai de Beto, bastava aprender a ler e fazer
conta. O resto era perda de tempo. Pelo seu gosto, Beto devia era
aprender a domar potro. Ganharia bastante dinheiro. Pelas redondezas
não havia um bom domador. Quem tinha seu potro de raça era obrigado
a levá-lo para longe, a fim de ser adestrado. Beto poderia até
aprender outras profissões, inclusive menos arriscadas, e também
seria bem remunerado. Mas, na verdade, aquilo era uma tentativa do
pai, visando puxar para fora a masculinidade do rapaz. Seu Jairo
tinha medo de admitir, mas, no fundo, no fundo, achava o filho meio
afeminado. Naquela idade, ele, o pai, já tinha até sido acometido
de doença venérea, adquirida no puteiro. Queria ver o filho ralando
os joelhos em uma pelada, voltando tarde para casa, vindo de algum
coco, cansado de dançar, alcoolizado, cambaleando, falando alto,
para ele poder dar uma reprimenda, dar-lhe um banho frio, jogá-lo na
cama, e depois, sem se conter de orgulho, tranquilizar a mãe
dizendo-lhe: não foi nada, é coisa de homem. Mas o filho só
gostava mesmo era de estudar. Terminava as tarefas do dia, e depois
se enfiava no quarto. Não sabia para que tanto estudo. A culpa era
da mãe, enchendo de coisas a cabeça do menino.
A
mãe, Dona Zefa, pensava diferente. Queria algo muito melhor para o
filho. A princípio pensou no Clero. Seria um seminarista e, quem
sabe, se DEUS ajudasse, poderia chegar a ser um Bispo ou talvez um
Cardeal. Contava-lhe as histórias de Marcelinho Pão e Vinho, menino
tão puro que nunca havia olhado para seu pinto. Manipulá-lo então,
jamais. Por amor e obediência à mãe, Beto até tentou, mas era
muito difícil. A tentação era grande. Depois que experimentou o
gozo da masturbação, e a relação com sua cabra de estimação,
sentiu-se muito mais distante, indigno dessa santíssima casta. Mas a
sua professora não estava no rol dessas tentações. Muito pelo
contrário, era um anjo. Foi amor à primeira vista, desde o primeiro
dia de aula. O pior de tudo era aquela deferência que ela tinha por
ele. Menino dócil, estudioso, dizia ela. Ele até evitava tirar
alguma dúvida com ela. Imediatamente aproximava-se dele, com muita
boa vontade, carinho e atenção, impregnando o ar com aquele cheiro
suave de sabonete que o deixava descontrolado. Não podia
decepcioná-la de forma alguma. Enfiava a cara nos estudos, única
maneira de ter aquele tratamento diferenciado, de tê-la mais
próximo.
Com
o passar do tempo, foi percebendo o quanto ela era importante para
ele, principalmente naquele começo, ajudando-o a desvendar o véu do
saber. Não, não poderia perdê-la de forma alguma. Guardava aqueles
sentimentos reprimidos a sete chaves. Como falar para a mãe que não
poderia ser um seminarista. Não poderia abraçar o Clero com aquele
amor impossível a dilacerar-lhe
o coração. Era grande o amor que nutria pela mãe. Era serviente,
respeitoso e obediente. Mas
o celibato era inacessível, praticamente impossível. Seria um
sacrifício muito grande para ele.
A
mãe, percebendo o perfil de Beto, cada vez mais distante do
pontificado, trocou o clero pelo funcionalismo público. Um Agente
Federal, um Promotor ou talvez um Juiz. Orava todos os dias para
Santa Rita das Causas Impossíveis. Pedia-lhe que não desprezasse
seu novo pedido. Não era tão nobre quanto o Clero, mas eram também
profissões dignas. De que adiantaria realizar seus desejos, agradar
à Santa, e ver o filho querido tão infeliz. Foi com grande alívio
que Beto recebeu a mudança de planos da mãe. Passou a comungar
também esse novo sonho, mas como realizá-lo? Estava muito longe de
sua realidade.
Já
era noite. Beto acabara de jantar, e estava deitado em seu quarto,
relembrando, com muita saudade, a última conversa que tivera com sua
professora. Era hora de ir continuar seus estudos na metrópole,
disse-lhe ela. Não tinha mais nada para ensiná-lo. Sabia das
dificuldades que uma família de camponeses enfrentaria para manter
um filho estudando em uma cidade grande, mas não podiam perder a fé.
Ela colocava-se à disposição para ajudá-los nesse difícil
desafio. Ofertou-lhe alguns livros para que ele não parasse o avanço
nos estudos, enquanto aguardava a oportunidade chegar. Beto não sabe
como conseguiu forças para suportar aquela separação. A professora
o tinha como sua cria. Com os olhos rasos d’água, abraçou-o como
se fosse pela última vez, sem saber se algum dia o veria novamente,
com ou sem seus sonhos realizados. Naquele momento, o ímpeto de Beto
foi tomá-la em seus braços, beijar-lhe os olhos, as faces, a boca,
e falar-lhe daquele sentimento forte, reprimido durante tanto tempo.
Prendê-la num abraço forte, e não a deixar nunca mais. Limitou-se
apenas a retribuir-lhe o abraço e, timidamente, com uma voz trêmula,
sumida, agradecê-la por tudo que fez e continuava fazendo por ele.
Voltou para casa com o coração dilacerado. Passou alguns dias sem
dormir e sem se alimentar direito, mas conseguiu superar. Por muitas
vezes ensaiou desculpas para ir vê-la, apenas mais uma vez. Não.
Seria um desastre. Por mais que ensaiasse, no fundo sabia que o
fracasso seria iminente. E, além do mais, serviria apenas para
acender ainda mais a chama daquele amor impossível. Voltava
então a devorar os livros que
lhes fora ofertado, na ânsia de preencher aquele vazio, na esperança
de, entre suas páginas, sentir novamente aquele cheiro suave de
sabonete, de banho fresco.
Era
duro admitir, mas o pai tinha razão. Seu Jairo era contra essas
ideias da mãe. Condenava-a por incutir esses sonhos fantasiosos
em sua cabeça, mas Dona Zefa
era assim. Era tinhosa, persistente e determinada. Quando
encasquetava com alguma coisa, não havia meios para fazê-la mudar
de opinião.
Beto
já não tinha mais esperança. Seria um desalento para a mãe, mas
não podia mais esperar. Estava prestes a completar dezesseis
primaveras, e estava na hora de acordar para a realidade, esquecer os
sonhos impossíveis e, como dizia o pai, botar os pés no chão.
Estava decidido, amanhã mesmo conversaria com o pai e, pé na
estrada.
Os
pensamentos de Beto foram interrompidos com a chegada dos compadres.
O casal recém-chegado era vizinho de sítio, velhos amigos de longas
datas. Os pais de Beto tinham muita consideração pelo casal, e
vice-versa. Bem que podiam ser padrinhos de Beto, mas eram apenas
compadres de fogueira. Apenas, não. Dona Zefa dizia que uma das
coisas mais sagradas era compadre de fogueira.
Os
compadres chegaram com uma grande novidade. A sua filha, casada e,
por sinal, bem-casada, morava na metrópole, e estava grávida. Os
compadres, felizes com a notícia, foram visitá-la. O genro, que
sempre teve muito carinho pelos sogros, ficou felicíssimo com a
visita. Depois de alimentados e restabelecidos da viagem, o genro
aproveitou e puxou o assunto. Falou-lhes que até já havia
conversado com a esposa sobre a preocupação que tinha com os
sogros, já com idades avançadas, continuarem vivendo no interior, e
sozinhos. Com amigos, é bem verdade, mas sem parentes próximos.
Agora que ele estava financeiramente bem, e que a esposa estava
grávida, era chegado o momento de providenciarem uma casa para os
sogros na metrópole. A filha necessitava desse apoio, desse suporte,
principalmente nesse
final da gestação, e após o nascimento da criança. Os sogros
apresentaram mil e um argumento para não aceitar, mas, finalmente,
foram vencidos. O genro os consideravam como seus pais e, para ele,
uma recusa seria uma desfeita muito grande. Quanto ao sítio,
combinaram que não deveria ser vendido. Inicialmente arrendariam
porque, caso os sogros não se adaptassem à nova moradia, poderiam
retornar ao sítio. Esses últimos argumentos quebraram
definitivamente toda e qualquer resistência, deixando os compadres
sem alternativa. Tiveram que aceitar. Qual não foi a surpresa de
Dona Zefa, quando os compadres confessaram que outro motivo havia
contribuído muito na decisão de aceitarem a proposta do genro.
Agora, com uma moradia na metrópole, poderiam levar o Beto para
morar com eles. E assim, finalmente, Beto poder continuar os seus tão
almejados estudos. Beto ficou estupefato,
sem saber o que dizer. Dona Zefa, chorando de alegria, murmurou
baixinho – obrigada minha Santa Rita das Causas Impossíveis. Seu
Jairo, mais sensato, ponderou que não seria justo os compadres
arcarem com esse peso. Afinal, era mais uma boca. Beto, já refeito
da surpresa, contra argumentou que poderia conciliar
os estudos com um trabalho de meio turno para
poder ajudar nas despesas. Posteriormente, passaria a estudar à
noite, e trabalharia tempo integral. Sempre que possível, também
mandaria uma ajuda para os pais, uma maneira de compensar a sua
ausência na labuta das tarefas diárias do sítio. Precisaria apenas
que o pai confiasse. Durante o seu período de adaptação, enquanto
se ambientava e providenciava um emprego, necessitaria que o pai
arcasse com o apoio financeiro necessário. Aos compadres, caberia
ter um pouco de paciência durante essa fase inicial. Seu Jaime e o
Compadre ficaram surpresos com a fala de Beto. Outro dia era um
menino, agora é
um homem assumindo compromissos, chamando para si toda uma
responsabilidade, sereno e confiante. Seu Jairo comprometeu-se a
desfazer de alguma cria para arcar com as primeiras despesas, ajudar
aos compadres na intermediação do arrendamento das terras, e outras
providências que fossem necessárias. Pouco tempo depois da partida
dos compadres, Beto, com os olhos rasos d’água, e o coração
transbordando de alegria, partiu
em busca dos seus sonhos. Fé, esperança e muita determinação,
herdadas de Dona Zefa, acompanhada da coragem e o destemor de Seu
Jairo eram as características marcantes na personalidade de Beto.
Levava
em sua bagagem, além de uma sacola com os poucos livros e algumas
mudas de roupa, um antigo
rádio da marca Mullard, presente de Seu Jairo, para espantar a
solidão.
Cortez
e gentil, Beto foi se aproximando de Ritinha, fazendo-a esquecer
aquela rejeição inicial. Alto, magro, pele clara, cabelos loiros,
ondulados, e olhos esverdeados, formavam um conjunto interessante,
uma figura agradável. Aos poucos, foram descobrindo muita coisa em
comum e, cada vez mais se afeiçoando.
Ambos
tímidos, poucos amigos, parcos recursos, focados nos estudos,
buscando um lugar ao sol. Cupido, esperando uma oportunidade, sem a
menor chance de conseguir êxito.
A
todo o momento, sem pedir licença, aqueles
olhos castanhos invadiam sua mente. Beto já não conseguia
controlar. Às vezes implorando carinho, outras vezes proteção, mas
eram sempre aqueles olhos castanhos.
–
Não, não vou mais encontrá-la.
Isso está ficando meio sem controle – pensava Beto. Nada de
namoro. A prioridade são os estudos. Não posso decepcionar Dona
Zefa. Mas, quando tocava a sirene anunciando o intervalo, não
resistia e acabava indo para o final do corredor, próximo à
cantina, ponto de encontro dos dois. Aquele sorriso tímido era um
alento. Uma trégua para seu conflito interior. Será que ela sentia
o mesmo que ele sente por ela? Não sabia ao certo qual a razão: a
promessa, o pacto com Dona Zefa ou a timidez? O fato é que batia uma
insegurança, e aí ele pensava: – não, é muito arriscado. Não
posso perdê-la. E o que farei sem esse sorriso tímido, sem esse
olhar misterioso? Ela está apenas sendo gentil comigo. Quer somente
a minha amizade. Como eu, sente-se deslocada. E se eu me declarar e
ela aceitar, como fica o compromisso firmado com Dona Zefa? E o meu
futuro?
–
O que será que ele quer de mim? –
pensava Ritinha. Será que o que sinto é amor, ou apenas a falta de
um ombro amigo? O que ele sente por mim? Se sente algo, nunca
demonstrou. Vou dar um tempo. Vou evitar encontrá-lo, e ver o que
acontece. Eram muitas perguntas sem resposta. – Não – pensou
ela. Ele não merece ser magoado. Eu sinto que seus olhos tristes se
alegram com minha presença. E se ele ficar magoado, e não quiser
mais me ver? Talvez seja timidez, ou incerteza dos seus sentimentos
para comigo. Ou ele apenas sente-se só, deslocado, e quer apenas
minha amizade. É tudo muito novo para mim. Sinto
que sua companhia me faz bem. Ela
está sendo um estímulo para
eu continuar lutando, tentando mudar essa minha vida miserável.
Um
belo dia, um amigo de Beto convidou-o para sua festa de formatura do
terceiro ano. No primeiro momento Beto pensou imediatamente em
Ritinha. Era uma oportunidade que não
poderia deixar passar. No
primeiro intervalo, coração batendo descompassado, transbordando de
felicidade, esperou Ritinha, como das outras vezes, no
ponto de encontro próximo à
cantina. – Ela não aceitará o convite – pensou Beto. É
possível até que ache algo frívolo, fora do foco dos nossos
estudos. É o que também Dona Zefa diria. Ou talvez alguém já a
tenha convidado. Melhor esquecer essa festa, agradecer a Ângelo pelo
convite, e focar nos estudos – finalizou Beto. Não só Dona Zefa,
mas também Ritinha ficarão felizes com essa decisão.
Ao
encontrar Ritinha, sem maiores
preâmbulos, antes que perdesse a coragem, de chofre, num único
fôlego, falou-lhe da festa, e convidou-a para ser seu par. Estava
certo de que o convite seria aceito, acompanhado de um largo sorriso,
demonstrando toda a felicidade do mundo estampada em seu rosto, mas a
reação de Ritinha não foi a esperada. Beto sentiu um aperto no
coração. Estava ele equivocado? Ritinha não nutria nenhum
sentimento por ele? Não, não podia ser. Será que tudo era fruto da
sua imaginação? A ausência da família, morando numa cidade
grande, onde malmente as pessoas se cumprimentam por mera
formalidade, é preciso aprender a conviver com a solidão. Beto,
perdido nesse imenso deserto, viu em Ritinha um oásis, um porto
seguro onde conseguiria renovar suas energias para prosseguir sua
caminhada. Sim, tudo isso é possível, mas, para Beto, neste caso,
estava muito claro. Aquilo era castigo da Santa Rita das Causas
Impossíveis. Ele não poderia ter esquecido as promessas que havia
feito à Santa, por intermédio de sua mãe. Nada de namoro. Tinha
que dedicar-se somente aos estudos. Todo o tempo vago seria dedicado
às apostilas preparatórias para concurso, mas Ritinha era
diferente. Não era nenhuma daquelas garotas mimadas, muito menos
sirigaita. Pelo contrário, comungavam os mesmos ideais. Ela entendia
e apoiava Beto na sua batalha, no seu projeto. Também era
batalhadora e responsável. Não custava nada à Santa reconsiderar.
A princípio Dona Zefa iria recriminar, mas quando conhecesse
Ritinha, certamente mudaria de opinião. Agora nada mais importa.
Ritinha havia respondido com um sim que estava mais para um talvez,
ou não. Lembrou-se da sua primeira paixão, a professora do
primário, e seu cheiro suave de sabonete. Por onde andaria? Não
teve coragem de revê-la, de despedir-se. E se ele tivesse lhe
revelado o seu amor? Não. Poderia ter estragado tudo. Melhor assim.
Guardaria para sempre essas lembranças. O toque de suas mãos
delicadas segurando as suas, ensinando-lhe a desenhar as primeiras
letras. Aqueles lindos olhos rasos d'água na despedida… Talvez
fosse melhor ter seguido o caminho do clero. A essa altura, estaria
enclausurado
em algum mosteiro, longe dessas tentações, livre dessas decepções
que tanto machucavam seu peito, e dilaceravam seu coração. Beto não
entendia certas coisas que Seu Jairo dizia. Apesar da sua pouca
escolaridade, Seu Jairo é um verdadeiro filósofo. Desde muito cedo,
começou a viver uma vida dura, e continua até hoje. Dizia ele que
“a vida é feita de alegrias e tristezas, vitórias e derrotas,
sonhos e decepções”. Esses acontecimentos nos ferem por dentro.
Muitos deles partem o coração. O tempo vem e cura. Como legado,
resta-nos apenas um velho coração com pequenas marcas e inúmeras
cicatrizes. Uma verdadeira colcha de retalhos que devemos guardar
como um valioso troféu. As águas de um rio se renovam a cada curva,
cada corredeira e, para sua completa oxigenação, nada melhor que
uma cachoeira. É o pulsar do coração que marca o compasso da vida,
traçando uma linha sinuosa de altos e baixos, mapeando nossa
caminhada. A vida é música, é movimento, é a antítese
da inércia. Quem nunca
teve um amor oculto, um amor não correspondido, um sonho, juras
secretas de amor, uma grande paixão, ainda tem muito para viver.
O
coração de Ritinha bateu descompassado ao ouvir o convite de Beto.
Achava até que ele
não havia percebido seus sentimentos. Mas agora, quando viu o brilho
nos seus olhos, teve a certeza de que era correspondida. A felicidade
foi tamanha que teve o ímpeto de abraçá-lo e beijá-lo, ali mesmo,
no corredor do colégio. – Contenha-se Ritinha – disse para si
mesma. O que Beto iria pensar? Que ela era uma daquelas
assanhadinhas, oferecidas. Imediatamente, Ritinha se recompôs e
voltou à realidade. Como aceitar o convite? A mãe jamais a deixaria
ir a uma festa sozinha, com um colega de colégio que ela sequer
conhecia. Não, não poderia aceitar, depois dar uma desculpa
qualquer, e não ir. Também não poderia dizer não. Seria uma
grande decepção para Beto. Aquela situação constrangedora foi
salva pelo ecoar da campainha, anunciando o
término do intervalo, adiando
o final do colóquio. Retornaram às suas respectivas salas de aula
com os corações apertados, incertos do que viria a acontecer no
próximo ato.
O
quartinho dos fundos, cedidos pelos compadres, era o refúgio de
Beto. Uma janelinha que se abria para o pequeno quintal, uma antiga
cama de solteiro encostada em uma das paredes. Na outra, um espelho
manchado, um
calendário
de borracharia com a foto de uma loira sorridente, nua. Com uma das
mãos cobria o sexo, e a outra, parte dos seios. Em um canto, um
pequeno
guarda-roupa de duas portas e, ao lado, duas
prateleiras improvisadas. Na prateleira de cima estavam alguns
livros, lembranças da professorinha, seu primeiro amor, e as
apostilas. A de baixo era sua mesa de estudos, onde ficava também o
antigo
rádio a válvula, presente de seu pai. Acoplado ao rádio, estava o
toca discos, de segunda mão, primeiro bem adquirido com seu próprio
salário.
Como
um autômato,
deitado em seu quartinho, Beto tentava digerir os últimos
acontecimentos, mas estava muito difícil suportar a dor e a angustia
que sufocava seu peito. Em tão pouco tempo de existência, já era a
segunda dor, o segundo golpe forte que dilaceravam seu coração.
Pensou nas lições filosóficas de Seu Jairo. Seu coração estava
partido. Agora o novo
sangramento se juntara à
velha cicatriz que reabrira. Restava saber se suportaria esperar que
o tempo lhe curasse as feridas. Esse novo amor era real, acessível,
palpável, viável, estava sendo um bálsamo, ajudando-o a esquecer
aquele primeiro amor. Por que ela, Ritinha, deixou-o acreditar,
deu-lhe esperanças, e agora…? Ou será que foi apenas uma fantasia
imaginada por ele. É, foi isso, apenas uma fantasia imaginada por
ele. Melhor pensar assim. Não será fácil, mas conseguirá superar.
– Vamos Beto – pensou–, levante-se e lute. O caminho é árduo
quando se almeja vencer na vida, obtendo sucesso, e realizando nossos
sonhos. Levantou-se, colocou um compacto simples de vinil no
toca-discos e, como um autômato, voltou a deitar-se. Com os olhos
úmidos, vidrados, olhando para o nada, ouviu os primeiros acordes:
“Você não soube amar, amar, amar, você não soube amar. O seu
amor meu bem, não passa de ilusão, e que sente a dor é o meu
coração…” e adormeceu.
Mas
afinal, o que é vencer na vida? Conquistar um império, morar em
Ipanema e comprar um corcel 73, como musicou Raul Seixas, ou
simplesmente viver em paz, com muito amor no coração, sozinho, ou
ao lado da pessoa amada, sem se importar onde e como?
Respeitosamente,
peço licença ao leitor para, juntos, fazermos uma reflexão. Nossos
pensamentos e ideias mudam de acordo com o passar do tempo, e a
experiência adquirida. Nas primeiras décadas de nossa existência,
acreditamos que vencer na vida é, certamente, conquistar um império
ou, no mínimo, “morar em Ipanema e comprar um corcel 73”, dentro
de um prazo razoável. Para sermos considerados um vencedor, não
podemos chegar à terceira década de existência sem conseguir, pelo
menos um bom emprego, uma casa, um carro, e uma esposa leal, honesta,
com condições físicas perfeitas, gozando de boa saúde para
procriar. É de suma importância, a existência de um varão, para
dar continuidade ao pequeno ou grande império conquistado. Setenta
décadas depois, na busca de uma paz perdida, trocaremos, não só o
corcel 73, mas todo o império adquirido, por uma vida simples, ao
lado de Maria ou Stela, morando em
“… uma casa de campo onde
eu possa ficar do tamanho da paz…”, como diz a canção, erguida
na beira de um córrego,
rodeada de animais e plantas, bebendo água de pote em caneca de
alumínio. Aconchegados numa rede, abraçados, acariciando-se, os
dedos dos pés entrelaçados, sentindo o calor dos corpos
contrastando com a brisa da noite, apreciando a lua, ouvindo apenas
as batidas dos corações em harmonia com a paz reinante, muito amor,
e os pensamentos povoados de belas recordações. Nesse momento, um
avião passa a quarenta
mil
pés de altura,
deixando seu rastro
de fumaça iluminado pela luz prateada da lua, e imaginamos quantos
seres viajantes daquele aparelho, ansiosos, tentando alcançar a tão
almejada felicidade, passeando pelo mundo, comendo sanduíches
apressados para cumprir os horários de exaustivas excursões,
fotografando tudo, tirando selfies com aqueles sorrisos congelados,
tentando imitar propagandas de dentifrícios, desejosos de retornar
logo da viagem para mostrar tudo aos parentes e amigos, acompanhado
da seguinte mensagem, gravada nas entrelinhas: vejam como sou feliz.
Quantos outros, viajantes das alturas, imaginam a vida dos pobres
infelizes, sobrevivendo de forma precária, num lastimável
desconforto, em uma casa
erguida na beira de um córrego qualquer, rodeada de bichos e mato,
sem jamais ter a oportunidade de saborear o prazer de conseguir
ganhar o seu primeiro milhão de dólares.
Ritinha
levou dias criando coragem, e buscando uma maneira para pedir
consentimento à mãe. Iria à festa com quem? Seria a primeira
pergunta. Precisava achar logo uma solução. Não estava mais
suportando aquela situação com Beto. Evitavam até mesmo de se
encontrarem para não tocar no assunto. Mas aí soube que uma vizinha
iria à festa. Ritinha, um pouco temerosa, procurou-a e expôs sua
delicada situação. A vizinha, não só aceitou como concordou em
ser a alcoviteira dos pombinhos.
–
É bom mesmo que vá – disse a mãe.
Quem sabe tu toma jeito de gente, e melhora essa cara de bicho do
mato.
–
Não achou que seria tão fácil –
pensou Ritinha. Agora estava mais aliviada. A mãe até apoiou! Mas
seu contentamento durou pouco, porque a mãe concluiu.
–
Agora quero saber com que roupa tu
vai. Com esses teus vestidinhos tu vai passar vergonha, e eu não
tenho dinheiro pra gastar com roupa pra festa.
Beto
também não tinha roupa adequada, mas não era difícil providenciar
uma calça e uma camisa social. O problema maior era Ritinha. Mesmo
que eles juntassem seus parcos recursos e comprassem um vestido no
crediário, como explicar à mãe? Ficaria para outra ocasião. Deus
sabe quando, e se haveria outra oportunidade de ouro como aquela.
A
mãe havia deixado, mas, sem roupa, Ritinha não poderia ir à festa.
Que adiantaria falar com Beto? Precisava falar-lhe, mas o que dizer?
Tocar no assunto iria magoá-lo ainda mais. Ritinha preferiu
continuar esperando por um milagre.
O
dia da festa já estava bem próximo quando a mãe chegou do trabalho
com um vestido que sua patroa a havia ofertado. Não servia mais para
sua filha, mas certamente serviria para Ritinha, dissera-lhe a
patroa. O vestido era branco, longo, rodado, de musseline
com detalhes em renda e forro de seda, lindo. O coração de Ritinha
quase salta pela boca, tamanha foi a sua felicidade. Com os olhos
marejados acariciou o vestido e pensou – meu vestido de festa.
Sentiu-se a Cinderela da estória. Faltava-lhe agora apenas o
sapatinho de cristal. Uma vizinha fez alguns ajustes no vestido,
outra conseguiu um sapato emprestado e, finalmente, tudo pronto para
a grande noite.
Beto
buscou no trabalho e nos estudos uma maneira de fugir da realidade,
tornando suas dores mais tênues
e mais amenas. Não sabia ele o quanto Ritinha também estava
sofrendo com aquela situação. A campainha soou anunciando o
primeiro intervalo do dia. Beto relutou em sair da sala. Certamente
Ritinha não estaria aguardando por ele no local costumeiro. Melhor
ficar, e rever alguns assuntos da aula passada. Mesmo assim, resolveu
sair, tomar um pouco de ar, beber um copo d'água, e retornar à sua
sala de aula. Mas qual não foi a sua surpresa ao ver Ritinha,
sorridente, aguardando por ele no lugar de sempre. Depois de
esclarecido os verdadeiros motivos causadores de tantas tristezas e
dissabores, Beto segurou, discretamente, uma das mãos trêmulas de
Ritinha e, com os olhos marejados disse-lhe, com a voz emocionada –
que bom que você vai comigo pra festa. O tempo parou por alguns
instantes, enquanto os dois, ali, olhos nos olhos, num cantinho do
corredor do colégio, ficaram discretamente acariciando-se pelas
mãos.
Beto
e Ritinha faziam contagem regressiva, ansiosos para que chegasse logo
o dia da festa. Sonhavam imaginando como seria. – Será que ele
iria beijá-la? – pensava Ritinha. Certamente que sim. Seria seu
primeiro beijo. Será que iria decepcioná-lo? Não, não poderia
fazer feio. Treinara várias vezes no braço. É, mas no braço é
bem diferente. E se ele debochasse da sua inexperiência? Se ele
realmente a ama, jamais caçoaria dela. Estava decidido. Seria
autêntica e verdadeira. Nada de aparentar o que não é. –Tem que
gostar de mim como sou – pensou Ritinha.
No
interior, aprende-se a dançar logo cedo. Mas nada além do forró pé
de serra, o xote e a gafieira. Era o que Beto sabia. Ao contrário do
que Seu Jairo imaginava, Beto não tinha nada de afeminado. Apenas
era discreto. Evitava provocar
discórdias entre os pais, e trazer-lhes preocupações. Vez por
outra comparecia a um coco, bebia moderadamente, ensaiava uns passos
de dança com as meninas disponíveis, e chegou até a dar uns
amassos na Gerusa. Mas nada sério. Se soubesse dos temores de Seu
Jairo, certamente teria sido menos comedido, e cuidadoso.
Uma
festa de formandos é totalmente diferente de um “rala bucho” lá
do interior. A começar pelo requinte, os trajes e, principalmente
as músicas que seriam outras. Precisava urgentemente tomar umas
aulas. Lembrou-se de Ângelo, o amigo formando. De
certo que o ensinaria com todo
o prazer, e muita satisfação, disse-lhe o amigo. Numa tarde de
sábado, o disco rolando na vitrola, e os dois amigos ensaiando,
dançando no pequeno quarto de Beto. Os pés descalços, a música e
a dança transportaram Ângelo no tempo. Estava revivendo a noite em
que conheceu Simone.
Conheceram-se
num bar, em um encontro desses casuais. Uma dessas peças pregadas
pelo destino. Era um dia de domingo, e já passava das vinte horas.
Ângelo, pensando nas tarefas a elaborar na segunda-feira, decidira
voltar cedo para casa. Dirigindo sua Rural Willis,
vermelha e branca, mergulhado em seus pensamentos, foi despertado por
uma espécie de chamamento. Percebeu que estava passando em frente a
um bar, recém-inaugurado, com música ao vivo. Relutou, mas resolveu
parar, dizendo para si mesmo que seria uma parada rápida, apenas
para conhecer. Gostando, certamente retornaria outro dia. Mas ao
entrar, deparou com um par de olhos verdes que fez gelar seu coração.
Ângelo, de imediato, rendeu-se àquele olhar. Um misto de candura e
inocência. Era uma
jovem, cabelos loiros, cacheados, que estava sentada sozinha em uma
mesa, olhou-o com um leve sorriso, dando a impressão que estava ali,
apenas aguardando sua chegada. Ângelo aproximou-se, pediu permissão,
e sentou-se ao seu lado. O novo ambiente, ainda não badalado, estava
quase vazio. Nesse momento, alguns poucos casais dançavam na pista,
ao ritmo de uma bela música suave. Ângelo, empolgado, convidou-a
para dançar. Ela, gentilmente recusou, alegando que não sabia
dançar, e não gostaria de machucar os pés do seu par. Ângelo
sugeriu então que ambos dançassem descalços. Assim, um
não machucaria os
pés do outro, porque
ele também não sabia dançar. Dizendo-lhe isso, tratou de retirar
seus calçados e, delicadamente, puxou-a para dançar. Rodopiando no
salão, embalados pela música, sentiram-se muito íntimos como
se fossem dois velhos conhecidos.
Aproveitaram o intervalo para retornar à mesa. Outra jovem
sorridente já os aguardava e, antes que os dançarinos se
acomodasse, confessou que estava curiosa em conhecer o herói que
havia conseguido conduzir Simone até a pista de dança. Simone e
Ângelo sorriram para a amiga e, em seguida, Ângelo argumentou: –
nada em especial, apenas um pouco de sorte. Num piscar de olhos, as
horas se passaram. Quando perceberam, já estava na hora de ir.
Ângelo ofereceu-se para levá-las até em
casa. Na despedida, combinaram
um novo encontro para o dia seguinte.
O
dia seguinte foi longo. As horas se arrastaram. Ângelo não via o
momento de reencontrar Simone. Antes da hora marcada, já estava ele
tocando a campainha da casa da amiga, onde Simone estava hospedada.
Quem atendeu foi a amiga de Simone. Saiu, cerrou a porta, e
convidou-o a sentar-se na balaustrada da varanda. Pediu desculpas por
estar se intrometendo, mas explicou que, por gostar muito de Simone,
tomava a liberdade de esclarecer alguns fatos. Simone era uma jovem
muito especial. Havia terminado de concluir o terceiro ano e esta era
a primeira viagem de férias que realizava sozinha. Os pais de Simone
a haviam confiado, com mil e uma recomendação. Apesar de não ser
mais uma adolescente, Simone nunca teve namorado, e não tinha
nenhuma experiência com o mundo real, porque, durante toda a sua
formação, estudou em um colégio interno de freiras. Ela, Simone,
confessou-lhe que, pela primeira vez, havia se interessado por um
rapaz. Estava impressionada, vislumbrada por Ângelo. Por fim, a
amiga concluiu dizendo que Ângelo havia conseguido passar a ambas,
ela e Simone, uma boa impressão. Um jovem confiável, sério,
honesto e de caráter. Caso ele não tivesse a intenção de assumir
um compromisso sério com Simone, ela pedia, encarecidamente, que ele
não continuasse a vê-la porque, certamente, iria fazê-la sofrer.
Ângelo prontamente tranquilizou-a dizendo-lhe que, desde o primeiro
instante que a conheceu, percebeu que Simone era alguém muito
especial, que havia mexido profundamente com os seus sentimentos, e
que não tinha a menor intenção de separar-se dela.
O
coração de Ângelo bateu mais forte quando avistou Simone no limiar
da porta. Estava mais linda do que na noite anterior. Seus olhos
verde safira fitaram-no, translúcidos e transparentes, dizendo
tantas coisas e, ao mesmo tempo, carregado de mistério. Sob o
comando da brisa vespertina, os cabelos brilhantes acariciando sua
face, com
um sorriso ingênuo nos lábios, caminhou devagar em direção a
Ângelo. O corpo esbelto, com um andar elegante, natural, parou, e
disse com voz meiga – você veio! Ângelo, sem dizer nada,
simplesmente abraçou-a. Aquele perfume suave, a pele macia, e o
corpo trêmulo, tímido, retribuindo-lhe o abraço, transformaram
aqueles poucos minutos num longo tempo de intensa felicidade.
Permaneceram ali, imóveis, receosos de quebrar aquele momento
mágico, saboreando cada segundo como se fossem os únicos habitantes
do planeta. Acordou com a voz de Beto afastando-se dele, dizendo-lhe
– epa, epa rapá, tá me estranhando? Ângelo sorriu e
respondeu-lhe – nada disso cara, apenas estava sonhando com minha
Simone.
Finalmente
chegou o dia da festa. Beto, muito elegante, trajando blazer, camisa
de manga comprida branca e calça social, atravessou o salão em
direção à mesa do amigo Ângelo. Com passos relativamente lentos,
fazendo um tremendo esforço para não sair correndo, sem saber o que
fazer com os braços e as mãos, o trajeto de poucos metros
pareceu-lhe uma longa e penosa travessia. Os pés mais pareciam duas
bolas de chumbo. Um suor frio correu por sua espinha dorsal.
Sentindo-se como se todos o estivessem observando, foi
com grande alívio
que finalmente
chegou ao seu destino. Na gafieira, lá no Riacho da Mata, era
diferente. Todos se conheciam. Era tudo muito simples. Não tinha
essas coisas de trajes elegantes, etiquetas, e formalidades. Era
chegando e tomando logo uma dose para esquentar. Pegava-se a primeira
figura
disponível, e ia disputar um espaço no
salão. Ao chegar junto à
mesa do formando, foi recepcionado com um forte abraço e, mais uma
vez, Beto agradeceu ao amigo pelo convite. Em retribuição, o Ângelo
agradeceu-lhe pela presença e, em seguida, apresentou-o a seus pais,
aos irmãos, e à
encantadora Simone. Entabularam
uma conversa animada, os garçons começaram a servir drinques e
petiscos, enquanto
a música animada tomava
conta do ambiente. Beto continuava tenso e ansioso porque ainda não
havia visto Ritinha. O que aconteceu? –deveria ter ido buscá-la –
pensou. Mas Ritinha achou melhor não. Viria com as amigas vizinhas.
A mãe poderia mudar de ideia se soubesse da existência de Beto.
–
Ponha o livro na cabeça e não deixe cair – dizia uma das amigas.
Ombros pra trás, barriga pra dentro… não, não, não dobre o
joelho… mulher usando salto, e marchando igual a um soldado, nem
pensar. Melhor não usar. Pegando um livro menor, e colocando na mão
de Ritinha, acrescentou – não esqueça a carteira. É
um acessório importantíssimo. Sem
ela, o traje não está completo. Segure-a de forma natural.
–
Ah! Estou cansada – dizia Ritinha. – Nada de cansada – dizia a
outra amiga. O tempo está acabando. Mais uma vez…
Como
eram dedicadas e prestimosas as amigas de Ritinha. Como
aprenderam, como sabiam essas coisas?! Eram duas solteironas que
estavam muito felizes pela oportunidade de viverem a noite de
Cinderela da Ritinha. Seriam
suas fadas-madrinha. Para
elas, Ritinha era um desafio.
Seria uma verdadeira obra-prima. Seria a realização de seus sonhos
nunca concretizados.
Inicialmente,
haviam feito um curso de modelo, mas a idade foi chegando, e nada de
conseguirem alguma oportunidade. Essa é uma área bastante
concorrida, e depende muito de alguém influente. Mais precisamente
um padrinho para dar um empurrão. O tempo passou, passaram da idade,
mas permaneceu o sonho de trabalhar na área. Conseguiram um espaço,
e começaram a dar aula para jovens que pretendiam seguir a carreira
de modelo. Das poucas alunas que apareceram, nenhuma conseguiu
evoluir e se destacar. E o sonho acabou.
Beto
tentou disfarçar o mais que pode a sua ansiedade. Pensou em ir até
a entrada porque talvez ela estivesse com dificuldades para entrar,
mas desistiu. Certamente as amigas estavam com os convites, não era
o caso. O mais provável era o atraso peculiar das mulheres. Resolveu
acalmar-se e esperar. Os poucos minutos de espera foram uma
eternidade, mas valeu. Foi indescritível a felicidade que sentiu
quando avistou Ritinha entrando no recinto. Quase não a reconheceu.
Não era aquela adolescente de casaco marrom amarrado na cintura. Era
uma linda jovem, radiante, totalmente diferente, desfilando
garbosamente, segura, confiante, mas era ela mesma, a sua Ritinha.
Ritinha
estava deslumbrante. Um arremate nos cabelos, uma maquiagem suave,
discreta, para não ofuscar o frescor da juventude. Trajando
elegantemente seu vestido longo de musseline
branco, sapatos pretos, de salto alto, segurando discretamente uma
carteirinha de couro com detalhes prateados. Acompanhada de suas
fadas-madrinha, sentiu-se a verdadeira Cinderela dos contos de fada.
Aquela seria sua noite. Uma noite inesquecível. Seria sua viagem à
Disney,
todas as comemorações de
aniversário, e sua festa de debutante
que nunca tivera.
Quando
os olhos de Ritinha e Beto se cruzaram, cupido lançou mais uma
flecha, selando definitivamente aquela união. Abraçaram-se
timidamente. Ritinha apresentou Beto às amigas que, imediatamente
aprovaram o pretendente da protegida. Beto, por sua vez, agradeceu o
apoio e carinho das amigas, fundamental naquele início do
relacionamento. Em seguida, tomou Ritinha pelo braço, retornou à
mesa do seu anfitrião e, por sua vez, apresentou-a aos
convidados de Ângelo.
Beto
e Ritinha queriam aproveitar minuto a minuto aquela noite. Afinal,
esperaram muito. Tiverem que vencer inúmeros
obstáculos. Era um sonho que estava se realizando. De mãos dadas,
seguiram para a pista de dança. Olhos nos olhos, ao som da música,
o lindo casal saiu rodopiando pelo salão. Naquela noite, aqueles
corações enamorados, borbulhando de felicidade, tiveram uma trégua
em suas vidas nada fáceis. Por um momento, Ritinha esqueceu seus
medos, os dissabores, e a ausência de um verdadeiro lar. Desejou que
aquela noite perdurasse eternamente.
Ecoava
no recinto a voz do Rei Roberto Carlos, “O
que é que você tem? Conta pra mim, não quero ver você triste
assim. Não fique triste, o mundo é bom, a felicidade até existe…
Olhe, vamos sair…”, novamente de mãos dadas saíram para o
jardim.
–
Sou a
pessoa mais feliz do mundo, por estar aqui com você, a garota mais
linda e maravilhosa que conheci
– falou
Beto.
–
Não
exagera porque de repente vou acreditar – arrematou Ritinha
sorrindo, envaidecida com tantos elogios.
–
Mas é a
pura verdade – ratificou Beto. Em seguida, puxou-a suavemente para
si, afagou seus cabelos, acariciou seu rosto, e procurou seus lábios.
Sob
o manto das estrelas, trocaram o primeiro beijo.
Novamente,
tomo a liberdade de pedir licença ao leitor para, juntos, fazermos
uma viagem no tempo. Busquemos no sótão de nossas lembranças a
sensação do primeiro beijo. Algo indescritível e pessoal. Quando
os rostos se aproximam, nosso
organismo começa a liberar a dopamina, substância responsável pela
sensação de prazer e motivação. Quando os lábios se tocam,
mandam ao cérebro todo um dossiê de dados sobre umidade, pressão e
temperatura. Pernas trêmulas, boca seca,
ocasionada pela ansiedade,
e o coração
batendo descompassado, querendo saltar
pela boca. Depois o tempo para, e ficamos envolvidos por uma
sensação divina de plenitude e felicidade. Sentimos aquela
embriaguez, acompanhada de uma leveza, dando-nos a impressão que
estamos flutuando.
Ângelo
está cada vez mais apaixonado por Simone. Sente que também é
correspondido, mas existe alguma coisa que está segurando Simone.
Ele percebe que ela evita ficar a sós com ele, mas tem certeza que
não é falta de confiança. É como se ela temesse fraquejar, e
entregar-se antes do momento certo. Na verdade, ela ainda não se
sentia pronta. Tinha muitas dúvidas, tudo aquilo era novo para ela.
Simone, por mais de uma vez, pediu a Ângelo que entendesse e
respeitasse o seu tempo. Ângelo tentava entender, mas a realidade de
Simone era surreal. Na festa de formatura, Ângelo bebeu
moderadamente, e procurou seguir rigorosamente as recomendações da
amiga – tenha muito cuidado para não a assustar, sob pena de
perdê-la para sempre. Dançaram quase a noite inteira, trocaram
abraços, carícias, afagos, beijou-a na face, na testa, um ou dois
selinhos roubados furtivamente, e nada mais.
Como
de outras vezes, Ângelo e Simone estavam passeando no jardim,
próximo à
residência onde ela estava hospedada, quando ele puxou-a em direção
à sombra de
uma árvore, abraçou-a, e começou a afagar seus cabelos, acariciar
seu rosto, tentando criar um clima mais íntimo, quando ela
suavemente o afastou. Ângelo, sem entender, sem saber como proceder,
receoso de quebrar aquele cristal tão precioso, aguardou.
–
Você me ama, ou apenas me deseja? –
perguntou Simone.
Ângelo
percebeu o enorme esforço que ela havia feito para formular aquela
pergunta, e o motivo. O toque na pele macia, os cabelos sedosos, o
cheiro delicado, o corpo trêmulo deixou-o excitado. Ela percebeu ao
ser abraçada. Essas coisas corriqueiras, aparentemente normais, para
Simone era sempre algo novo. Ele não podia esquecer que ela era
especial.
–
Você é muito especial para mim –
respondeu Ângelo.
–
Eu te amo muito. Faço, e farei o
impossível, para estar com você sempre ao meu lado. Vibro quando
vejo a felicidade estampada em seu rosto. Não sei por que, mas são
raros esses momentos. É como se você não se permitisse ser feliz.
Quero muito te fazer feliz. Daria tudo para tê-la inteira nos meus
braços e nos entregarmos de corpo e alma. Esse, certamente, será o
dia mais feliz da minha vida.
Qualquer
mulher se sentiria envaidecida e orgulhosa de sentir-se amada e
desejada pelo seu pretenso futuro parceiro. Mas Simone tinha outro
pretendente secreto. O nome dele era Jesus Cristo. Isso fazia uma
grande diferença. Amava muito Ângelo, mas tinha receio de magoá-lo.
Ele era muito especial e não merecia isso. Foi o único homem que
conseguiu aproximar-se tanto dela, além do próprio pai. Naquele
momento, ela percebeu o abismo que existia entre eles. Que não
conseguiria, nem poderia se entregar a Ângelo de corpo e alma. Não
poderia viver intensamente, inteiramente, aquele amor tão lindo,
concebido na noite em que dançaram descalços. Por mais que Ângelo
protelasse, cedo ou tarde ela teria que compartilhar, além desse
sentimento lindo, puro e sublime, também o seu corpo. Cristo queria
dela apenas amor, muito amor e dedicação. Seu corpo seria apenas o
instrumento de trabalho, indispensável, usado em prol dos projetos
sociais. O desejo carnal era muito forte, mas precisava resistir.
Pedia forças à Maria Imaculada Conceição, todos os dias, para
impedi-la de fraquejar. Não, não poderia continuar essa situação.
Tinha que parar, encerrar de vez, antes de envolvê-lo, e se
envolver, ainda mais. Como resolver isso. Ensaiava palavras por
palavras, mas quando via tanto amor nos olhos de Ângelo, o carinho,
o cuidado, faltava-lhe forças. Por outro lado, ELE calmo, tranquilo,
seguro, aguardava o final daquelas suas últimas férias, da sua
experiência extraconjugal. Sim, porque ela já era SUA legítima
esposa, mas ainda não sabia. Estava escrito que, em muito breve,
seria selada aquela união, e tudo estaria consumado.
Sentado
à mesa de uma lanchonete, tomando maquinalmente um suco de laranja,
Ângelo absorto, focalizava o outro lado da rua, especificamente a
casa onde Simone estava hospedada. Por um longo tempo, permaneceu
ali, os olhos marejados, uma dor incontida no peito, como se uma
espada estivesse atravessando o seu coração. Estava sofrendo a dor
daquela grande paixão, quando alguém, educadamente, aproximou-se e
disse-lhe.
–
Sei o quanto você está sofrendo.
Nesse momento, não temos muito o que falar. Só o tempo para aplacar
a dor, e cicatrizar as feridas. Nós não lembramos, mas geralmente
escolhemos nossas missões. Outras vezes, somos apenas um essencial e
fundamental instrumento para o êxito da missão de outrem. E, quanto
mais difícil, maior será nosso mérito.
Ângelo
ouviu tudo, não entendeu muito bem, mas, no estado em que se
encontrava, não teve animo sequer de indagar o nome do seu
interlocutor.
–
Como falei inicialmente – continuou
o recém-chegado – com o tempo, também você entenderá tudo isso
que lhe falei, e muito mais. Meu nome é Gabriel. Que DEUS, através
do seu Anjo de Guarda, continue iluminando seus caminhos. Despediu-se
e saiu.
Novamente
a sós, Ângelo abriu a carta de Simone pela enésima vez.
“Ângelo.
Antes de qualquer coisa, quero te dizer que está sendo a tarefa mais
difícil da minha vida. Por inúmeras vezes ensaiei te falar
pessoalmente, mas não encontrei forças. Peço-lhe perdão por
recorrer a esta carta, única maneira que encontrei para dizer-lhe
tudo que precisava ser dito. Ainda assim, perdi a conta de quantas
páginas foram parar no lixo.
Conhecê-lo,
foi uma das coisas mais maravilhosas que aconteceram em minha vida, e
não encontro palavras para descrever o quanto você é importante
para mim. Você transbordou meu coração de alegria e felicidade.
Minhas
férias acabaram, e preciso voltar para o interior. Não só minhas
férias, mas meu tempo de tomar decisões importantes, relativas ao
meu futuro, também acabou.
Gosto
muito de você, mas fui arrebatada por Jesus Cristo Nosso Senhor.
Senti todo o meu ser vibrar nesse chamamento. É muito mais forte que
eu. Não consigo alimentar esse sentimento de amor compartilhado sem
me sentir traindo. Está entranhado em meus princípios.
É
praticamente impossível eu sentir esse prazer carnal, livre,
descontraída, porque vem sempre acompanhado de um sentimento de
culpa. Sei que é difícil você compreender, mas quando realizo com
êxito uma tarefa, por mais simples que seja, e vejo como resultado a
mão DIVINA aplacando a dor e o sofrimento do meu semelhante, quando
vejo as crianças do nosso coral recebendo os merecidos aplausos e
elogios, eu sinto um prazer intenso, até mesmo uma espécie de
orgasmo. Eu sinto o alívio do sofrimento e da dor das pessoas. É a
certeza de contribuir para o surgimento de
melhores cidadãos nas
gerações
futuras. É sentir que, com
muito amor, estou dando a minha singela parcela de contribuição
para um mundo melhor. Tudo
isso se transforma em comburente, que faz vibrar todo o meu ser, que
me dá vida, me alegra, e me faz feliz.
Não
pense que eu queria apenas viver uma simples aventura de verão. Não.
Eu precisava ter certeza para tomar a decisão certa. Para isso,
precisava de alguém muito especial que mexesse comigo, que abalasse
minhas estruturas. Não poderia ser qualquer um. Você foi
fundamental. Paciente, compreensivo, amoroso e respeitoso. Sinto que
nosso encontro não foi por acaso. Você precisava fazer parte da
minha vida.
Foram
os poucos dias mais intensos e maravilhosos que vivi. Guardarei, com
todo o carinho, cada momento que passamos juntos.
Peço-lhe
que respeite e aceite minha decisão, e que me perdoe se te magoei.
Em
meu novo
batismo, usarei o nome
de Irmã Angélica,
uma maneira de levar um pouquinho de você para minha nova vida.
Que
DEUS, através de seu Anjo de Guarda, ilumine seus caminhos.
Um
abraço fraterno da futura Irmã Angélica.”
Ângelo
terminou de ler a carta mais uma vez, enquanto, proveniente de algum
aparelho sonoro, ouvia a voz do Rei Roberto Carlos.
“Eu
te proponho, nós nos amarmos, nos entregarmos.
Neste momento, tudo lá fora deixar
ficar.
Eu te proponho te dar meu corpo,
depois do amor o meu conforto.
E
além de tudo, depois de tudo, te dar a minha paz…”
Uma
lágrima quente rolou pelo seu
rosto jovem, caindo sobre o papel, deixando pelo caminho a marca de
uma grande paixão.
Absorta,
olhando para o vazio, Ritinha continuava imóvel, relembrando os
últimos acontecimentos. Estava evitando encontrar Dona Romilda
porque no primeiro olhar ela saberia tudo. Ritinha não teria como
esconder-lhe nada. Certamente ela, Dona Romilda, que não era de
meias palavras, diria simplesmente – Vai, desembucha, fala logo. E
ela, Ritinha, certamente diria tudo. E aí, dizer o que? Dizer que
todos os seus conselhos não valeram de nada, que se entregou ao
primeiro que apareceu?
Dona
Romilda sempre foi, e continuava sendo, a sua verdadeira mãe. Nos
momentos mais importantes de sua vida ela estava sempre presente.
Lembrou-se quando aconteceu a sua primeira menstruação. Ficou
aflita. Quem a socorreu? Dona Romilda. Ela com aquele jeitão, sem os
devidos polimentos, olhou pra Ritinha e, sem perguntar nada, ordenou.
–
Entra no meu banhero, tira a
calcinha, senta no vaso e me espera qui já volto.
Pouco
tempo depois, retornou com um pacote de absorvente e uma calcinha um
pouco maior que as medidas de Ritinha. Com seu linguajar peculiar
tranquilizou-a, explicando-lhe o que estava acontecendo, e ensinou-a
a usar o absorvente. Com dois broches ajustou provisoriamente a
calcinha, o absorvente e, finalmente, olhando bem nos olhos de
Ritinha, concluiu:
–
Agora você já é uma muié. Guarde
e proteja sua piriquita pro homi de sua vida. Quando ele aparecê
você vai sabê. Não vai na conversa de quarquer um. Homi é bicho
tinhoso.
Para
Dona Romilda, uma mulher que passa pela mão de vários homens é uma
mulher desvalorizada, é uma puta. Puta não é somente a mulher que
comercializa seu corpo. É também aquela que se entrega por prazer.
A que vende seu corpo, às vezes porque não tem outro meio para
sobreviver, como foi o caso dela, não é certo, mas é até
compreensível e tolerável. Mas uma mulher que se deita com qualquer
um apenas por prazer, é uma puta, uma rameira desqualificada. Isso
vale também para os homens. Para se divertir, o homem procura uma
puta profissional ou uma mulher desfrutável. Mas para casar, juntar
as escovas de dente, ele valoriza a mulher séria, honesta e
confiável.
Mas
Ritinha tinha certeza que Beto era o homem da sua vida. Será que ela
se enganou? Tanto tempo de convivência e, ainda assim, cometeu esse
tremendo erro? Não, seu coração não se enganaria tão facilmente.
O amor que nutriam um pelo outro era muito verdadeiro. Por mais de
uma vez ela viu nos olhos de Beto aquele sentimento de amor puro que
ele sentia por ela.
O
resultado de uma criança que aprendeu a viver sem a figura do pai, a
ausência e o desamor da mãe, será,
certamente, uma adolescente carente, insegura, que se agarrará à
primeira oportunidade que surgir
em sua vida. Essa carência exacerbada, fatalmente, confundirá e
turvará o raciocínio, prejudicando sua análise, favorecendo e
induzindo ao erro na escolha.
–
Homi é bicho tinhoso – Ritinha
ouvia a voz de Dona Romilda. Será que Beto me enganou esse tempo
todo? – Não, não posso acreditar – pensava Ritinha.
O
coração de Ritinha bateu apressado, quando ouviu o barulho da moto
e, em seguida, o toque diferenciado da buzina. Beto estava passando
pela sua rua, seguindo em direção ao ponto de encontro. Abriu a
porta do quarto e saiu apressada. Mal passou as mãos por sobre os
cabelos e seguiu em direção à esquina, o ponto do encontro. Como
seria essa conversa? Sabia como seria difícil convencê-lo a mudar
de ideia. E esse era o momento mais impróprio para tentar algo nesse
sentido. O que fazer então? Melhor seria escutá-lo. Se veio é
porque tem algo a dizer. Pediu a DEUS que lhes concedesse serenidade
e discernimento para ouvi-lo. Ao final, tentaria expor seus
argumentos. Começaria pelo perigo que o estrupício do Zé do Ouro
representava para ela. Mas aí ele teria o mesmo argumento da mãe: a
culpa era dela que ficava usando os tocos de saia, se exibindo para
ele. Ou pior ainda, tomar as dores dela e querer tirar satisfação
com o traste. Não. Melhor não falar.
É
difícil sobreviver numa selva, sem a existência de um abrigo, onde
se possa descansar protegido, recarregar suas energias, e enfrentar o
recomeço de um novo dia. Como ela gostaria de ter uma mãe como Dona
Zefa. Como seria bom ter uma mãe preocupada, zelosa, ouvir seus
conselhos, abraçá-la e ser abraçada, agasalhar-se no seu peito,
sorrir, chorar, desabafar, falar-lhe dos seus temores, e confidenciar
os seus sonhos. Mas, na realidade, ela era a mãe de Beto. E aí
surge outra preocupação. Como Dona Zefa a receberia? Afinal,
Ritinha estava interferindo no futuro do seu filho. Ela estava
motivando Beto a mudar completamente seu futuro. O compromisso, a
promessa assumida com a Santa. Mas Dona Zefa precisa entender que
ela, Ritinha, ama muito seu filho, e também quer muito a sua
felicidade. Dona Zefa deve conhecer o ditado que diz: “Quem ama meu
filho, a minha boca adoça”. E ainda tem o netinho ou netinha, que,
certamente, levará a eles muita alegria. Conquistará de vez os
corações de Seu Jairo e de Dona Zefa, fazendo-os esquecer os
compromissos, as promessas, e tudo o mais. Ritinha parou, acariciou o
ventre, olhou com tristeza para a esquina, há poucos metros, e
pensou – será que algum dia minha criança conhecerá Dona Zefa?
Após
o final do expediente, Beto seguiu maquinalmente ao encontro de
Ritinha. Protelou o quanto pode, mas sabia que não poderia deixar de
ir. O que dizer-lhe? Repetir tudo que ela já sabia? De que
adiantaria lembrar-lhe dos projetos, dos planos e metas, tão
amplamente discutidos e analisados? Tinha sido muito duro na noite
anterior, descontrolou-se e até ameaçou de abandoná-las, deixando
ela e a criança relegadas à própria sorte. Mas sabia que não
seria capaz. Ambos divergiam em alguns pontos, mas agora não cabia
mais tentar convencê-la. Tinham um problema que precisava ser
resolvido. Pediu a DEUS calma, tranquilidade, discernimento, e pensou
– se ela tomou essa decisão é porque pensou em como resolver.
Melhor então ouvi-la. Mas será que ela tem mesmo a solução?
Certamente que não.
Beto
ficou surpreso quando viu o estado em que se encontrava Ritinha. Os
cabelos desalinhados, enfiada no casaco marrom, com enormes olheiras,
e um olhar assustado. Como um filme, passou em sua mente a imagem
daquela menina de cabelos longos, olhos castanhos, que no instante em
que seus olhos se cruzaram seu coração começou a bater
descompassado. No dia da festa de formatura de Ângelo, aquela
colegial introvertida havia sido substituída por uma linda mulher,
segura de si, tão exuberante que qualquer homem se sentiria
envaidecido em tê-la em seus braços. Para ambos foi uma noite
inesquecível. Como num conto de fadas, viveram momentos mágicos que
ficaram gravados para sempre em suas memórias. Agora, diante dele,
estava uma mulher que ele não conhecia. Era uma mulher sofrida,
ainda bonita, mas envelhecida precocemente, carregando um pesado
fardo em seus ombros frágeis.
Ficaram
por algum tempo olhando um para o outro, esperando o que tinham a
dizer. Finalmente Ritinha rompeu o silêncio.
–
O que você tem pra me dizer?
Beto
reconsiderou, e concluiu que realmente ela tinha razão. Ele
precisava dizer alguma coisa, mas não estava preparado para aquela
situação. Vendo o estado em que ela se encontrava, não poderia
magoá-la ainda mais. Mas também não tinha nenhuma solução. Não
sabia como resolver aquela situação. Era um compromisso enorme, um
peso muito grande para assumir praticamente sozinho. O que fazer, o
que dizer?
De
repente, iluminado pela luz de um poste, no final da rua, surge um
carro branco. Ritinha percebeu e reconheceu o carro de Gabriel. Ficou
apreensiva. Será que Beto a viu entrando naquele carro ontem à
noite? E se Gabriel se aproximar e falar com ela, o que dirá, como
proceder? E Beto, como reagirá? O que Gabriel estaria tentando
dizer, aparecendo naquele momento. Talvez estivesse querendo dizê-la:
estou aqui, você não está sozinha, jamais irei te abandonar, ainda
mais nesse momento. O carro permaneceu parado no final da rua, mas
Ritinha recebeu toda aquela energia, respirou profundamente, e
sentiu-se totalmente fortalecida. Era outra pessoa. Aqueles olhos de
uma mulher sofrida e assustada haviam se transformados no olhar de
uma mulher guerreira, a loba defendendo sua cria.
Beto,
de costas, não avistou o carro. Absorto em seus pensamentos, não
percebeu o drama estampado no rosto de Ritinha. Voltou à realidade
quando novamente Ritinha quebrou aquele longo silêncio.
–
Não se preocupe. Se você não
quiser, certamente encontrarei alguém que se interesse por mim e
pela criança.
Foi
como tivesse recebido uma ordem para falar aquilo. Será que ela
teria a coragem de conviver sob o mesmo teto, compartilhando a
criação de um filho, fruto do amor entre ela e Beto, com uma pessoa
estranha? É bem verdade que não seria uma pessoa qualquer. E quem
garante que Gabriel iria realmente cumprir o prometido? Pode ter sido
palavras ditas naquele momento, apenas para confortá-la. Porque
disse aquilo? Foi culpa daquela coisa que a tomou de repente.
Certamente Beto agora vai encher a cabeça de caraminholas, e
abandoná-la para sempre. Deve tê-la visto entrando no carro de um
estranho, e duvidará até que o filho é dele.
Não
era nada daquilo que ela queria dizer. Naquele momento, Ritinha
gostaria de dizer apenas o quanto amava aquele galego comprido
e magricelo. Que ninguém,
além dele, tocaria seu corpo. Que estava disposta a enfrentar todas
as dificuldades e, juntos, criariam aquela criança, fruto de um amor
puro e verdadeiro.
Beto
olhou-a, a princípio assustado com o que ouviu, mas depois percebeu
que os olhos de Ritinha não diziam nada daquilo. Muito pelo
contrário, mandavam claramente uma linda declaração de amor, muito
amor.
Abraçando-a
com muita ternura, disse-lhe – te amo muito. Não quero perder
você, muito menos nosso gurizinho.
Como
fumaça, o carro branco desaparece no final da rua.
Novos
planos começaram a ser traçados. Beto propôs vender a moto,
Ritinha procuraria alunos para dar banca, e juntariam todo o tostão
arrecadado para abrirem uma loja de Materiais de Construção.
Ritinha vibrou com a ideia, mas questionou a venda da moto. Achariam
outra maneira para conseguir o dinheiro. Afinal, a moto era a
realização do sonho de Beto. Não seria justo vendê-la. Mas Beto
foi taxativo. Já havia decidido que venderia a moto, pois era o seu
único bem com algum valor significativo. Não poderia contar com a
ajuda de Seu Jairo e Dona Zefa. Eles já tinham seus problemas. O
certo é cada um assumir e superar suas dificuldades. Além do mais,
Dona Zefa não ficaria nada satisfeita com essa mudança de planos.
Aliás, esse seria outro problema a ser resolvido posteriormente.
Prevendo
o quanto aquela tarde seria difícil, Ritinha pediu a uma das
vizinhas para buscar Marquinhos na escola. Quando retornou do
encontro com Beto, somente Marquinhos estava em casa. Melhor assim.
Estava eufórica, e teria dificuldade em esconder tamanha felicidade
aos demais habitantes da casa. Abraçou fortemente Marquinhos,
rodopiou pelo quartinho improvisado, encheu-o de beijos, e depois,
ainda agarrado a ele, jogou-se no beliche. Marquinhos, que havia
terminado de guardar seus objetos escolares e, pacientemente,
aguardava Ritinha para servir-lhe o café, ficou surpreso com tamanha
festa e, inocentemente, com os olhinhos arregalados, perguntou
baixinho.
–
Foi o meu irmãozinho que já chegou?
–
Não, respondeu Ritinha
sorrindo. Ainda vai demorar pra chegar, mas já vamos começar a
arrumar as coisinhas dele. Você também vai ajudar. E concluiu
sussurrando – não esqueça que é segredo.
–
Tá bom – sussurrou
Marquinhos.
–
Agora chega de festa, venha
tomar seu banho e tomar café – concluiu Ritinha.
Passada
a euforia dos primeiros instantes, Ritinha voltou a pensar nos
detalhes. Sabia que era grande o desafio, mas não poderia esmorecer,
muito menos deixar transparecer para Beto. Amanhã mesmo contactaria
algumas conhecidas para ajudá-la a encontrar alunos para dar banca.
A primeira da lista seria a professora de Marquinhos. Procuraria
inicialmente alunos que morassem nas proximidades, pois pretendia dar
aulas em domicílio. Para isso, precisava organizar os horários para
não chocar com os compromissos já assumidos. Não podia esquecer
que necessitaria também aprender tudo sobre materiais de construção,
e o funcionamento de uma loja. Beto, certamente, não daria conta de
tudo sozinho. E os estudos, como ficariam. Ela, Ritinha, teria que
interromper durante a gravidez. Mas depois? Voltaria a estudar sim,
provavelmente
à noite. Quando Beto, por conta do trabalho, teve que começar a
estudar à noite, ela também pensou em mudar seu horário, mas Beto
achou mais prudente que ela continuasse a estudar durante o dia.
Seria um risco desnecessário transitar todos os dias, à noite,
naquelas ruas próximas da sua casa. Mas agora a situação era outra
e, quem sabe,
estariam morando em outro local. E onde morariam? Marquinhos iria com
ela. Quanto a isso, era líquido e certo. Não haveria acordo. E
ainda tinha a criança que estava por vir. É, teria que dar um tempo
até ela crescer um pouco mais. Não poderia contar com a mãe para
ajudá-la. Marquinhos não seria problema. Mais um pouco e ele já
poderá se virar sozinho. A criancinha não, necessitaria de atenção
e muitos cuidados. Não seria jogada no mundo, como ela e Marquinhos,
feito
uma coisa imprestável, um fardo incomodo e pesado. Era muita coisa a
se resolver. A cabeça começou a latejar.
–
Calma, muita calma – pensou
Ritinha. Vamos matar um leão a cada dia. Somente assim conseguiremos
sobreviver nessa selva urbana.
Beto entrou no seu quartinho,
jogou-se na cama sem ânimo até para comer. Com o olhar perdido no
vazio voltou a meditar sobre o enorme compromisso que acabara de
assumir. Feliz, em parte, por ter reconciliado com Ritinha, mas
apreensivo porque sabia o que o esperava dali
para frente. A responsabilidade que estava assumindo era muito
grande. Precisava ter calma, perseverança, fé, e muita força de
vontade, para vencer todos os desafios que estavam por vir. O
dinheiro arrecadado com a venda da moto, único bem que possuía,
deduzido o valor das prestações que ainda devia, seria irrisório
para montar uma loja. Mas era o que estava ao seu alcance. Aprendeu
muito com o seu patrão, e sabia que era um ramo de negócios
bastante rentável. Eram
produtos não perecíveis, com boa margem de lucro. Precisava apenas
encontrar um local favorável para se estabelecer, preferencialmente
um bairro popular em franca expansão. Conhecia muitos fornecedores,
que vendiam
produtos de qualidade, com preços accessíveis. Amanhã mesmo
começaria a tomar as providências. A primeira delas seria deixar
seus temores embaixo da cama. Não poderia de forma alguma
decepcionar Ritinha, muito menos o guri que já estava a caminho.
Providenciaria a venda da moto, conversaria com seu patrão, que em
todos os momentos mostrou-se sempre um grande amigo, um verdadeiro
pai. Deixaria bem claro que, em qualquer situação, jamais iria
prejudicá-lo, muito menos o seu comércio. Beto era imensamente
grato ao seu patrão, por tudo que fez por ele, e o que ainda haveria
de fazer. Aquele pouco tempo de convivência foi o suficiente para
solidificar uma amizade respeitosa, e uma confiança mutua muito
forte. A transição seria feita passo a passo. Antes de sair
definitivamente, deixaria um substituto à altura e, ainda assim,
estaria sempre à disposição para qualquer eventualidade. Ainda bem
que o velho Jairo estava longe, porque
se visse como os dois se tratam, morreria de ciúmes. E Dona Zefa,
como reagiria? De forma alguma ela poderia saber. Somente depois,
quando as coisas estivessem mais ou menos arranjadas. E aí se
lembrou de mais um pedido da mãe. Que não deixasse de passar o
natal com ela. Era uma data em que a família deveria estar reunida.
Mas esse ano, não teria como. Seria a primeira vez que faltaria a
esse compromisso, e não sabia se, e quando, poderia rever os pais.
Não teria como, olhando nos seus olhos, esconder todos esses
acontecimentos de Dona Zefa. Além do mais, todo o seu dinheiro agora
seria poupado para montar a loja. Até os estudos seriam
interrompidos. Beto sofria só em imaginar a tristeza de sua mãe
durante a ceia, olhando aquele lugar vazio, ao lado da mesa, onde
sempre era ocupado por ele. Melhor uma tristeza, do que um grande
desgosto, ao ver o filho fracassado, sem futuro, e com uma família
para sustentar – pensou. A vida de Seu Jairo também não foi
fácil. Contou que começou a trabalhar desde cedo, e não deu para
terminar os estudos. No começo foi muito difícil. Suou muito para
fazer a nossa casa. Carregou muita areia e bloco nos finais de
semana. Os colegas se divertindo na gafieira, enquanto eles, Seu
Jairo, e mais uns dois amigos de fé, rolavam massa para levantar as
paredes e rebocar. Mas Beto não pretendia deixar de estudar. Na
primeira oportunidade, ele retomaria os estudos. Estava muito
cansado, mas precisava pensar mais um pouco. Inicialmente poderia
alugar um ponto, mesmo sabendo que o aluguel consumiria parte dos
lucros, mas precisaria ter um bom capital de giro. Melhor que tomar
empréstimo em bancos. Pior ainda seria ficar na mão de agiotas.
Conheceu casos de pessoas prósperas que perderam tudo no jogo, e na
mão de agiotas. – Deus me livre desse tipo de gente – pensou.
Começou a selecionar
alguns bairros que poderiam servir para estabelecer seu negócio. De
início, bastava um pequeno galpão de quatro por seis metros, mas
tinha que pensar em futuras expansões. Não seria bom sair para
outro local, por falta de espaço, porque perderia grande parte da
freguesia. Precisaria também de uma área anexa para armazenar os
materiais mais pesados como brita, areia e blocos. São o carro-chefe
de qualquer loja de materiais de construção. Precisaria também de
uma cobertura para abrigar as madeiras. Absorto nesses pensamentos,
adormeceu. Nessa noite não orou.
No
dia seguinte,
Beto tomou seu café e seguiu cedo para o trabalho. Durante o trajeto
foi repassando os tópicos da conversa que teria com o patrão.
Escolheria um momento mais propício porque sabia ser um assunto
muito delicado. Pretendia não lhe esconder nada. Seria uma conversa
franca, aliás, como sempre foram as conversas entre eles. Como de
costume, estacionou a moto, e começou a rotina de destravar os
cadeados e abrir as portas da loja. Surpreso e feliz percebeu que já
se aproximava um freguês. Ainda era muito cedo. Os fregueses
costumavam aparecer um pouco mais tarde. Mas isso era um bom sinal. O
dia prometia ser bastante promissor. Certamente teriam muitas vendas.
–
Bom dia – saudou o recém-chegado. E foi se aproximando da moto.
–
É essa a moto que está à venda?
– Ritinha
não perdeu tempo – pensou Beto. – Já providenciou um comprador.
Mas ela está certa. Quanto mais cedo começarmos a executar nossos
planos, melhor – concluiu seu pensamento.
Lutando
contra o tempo, contando com a ajuda dos poucos amigos mais chegados,
algum resquício de sorte e a proteção DIVINA, Beto e Ritinha
necessitavam, agora mais do que nunca, concretizar aquele plano
mirabolante. Disso dependia a subsistência de um inocente que já
estava a caminho. Precisavam dar-lhe, não só o alimento necessário,
mas também um lar com o mínimo de conforto, harmonia, e muita paz.
As ajudas já estavam chegando. Naquele instante, diante dele, de
Beto, estava um comprador interessado em comprar sua moto, primeiro
item das várias etapas de um plano quase que inexequível. Caberia a
Beto, usar seus argumentos de bom vendedor, e vendê-la. Não era
momento para indagar quem captou o comprador. A venda já estava
praticamente feita, pois o comprador mostrava-se muito interessado em
adquirir o bem. Caberia a Beto, como bom vendedor, apenas efetuar a
venda. Mas era muito forte a curiosidade de saber como aquele
comprador chegou até ele.
–
É sim, mas… – Beto começou a balbuciar.
O
comprador entusiasmado interrompeu sua frase pelo meio.
–
Realmente ele tinha toda a razão quando disse que eu ia gostar
muito, que fosse cedo antes que alguém chegasse primeiro. Essa é a
moto que eu estava procurando. A descrição foi exata. Até a cor,
vermelha como eu queria.
–
Ele quem? – indagou Beto.
–
Não me lembro se perguntei, mas acho que era seu tio – respondeu o
comprador. – Mas vamos ao que interessa. A
moto já é minha. Diga-me como e quanto devo pagar por ela –
falou-lhe o comprador, ao tempo em que abria o rosto num sorriso de
satisfação.
A
tarde estava morrendo quando Ritinha retornou à sua casa,
acompanhada de Marquinhos. Seu semblante denotava a exaustão e o
cansaço. Era desanimador. Mais uma coleção de portas batendo em
sua cara, sem perspectiva de encontrar uma mão amiga que a ajudasse
a transpor esses primeiros obstáculos, dos muitos que haveriam de
surgir em sua trajetória. Mas a vida é assim. Como diz os versos de
uma canção, “… Tudo
que se vê não é, igual ao que a gente viu
há um segundo…”.
Ontem era uma Ritinha eufórica, cheia de esperanças. Hoje,
adentrando
ao mesmo quarto, é uma
Ritinha exaurida, desanimada, quase que derrotada. Marquinhos não
sabe o porquê, mas percebe a angustia no olhar da sua meia irmã/mãe.
Com o olhar perdido no vazio, ela procura um norte, uma réstia de
luz para iluminar seu caminho. Instintivamente, acaricia seu ventre,
ainda sem nenhum sinal de protuberância, e sente aquela energia
revigorante.
–
Ritinha! – pensou. O primeiro dia da primeira batalha ainda nem
terminou.
Depois dessa batalhar haverá muitas outras. Lembre-se que você não
está sozinha. Esse foi apenas um dia. E haverá outro e mais outro,
e mais outros. Levantou-se do beliche, sacudiu a cabeça como se a
esvaziá-la dos pensamentos negativos, acariciou novamente seu
ventre, como um silencioso agradecimento, abraçou Marquinhos e, com
novos ânimos, ordenou:
–
Vamos preparar seu café, e depois fazer os deveres.
Ritinha
ouviu o barulho da moto, e a buzina. Percebeu que Beto estava
passando e, em pouco tempo, estaria esperando
por ela na esquina. Novamente o desanimo quis apoderar-se dela. Não
tinha conseguido nada. O que dizer a Beto? – Não, não podia
deixar transparecer nenhum desanimo – pensou. Cabeça erguida,
coragem, confiança e fé. Amanhã será um novo dia cheio de
esperanças. Ou, quem sabe, Beto tem alguma boa nova?!
Beto
então lhe contou a novidade. Um pouco triste, mas feliz porque as
coisas começaram a acontecer. A moto já estava vendida. Amanhã
cedo o novo proprietário iria buscá-la na loja.
–
Mas tão rápido? – indagou Ritinha, alegre e surpresa.
–
Você comentou com alguém? –
indagou Beto, por sua vez.
–
Não – respondeu Ritinha.
Beto
então explicou que alguém teria informado ao comprador que a moto
estava à venda. Ele, o comprador, havia comentado que, pelas
informações detalhadas, passadas sobre a moto, imaginou
que seria algum parente dele.
–
Seria um tipo alto, loiro dos olhos azuis? – perguntou Ritinha.
–
O comprador não informou, e eu não insisti por achar irrelevante –
respondeu Beto.
–
Porque, você sabe quem é
a pessoa?
– insistiu Beto.
–
Não. Apenas uma suposição – respondeu maquinalmente Ritinha.
Nem
sempre os desafios são tão grandes quanto aparentam. Quantas vezes
somos surpreendidos com histórias que tiveram um final feliz,
rotuladas como um verdadeiro conto de fadas. Como é possível
acontecer essas coisas? A resposta está dentro de nós. Nós
queremos, nós podemos. E não são apenas simples palavras. Já há
dois mil anos nos ensinaram tudo isso, e ainda não aprendemos. “E
ELE lhes disse: Filha, a tua fé te salvou; vai em paz, e sê curada
deste teu mal.” (Marcos 5;34).
Palavras d'ELE,
nada menos que o MESTRE DOS MESTRES que, por mais de uma vez, afirmou
o poder que temos, e o tamanho da fé que precisamos ter para fazer
acontecer. Experimentemos começando pelo básico do básico. Ao
surgir um problema, enfrentemo-lo de frente, como deve ser. Por maior
que aparente ser, por maior que sejam os temores dentro de nós, não
nos deixemos intimidar. Imaginemos um verdadeiro exército em nossa
retaguarda, e sigamos em frente, firmes, confiantes, e com muita FÉ.
Um gato, quando se sente acuado, transforma-se num verdadeiro leão.
Beto
precisava
ter um encontro com a mãe de Ritinha. Sabia que seria uma conversa
muito difícil, e deveria estar preparado para qualquer reação. Não
seria prudente Ritinha estar presente. A mãe poderia passar dos
limites, e até colocar em risco a gravidez da filha. Era capaz de
não sentir nenhum remorso, caso acontecesse o pior. Pensou em
discutir o assunto com Ritinha, pedir sua opinião, trocar algumas
ideias, principalmente no tocante em como iniciar a conversa a fim de
evitar o descontrole da mãe, tornando inviável a continuação do
diálogo. Preferiu não comentar nada, e deixar Ritinha fora do
assunto. Seria melhor. Talvez Ritinha preferisse deixar esse encontro
para depois, mas Beto pensava diferente. Esse encontro era
inevitável, e tinha prioridade.
Mais
uma vez, contou com o apoio do patrão. Ao expor-lhe o assunto, o
patrão não só deu alguns conselhos, como também lhe facultou a
saída da loja pelo tempo que fosse necessário. Concordou plenamente
com Beto. Era um assunto que teria que ser conversado e esclarecido o
mais rápido possível.
À
noite, orou, e pediu a Santa Rita das Causas Impossíveis, que lhes
desse a fé de Abraão, a paciência de Jó, e a sabedoria de
Salomão.
No
dia seguinte, esperou que Ritinha saísse de casa para então bater à
porta. A mãe atendeu.
–
Bom dia.
A senhora não me conhece, mas meu nome é José Alberto Almeida
Ribeiro, e sou de paz – apresentou-se Beto.
Em
seguida, Beto esclareceu que sabia que ela, a mãe, não poderia
demorar-se, pois tinha horário a cumprir. Ele, Beto, prometeu que
sua demora seria o mais breve possível, pois também teria que ir
trabalhar. A mãe convidou-o a entrar. Beto acomodou-se em uma
cadeira que lhe foi oferecida, e começou dizendo que era do
interior, do Riacho da Mata. Veio para a cidade com o objetivo de
estudar. Como os pais não tinham condições de custear seus
estudos, trabalhava durante o dia e estudava à noite…
Á
tardinha, quando Ritinha retornou à sua casa com Marquinhos, a mãe
já havia chegado.
–
O teu
Jusé Auberto teve aqui hoje cedo – falou de chofre a mãe.
Ritinha
quase desmaia, tamanho foi o susto.
–
Gostei
dele. Rapaz educado – falou novamente a mãe.
–
Parece
que ele gosta muito de você. Espero que tu tenha mais sorte do que
eu.
Pela
primeira vez Ritinha viu a mãe desnuda. O semblante abatido, uma
sombra de tristeza estampada em seus olhos. Percebeu como a mãe
estava velha. Naquele momento Ritinha entendeu, até certo ponto, o
porquê de tanta amargura, tanta secura, tanto desamor. A mãe não
conhecia o amor. Ritinha nunca conheceu um parente, um companheiro ou
um amigo que fizesse parte da vida da mãe, a exceção do estrupício
do Zé do Ouro. Como poderia a mãe dar amor e carinho sem nunca ter
recebido? Era sempre aquela vida dura, tentando ganhar o pão de cada
dia. Com muito sacrifício conseguia apenas o suficiente para
sobreviver. E, o pouco que conseguia, ainda tinha que dividir com o
estrupício, em troca de um afago que recebia vez por outra. Ritinha
sentiu-se até um pouco egoísta. Não que ela, Ritinha, não tivesse
problemas. Tão jovem, com tantas questões a resolver, sua vida
também não era nada fácil, mas tinha um grande diferencial em seu
favor. Não estava só nessa batalha. Um dia, apenas um dia, quando
se sentiu abandonada por Beto, quase enlouqueceu. Antes de Beto,
também se sentia só nesse mundão de DEUS. Mas seus problemas não
eram tantos e, além do mais, sempre nos momentos de aflição
contava com a ajuda de sua Mãe Maria Santíssima. E a mãe, lutando
sozinha durante uma vida inteira, sem ninguém, sem ao menos uma
devoção por uma Santa. Ritinha esqueceu seus problemas, esqueceu o
susto, e sentiu pena da mãe.
Beto
contou tudo. Não escondeu nada. Contou como conheceu Ritinha, a
afeição que sentiu desde o primeiro encontro, a amizade que cresceu
e transformou-se num grande amor, até o momento da gravidez não
programada. Sempre contou com a compreensão e o apoio de uma família
estruturada. Nunca se sentiu desamparado, pois tinha muita fé e
confiança em sua Santa à qual tinha muita devoção. A mãe de
Ritinha, calada, continuou escutando. Nunca conhecera alguém tão
fino, educado, que lhes transmitisse tanta confiança, falando-lhe
com tanta firmeza, como aquele rapaz – pensou.
Beto
então continuou. Trabalharia duro, agora mais do que nunca, para
oferecer o melhor à criança, e a Ritinha. Seus pais não eram
ricos, mas nunca o privaram do básico. Para isso teria que
interromper os estudos, e protelar um pouco o sonho, seu e da sua
mãe, de tornar-se uma figura importante na área jurídica. Ritinha
também trabalharia para, juntos, conseguir adquirir moradia e
sustento para a nova família que estavam constituindo. Durante esse
período inicial, Ritinha permaneceria morando na casa da mãe, se a
mãe consentisse e concordasse, é claro. Mas enquanto perdurasse
essa situação, nada mais justo que eles contribuíssem também nas
as despesas. Beto também pediu à mãe que abençoasse a união dos
dois, e que o permitisse, sempre que possível, sua visita a Ritinha,
e ao prematuro.
Após
recompor-se, a mãe continuou em tom de ameaça.
–
Se eu
subesse disso antes de teu Jusé Auberto ter vindo aqui acertar tudo
direitinho cumigo, tu já tava agora era no olho da rua.
A
felicidade de Ritinha foi tão grande que nem conseguiu escutar as
ameaças da mãe. Era a concretização de parte do plano
anteriormente elaborado. Se ainda havia alguma dúvida com relação
aos sentimentos de Beto para com ela, agora deixaram de existir. Não
tinha mais nenhuma dúvida. Beto estava decidido a seguir em frente e
enfrentar todos os desafios, que não seriam poucos. O coração de
Ritinha agora estava bem mais leve, apesar dos receios com relação
ao amanhã. Mas, apesar dos temores, ela também estava disposta. De
forma alguma decepcionaria Beto.
Ritinha
terminou de dar o banho em Marquinhos, serviu-lhe o jantar,
aproveitou também para comer alguma coisa e, em seguida, acompanhada
de Marquinhos, seguiram para o quarto.
–
Você
está chorando? – Perguntou Marquinhos em voz baixa.
–
Sim, mas
de felicidade. Acabei de constatar que meu amor é correspondido –
respondeu Ritinha.
–
É por
causa do Beto, não é? – perguntou novamente Marquinhos, de cabeça
baixa, quase sussurrando.
–
Sim –
respondeu Ritinha, mais confirmando para si mesma do que em resposta
a Marquinhos. Enquanto tentava secar as lágrimas com as mãos,
continuou – Não tenho dúvidas. Ele me ama. E eu o amo muito,
muito, muito.
Alheia
a tudo, não percebeu a tristeza no rosto de Marquinhos. Foi então
que ele, ainda com a cabeça baixa, os olhinhos lacrimejando, fez uma
pergunta que soou mais como uma afirmação – Então você não me
ama mais?!
Ritinha,
saindo do torpor, percebendo o quanto o irmãozinho estava magoado e
triste, abraçou-o com doçura e disse-lhe – Não Marquinhos,
ninguém toma seu lugar dentro do meu coração. Puxou seu rostinho
em direção ao seu, olhos nos olhos, e continuou – o que sinto por
você é um amor muito especial. Você é meu tesouro, meu
irmãozinho, meu filho querido. Tenha certeza de uma coisa: nunca
deixarei de te ama e, pra onde eu for, levarei você comigo. Agora vá
arrumar suas coisas pra amanhã enquanto vou ali compartilhar minha
alegria com alguém também muito especial.
Ao
perceber a chegada de alguém, Dona Romilda virou-se, e deparou com
Ritinha, com os olhos rasos d'água. Numa das poucas e raras
demonstrações de afeto, Abraçou Ritinha, e disse – já ia te
percurar.
–
Não
queria vir sem antes resolver a situação. Respondeu Ritinha
retribuindo o abraço.
–
Sei –
disse por sua vez Dona Romilda, maquinalmente, com o pensamento ha
quilômetros de distância, em outras épocas.
Antes
que Ritinha começasse a expor todo o seu drama, Dona Romilda, com
sua vasta experiência, já havia imaginado toda a situação. Foram
várias e várias histórias mais ou menos parecidas, que ela
testemunhara, acompanhara, aconselhara, e sofrera juntamente com suas
meninas, nos tempos do bordel. Lembrou-se da sua própria história.
Como foi difícil sentir-se de repente jogada nesse mundo cão, e
sobreviver graças ao amparo de uma estranha.
Ele
era um bom rapaz – pensou Dona Romilda. Passados tantos anos, ela
ainda lembrava-se dele com muito carinho. Por muitos anos, alimentou
a ideia de ir procurá-lo, não para cobrar alguma coisa, mas para
saber se estava feliz. A mãe, sim, era uma megera. Foi a culpada de
tudo. Criou o rapaz numa redoma de vidro. Rico, mimado, fazia tudo
que a mãe queria. Um pobre infeliz. Deixou de viver a sua própria
vida para ser o bibelô da mãe. Não teve coragem de enfrentá-la,
mesmo sabendo que aquilo seria uma tragédia na vida de Dona Romilda.
A história se repete. Rapaz jovem, bonito, rico, engravida moça
linda, bem-criada, honesta, sem muita instrução, e pobre. O pai da
moça, ao tomar conhecimento e, sabendo o quanto seria difícil
obrigar ao rapaz reparar a sua falta, põe a filha desonrada para
fora de casa.
Somente
com a roupa do corpo, grávida, Dona Romilda não teve outra
alternativa. Pedindo carona, saiu do subúrbio da cidade onde morava,
e chegou até a cidade mais próxima. Cansada, suja, empoeirada, e
com fome, foi como chegou ao seu destino. Por ser uma cidade maior,
talvez oferecesse mais oportunidades para ela conseguir um meio de
sobreviver. Sem conhecer ninguém, no estado deplorável em que se
encontrava, restava-lhe aguardar por um milagre. Nova e bonita, logo
logo a convenceram a ir pedir ajuda num bordel. Ao chegar, a dona do
estabelecimento deu-lhe alimento, providenciou sabonete, toalha, e
colônia para um banho reparador, roupa limpa, uma cama cheirosa, e
calmante para dormir. No dia seguinte, já um pouco mais refeita,
após o desjejum, a dona do estabelecimento chamou-a para uma
conversa. Explicou que, caso ela não tivesse para onde ir, poderia
continuar morando com ela e as outras meninas, mas teria que aprender
o ofício, e trabalhar. Dona Romilda então lhe contou a sua
história, e disse-lhe que estava grávida de aproximadamente dois
meses. A dona do estabelecimento disse-lhe que isso não seria
problema. Tomaria um abortivo e estaria tudo resolvido. Pediu-lhe
apenas que não demorasse muito em tomar uma decisão porque tempo
era dinheiro. A clientela daquela casa era muito exigente, e ela, a
dona do estabelecimento, não poderia correr o risco de colocar uma
despreparada na pista. Se decidisse por ficar, seria muito bem
tratada, desde quando respeitasse as normas da casa, e não fizesse
nada que desmerecesse a sua confiança. Ficaria em repouso pelo tempo
que fosse necessário para recuperar-se da intervenção, e começaria
os treinamentos assim que estivesse em condições. Caso contrário,
teria toda a liberdade para procurar outro local para ficar. Sabendo
o quanto seria difícil, a dona do estabelecimento concedeu-lhe um
prazo para pensar, lembrando-lhe que qualquer uma das decisões
tomadas seria irreversível.
Foram
duas noites de angustia e sofrimento para Dona Romilda. Sem ter para
onde ir, sem ninguém para conversar, ouvir uma orientação, um
conselho, foi sem alternativa, praticamente, que decidiu por ficar.
Sabia que dali em diante não teria mais volta. Seguiu em frente, e
procurou aprender tudo que lhes foi ensinado. Uma das primeiras
lições foi: nessa profissão não se deve falar. Apenas ouvir. Não
teve nenhuma aula para melhorar a dicção e o vocabulário. Em
compensação, treinou exaustivamente esboçar um lindo sorriso e um
gemido bem convincente. Se for para ser, pois que seja a melhor das
melhores. Com esse lema, com empenho e dedicação, conseguiu fama e
muito dinheiro. Seus lindos cabelos platinados, bem tratados, faziam
grande sucesso. O corpo escultural, adornado de jóias, tratado com
cremes especiais, mataram a fome de desejo de muitos homens
importantes. As mãos sedosas, de unhas feitas todas as semanas,
acariciaram muitos homens, levando-os ao delírio. Essas mesmas mãos
empunharam um punhal e ceifaram uma vida.
Voltou
das suas amargas lembranças quando Ritinha disse-lhe quase num
sussurro – a senhora vai ser avó. Dona Romilda não conseguiu
conter duas grossas lágrimas que rolaram da sua face tão sofrida,
bastante destruída pelo tempo. Quem a conheceu nos tempos áureos
jamais acreditaria tratar-se da mesma pessoa, exceto alguns traços
com vaga semelhança.
–
Obrigada
meu Deus – pensou Dona Romilda. Obrigada pela Tua bondade, pela Tua
misericórdia. Sei que não sou merecedora dessa imensa alegria.
Depois de tantos erros cometidos, ser agraciada com uma filha tão
meiga e carinhosa, e agora com um neto.
Recompondo-se,
Dona Romilda tratou de enxugar as lágrimas com suas gordas mãos,
agora tão maltratadas e cheirando a tempero. Em seguida, voltando-se
para seus afazeres, aproveitou para também esconder o rosto, numa
tentativa de disfarçar aquele momento de fraqueza.
– Traga
ele aqui qui eu quero fazê umas recumendação – sentenciou.
Ritinha
contava agora com uma boa clientela de alunos, e Beto havia melhorado
seu ganho na loja. Por conta do seu empenho redobrado, passara a
receber comissões sobre as vendas. Aos poucos, as coisas estavam
melhorando.
Era
um domingo ensolarado. Depois de uma semana cansativa, cheia de
trabalho e compromissos, nada melhor que um dia de descanso. Ritinha
preparava-se para ir almoçar com os compadres dos pais de Beto.
Pediram-no que a levasse. Queriam conhecê-la. Ambos estavam bastante
apreensivos. Seria o primeiro compromisso social do casal. Tomaram o
ônibus e seguiram em direção a casa onde Beto morava. Pela
primeira vez, Ritinha conheceria alguém da família de Beto. Sim,
porque eles consideravam Beto como um filho. E Beto tinha a maior
consideração por eles. Tanto é que, logo após a conversa com a
mãe de Ritinha, onde assumiu todo o compromisso, relatou todo o
ocorrido aos compadres. Eles, apesar de lamentarem pela gravidez numa
hora tão inoportuna, ficaram muito felizes, e deram todo o apoio.
Concordaram também em respeitar o desejo de Beto em não comunicar a
Seu Jairo e Dona Zefa, pelo menos nos primeiros momentos, enquanto as
coisas estavam sendo arrumadas e ajustadas.
A
casa simples, mas de aspecto agradável, ficava situada numa rua
tranquila, nas proximidades do centro da cidade. Do muro baixo na
frente da casa, dava para ver um pequeno jardim florido, bem cuidado,
e um hall na entrada. Entraram pelo portãozinho de ferro, e logo
foram recepcionados pelo casal de meia idade. Ritinha ficou encantada
com a recepção. A sala ampla, arejada, bem iluminada, era bastante
aconchegante. Tanto da janela da frente como da janela lateral,
emanava uma leve brisa, acompanhada do aroma adocicado das flores do
pequeno jardim. Tudo era muito simples, mas de bom gosto.
Acomodaram-se todos. O anfitrião abriu uma garrafa de vinho e,
referindo-se a Ritinha e o bebê, disse:
–
Vamos
brindar a chegada de dois novos membros à nossa família. Mais uma
filha, e mais um netinho ou netinha.
Todos
brindaram e, em seguida, iniciaram animada conversa.
A
senhora, tratando-a como filha, começou a indagar de Ritinha como
estava indo a gestação, se estava tudo bem, como ela estava se
sentindo, em fim, queria saber tudo. Explicou que viera do interior,
a pedido do genro, exclusivamente para cuidar da filha. Cuidou e
acompanhou a sua filha durante toda a gravidez, e depois continuou
cuidando do neto. Agora ele, o neto, já estava grandinho e não
precisava mais tanto dela, porque estava sob os cuidados de uma babá.
Nesse ponto da narrativa, deixou transparecer uma pontinha de ciúmes.
Ela agora, continuou, exercia apenas a função de avó, que
consistia em encher de mimos e fazer as vontades do neto. Cheia de
orgulho, afirmou ter bastante experiência, pois, além da filha que,
modéstia à parte, sempre cuidou dela praticamente sozinha, e agora,
recentemente, foi a vez do neto. E aí começou a passar as primeiras
dicas para Ritinha, que ouvia tudo com bastante atenção. Explicou e
orientou sobre todo o processo. Desde o período de gestação até
os primeiros cuidados com o bebê. E, ao final, colocou-se à
disposição para ajudá-la no que fosse possível.
Depois
pediu licença, foi lá dentro no quarto e voltou com uma caixa.
Ritinha aguardou apreensiva e curiosa. Nesse momento, Beto, que
conversava animadamente com o seu pai adotivo, também ficou curioso.
Qual não foi a surpresa do jovem casal. Ritinha emocionada, não
conseguiu conter as lágrimas. A senhora, toda orgulhosa, abriu a
caixa e começou a exibir os sapatinhos, a toquinha e o casaquinho,
terminado
recentemente.
Era um conjuntinho que ela confeccionara em crochê para o
recém-nascido.
Seria
muito desejar que a mãe tivesse ao menos comprado um mordedor ou um
chocalho, ou até mesmo um sabonete, e dissesse – tome, comprei pro
meu neto – pensou Ritinha. Não, o destino quis que ela recebesse o
primeiro presente para o seu rebento, justamente de uma pessoa que
sequer a conhecia. Mas – continuou Ritinha em seus pensamentos,
enquanto as lágrimas insistiam em brotar de seus olhos – só tenho
a agradecer a minha Mãe Maria Santíssima, por me ter presenteado
com mais uma verdadeira mãe. Meu coração é grande, e Dona
Romilda, certamente, não irá se importar em ceder um pedacinho dele
para eu acomodar essa minha nova mãe.
Após
o almoço, foi servida uma deliciosa sobremesa caseira. Uma ambrosia
que estava um verdadeiro manjar dos deuses. Em seguida, Beto convidou
Ritinha para conhecer seu quartinho, seu refúgio. Ao entrar, mais
pensando alto, entre suspiros, Beto fala para Ritinha.
–
Essas
quatro paredes são testemunhas das muitas alegrias e tristezas
vividas durante esses últimos anos. Quantas lembranças e
recordações…
Ritinha
estava emocionada. Pela primeira vez entrava na intimidade de Beto.
Como gostaria de ouvir daquelas paredes todos os segredos, todas as
confissões de Beto – pensou. Será que ele pensava nela, tanto
quanto ela pensava nele, naquele seu quartinho improvisado? Seus
pensamentos foram bruscamente interrompidos quando seus olhos
pousaram na figura do calendário da borracharia. Aquela loira
oxigenada com olhar provocante, como se estivesse a desafiá-la.
–
O que é
isso? – indagou Ritinha. – No nosso quarto, esse tipo não vai
entrar de jeito nenhum – complementou.
–
Isso é
coisa de homem – Beto respondeu sorrindo.
–
Não
quero saber – respondeu Ritinha com cara de brava. Não vai entrar
e pronto – complementou.
–
Está
com ciuminho do seu galego hem – arrematou Beto.
Em
seguida, tomou-a em seus braços e plantou um caloroso beijo em seus
lábios, pondo fim à discussão.
Precisamos
acreditar na energia do cosmo. “… Pois em verdade vos digo, se
tivésseis a fé do tamanho de um grão de mostarda, diríeis a esta
montanha: transporta-te daí para ali e ela se transportaria, e nada
vos seria impossível” (Mateus, 17: 14-20).
No
momento em que o subconsciente está trabalhando, pensando em algo
que desejamos ardentemente que aconteça, automaticamente ficamos
conectados ao campo energético do planeta, do cosmo, na faixa
vibratória compatível, passando então a sintonizar com outras
fontes de pensamentos, também conectadas na mesma faixa vibratória.
Esses pensamentos conectados entre si formam um campo magnético
gigantesco, capaz de produzir os fenômenos, comumente chamados de
milagre.
Beto
e Ritinha já estavam de saída quando o casal anfitrião pediu,
insistentemente, que os acompanhassem na visita que fariam à filha,
ao genro, e ao netinho. Gostariam muito que Ritinha os conhecessem.
Como Ritinha demonstrou desejo, não só em conhecer outros membros
dessa família que a acolhera como tanto carinho, mas também seria
uma forma de retribuir, atendendo ao desejo dos anfitriões, Beto
terminou concordando, e aceitou ao convite. Como não era muito
distante, seguiram caminhando. E lá se foram, dando continuidade à
animada conversa.
Parece
que o tempo passa mais depressa quando estamos felizes, em companhias
agradáveis. Já passava das três horas da tarde quando chegaram ao
novo destino. Era uma residência de dois andares, construída num
padrão mais elevado que a casa dos compadres. Também murada, como a
anterior, porém maior, com dois portões trabalhados na entrada. Um
portão para a entrada de veículos, e outro menor, onde se deduzia
ser a entrada principal. Diante do portão menor, o pai pressionou a
campainha, e aguardou. Sem muita demora, o portão foi aberto.
Dentro,
em volta da casa, havia um lindo jardim, ornamentado de flores
variadas, e plantas exóticas.
Do
portão até a porta principal havia um caminho, pavimentado em
pedras portuguesas brancas e pretas, artisticamente bem trabalhado. O
caminho, predominantemente na cor branca, serpenteava graciosamente
pelo meio do jardim. Ora mais largo, ora mais estreito, toda a sua
extensão era margeado por duas faixas de pedras pretas com,
aproximadamente, vinte centímetros de largura. Pelo caminho,
alternadamente, apareciam grandes tulipas desenhadas em pedras
pretas. No meio do trajeto, em um dos lados do caminho, erguia-se um
pequeno chafariz que mais parecia uma espécie de grande pia
batismal. No seu centro, sobre um pedestal, via-se a escultura de uma
criança com carinha de anjo, esculpida em mármore escuro, em
tamanho natural, segurando o seu pintinho, fazendo xixi. A água, ou
melhor, o xixi do anjinho, caia na grande pia, piscina e bebedouro
dos pássaros, frequentadores do jardim.
Quando
o pequeno grupo chegou ao final do caminho de pedras, a grande porta
de madeira trabalhada já estava aberta. Diante dela, a filha e o
netinho já os aguardava. O netinho, de aproximadamente dois anos,
correu, e jogou-se nos braços da avó que, imediatamente, agarrou-o
cobrindo-o de beijos. A filha, uma moça linda, sorridente, abraçou
o pai, a mãe, e também Beto. Olhou para Ritinha e, com o mesmo
sorriso indagou: – Você deve ser a Ritinha de Beto. Em seguida,
caminhando em direção à jovem gestante, abriu os braços, e
enlaçou-a com ternura.
Após
a calorosa recepção, os recém-chegados foram conduzidos pela
filha, em direção ao interior da residência. A essa altura, o
netinho já estava no colo do avô, enlaçado em seu pescoço, quase
a sufocá-lo. Adentraram numa grande sala, decorada com muito
requinte, dividida em diferentes ambientes, demarcados com tapetes de
pelo alto. Percebendo o constrangimento, principalmente de Ritinha, a
filha sugeriu, discretamente.
–
Vamos
para a varanda, lá dentro. É mais aconchegante, e ficaremos mais à
vontade.
O
varandão, ao lado da cozinha, também decorado com muito bom gosto,
porém mais simples, deixou o pequeno grupo mais à vontade.
Mal
haviam se acomodado, e já estava uma serviçal depositando sobre a
mesa bandejas de bolo, biscoitos, jarras de suco, café, chá,
talheres e louças. Ritinha, sentindo-se mais à vontade, com apetite
alterado devido à gravidez, foi a primeira a servir-se.
O
genro, após executar algumas tarefas pendentes, e dar alguns
telefonemas, saiu do gabinete, e foi saudar os visitantes. A relação
entre ele e os sogros era de pai e filho. Apesar da avantajada
posição financeira, sempre tratou a todos com muito respeito, e
consideração. Os seus comandados gostavam muito dele pela maneira
como os tratava. Sempre cortês,
carismático, sem arrogância, e bastante humano. Ao chegar ao
varandão, pediu desculpas a todos por não tê-los recepcionados,
abraçou aos sogros, carinhosamente como sempre, Beto e Ritinha. Em
seguida, relatou ao sogro algumas providências tomadas a respeito do
andamento de tarefas que ele ficara incumbido de providenciar,
indagou do sogro sobre as atribuições que ficaram sob sua alçada
e, na sequência, parabenizou ao jovem casal, desejou-lhes muita
saúde, paz e harmonia. Aconselhou-os a ter confiança, respeito
mútuo e, sempre que necessário, diálogo, franco e verdadeiro. Essa
é a chave para o sucesso de uma união duradoura – disse o genro.
–
Agora
com a chegada da criança, é importante que vocês façam uma
revisão em seus planos, para que possam colher frutos num menor
espaço de tempo – concluiu o genro.
–
Já
elaboramos novos planos e estamos colocando em prática. As
dificuldades são muitas, mas continuamos confiantes e com muita fé.
Acreditamos que vai dar tudo certo – respondeu Beto.
O
sogro tomou a palavra, pediu licença a Beto e, sem dar-lhe tempo
para autorizar ou não, começou a descrever o “quase impossível”
plano do jovem casal. Empolgado, teceu altos elogios sobre Beto,
menino que viu nascer, e participou ativamente da sua criação.
Inteligente, esforçado, honesto, crédulo, tem tudo para obter êxito
em sua trajetória.
–
Mas para
abrir uma loja de materiais, ou qualquer outro negócio, não basta
somente querer, esforçar-se e saber vender. É necessário
experiência e muito conhecimento – contestou o genro.
O
sogro então começou a descrever, melhor que o próprio Beto, toda a
sua trajetória, desde quando chegou à metrópole. Foi o seu
primeiro emprego. Precisou bater em muitas portas até conseguir. E
não foi fácil. Lembrou inclusive que precisou contar com a ajuda do
genro. Salvo engano, foi através do amigo de um outro amigo. O genro
lembrou-se do episódio e balançou a cabeça afirmando que sim. Beto
agarrou aquela oportunidade com unhas e dentes. Inicialmente começou
a trabalhar meio turno. Estudava pela manhã, e à tarde trabalhava
na loja. Ainda não tinha uma função definida. Aliás, como até
hoje, é um faz tudo na loja. Executa tarefas bancárias, serviços
de limpeza, atende no balcão, recebe e arruma mercadorias, e por aí
vai. Depois passou a estudar à noite, e começou a trabalhar em
tempo integral. Não mede esforços. Sempre dedicado e interessado,
foi aprendendo todos os serviços da loja. Hoje Beto, depois do dono,
é quem resolve tudo. Sua função vai desde o atendimento no balcão,
recebimento e conferência de mercadorias, a negociação com
fornecedores. O seu patrão reconhece sua capacidade e experiência.
Gosta muito dele e está lhes dando o maior apoio nesse seu novo
começo. Sobre o caráter e responsabilidade de Beto, não era
novidade para o genro. Isso ele já conhecia. Mas os pormenores com
relação à sua capacidade e conhecimento no ramo foram
providenciais. O genro estava com uma boa soma de dinheiro aplicado
no banco, rendendo muito pouco e, ha muito, vinha pensando em algum
outro tipo de investimento. Para o genro, aquela narrativa do sogro
foi a cereja que faltava no bolo. Levantou-se resoluto e,
dirigindo-se ao sogro e a Beto, convidou-os a acompanhá-lo até o
escritório, dizendo – acho que precisamos conversar mais
detalhadamente sobre esse assunto.
Ritinha,
participando da conversa com a mãe e a filha anfitriã, também
estava interessada na conversa entre os homens. Com a retirada deles
para o escritório, a curiosidade aumentou ainda mais.
Impossibilitada de acompanhar paralelamente a conversa entre eles,
conformou-se, e voltou a prestar mais atenção à conversa das
mulheres. Mataria sua curiosidade mais tarde.
A
filha anfitriã, percebendo que Ritinha agora estava mais presente,
aproveitou para dar sua parcela de contribuição. Sua pouca
experiência de primeira gravidez, mas bem assessorada, seria
bastante válida para Ritinha que, ao que parecia, não tinha
nenhuma. Procurou então, valendo-se também das observações da mãe
avó, passar a Ritinha orientações valiosas sobre gestação,
parto, e os primeiros cuidados para com o bebê. Na medida do
possível, com bastante cuidado, ia enquadrando as orientações à
realidade de Ritinha. Sabia que havia uma grande diferença entre as
duas, com relação à condição financeira e, de maneira alguma não
se perdoaria, caso magoasse ou a deixasse constrangida.
Mais
descontraída e menos preocupada, Ritinha mostrou à anfitriã, toda
orgulhosa, ainda um pouco emocionada, o primeiro presente do seu
bebê, que acabara de ganhar. A anfitriã ficou radiante. Lembrou-se
da emoção que sentiu, quando também recebeu de sua mãe uma caixa
contendo mimos graciosos similares, confeccionados com muito amor e
carinho.
Chegou
agora o momento esperado para fazer a minha oferta – pensou a filha
anfitriã.
– Ritinha
– falou-lhe a anfitriã – eu recebi muitos presentes para meu
filho. Você sabe como criança cresce rápido. Tenho bastante coisa
nova, com pouco uso, e outras que nunca foram usadas. Tem de tudo.
Sapatinhos, casaquinhos, gorros, luvas, batas, enfim, uma infinidade
de coisas. Caso você não se incomode, gostaria de presenteá-la.
Aliás, na verdade não é um presente. É uma retribuição ao
presente que DEUS me deu. Você, a irmão que eu sempre quis ter.
Dizendo isso, a anfitriã abriu os braços acompanhados de um belo
sorriso, e enlaçou-a novamente com ternura. A mãe, com os olhos
rasos d'água, abraçou as duas, e ficaram ali, vivendo aquele
momento mágico. Era um encontro, ou talvez um reencontro, de
espíritos sintonizados numa mesma frequência, também conhecido
como peças do destino.
Aquele
dia de domingo estava chegando ao fim, mas seria inesquecível.
Ficaria gravado na memória daquele jovem casal como um domingo
abençoado, o domingo da graça. O sol já estava se preparando para
recolher. De mãos dadas, os corações saltitando de felicidade, sob
um céu límpido seguiram em direção à casa da mãe de Ritinha.
Como gostariam de ter um cantinho só deles. Como gostariam de,
naquela noite tão especial, poderem deitar na mesma cama,
abraçadinhos com os dedos dos pés entrelaçados, conversar até
tarde relembrando os momentos marcantes do dia, refazer e fazer novos
planos. Depois trocarem afagos, carícias, cafuné, e dormir de
conchinha.
Cheios
de confiança, ansiosos pelo início do novo dia, pelo início de uma
vida nova, tinham pressa. Queriam deixar para trás aqueles dias de
angustia, de incertezas, mas, no fundo, sabiam que precisavam ter
calma. Tudo tem seu tempo. Não seria como um passe de mágica que as
coisas aconteceriam. Antes teriam muito trabalho pela frente.
Esmorecimento e desanimo seriam as primeiras palavras a serem
riscadas de seus dicionários.
No
dia seguinte, após contar a boa nova ao patrão, Beto foi consultar
o contador da loja para orientá-lo com relação à abertura da sua
própria empresa. Disse-lhe que gostaria de contratá-lo para fazer
também a sua contabilidade. Em seguida, explicou em detalhe os
termos do seu sócio: seria uma sociedade limitada. O sócio entraria
com 60% do capital inicial, Beto entraria com os 40% restantes, e
mais a mão de obra. O sócio confiaria a Beto toda a administração
da empresa. Como ele, Beto, dispunha somente da metade do capital
referente à parte que lhe caberia, o sócio propôs emprestar-lhe o
restante, ou seja, os outros 20%. Só que esse empréstimo seria pago
com o próprio lucro da empresa, em pequenas parcelas, de modo a não
comprometer o capital de giro. Inicialmente, como não teria mais
salário, Beto faria retiradas mínimas para seu sustento, a título
de pró-labore e, posteriormente, quando a empresa estivesse
solidificada, iniciaria a divisão real dos lucros.
Na
verdade, o genro entraria na sociedade como um investidor anjo. Isso
é bastante comum no mundo dos negócios. Mas para Beto, o genro não
era apenas um investidor anjo. Era muito mais. Ele, o genro, estava
fazendo por Beto o que o pai e o sogro gostariam de fazer, mas não
tinham condições financeiras suficientes para tal. Como um homem de
negócios, sabia que o risco era mínimo e, futuramente, ganharia
muito mais do que qualquer aplicação financeira, além da ajuda
providencial que daria àquele jovem casal.
No
mundo dos negócios, não é apenas querer, ter conhecimento no ramo,
e trabalhar duro, que o sonho se concretiza. Muitos empreendimentos
naufragam nos primeiros anos. O genro já havia vivenciado muito
isso. Sabia que Beto precisava ainda aprender muito. Não como uma
imposição, e mais como uma orientação, o genro sugeriu a Beto
procurar uma empresa bastante conceituada, cujo objetivo é apoiar às
pequenas empresas. Essa empresa é, na realidade, uma instituição
privada sem fins lucrativos, gerida pelo governo federal, e grandes
empresas do país, que orienta e disponibiliza cursos gratuitos para
todos os pequenos e médios empresários. Os homens de negócio, os
grandes empresários, não vêm um concorrente como uma ameaça.
Aquela pequena empresa poderá, no futuro, tornar-se uma grande
parceira. Quanto mais empresas, mais o mercado é aquecido. Esse é o
pensamento: “Somente uma andorinha não faz verão”.
Nesses
cursos, a primeira coisa que o empresário aprende é separar o
patrimônio da empresa do seu particular. O conteúdo programático
dos cursos abrange Gestão Financeira, Fluxo de Caixa e Demonstração
de Resultados. Vai aprender a elaborar planilhas para controlar
receitas, despesas e resultados. E o mais importante, ter um
planejamento e elaborar projetos. Essa é a base fundamental para se
ter sucesso em um empreendimento.
Após
conclusão dos cursos iniciais, Beto elaborou o projeto da construção
da loja, e submeteu à apreciação do sócio. O projeto foi
aprovado. Os sócios abriram uma conta conjunta, depositaram o
capital inicial, e Beto deu início à execução do projeto.
O
terreno há muito almejado foi adquirido. Os gastos seriam o mínimo
possível. Quanto menor as despesas com a construção, maior seria o
capital de giro. E nada de tomar empréstimos. Esse era o lema.
E
o nome da loja? – pensou Beto – um empreendimento sem um nome
fantasia é como uma igreja sem sino. Até então não havia
imaginado nada. Poderia ser a junção dos nomes dos dois: Beto e
Ritinha. Talvez surja um bom nome. Seria também uma maneira de
homenageá-la. Afinal, Ritinha tinha sido a mola propulsora desse
sonho quase impossível.
Beri
– Não, pensou. Seria uma confusão. Berí ou Beri. Com ou sem
acento. E depois parece nome de Bairro.
Berita
– Também não. Lembra britadeira, ou pior, birita.
Alberi
– Alberto e Rita. Horrível. Lembra albergue.
Quem
sabe Alma, a junção de Alberto e Maria – mas o nome dela não é
Maria. É Maria Rita, ou simplesmente Ritinha. Além do mais, Alma é
alma do outro mundo. Cruz credo.
Almari,
Alberto e Maria Rita. É, gostei – pensou. Almari – Materiais de
Construção.
Acho
que Ritinha também vai gostar – concluiu. Pensando em Ritinha,
lembrou-se que ainda não haviam escolhido o nome da criança.
Precisavam selecionar pelo menos dois: um masculino, e outro
feminino.
–
E o
sócio? Afinal, o sócio também deveria participar do processo da
escolha do nome da loja. Antes de tudo, seria melhor consultá-lo.
São coisas aparentemente simples, mas que podem gerar depois um
grande problema. Na maioria das vezes o primeiro impulso, motivado
pelo entusiasmo, na melhor das intenções, nos faz tomar decisões
precipitadas. E aí vem o arrependimento, mas já é tarde. A
complicação generaliza e fica fora de controle. Decidiu então
aguardar e submeter à apreciação do sócio, quando fosse
apresentar seu relatório costumeiro. Mas o sócio cada vez mais o
surpreendia. Para ele, sua opinião sobre essas questões de nome e
outros detalhes eram irrelevantes. Ficariam a cargo de Beto. O que
ele resolvesse, estava resolvido. Mesmo assim, com toda a regalia e
confiança que o sócio lhes facultava, Beto fazia questão de
apresentar um relatório semanal ou, no máximo, quinzenal.
Tocar
uma obra sem conhecimento e com poucos recursos, não é tarefa
fácil. Quem já teve essa experiência sabe o que é sentir-se
impotente nas mãos de profissionais desonestos e inescrupulosos. Mas
a providência DIVINA intercedeu mais uma vez em favor de Beto. Por
intermédio do seu ex-patrão, conseguiu um mestre de obra muito
competente, responsável e honesto. Por outro lado, Beto não era
nenhum leigo no assunto. Durante a convivência com Seu Jairo,
conseguiu adquirir um pouco de conhecimento sobre construção. Isso
favoreceu por demais o entendimento entre Beto e o mestre de obra,
resultando em uma melhor fluidez na execução do projeto.
De
um lado do terreno seria construída a loja no andar térreo. Sobre a
loja seria erguido o pequeno apartamento, futura morada de Beto,
Ritinha, Marquinhos e a criança que estava chegando. No andar
térreo, inicialmente seria construído apenas a loja na frente e, no
fundo, o escritório, um sanitário e uma sala de refeição com uma
cozinha americana. O outro lado seria apenas cercado com uma cancela
larga na frente para dar acesso aos caminhões. Os blocos, areia,
brita etc., ficariam armazenados nessa área. Uma pequena parte no
fundo da área cercada seria coberta de telha de amianto, para
armazenagem das estroncas, barrotes e cimento. Futuramente, quando o
estoque começasse a aumentar e diversificar com mercadorias mais
caras, em lugar da cerca seria erguido um muro alto, e a cancela
seria substituída por um portão de ferro. E a escada para o acesso
ao andar de cima, onde ficaria? Era preciso definir tudo, antes de
iniciar a fundação. A escada precisa de coluna e viga de
sustentação. E o correto é aproveitar colunas e vigas da estrutura
para a sustentação da escada. Com isso, evita-se o desperdício de
material. Não pode haver nada pior do que uma obra mal estruturada,
onde se vê uma escada improvisada, mal localizada, estreita, com
pisos e/ou espelhos fora do padrão. Mesmo sabendo que o apartamento
não seria construído por agora, mas o projeto da escada tinha que
ser feito. Chamou o mestre de obra e começaram a definir os
detalhes, não só da escada, mas também os sanitários e a caixa
d'água. As colunas de água e esgoto precisam ficar alinhadas, para
não comprometer a pressão da água e o escoamento do esgoto, além
de evitar o desperdício de material.
Tratando-se
de um terreno de esquina, indiscutivelmente a escada deveria ser
construída no fundo, depois das dependências, com acesso pela outra
rua. O apartamento ficaria com a entrada totalmente independente da
loja. Para alcançar o primeiro andar, considerando um pé direito de
dois metros e oitenta, uma escada, dentro de um padrão razoável,
precisa ter vinte degraus. A escada foi projetada com pisos de 24,25
cm, espelhos de 14 cm, e mais um recuo de 115 cm, já considerando a
largura da parede. A escada ficou com, exatamente, seis metros. Como
a largura da construção era de seis metros, não haveria espaço
para o patamar de acesso. É aí onde surgem as verdadeiras
aberrações. Para solucionar o problema, os autodenominados
“profissionais” reduzem a medida do piso, aumentam a altura do
espelho, ou, simplesmente, constroem o primeiro degrau da escada
sobre o passeio publico. Foi descartada a opção fazer a escada em
formato de “U”, com um patamar de descanso no meio, porque
haveria perda de espaço e aumento no custo da obra. A solução
encontrada foi aumentar uma das vigas de sustentação, no primeiro
andar, em mais 135 cm, na direção da área cercada, e construir um
patamar de 135 cm x 270 cm, no balanço, para dar acesso ao
apartamento. As ferragens das vigas ficariam nuas, aguardando a
concretagem. E, até a construção da escada, a entrada pelo outro
lado da rua ficaria fechada. Confirmou os cálculos com o mestre, e
constatou que não haveria risco em o patamar ficar no balanço,
porque, sobre ele, teria apenas a mureta de proteção. Beto olhou
satisfeito o desenho da escada e pensou – depois de pronta vai
ficar perfeita. Até seu Jairo vai gostar. Ficará orgulhoso do meu
trabalho.
Por
mais de uma vez Beto teve que alterar o seu projeto. Foi uma das
coisas que aprendeu nos cursos que fizera. Toda empresa precisa,
antes de qualquer coisa, ter um planejamento a curto e a longo prazo.
O projeto é um detalhamento das ações definidas no planejamento.
Ele não é algo engessado, inalterável. Muito pelo contrário, é
dinâmico. Sempre que necessário, altera-se, corrige-se, de modo a
representar, o mais fiel possível, a realidade.
Inicialmente,
para reduzir o custo da obra, Beto pensou em construir apenas o salão
da loja, cobrir com telha de amianto, e deixar a parte do fundo para
outra etapa. Posteriormente, na medida do possível, substituiria as
telhas por laje, setor por setor. Mas, conversando com o mestre de
obra, ponderou: a mercadoria em exposição teria que ser remanejada
de um canto para outro, à
medida que ia substituindo as telhas por laje. O resultado seria uma
laje cheia de emendas, além do risco de avariar alguns produtos.
Desistiu da ideia e optou por bater a laje em todo o salão.
Aproveitou também para ampliar um pouco mais, já que seria
definitivo. Para não perder tempo e iniciar a vendagem precisava, o
mais rápido possível, de um local para receber os representantes.
Necessitava
também de um local para dormir. Ele faria também o papel de vigia.
O risco de deixar o material exposto era muito grande. O melhor então
seria construir o salão e as dependências do fundo em uma tacada
só. Quando fez as devidas correções no projeto, percebeu que o
capital de giro praticamente havia desaparecido. Sem contar com o
aumento do material que foi além do previsto. Não poderia
simplesmente recorrer ao seu investidor anjo, pois esse já havia
feito até demais. O que fazer? Fez e refez os cálculos, mas o
resultado era o mesmo. Os fornecedores eram implacáveis, ele bem
sabia. Principalmente os de materiais pesados, os carros-chefe das
vendas. Bloco, areia, brita e cimento eram os que ofereciam menor
prazo para pagamento. Era praticamente pagamento à vista. No
primeiro atraso a empresa perderia o crédito. E uma empresa
iniciando, com todas as dificuldades, e ainda sem crédito na praça,
estaria fadada a fechar as portas antes mesmo de começar. Foi aí
que surgiu a grande ideia. Conversou com seu ex-patrão, e expôs a
proposta. Beto pegaria todo o material para sua obra na loja do
ex-patrão. Uma parte seria consumida na construção da Almari, e a
outra parte, seria destinada à venda. E aí, à medida que Beto
fosse consumindo o material na obra ou vendendo, pagaria aquele
material retirado e faria uma nova retirada. Pediu ao ex-patrão que
a parte destinada à venda seria fornecida a preço de custo, e o
lucro obtido seria dividido, ou seja, 50% para cada. Na verdade, o
que Beto estava propondo era que o ex-patrão lhes fornecesse a
mercadoria em consignação. Naquele início, Beto não estava
visando uma boa margem de lucro. Estava ciente que a margem seria bem
pequena. O que ele precisava mesmo era fazer o giro e conquistar a
clientela. O ex-patrão, não só aceitou como também melhorou a
proposta de Beto. Todo o material que fosse utilizado na construção
da Almari seria fornecido também a preço de custo, acrescido apenas
dos impostos. Beto, sem palavras, com os olhos marejados,
simplesmente abraçou-o e, mentalmente, pediu a DEUS proteção para
aquele homem, e a tantas outras almas caridosas que o ajudaram e
continuavam a ajudá-lo naqueles momentos tão difíceis de sua
trajetória.
Comprou
tapumes, barrotes e telhas, um sofá-cama, duas cadeiras e uma mesa
de bar. Tudo de segunda mão. Com a ajuda do mestre de obras,
improvisou um barraco num canto do terreno. O barraco serviria, não
só para guardar as ferramentas e o cimento, como também seria o seu
novo dormitório. Durante o dia era vendedor, fiscal de obra, e
ajudante. À noite era o vigia. Só saia do seu posto nos finais de
semana, quando o sobrinho do seu mestre de obra podia rendê-lo.
Durante
a construção da Almari, Beto dividia seu tempo aprimorando seus
conhecimentos através dos cursos gratuitos, fiscalizando e vigiando
a mercador e o canteiro de obra. Sempre que requisitado ia à loja do
seu ex-patrão para auxiliar e/ou orientar ao seu substituto. Em suas
folgas, fazia visitas sistemáticas a Ritinha, e seu rebento. Tinha
consciência do quanto era imprescindível esse apoio durante as
fases da gestação.
–
Ritinha,
tu vem armuçar aqui hoje. Vou fazer uma coisa gostosa pra tu.
Era
Dona Romilda preocupada com a alimentação de Ritinha, naquele
corre-corre pra cima e pra baixo dando aula. Vez por outra preparava
um fígado mal passado acompanhado de uma verdurinha refogada, ou até
mesmo aumentava a porção de filé do gato, passado na manteiga, com
cebola e batata gratinada, e dividia com Ritinha.
–
Tu já
tá veia, mas a minina percisa se alimentar direito pra nascer forte
– disse Dona Romilda.
–
Mas eu
ainda não sei o sexo – argumentou Ritinha. E lá vem a Senhora de
novo com essa estória.
–
É, eu
ainda tinha cá cumigo as minhas dúvidas. Mas agora tenho certeza. É
minina sim – contra argumentou Dona Romilda.
–
E de
onde vem essa certeza, posso saber? – perguntou Ritinha curiosa.
Calmamente,
sem responder, Dona Romilda dirigiu o olhar na direção dos quartos
onde ficavam seus hóspedes e, num tom mais alto, ordenou:
–
Vem cá
Dona Firmina.
Dona
Firmina era uma preta já de idade avançada, tipo miúda com os
cabelos esbranquiçados, olhos vivos que denotavam ter sido uma
pessoa dinâmica. Por conta da idade, já não era tão ágil.
Apareceu no limiar do corredor e, com passos lentos, um sorriso nos
lábios, aproximou-se das duas que estavam sentadas a uma das mesas
do refeitório. Nesse horário, a sala já estava vazia.
Era
uma velha conhecida de Dona Romilda, mãe de um dos seus hóspedes.
Era um bom hóspede, e bom filho. Sempre que podia, trazia a mãe do
interior para a cidade, com o pretexto de levá-la ao médico. Na
verdade a mãe tinha uma saúde de ferro. Era mais uma maneira de dar
um passeio pela cidade. Dona Romilda gostava quando ela vinha.
Ficavam proseando, ajudava nos afazeres e, até iam juntas fazer
compras. As estadias não eram longas e, ultimamente, Dona Romilda só
cobrava as diárias do filho. As da mãe ficavam como cortesia.
–
Diz pra
ela aí, vai! – era o jeitão de Dona Romilda falar.
Dona
Firmina, mantendo o sorriso no rosto, olhou para Dona Romilda, voltou
o olhar para Ritinha e disse:
–
Outro
dia, quando te vi, falei pra Dona Romilda. É uma minina.
Dona
Romilda, demonstrando satisfação, ajeitou-se na cadeira, começou a
balançar as pernas gordas e disse – Hum. Como se dissesse: está
convencida agora?
Novamente
Ritinha curiosa indagou a Dona Firmina – como a senhora sabe, e diz
com tanta certeza?
Dona
Firmina aproximou-se calmamente de Ritinha, acariciou o seu ventre e
disse:
–
Ô minha
fia, eu num sei. Só sei qui é uma minina.
Percebendo
que a resposta não havia convencido à jovem grávida, continuou: –
Se eu falá uma coisa tu num vai se assombrá, num vai dizê qui essa
veia é doida e num vai caçuá deu?
Ritinha,
num misto de espanto e curiosidade, respondeu num fio de voz.
–
Não.
Prometo.
Então
Dona Firmina ficou séria e começou a relatar com calma,
pausadamente, e com toda a segurança. Estava sendo projetada ali, na
frente dela, a imagem de uma linda moça de olhos azuis, cabelos
castanhos e ondulados. Seu olhar é muito meigo, e tem um sorriso
franco, espontâneo, quase que angelical. Agora uma voz explicava que
se tratava da filha de Ritinha quando alcançasse a idade de mais ou
menos dezoito anos. Ela se chama Marta. Queria muito fazer parte
desse grupo, dessa falange. Sentia-se muito feliz e realizada porque,
finalmente, dessa vez tudo se concretizaria. Caso não houvesse
nenhum inconveniente, ela gostaria de continuar a usar o nome de
Marta. Agradecia, primeiramente a DEUS, pela oportunidade que lhes
fora concedida, e às mães, por aceitá-la e recebê-la com tanto
amor e carinho.
Dona
Romilda, tomada de uma forte emoção, inexplicavelmente sentindo uma
angustia no peito, acompanhada de uma sensação de imensa saudade,
desabou em prantos. Ritinha, também emocionadíssima, não deu
espaço para o pânico ou medo. Um pouco mais refeita, Dona Romilda
vira-se para Dona Firmina e diz.
–
Assim a
sinhora me mata. Meu coração veio num aguenta mais esses ripuxos.
Antes
mesmo de concluir a primeira etapa da construção da Almari, Beto já
contava com uma boa clientela. Era bloco, cimento, areia, e brita
saindo do depósito a todo instante. Precisou contratar um ajudante
para ajudá-lo no carrego das mercadorias para os clientes, pois, ao
final do dia, estava todo alquebrado, sem contar com a dormida no
surrado sofá-cama nada confortável.
Finalmente,
a primeira etapa da obra foi concluída. O salão estava rebocado,
pintado, com portas e piso de cerâmica. O restante, apenas rebocado,
com portas e janelas improvisadas, construídas com tábuas usadas da
própria construção. Muito satisfeito e feliz, Beto nem esperou a
sua folga do final de semana. Dirigiu-se ao orelhão, localizado na
outra esquina, próxima da Almari, ligou para o seu sócio,
investidor anjo, e contou a boa nova. Para ele, Beto, era apenas uma
etapa concluída. Mas para o sócio, não. Aquele era um
acontecimento muito importante e, de maneira alguma, poderia passar
em branco. Fez questão, alias, praticamente exigiu que Beto
comparecesse no próximo domingo em sua casa, acompanhado de Ritinha.
Seria um almoço em família, mas um almoço especial, em comemoração
ao sucesso do novo empreendimento.
Devido
à correria nos últimos tempos, Beto não encontrava mais os
compadres com tanta frequência. Raramente num dia ou outro, quando
tinha folga, conseguia tempo para jantar com eles e matar um pouco a
saudade. Não só dos compadres/pais, mas também do seu quartinho e
da sua cama. Então o almoço do domingo foi providencial. Tiveram a
oportunidade de se reencontrarem. Estavam presentes o sogro, a sogra,
o genro, a esposa e o filhinho. A alegria foi geral. Muitas novidades
para contar, além, é claro, do motivo principal daquela reunião: a
inauguração oficial da Almari. O genro propôs que, após o almoço,
iriam todos conhecer, cortar a fita simbólica, e inaugurar a loja.
Todos riram, mas aceitaram a proposta. O sogro, aproveitando o
momento da euforia, anunciou.
–
Eu tenho
algo a dizer.
Sem
muito arrodeio, foi direto ao ponto. Disse que não pediu o
consentimento a Beto, porque sabia que ele negaria, mas quebrou a
promessa, e contou tudo aos pais dele. Beto arregalou os olhos, e
Ritinha ficou pasma.
–
Mas
vocês prometeram – balbuciou Beto. E Dona Zefa, deve ter ficado
arrasada. O meu compromisso com ela…
–
Esqueça,
esqueça – agitando as mãos, arrematou o sogro.
E
a sogra complementou – minha comadre Zefa está tão feliz que nem
tocou nesse assunto.
–
E Jairo,
tá tão besta com a chegada do neto, que não fala em outra coisa –
complementou o sogro.
Os
compadres precisaram fazer uma viagem de última hora até Riacho da
Mata para resolver assuntos com certa urgência. O encontro com Dona
Zefa e Seu Jairo era sempre festivo. Como costumeiramente, foram
recepcionados com muita alegria. Entre um gole e outro de café,
acompanhado dos deliciosos petiscos de Dona Zefa, a conversa versou
sobre variados assuntos. Inevitavelmente chegou o momento crucial.
Foi quando Dona Zefa perguntou pelo filho. Os compadres se
entreolharam e, não tiveram outra escolha. Procuraram contar tudo,
de forma adocicada, deixando de lado os momentos tristes e dolorosos.
Ao saber da notícia que teriam um neto, que seriam avós, Dona Zefa
ficou tão eufórica que já queria tomar o primeiro transporte para
a cidade. Queria ir para cuidar da norinha, acompanhar a gestação,
porque os últimos meses requer um cuidado especial etc. etc. Foi
preciso Seu Jairo interceder e acalmá-la. Também a comadre, por sua
vez, garantiu a Dona Zefa que estava tudo sob controle. O jovem casal
estava tendo muita ajuda, graças a DEUS, e a norinha estava sendo
muito bem assistida. Tanto a comadre, como a filha, deram toda a
orientação a Ritinha. A comadre esclareceu que está acompanhando a
gestante em todos os exames preventivos e dando toda a assistência
necessária. Diante do exposto, Dona Zefa ficou mais tranquila e
convenceu-se de que, por enquanto, não havia necessidade da sua
presença na cidade. Mas antes, fez a comadre jurar que a manteria
sempre informada. Por Beto, ela ficaria sem saber de nada, queixou-se
a mãe. A comadre, por sua vez, aproveitou a deixa para tecer um
comentário em forma de conselho. Precisava ter confiado um pouco
mais no filho. Não deveria interferir tanto na sua vida, a ponto de
decidir por ele o seu próprio futuro. O silêncio em volta dos
acontecimentos não foi ingratidão por parte do filho, e muito menos
por parte dos compadres. Ha muito que eles, os compadres, queriam dar
as boas novas, mas, com receio de magoar Dona Zefa, pactuaram com
Beto e optaram por aguardar um momento mais oportuno. Dona Zefa,
talvez por conveniência, ou pela euforia da boa nova, desconversou e
pediu mais detalhes à comadre. Nesse momento, a conversa polarizou.
A comadre, atendendo ao pedido de Dona Zefa, e o compadre, a
responder às inúmeras perguntas do Seu Jairo. A comadre começou
por descrever Ritinha. Uma moça encantadora. Meiga, amorosa,
educada, direita, e muito bonita. Seu Jairo, ouvindo do compadre um
monte de elogios dedicados a Beto, pensava cá com seus botões –
mais não é que meu menino virou mesmo homem e, ainda por cima, um
comerciante de mão cheia!
Beto
e Ritinha, apesar do susto inicial, agora estavam mais calmos e,
porque não dizer, bastante aliviados.
Já
passava do meio dia, quando um delicioso cheiro invadiu o ambiente.
Era o almoço que estava sendo servido. Seguiram todos em direção à
mesa. Como de costume, fizeram a oração de agradecimento e deram
início à refeição. Antes, porém, o genro fez questão de abrir
uma garrafa de vinho especial e fazer um brinde ao sucesso da Almari.
Nesse dia especial, saborearam um leitão à pururuca e um ensopado
de galinha ao molho pardo, trazidos pelos compadres diretamente de
Riacho da Mata. Em seguida, após a refeição, foi servido um pudim
de leite, um verdadeiro manjar dos deuses, acompanhado de biscoitos
assados no forno a lenha, especialidade de Dona Zefa.
Durante
a conversa animada, alguém lembrou que o neto ou neta de dona Zefa
ainda não tinha nome.
–
Como
não? – Interveio Ritinha. – Ainda não sabem?
–
Desculpem-me
– disse Beto. A correria foi tanta durante essa semana que nem tive
oportunidade de comentar. Mas foi uma coisa incrível. Conte aí
Ritinha – concluiu.
Ritinha
começou então a relatar o ocorrido. Dona Romilda, a sua mãezona,
por mais de uma vez já havia falado que seria uma menina. Mas ela,
Ritinha, não levou a sério. Achou que era apenas um palpite de Dona
Romilda. Mas aí teve a confirmação através de Dona Firmina. Nunca
havia presenciado uma coisa daquela. Dona Firmina, uma pessoa sem
muita instrução, de repente começou a falar de uma maneira
diferente do seu habitual. Usando um vocabulário um tanto rebuscado,
começou a descrever e relatar minuciosamente tudo. As duas, Ritinha
e Dona Romilda, sentiram naquele momento uma sensação
indescritível. Foi uma emoção muito forte. Ao final, sem saber
como, Ritinha recebeu o abraço carinhoso de sua filha, ainda dentro
do útero. A partir daí, ela não teve mais nenhuma dúvida.
Com
os olhos marejados, Ritinha concluiu o relato e, instintivamente,
abraçou Martinha ainda no ventre.
Todos
ficaram em silêncio, sem saber o que dizer.
–
Que
coisa fantástica, maravilhosa, disse finalmente a comadre. Gostaria
muito de conhecer essa Dona Firmina.
Dona
Zefa e a comadre sonhavam com um casamento, não tão pomposo, até
porque as condições financeiras não permitiam, mas também não
tão simples. A igrejinha da vila toda decorada com flores, repleta
de convidados, Beto no altar, nervoso como todo noivo, ao lado dos
padrinhos e madrinhas, aguardando a noiva. Como não poderia deixar
de ser, a noiva faria o tradicional desfile, ao som da marcha
nupcial, de braço dado com o pai, ou outro representante. Ao final
do desfile, a noiva seria entregue ao noivo. O padre, após o pequeno
sermão, realizaria a cerimônia. Após a célebre pergunta do sim,
pediria que trocassem as alianças e, finalmente, diria “pode
beijar a noiva”.
Mas,
nem sempre tudo é possível. E daí? De que adianta a celebração
de uma união, cheia de requintes, acompanhada de festas com muitos
convidados, juras e mais juras de eterno amor, para depois acabar
tudo em cinzas. As festas acabam com a saída do último convidado.
As juras não verdadeiras são apenas palavras ao vento. Será que
tudo isso não passa de regras impostas por uma sociedade hipócrita?
Tudo bem. Dona Zefa e a comadre, assim como muitas outras mães,
sonham para os seus filhos, celebrar a união em uma linda cerimônia
de casamento. É uma tradição, carregada de sentimentos sinceros,
que acompanha muitas gerações. Mas o que importa mesmo é a
felicidade que brota da união entre dois seres, alimentada por um
amor verdadeiro. É a paz reinante, mantida pela compreensão,
paciência e renúncia. É a sinceridade e confiança que fortalece,
a cada novo dia, a união entre dois seres.
Após
o almoço, a pequena comitiva, com o intuito de realizar o ato da
“inauguração”, segue em direção à loja. Localizada em um
bairro classe média, nas proximidades da entrada da cidade. Com uma
topografia relativamente plana, o bairro em franca expansão tinha
todos os ingredientes necessários para o crescimento e expansão da
loja. Pararam próxima a uma esquina bastante movimentada, em frente
a uma edificação nova. Na fachada, no alto, via-se pendurada uma
modesta placa azul clara, com letras vermelhas, onde se lia “Almari
– Materiais de Construção”. Na frente do estabelecimento haviam
duas portas de ferro, com cerca de dois metros de largura cada, do
tipo bastante comum, conhecida como rolante, que abre suspendendo e
corre sobre dois trilhos laterais. Nas laterais haviam mais duas
portas de madeira, uma em cada lado. Ambas com oitenta centímetros
de largura, reforçadas com grades de ferro. Na parte do fundo, toda
a ventilação e iluminação era obtida através de aberturas feitas
na parte alta das paredes. Essas aberturas eram emolduradas com vigas
de concreto e fechadas com barras paralelas, também de concreto. As
barras eram colocadas enviesadas, no sentido vertical, com
espaçamento de cerca de dez centímetros entre elas. As barras
enviesadas, colocadas propositalmente para impedir a visão do
ambiente interno. Em resumo, era uma mine fortaleza.
Beto
dirigiu-se à porta localizada em uma das laterais, abriu-a, entrou e
acendeu as luzes.
O
salão tinha cerca de seis metros de largura por dez de comprimento.
O teto era pintado de branco, e as paredes, de um bege bem claro,
quase areia. Todo o piso coberto com uma lajota marrom clara. No
salão, as mercadorias estavam expostas em mostruários improvisados,
separados mais ou menos por artigos: tintas, tubos e conexões, pisos
e revestimentos, etc. Na ala de tubos e conexões, foram erguidas
duas estruturas que mais pareciam umas espécies de árvores, com
cerca de um metro de base e um metro e sessenta de altura, elaboradas
com os próprios materiais em exposição, ou seja, os tubos,
joelhos, curvas, luvas, etc. Uma feita com materiais soldáveis, sem
rosca, e a outra, de peças com rosca. Na base ficavam os materiais
com bitola mais grossas e, com o auxílio das reduções, a estrutura
ia sendo erguida, culminando com as peças de bitola mais fina. Todos
eles cuidadosamente etiquetados com suas respectivas especificações
e bitolas. Tinha também uma terceira, só de material para esgoto.
Em outra ala, duas placas de tapume, lixadas e envernizadas, presas
em uma das laterais, formando um “v” de cabeça para baixo. As
duas laterais da estrutura de tapume eram cobertas, aleatoriamente,
de amostra de pedras cerâmicas. De um lado eram pisos, e do outro,
revestimentos. Outra estrutura de tapume foi utilizada para exposição
de azulejos e pastilhas. Latas e galões de tintas, de diversas cores
e vários tamanhos, estavam expostas em estruturas cônicas. Todas
essas estruturas eram erguidas sobre pedestais improvisados, feitos
de paletes, cuidadosamente lixados, e envernizados com verniz
transparente. Com essa decoração simples e barata, as poucas
mercadorias encheram o salão que, além de mostruário, passou
também a ter a função de depósito. No fundo do salão tinha um
pequeno balcão e, sobre ele, havia uma balança, uma máquina
registradora, canetas e blocos de nota. Atrás do pequeno balcão,
prateleiras com mercadorias miúdas.
Todos
ficaram admirados com a criatividade de Beto. Até Ritinha ficou
surpresa, pois desconhecia esse lado artístico do seu galego.
–
E a
inauguração, cantada em versos e prosas? – indagou a filha dos
compadres. E completou – ai dos homens se não fossem as mulheres.
Dizendo
isso, com aquele sorriso de vitória, próprio das mulheres,
reforçado pelos olhares de aprovação das demais, depositou uma
pequena caixa térmica sobre o balcão, e convidou a todos. Abriu a
caixa, sacou um champagne ainda gelado e entregou ao marido. Colocou
uma pequena bandeja sobre o balcão e, sobre ela, as tacinhas de
plástico, e um pacote de guardanapos. Sem nenhum comentário,
vencido mais uma vez pela perspicácia da esposa, o sócio de Beto
abriu o champagne, encheu as taças, pegou uma e, com um largo
sorriso nos lábios, anunciou:
–
Ao
sucesso da Almari.
Após
o brinde, enquanto as mulheres estavam admirando e observando tudo em
detalhe, o genro aproveitou a oportunidade e, diante de Beto e do
sogro, comentou.
–
Sinceramente
Beto, você está de parabéns. Extrapolou minhas expectativas. Tinha
quase certeza que você pediria mais recursos. Tanto é que, já
prevendo o seu grito de socorro, reservei um capital extra. Mas você
realizou um verdadeiro milagre!
Sorrindo,
Beto respondeu – Deus realizou o milagre. Eu apenas acreditei,
confiei, e executei.
Felizes,
todos se abraçaram e, mais uma vez, Beto agradeceu ao sócio e ao
compadre pela confiança a ele depositada.
Durante
os últimos meses de gestação, Ritinha é obrigada a diminuir a
clientela. Sem um local para dar banca aos seus pequeninos, ficava
cada vez mais difícil movimentar-se todos os dias de um lado ao
outro da cidade. Optou então por dispensar os que moravam mais
distante, ficando apenas com aqueles que moravam mais perto. Era com
muita dor e lágrimas nos olhos, que se despedia dos seus
pequerruchos. Muito emotiva, se apegava facilmente aos seus alunos.
Com isso, sua renda foi ficando cada vez menor, e agora mal dava para
ajudar nas despesas da casa (compromisso que Beto assumira com sua
mãe). Beto, por sua vez, assumiu novo compromisso, comprometendo
ainda mais o orçamento. Comprou uma camionete usada, dando uma
pequena entrada e dividindo o resto em prestações. Era uma
oportunidade que não poderia deixar passar. Com isso, ha meses que
não botava um prego na construção. Todo o lucro da Almari agora
era para aumentar o capital de giro. Precisava diversificar o
estoque, e não poderia ficar a depender da boa vontade do seu
ex-patrão, recebendo mercadoria em consignação. Além do mais, com
a venda da mercadoria consignada, a margem de lucro era pequena. Já
era tempo de a Almari firmar-se e começar a caminhar com suas
próprias pernas.
Com
a camioneta, deixou de pagar pequenos carretos. Passou a fazer
entrega do material vendido, a título de cortesia, somente para
aqueles clientes especiais, e em horários após o expediente. Com
isso foi cativando a clientela, e aumentando a sua freguesia.
Beto
agora raramente dormia em seu quartinho, na casa dos compadres.
Sentia muita falta dele. Aquele quartinho humilde, mas confortável,
guardava em suas paredes muitas lembranças, alegres e tristes.
Segredos, muitos deles inconfessáveis. O tempo passou muito rápido.
Os fatos decorridos eram relativamente recentes, mas dava a impressão
de que haviam acontecidos há muito tempo. Agora, em sua solidão,
deitado no seu improvisado quarto, no escritório da loja, sentia
falta de tudo. Dos beijos e abraços de Ritinha, do sossego de Riacho
da Mata, do aconchego daquele novo lar, que o ajudou a suportar os
primeiros dias na metrópole, da companhia dos compadres, dos mimos
da comadre, sua segunda mãe, do cheirinho do café fresco, e dos
lençóis limpos. A mente fica vagando, trazendo as lembranças
aleatoriamente. Foi indescritível a emoção que sentiu, quando pela
primeira vez escutou aquele som contagiante dos Beatles, reproduzido
através do seu toca-discos. Desconhecendo o idioma, apenas sentia a
música envolvente, frenética. O que dizia a letra? Com as poucas
palavras aprendidas no colégio não dava para entender. Mas não
importa. A música é pura magia. Tem o poder de nos conduzir, levado
pela imaginação. E a saudade de Dona Zefa e Seu Jairo, misturada
com incertezas, sentida logo nos primeiros dias de sua chegada à
metrópole. Havia momentos que dava vontade de largar tudo, voltar
para Riacho da Mata, cair no colo de Dona Zefa, como fazia quando era
criança. Abraçar a professora do primário só para sentir
novamente aquele cheiro suave de sabonete. A primeira sena de ciúmes,
quando Ritinha viu o seu calendário de borracharia. Ah Ritinha, como
era bonita. Agora, com aquela barriguinha estava ainda mais linda.
Mas tinha que continuar sua batalha, contentando-se com o mínimo de
conforto que seu velho e surrado sofá-cama podia lhes oferecer.
Pensando
bem, não poderia ficar eternamente arranchado no escritório da
Almari, até porque precisava de um escritório com cara de
escritório. A clientela da loja estava crescendo e, cada vez, mais
exigente. Já era chegado o momento de contatar representantes de
produtos de qualidade, de marcar consagradas no mercado. Não poderia
barganhar preço em um escritório que mais parecia um cortiço.
Precisava encontrar uma solução barata que resolvesse ambas as
situações. Pensou, pensou e, eis que surge uma brilhante ideia.
Construiria uma meia parede na sala de refeição, separando um
espaço com cerca de dois metros e vinte. A meia parede não
interferiria na luminosidade do ambiente. A sala de refeição
continuaria grande o suficiente para caber uma mesa de seis lugares,
armário, e o que mais fosse necessário. E no espaço reservado,
caberia a sua cama, o pequeno guarda-roupas, as prateleiras para
colocar seus discos, livros, o toca-discos, e seu velho rádio
mullard. E assim fez. Sarrafeou um contrapiso na sala, ergueu a meia
parede no lado oposto à cozinha, rebocou, e pronto. Naquele momento,
era o que podia ser feito. Agora precisava concluir o escritório.
Colocou um piso com pontas de estoque de cerâmica, tendo o cuidado
de combinar as pedras formando desenhos, rebocou e pintou as paredes.
Comprou um conjunto de móveis para escritório todo em aço, ainda
em perfeito estado, precisando apenas de uma nova pintura. O conjunto
era composto de um arquivo com quatro gavetões, um armário de duas
portas, e uma mesa escrivaninha
com duas gavetas. A cor era de um verde até bonito, mas estava muito
estragado. Colocou tudo em cima da camioneta e levou para uma oficina
de pintura de carro de um conhecido. Quando os móveis retornaram,
estavam irreconhecíveis. O pintor fez um trabalho no capricho. Lixou
todas as peças, aplicou um zarcão e, sobre ele, um cinza claro que
combinou perfeitamente com o piso do escritório. Por último,
comprou três cadeiras de ferro com estofado preto. Uma de braços
com roldanas, e as outras duas, comuns. O velho sofá-cama já fazia
parte da história da Almari e não podia simplesmente ser
descartado. Recebeu uma bela reforma e continuou ocupando seu lugar
de destaque no novo escritório. Colocou um tampo de vidro sobre a
escrivaninha e, sob ele, as poucas fotos que possuía. Em destaque,
uma tirada no dia da festa em que trocaram o primeiro beijo, onde
aparecia ele e Ritinha de corpo inteiro, elegantemente trajados.
Ainda
nem tinha dissipado o odor característico de massa fresca, e Beto já
estava entrando na Almari com sua mudança. Colocou os poucos móveis
na mesma disposição que estavam no quartinho do fundo, na casa dos
compadres, somente invertendo as paredes. Agora, o calendário da
borracharia ficara na parede oposta à cabeceira da cama, ao lado do
espelho manchado.
A
comadre sabia que cedo ou tarde, como se foi sua filha, Beto também
iria. A estada de Beto foi por pouco tempo, mas o suficiente para se
apegarem. Era mais um filho que ia embora. Não para tão longe como
fora sua filha.
Conheceram-se
numa festa de rodeio. Era tão novinha. A comadre lembra-se como se
fosse hoje. Ao chegarem em casa, viu nos olhos da filha o que temia
ver. O brilho, o encanto, a leveza que sentimos quando o amor invade
nosso coração. – Meu DEUS, o que vamos fazer – pensou a
comadre. – Esse homem, que nem conhecemos, arrebata o coração da
nossa única filha, tão nova, tão inexperiente, e leva por esse
mundão, sabe lá para onde! E a filha se foi. Mas, por ironia do
destino, além de não perderem a filha, os compadres ganharam mais
um filho maravilhoso. Mas coração não pensa. Apenas sofre.
Enquanto estava lá, o quartinho arrumado, mesmo com a ausência de
Beto, cada vez mais frequente, ele ainda estava lá. Mas agora, vendo
o quarto vazio, mesmo sabendo que não estará tão distante, é
sempre uma partida, uma despedida. E aí vem aquele velho aperto no
coração.
–
Meu
filho, não se esqueça de nós – exclama a comadre, junto ao
portãozinho do jardim da modesta casa, ao lado compadre, ambos com
os olhos rasos d'água.
–
Não
estarei tão longe – retrucou Beto. São apenas a alguns
quarteirões. E jamais esquecerei vocês – concluiu emocionado.
Como
a filha, também Beto trouxe-lhes outro membro para fazer parte da
família. Uma filha, meiga, carinhosa, educada que, por sua vez,
trará uma neta – pensou a comadre. Mas, ainda assim, continua o
aperto no coração teimoso que se recusa a raciocinar.
Ritinha
já estava nos últimos dias da gestação. A qualquer momento
poderia começar as contrações, ou até mesmo romper a bolsa, e sem
ninguém por perto. Não, de forma alguma ela poderia ficar só. Beto
e os compadres, preocupados com a situação, decidiram que a
gestante ficaria na casa deles, dos compadres. A comadre estava bem
lembrada do compromisso assumido com Dona Zefa. Além do mais, os
compadres já haviam adotado Ritinha e a neta. Era agora uma só
família. Dona Zefa não poderia nem sonhar porque a ciumeira seria
grande demais. Ritinha tinha consciência de que seria a melhor
solução, mas, ainda assim, ficou relutante porque não queria
deixar Marquinhos sozinho. Não poderia levá-lo. Além de ser mais
um incômodo, tinha a escola. Ficaria muito complicado ele ir sozinho
da casa dos compadres até a escola. Não conhecia ninguém por lá
que pudesse levá-lo todos os dias. Ele acabaria perdendo as aulas.
Mas Marquinhos já era grandinho e poderia muito bem se virar
sozinhos. Afinal, eram apenas poucos dias. Mesmo com esses
argumentos, Ritinha continuava irredutível. Foi necessário Beto
tomar uma posição mais enérgica para convencê-la a ir. Marquinhos
era seu filho, é bem verdade. Beto também o tinha como filho. Mas
ela, Ritinha, estava pondo em risco a vida de Martinha, sua filha
nascitura, totalmente indefesa, com essa atitude infantil, beirando a
irresponsabilidade. Ritinha então ponderou e deu-se por vencida. Mas
antes, porém, precisava conversar com a mãe biológica de
Marquinhos e fazer-lhe algumas recomendações. Beto concordou, mas
logo desistiram da ideia. Não que a mãe fosse má, ou
irresponsável. Ritinha agora a compreendia melhor. Foram tantas as
decepções em sua vida que lhe restou poucas opções. Os filhos,
frutos de esperanças frustradas, tornaram-se pesados fardos. E para
não dar cabo dos rebentos e de sua própria vida miserável, optou
por viver como uma autômata, sem presente, passado ou futuro.
Chamaram Marquinhos e tiveram uma longa conversa. Já era um
rapazinho e sabia se cuidar. E, no final, recomendaram que qualquer
problema que surgisse, recorresse a Dona Romilda ou à vizinha amiga
que, durante esses dias, ficaria incumbida de levá-lo à escola. E à
mãe, apenas comunicaram as decisões que haviam tomado. Em seguida,
Beto retirou a parte superior do beliche e, juntamente com o colchão,
arrumou na carroceria da camioneta. Em uma sacola arrumou algumas
poucas roupas de Ritinha, pegou a sacola de Martinha, já previamente
arrumada, e colocou tudo no carro. Por último, após despedirem de
Marquinhos, Beto, com todo o cuidado, conduziu Ritinha até o carro,
acomodou-a no banco, e rumaram com destino à casa dos compadres. Foi
com grande alívio que Beto deixou Ritinha em casa, sob os cuidados
da comadre.
A
semana foi de grandes expectativas. Quase todos os dias, após o
expediente, Beto ia até a casa dos compadres para fazer companhia a
Ritinha. A comadre não conseguia disfarçar a felicidade, ao ver o
jovem casal em harmonia. Não se cansava de paparicar os dois. O
esmero
era
tanto que até a sua própria filha já estava com uma pontinha de
ciúmes. Nem por sonhos Dona Zefa poderia saber de uma coisa dessas.
Aí a ciumeira seria geral.
Finalmente
chegou o dia. Ritinha começou a sentir as primeiras contrações. Ao
tomar conhecimento, o compadre imediatamente ligou para o taxista que
já se encontrava de sobreaviso
e,
em seguida, avisou a Beto. Sem muita demora, o táxi parou na porta.
Os três já se encontravam à espera no portão. Era um final de
tarde com poucas nuvens, e soprava uma brisa leve. Martinha não
poderia ter um dia melhor para seu retorno. Ritinha estava tranquila
e confiante, quando embarcou no veículo, acompanhada dos compadres.
Chegaram à maternidade sem maiores incidentes. Era uma maternidade
pública, mas bem-conceituada pela organização, e o seu quadro de
bons profissionais. Ao contrário do pomposo acontecimento que foi o
parto de Helena, Ritinha foi acomodada em uma enfermaria, em
companhia de outras parturientes. Pertencente à alta sociedade,
gozando de alto poder aquisitivo, Helena tratou de contratar uma
doula para acompanhá-la durante o período da gravidez. Essa prática
estava começando a ser implantada, visando um parto mais humanizado,
no intuito de proporcionar mais conforto, saúde e bem-estar à mãe,
e ao bebê. Mas, para Helena, o importante era não sentir dor, não
prejudicar sua aparência física, e seguir os ditames da sociedade.
Fazia questão de acompanhar o que estava em moda. Sua preocupação
com a aparência, de tão exagerada, chegava a dar sinais de
Transtorno Dismórfico Corporal (TDC). Enquanto Helena, em seu
apartamento individual, aguardava o momento de entrar na sala de
parto, Ritinha aguardava em uma enfermaria. Para amenizar a espera,
acompanhantes e parturientes confabulavam, falando de quase tudo. Era
uma forma de descontrair, acalmar os ânimos, e esquecer os temores.
Trocavam informações, falavam das experiências, e até mesmos de
coisas íntimas. Para elas, tudo que almejavam naquele momento era
uma assistência obstétrica mais humanizada, o direito de ter um
acompanhante durante o parto e, após o nascimento, aconchegar seu
rebento no seu peito, dando-lhe proteção, amor e carinho. Hoje,
graças a DEUS, o parto humanizado é um direito estendido a toda
gestante, inclusive na rede pública, independente da sua classe
social ou condição financeira.
Um
caso em particular, bastante comovente, chamou a atenção de todas.
Uma jovem que aparentava pouco mais de quinze anos, a única que
estava sem acompanhante, contou que havia sido violentada. Os pais
não acreditaram em sua história, e expulsaram-na de casa. Já fazia
cerca de cinco meses que, momentaneamente, estava acolhida em uma
instituição de caridade. Trouxeram-na e deixaram na maternidade
para ter a criança. Após o parto, prometeram que viriam buscá-la,
mas já avisaram que não poderá mais ficar na instituição, porque
lá não aceitam mulheres com filhos. Daí em diante, o destino dela,
e do seu filho, estarão nas mãos de Deus. Ao ouvir a história da
jovem, Ritinha lembrou-se da sua própria história. Com os olhos
marejados, pediu fervorosamente à sua Mãe Maria Santíssima que,
assim como foi amparada, protegesse e amparasse àquela jovem e seu
rebento, tão sozinha e tão desamparada nesse mundão cheio de
armadilhas.
Beto já
havia chegado e, em companhia do compadre, ficou aguardando lá fora.
Como estava um pouco nervoso, para acalmá-lo, o compadre começou a
falar das inúmeras dificuldades que os antigos tinham que enfrentar.
Ele mesmo, o compadre, passou o maior aperreio quando sua progenitora
estava grávida da irmã caçula. Naquela época não havia
maternidade aparelhada com médicos, enfermeiras, estoque de
medicamentos, e tudo o mais. Contavam apenas com uma velha parteira
que atendia toda a região, e a proteção DIVINA. A progenitora
estava na última semana de gestação, quando a velha parteira
precisou ausentar-se por uns dois dias a fim atender a um chamado de
emergência. Mas antes de partir, a velha tomou todas as precauções.
Acompanhada da sua assistente, dirigiu-se até a casa da mãe do
compadre, examinou-a, e constatou que estava tudo em ordem. Apenas a
criança ainda não havia encaixado. Mas isso era normal. Presumiu
então que, mesmo que ainda não tivesse retornado, a sua assistente
daria conta do recado. Seguiu então, montada em sua égua
pachorrenta, para atender ao chamado. Por uma fatalidade, as
contrações da progenitora começaram antes do previsto. O compadre
correu até a casa da assistente da velha parteira, e trouxe-a
imediatamente. A assistente, coitada, inexperiente, visivelmente
nervosa, começou a prepara a parturiente. As contrações começaram
a ficar mais intensas, mas nada de sinal da criança. Por uma
centelha DIVINA, a assistente, mesmo com a pouca experiência,
constatou que o bebê ainda não havia encaixado. Era um caso que só
a sua mestra poderia tentar resolver. Para buscar um médico, além
de caro, não haveria tempo. Mesmo com tempo firme, de jipe, (veículo
leve, fabricado no Brasil durante as décadas de 50 a 80, com tração
nas quatro rodas, que conseguia trafegar por caminhos de difícil
acesso) seria mais de um dia de viagem para ir de Riacho da Mata até
a metrópole, e retornar com o médico. Foi então que o compadre
Jairo prontificou-se a buscar a velha parteira.
–
Mas
como? – retrucou o compadre. Com aquela égua ronceira, quando a
velha chegasse, nossa mãe já estaria morta.
Se
tivesse estrada, poderia providenciar um carro. Seria mais rápido.
Seu Jairo nem deu ouvidos ao compadre, que naquela época nem
sonhavam em ser compadres, porque ainda nem eram casados. Arreou seu
cavalo campolina,
passou
o cabresto na mula russa, famosa e cobiçada pela sua marcha ligeira,
esquipado macio,
e
tocou pras bandas do Maturí, onde se encontrava a velha parteira.
Quando lá chegou, a velha tinha acabado de botar mais uma criança
no mundo. Seu Jairo pediu água para ele, e os animais, engoliu uma
caneca de café, pegou o silhão da parteira
(antiga
sela feminina que a mulher cavalgava de lado)
e
a bride da égua pachorrenta, arreou sua mula russa. Ajeitou a velha
parteira em sua sela especial e gritou para a sua parceira de viagem
– segura a rédea firme que agora nós vamos andar! Tocou a espora
de leve no vazio do seu cavalo e, imediatamente, a mula entrou no seu
ritmo de pisada ligeira. Cara para cima, cauda baixa, narinas
arregaçadas, e olhos arregalados filmando a estrada. Era um animal
digno de uma pintura a óleo. E o cavalo também não ficava atrás.
E foi assim, nesse ritmo que viajaram quase todo o percurso.
Diminuíam a marcha apenas nas passagens mais difíceis, ou nas
travessias de algum córrego. Como dizia o ditado antigo, antes que o
cuspe secasse no chão, Seu Jairo já estava riscando na porta da
casa da parturiente. Com alívio o compadre viu os dois viajantes
chegarem montados sobre os animais ofegantes e suados. Agilmente,
como um verdadeiro peão, Seu Jairo pulou do seu cavalo, deu a volta,
posicionou-se ao lado da mula, e ajudou sua parceira de viagem a
apear. Antes mesmo que a velha parteira entrasse na casa da
parturiente, um adolescente, ajudante de Seu Jairo, já seguia rua
abaixo, puxando os animais pelos cabrestos, para desarreá-los e
soltar no pasto. Seu Jairo, com ar de vitorioso e a sensação do
dever cumprido, seguiu em direção ao grupo de homens que
aguardavam, ansiosamente, o desfecho daquela situação. O amigo,
futuro compadre, sem dizer uma só palavra, abraçou-o calorosamente
e, em seguida, ofereceu-lhe uma dose de meladinha (cachaça com mel
de abelha e outros ingredientes). Desse dia em diante, tornaram-se
amigos inseparáveis. Pouco tempo depois, com muita tristeza, Seu
Jairo vendeu sua parelha de animais, magnificamente adestrados por
ele próprio, para completar o dinheiro da compra do sítio.
Sem
perda de tempo, a velha tomou dois goles de água, que lhes
ofereceram, e adentrou ao
quarto
da parturiente. Sem tirar os olhos daquela barriga, arregaçou as
mangas da blusa e, maquinalmente, lavou as mãos na bacia que já se
encontrava ao lado da cabeceira da cama. Segurou a barriga e, com
maestria, começou a fazer movimentos. Apenas com as mãos, sem uso
de nenhum aparelho, a velha parteira usou a técnica conhecida como
VCE – versão cefálica externa. O suor começou a escorrer da sua
fronte. Prontamente, com uma toalha, a atendente enxugou seu rosto,
bastante marcado pelas rugas do tempo. Seus cabelos grisalhos, ainda
desalinhados pelo vento da viagem, aguardavam o momento oportuno para
serem penteados. O estado da parturiente era lastimante. Já havia
passado a hora da criança nascer. Continuava a corrida contra o
tempo. E foi com um leve sorriso de satisfação que a velha parteira
tranquilizou a todos. A criança já estava encaixada. Restava agora
um último esforço da mãe para expulsar a sua cria. Acatando ao
pedido da velha parteira, a mãe buscou os últimos resquícios de
força que ainda lhes restava para, finalmente, coroar com êxito
aquele trabalho que, mais uma vez, contou com a ajuda do ALTO. Ha
muito que a velha sabia, e sentia muito porque não lhe era possível
passar aquele “dom”
para sua assistente.
Hoje,
em Riacho da Mata, as coisas estão bem mudadas. A vila conta com um
pequeno posto médico, as estradas estão bem melhores, e o tempo da
viagem até a metrópole está bastante reduzido. A conversa
descontraída do compadre deixou Beto bem mais tranquilo. A realidade
agora era bem diferente. Os tempos eram outros. Ritinha estava lá
dentro, bem assistida, e bem acompanhada pela comadre. Mesmo assim,
agora bem mais calmo, Beto murmurou baixinho, pedindo a DEUS que nada
de mal acontecesse a Ritinha e a Martinha.
Já
fazia quase um par de horas que Ritinha havia sido conduzida à sala
de parto. A comadre não sabia mais quantas vezes tinha debulhado o
seu terço, quando avistou a jovem auxiliar do médico sair da sala
sorridente. A comadre já sabia, mas esperou apenas que a moça
confirmasse. Sua neta havia nascido. A mãe e a filha passavam bem.
Com grande emoção e os olhos rasos d'água, ela abraçou a
portadora da boa notícia e pediu, por gentileza, que transmitisse a
boa nova ao primeiro galego alto que encontrasse lá fora, ou na sala
da recepção, cujo nome era Beto, que a essa altura deveria estar
próximo a um ataque dos nervos. Ela, a comadre, não deixaria o seu
posto por nada desse mundo. Ficaria ali de prontidão para acompanhar
sua filha e a neta de volta à enfermaria. E lá, sem desgrudar das
duas, por um minuto sequer, permaneceria até o momento de irem para
casa. Com as graças de DEUS, nada de mal haveria de acontecer.
Depois
que Dona Zefa soube do nascimento de Martinha, Seu Jairo não teve
mais sossego. Ela queria vir para a metrópole de qualquer jeito, e
sem demora. Foi com muito custo, paciência, e bastante diálogo, que
Seu Jairo conseguiu acalmá-la. Ponderou que, certamente, saindo
naquele horário chegariam tarde da noite ao destino. E, ao chegarem,
ainda teriam que providenciar um local para dormir. Finalmente, Dona
Zefa convenceu-se de que o melhor seria aguardar até a manhã
seguinte. Tomariam o ônibus bem cedo e chegariam à metrópole pouco
depois do meio dia. E aí teriam tempo bastante para tomar todas as
providências. E assim fizeram. Quando desembarcaram do ônibus, Beto
já os aguardava na plataforma. Com os olhos marejados, um misto de
alegria e saudade, Dona Zefa abraçou o filho, como se quisesse
trazê-lo de volta para seu útero. Naqueles poucos segundos, como um
filme, passaram em sua mente os nove meses de gestação, as horas e
horas de diálogo mãe e filho, as noites mal dormidas cuidando das
cólicas, das febrículas, os sobressaltos oriundos das quedas, dos
arranhões, a dor da primeira desilusão. Calada, sem dizer nada, sem
deixar transparecer, sentindo-se impotente, comungava a dor do filho.
Sabia que era impossível, mas como ela gostaria de curar aquela dor
tão doída com merthiolate
e
band-aid, como sempre fazia. Em seguida, abraçaram-se pai e filho.
Cronologicamente, o tempo passado foi muito curto, mas para Seu Jaime
foi uma eternidade. Já nem se lembrava mais sobre aquelas dúvidas
que tivera a respeito da masculinidade do seu filho. Os temores de
ter que sustentar, por toda uma vida, uma maricona mal falada por
toda a redondeza, estavam sepultados. Seu filho agora é um
homem-feito, um jovem empresário em plena ascensão, motivo de
orgulho para qualquer pai. Melhor seria se tivesse dado um neto, mas
estava conformado. DEUS sabe o que faz. Dona Zefa olhou mais
demoradamente para o filho e pensou – não estava diante de um
Cardeal, de um Juiz, ou alguma outra autoridade, mas era seu filho.
Lembrou-se dos conselhos da comadre. O que importa é a sua
felicidade. E ela viu a felicidade estampada nos olhos de Beto. Mas,
mãe é mãe, e não pode deixar de observar os mínimos detalhes.
–
Meu
filho, você está magro – sentenciou Dona Zefa. Aposto que não
está se alimentando direito – complementou.
Sem
contra-argumentos, Beto pegou a bagagem, arrumou tudo na camioneta, e
rumaram em direção à casa dos compadres, onde Ritinha e Martinha
também se encontravam, recém-chegadas da maternidade.
Ritinha
estava apreensiva e temerosa. Era o primeiro encontro com a mãe de
Beto, e não sabia como seria a recepção. Depois que soube da
chegada da neta, Dona Zefa esqueceu completamente o compromisso seu e
de Beto com a Santa. Os compadres já haviam tranquilizado ao jovem
casal. – Mas uma coisa é esquecer, outra coisa é apenas não
comentar para evitar atritos e/ou constrangimentos – pensou
Ritinha. Isso poderia tornar-se um grande empecilho, prejudicando
substancialmente o relacionamento entre mãe e nora. Com esses
pensamentos povoando sua mente, na tentativa de amenizar o
nervosismo, Ritinha mergulhou nos afazeres domésticos. Na cozinha,
um pouco mais calma, absorta em seus pensamentos, ela ouviu a comadre
anunciar a chegada dos compadres. Era chegado o momento de estar
frente a frente com a sogra. Seu coração disparou.
De
formação bem diferente de Seu Jairo, Dona Zefa era uma verdadeira
leide. Alta, pele alva, cabelos ondulados, grisalhos, mesmo com
roupas mais simples, não deixava de transparecer seu porte fino e
elegante. Seu pai, comerciante, descendentes de espanhóis, tinha
dupla cidadania. Já tinha alguns bens, quando recebeu uma polpuda
herança, que promoveu uma melhora substancial em sua situação
financeira. Dona Zefa alcançou grande parte desse período de
apogeu. Frequentou bons colégios, teve aulas particulares de
educação doméstica, e de música. Chegou até a executar algumas
peças musicais em seu piano de calda. Conheceu pessoas importantes
da alta sociedade. Rapazes elegantes, bonitos, filhos de famílias
ricas. Dentre eles, alguns pretendentes. Na ocasião, era muito jovem
e nem pensava em casar-se. Mas aí, sua mãe adoeceu, e seu pai
gastou quase toda a sua fortuna na tentativa de salvá-la. Foi um
período negro em sua vida. De um lado, o pai sofrendo, sentindo-se
impotente por não poder salvar sua amada, mesmo com todo o dinheiro
que possuía. Do outro, a mãe definhando a cada dia, prostrada em
seu leito, até o dia da inexorável partida. Filha única, ainda
jovem e inexperiente, foi muito difícil lidar com tudo isso. O pai
emocionalmente abalado, sem condições de trabalhar, e o dinheiro
ficando cada vez mais escasso. A criadagem foi reduzida a apenas uma
serviçal, que passou a cuidar de tudo. Como o trabalho ficou muito
pesado para uma só pessoa, Dona Zefa foi obrigada a aprender e
realizar tarefas domésticas. O piano já não mais existia, os
amigos foram se afastando, e não recebiam mais convites para as
festas. Quando a mãe faleceu, Dona Zefa teve uma conversa com o pai
e, com muito custo, conseguiu convencê-lo a executar um plano
emergencial. Motivado pelo intuito de não deixar a filha
desamparada, começou a executar o plano emergencial. Vendeu o resto
dos bens, inclusive o palacete com móveis e pratarias, as poucas
ações que ainda possuía, quitou todos os débitos e ainda sobrou
algum dinheiro. Esse capital foi o suficiente para comprar uma
modesta casa na vila de Riacho da Mata, e conseguir mantê-los até a
chegada da aposentadoria.
A
escolha do lugar não foi por acaso. Numa dessas andanças, em viagem
de negócios, o pai de Dona Zefa passou pela vila, e achou a paisagem
muito bonita. Foram poucas horas que permaneceu na vila, mas ficou
encantado com a harmonia do lugar, a simplicidade e prestimosidade
dos habitantes. Conseguiu o número do posto telefônico e, como um
milagre, em pouco mais de quinze dias, já estava quase tudo
resolvido. O pai, sempre pedindo a Dona Zefa uma opinião, ou um
parecer, mas a resposta era invariavelmente a mesma. Ela queria
apenas o bem-estar do pai. Tinham sofrido muito. Ele, principalmente,
estava muito debilitado, e precisava de um canto onde pudesse
restabelecer suas energias. Eram as últimas economias, e as últimas
forças que o pai dispunha para executar o planejado. Dona Zefa pedia
a DEUS, todos os dias, para que nada desse errado, pois tinha certeza
de que o pai não sobreviveria a mais uma derrota.
Como
sempre, o encontro dos compadres foi com muita alegria,
principalmente agora com a chegada dos novos membros.
–
Olha só
compadre, quem herda não furta – falou Seu Jairo admirando
Ritinha. Veja que linda nora meu filho me arrumou! – e continuou
entusiasmado – com certeza herdou o bom gosto do pai. Em seguida,
deu um abraço caloroso em Ritinha, osculou-lhe a testa e acrescentou
– seja bem-vinda minha filha, e me aceite como um velho pai. Em
seguida, foi a vez de Dona Zefa. Olhou a norinha carinhosamente, e
viu sob seus lindos olhos castanhos, um olhar tímido e assustado.
Lembrou-se de quando ela, Dona Zefa, chegou a Riacho da Mata pela
primeira vez, tímida e assustada. Tudo novo, pessoas novas, e o pai
debilitado, necessitando de alguém para cuidar dele. Ela frágil,
num lugar estranho, precisando buscar forças, sabe DEUS de onde,
para um novo recomeço.
O
lugar era como o pai havia descrito. Parecia um presépio em tamanho
real. A casa que estavam negociando, pertencia a uma senhorinha, de
idade bastante avançada, que não tinha filhos. Estava fechada,
desde quando a proprietária havia falecido. O pai adquiriu das mãos
dos herdeiros. Como já possuía alguns poucos móveis e utensílios
domésticos, Dona Zefa preocupou-se em trazer apenas roupa de cama,
mesa e banho, além dos seus pertences pessoais. O pai separou,
dentre os muitos que existiam no palacete, um colchão de casal, um
colchão de solteiro, quatro travesseiros, embalou tudo, e despachou
para Riacho da Mata, a ser entregue no posto telefônico. Ao
chegarem, ficaram hospedados na única pensão existente, enquanto
concluíam a negociação. No dia seguinte, procuraram o
representante dos herdeiros, o que ficou à frente de toda a
transação. Apreensivos, pai e filha pediram para ver a casa e a
documentação. Até então, tudo havia sido tratado através de
telefonemas. Como o pagamento ainda não tinha sido efetuado, não
perderiam nada, caso houvesse qualquer suspeita de fraude, ou o
imóvel não estivesse de acordo com o que haviam combinado. Mas, a
essa altura, desfazer o negócio e procurar outro imóvel, seria um
desastre. Dificilmente encontrariam outro imóvel à venda naquele
lugar. Teriam que prolongar a estada na pensão, e o pai, certamente,
não resistiria. Dona Zefa não queria nem pensar em uma coisa
dessas. Mas DEUS estava no comando. Ela orava todos os dias, pedindo
para que tudo desse certo, e que seu pai pudesse viver seus últimos
anos, em paz, naquele cantinho do mundo, que ele mesmo havia
escolhido.
O
representante dos herdeiros, com olhar sereno, bastante solícito,
cumprimentou-os e convidou-os a entrar. Em seguida, como manda a
tradição e os bons costumes dos anfitriões do interior, pediu à
serviçal que trouxesse café e água para os recém-chegados.
Enquanto degustavam um delicioso café autêntico, torrado em
bolandeira, e untado com pedaços de rapadura, trocaram dois dedos de
prosa. Aos poucos, a tensão dos visitantes foi se dissipando. Sem
mais preâmbulos, o anfitrião apresentou toda a documentação do
imóvel, inclusive o contrato e as procurações. O pai e Dona Zefa
examinaram tudo, e constataram que os documentos estavam em ordem.
Seguiram então para vistoriar o imóvel.
A
casa era pequena e modesta, mas bem aconchegante. As paredes pintadas
de um bege bem clarinho, quase palha, e as portas e janelas eram
verdes. No lado direito tinha um pequeno hall e, do lado esquerdo,
ficava a janela do primeiro quarto. No hall havia uma porta de duas
bandas, que dava acesso a uma sala retangular. Em cada banda da porta
tinha uma portinhola, tipo vigília. O acesso do primeiro, e do
segundo quarto, era através da sala. A única diferença era a
posição das janelas. A do primeiro quarto abria para a rua,
enquanto a do segundo abria para uma espécie de beco que existia na
lateral da casa. Uma arcada separava a sala da cozinha, com um fogão
a lenha. E, finalmente, no fundo da cozinha, uma porta, que dava
acesso a uma latada, e um pequeno quintal. Sob a latada, havia um
tanque para lavar roupas e, na lateral, o sanitário.
Após
a vistoria do imóvel, foram até o posto avançado do único banco
ali existente, onde o pai entregou ao representante dos herdeiros um
cheque administrativo, e recebeu um contrato de compra e venda
assinado por todos os herdeiros. No contrato constava uma cláusula,
onde os herdeiros se comprometiam a assinar a escritura do imóvel,
logo após a quitação ali estabelecida. Compradores e representante
dos vendedores despediram-se, ao tempo em que pressentiam o
nascimento de uma sólida amizade.
A
manhã passou rápida, e já era quase meio dia quando retornaram à
pequena pensão. Estavam aliviados, tranquilos, satisfeitos e
agradecidos ao Pai Celestial, com o desfecho do negócio. Após o
almoço, Dona Zefa deixou o pai descansando e, acompanhada de uma
auxiliar, conseguida através da dona da pensão, seguiram em direção
à sua nova residência, para fazer uma faxina geral. Antes, porém,
passou no armazém e comprou baldes e material de limpeza.
Ao
chegarem ao destino, Dona Zefa passou as primeiras atribuições à
serviçal e foi refugiar-se no quintal. Estava exausta e precisava
repor suas energias. Sentou-se em um banco tosco de madeira, debaixo
de uma mangueira, olhou o firmamento e, imediatamente desfilaram as
lembranças dos últimos acontecimentos em sua vida. Na solidão
daquele quintalzinho começou a chorar. Chorou agradecida pela
aquisição de um novo lar, pela morte de sua querida mãezinha, pela
doença do seu pai, causada pela tristeza, pela incerteza do amanhã.
As economias estavam quase no fim, mas, confiantes, aguardavam a
aposentadoria do pai. Sem imaginar que um dia chegaria àquela
situação, por um sopro DIVINO, o pai começou a contribuir para o
IAPC – Instituto de Aposentadoria e Pensões dos comerciários,
que, posteriormente, foi unificado ao ISS – Instituto de Serviços
Sociais do Brasil. Dona Zefa tinha receio de, com essas mudanças,
poderia haver atraso, e a aposentadoria demorar de sair. Poderia até
mesmo nem sair, ou o pai viesse a falecer, deixando-a sozinha, sem
ninguém para socorrê-la. O pai não pensou em prepará-la para uma
situação dessas. As únicas coisas que aprendera, foram etiquetas
de boas maneiras e tocar piano. O que seria deles sem a
aposentadoria. O que seria dela sem o pai, perdida naquelas terras
desconhecidas, sem parentes, sem amigos, sem conhecidos. Porque não
pensou nisso antes? Reconhecia agora que tinha sido imprudente.
Pensou em satisfazer aos desejos e ao bem-estar do pai, mas não
pensou em sua própria segurança. Seus pensamentos foram
interrompidos com a chegada da serviçal.
–
Dona Moça, a vizinha disse qui quer conhecer a sinhora.
–
Peça-lhe que entre – respondeu Dona Zefa, tentando enxugar as
lágrimas.
Ao
entrar no quintal, a vizinha olhou nos olhos de Dona Zefa, e sentiu
algo muito estranho. Um misto de alegria e saudade invadiu-lhe o ser.
Mas como é possível um sentimento assim por uma pessoa estranha? –
pensou a vizinha. Foi aí que veio a certeza. Ela era a pessoa
esperada. Por muito tempo, pedia em suas orações que viesse alguém
para compartilhar seus momentos de alegria e tristeza, que juntas
pudessem vencer as batalhas diárias, naquele mundinho quase
esquecido. Apesar do bom relacionamento que mantinha com seus pais,
era muito difícil eles entenderem seus anseios, esclarecer suas
dúvidas. Por mais que haja esforço entre ambos os lados, existem
assuntos que uma mãe não consegue entender a filha, principalmente
quando ha uma grande diferença de idade entre elas, como era o caso.
As barreiras tornam-se praticamente intransponíveis. Além do mais,
o povoado contava com poucos habitantes e, na grande maioria, eram
pessoas idosas. Também como Dona Zefa, a vizinha tinha chegado ali
por ironia do destino. Não sabia ao certo, pois ainda era muito
pequena, quando o fato aconteceu.
Percebendo
o estado em que se encontrava Dona Zefa, a vizinha sentou-se ao seu
lado e, sem dizer uma só palavra, carinhosamente abraçou-a. Dona
Zefa soluçou e derramou as últimas lágrimas reprimidas. Por um bom
tempo, permaneceram ali, abraçadas, naquela quietude, ouvindo apenas
o cantar de pássaros e o farfalhar das folhas das árvores,
embaladas pela brisa. Dona Zefa não queria, mas precisava afastar-se
daquele ombro tão acolhedor.
–
Desculpem-me. Não posso abusar da bondade de alguém que nem ao
menos conheço – disse Dona Zefa, quebrando o silêncio, ao tempo
em que se afastava para examinar melhor a recém-chegada.
–
Sem problema – respondeu-lhe a visitante esboçando um lindo
sorriso.
Como
Dona Zefa, a vizinha também era jovem. Olhos e cabelos negros,
ondulados, pele clara curtida pelo sol, tinha um rosto bonito,
alegre, agradável, e dava a impressão de ser bastante familiar. Em
seguida, adentrou a cachorrinha a procura da sua dona. Ao avistá-la,
fez festa, pediu e recebeu afago. Olhou para Dona Zefa e abanou o
rabinho, querendo dizer que tinha aprovado a nova amiga de sua dona.
Pouco tempo após a chegada da vizinha, Dona Zefa já estava refeita.
Tagarelando como velhas amigas, acompanhadas pela cachorrinha,
entraram na casa, e começaram a ajudar na faxina. Nem imaginavam o
quanto perduraria aquela amizade, e que, tempos depois, seriam
comadres de fogueira.
O
pai de Dona Zefa, agora ciente da situação em que ambos se
encontravam, deitado no quartinho acanhado da pensão, olhando para o
teto, sem conseguir dormir, pensava. Veio parar naquele lugar, por
uma espécie de intuição, um chamamento. Estava certo de que
viveria ali, em paz, seus últimos dias. Além disso, não teria
outra opção, porque suas condições financeiras não permitiam. E
Zefa, será que também encontraria sua paz, sua felicidade? O homem
de outrora, produtivo, dinâmico, que conseguia vencer qualquer
concorrência e gerar lucro nos seus negócios, já não mais
existia. Foi negligente com a filha, criando-a em uma verdadeira
redoma de vidro, sem prepará-la para uma situação como aquela.
Ficou até surpreso e admirado com o empenho dela, discutindo
estratégias, traçando planos para salvá-los de uma situação
financeira caótica. Mas agora, eles chegaram ao limite. Só tinham
um ao outro. Qualquer um dos dois, sozinho, dificilmente conseguiria
sobreviver. Restava-lhe agora, pedir a DEUS que não o levasse antes
de aparecer alguém para amparar e cuidar dela.
Retraída,
sem saber o que fazer com as mãos, Ritinha aguardou. Elegante, com
passos firmes, Dona Zefa aproximou-se dela. Seus olhares se cruzaram.
Quando Ritinha fitou aqueles olhos cinza esverdeado, viu tanto amor e
tanta ternura que seus temores e dúvidas se dissiparam como num
passe de mágica.
–
Dificilmente
uma mãe se engana – disse Dona Zefa, ao tempo em que abraçava
carinhosamente Ritinha. E continuou – meu filho está feliz, e você
é a causadora dessa felicidade. Só tenho a agradecer a você por
tudo que tem feito a ele, e retribuir com meu amor sincero, e muito
carinho. E a minha neta, posso vê-la?
–
Sim, pode sim – respondeu Ritinha com o melhor dos seus sorrisos.
–
Venha Jairo, vamos ver nossa neta – falou Dona Zefa. E completou,
com ar de experiente – não faça barulho porque ela deve estar
dormindo. Recém-nascido é assim, dorme a maior parte do tempo.
O casal
recém-chegado acompanhou Ritinha e a comadre até o quarto onde
estava Martinha. Como de fato, estava dormindo. Mas pela fisionomia
dava para perceber a mistura dos dois, o pai e a mãe. A avó coruja,
puxando brasas para sua sardinha, exclamou – mas é a cara do Beto!
Seu Jairo olhou, olhou, com cara de entendido, e sentenciou: – pra
mim, tem cara de joelho. Não tem jeito. Todo recém-nascido tem cara
de joelho. Mas, depois dessa desastrosa declaração, teve que sair
do recinto quase que às pressas, porque ficou em desvantagem. Três
mães, sentindo-se ofendidas, atacando de uma só vez, é um páreo
muito duro para qualquer ser vivente.
Retornando
à sala e, sentindo-se mais aliviado na companhia de Beto e do
compadre, Seu Jairo procurou redirecionar ao dialogo interrompido.
Não que as mulheres fossem companhias desagradáveis, mas é que são
mais sensíveis – pensou Seu Jairo. A conversa com os homens corre
mais solta, não precisa ter tantos cuidados. Os homens, de um modo
geral, relevam qualquer deslize, qualquer comentário ou palavra
inadequada. As mulheres não, porque se melindram muito facilmente.
Seu Jairo sabia muito bem disso. Dependendo dos participantes da
conversa, procurava se policiar, escolher as palavras certas, mas,
vez por outra se descuidava e, quando percebia, já tinha soltado a
pérola. Aí, não tinha jeito. Melhor não tentar remendar, porque é
sempre pior.
–
E aí homem, conta as novidades de Riacho da Mata – era o compadre
querendo saber notícias do rincão.
–
Tudo na mesma – respondeu Seu Jairo. Uma melhora aqui, outra piora
ali, e vamos levando, até o dia que Deus quiser.
Nesse
momento, o assunto começa a girar em torno do sucesso de Beto, que
fica meio sem jeito, com tantos elogios, por parte do compadre. Seu
Jairo, por sua vez, não cabe em si com tanto orgulho do filho. Se
Beto seguisse seus conselhos – pensou Seu Jairo com seus botões –
talvez estivesse agora longe, amansando bichos bravos por esse mundo
afora, amancebado com alguma quenga, ou participando de rodeios,
exercendo uma profissão arriscada, onde qualquer erro poderia ser
fatal. Ou talvez nem chegasse a fazer algum sucesso. Poderia sofrer
um acidente grave e morresse, ou ficar inutilizado para sempre.
Admirando
a neta, o pensamento de Dona Zefa voou para bem longe. Foram
incontáveis as vezes em que orou, pedindo a Santa Rita das Causas
Impossíveis, que abrisse uma porta para seu filho, que o afastasse
dali, principalmente para livrá-lo daquele sofrimento, daquela dor
causada por um amor impossível. Esses sentimentos profundos, vindo
de dentro da alma, dificilmente um filho consegue esconder de uma
mãe. Era muito grata a Ritinha por ter conseguido trazer paz ao
coração do seu filho. Para uma mãe, antes de tudo, está a
felicidade do seu filho. A Santa Rita também era mães e,
certamente, compreenderia. ELA perdoaria e aceitaria a quebra da
promessa, pois o motivo era mais do que justo. Lá no fundo, Dona
Zefa preferia que Beto conseguisse uma posição mais privilegiada.
Como juiz, ou outro cargo importante, certamente estaria mais próximo
de alcançar uma vida opulenta, como Dona Zefa teve a oportunidade de
viver. Não que ela tivesse saudade ou desejasse voltar àquela vida
de apogeu. Em sua remota lembrança, aquilo tudo aconteceu como se
fosse uma noite mágica, como num conto de fadas, um faz de contas.
Para Dona Zefa, Riacho da Mata não foi apenas um recomeço. Foi
realmente o início da sua existência. Em sua memória, daquele
período de deslumbre, restou apenas uma vaga lembrança. Foi em
Riacho da Mata que ela começou a viver uma vida realmente
verdadeira. Teve a oportunidade de conhecer pessoas autênticas,
prestativas, que, desinteressadamente, ajudam àqueles que precisam,
sem almejar nada em troca. As pessoas sentem prazer em servir. É
algo tão corriqueiro, tão comum, que os forasteiros facilmente se
adéquam àquele processo de escambo. Em troca, como dádiva, sem
saber como, os doadores recebem aquela energia revigorante,
acompanhada de uma indescritível paz reparadora. Talvez Dona Zefa
desejasse que, como ela, Beto também tivesse a oportunidade de
conhecer os dois mundos e decidisse em qual deles estaria mais feliz.
Apesar
da insistência dos compadres, Seu Jairo e Dona Zefa acharam melhor
ficar na pensão de Dona Romilda, onde Beto já havia providenciado
as acomodações. Alegaram que, com a presença do casal, a comadre
ficaria ainda mais sobrecarregada, sem contar com as instalações
físicas, que não era suficientemente grande para abrigar tantas
pessoas. Se não houvesse alternativa, dava-se um jeito, e todos se
acomodariam. Ma não era o caso. A contragosto, os compadres
concordaram, mas sob uma condição. Não abririam mão da presença
de todos, no dia seguinte, para um almoço em família. Satisfeitos,
todos concordaram. Despediram-se e seguiram, na camioneta de Beto, em
direção à pensão de Dona Romilda.
Ao
chegarem, foram recepcionados pela própria dona do estabelecimento,
com seu jeitão peculiar, espontâneo e descontraído. Alegando que
estava assoberbada, pois era ora de servir o jantar, pediu a Beto e a
Raul que acomodassem o casal no quarto reservado para eles. E, quando
terminassem de se aprontar, retornassem à sala de refeições, para
tomar uma sopa de verduras, acompanhada com torradas de pão de alho,
especialidade da casa. Pediu a Beto que também ficasse para o
jantar. Na verdade, não foi um pedido. Foi uma intimação. Além de
fazer um pouco mais de companhia aos seus pais, Beto relataria a Dona
Romilda, tintim por tintim, as últimas novidades sobre a sua filha
Ritinha, e a sua neta. Ela não aguentava mais de saudade. Durante
esses dias todos, só tinha conseguido vê-las uma única vez no
hospital. Estava indignada, porque, depois de enfrentar uma
burocracia sem tamanho, só teve direito a fazer uma visita de meia
hora.
A
sala de refeições já estava vazia quando o grupo se reuniu para
jantar. Enquanto Seu Jairo e Beto conversavam com Raul, Dona Zefa
pode ficar mais à vontade com Dona Romilda. Com seu jeitão
espontâneo, agradeceu de coração pela receptividade, o amor e
carinho que eles estavam dedicando à sua filha. Como havia dito, a
visita no hospital foi muito curta. Ainda assim, deu para observar o
cuidado e o carinho que a comadre dispensava a Ritinha e à criança.
Nem ela, Dona Romilda, cuidaria tão bem da filha. Foi Deus que
colocou pessoas tão maravilhosas no caminho de Ritinha. Não tinha
palavras para expressar a sua gratidão a todas elas. Confidenciou
também, que Ritinha era a filha do coração, presenteada pela sua
Mãe Maria Santíssima. A Graça Divina colocou-a em seu caminho, em
substituição à outra filha que ela havia perdido há muito tempo.
Nesse momento, uma imensa tristeza tomou conta de Dona Romilda. Dona
Zefa, olhando no fundo daqueles olhos vivos, verdes, agora enevoados,
percebeu muita tristeza e sofrimento naquele ser. E aí reconheceu.
Estava diante de alguém que, sem sombra de dúvida, sofrera muito
mais que ela. Os olhos são as janelas da alma. Basta uma análise
criteriosa, acompanhada de minuciosa observação, para percebermos
os inúmeros detalhes que passam despercebidos. Na maioria das vezes,
nos detemos a observar o superficial e deixamos de admirar o que
verdadeiramente importa. Embevecidos
com o aspecto físico, o traje e a elegância, deixamos de
enxergar
a beleza interior, verdadeiro tesouro que habita dentro de nós.
Recuperando-se
daquele momento nostálgico, Dona Romilda passou as mãos pelo rosto,
como se tentasse tirar aquelas lembranças da sua cabeça, deu um
leve sorriso e completou a sua fala. Pediu a Dona Zefa que não
ficasse enciumada, porque Beto havia conquistado seu coração e
também tinha sido adotado. Era um menino de ouro, gentil, educado,
trabalhador e muito responsável. Mas agora, conhecendo os pais,
entendia que não poderia ser diferente. Como diz o ditado popular,
“filho de peixe, peixinho é”.
E
a vida continua. É chegado o momento de Seu Jairo retornar ao
sítio. Ele alega que tem muitas tarefas a serem realizadas, e já
está passando o tempo de plantar. Dona Zefa, por sua vez,
contra-argumenta que a neta ainda necessita de cuidados, e é muito
trabalho para a comadre. Mas, no fundo, o que Dona Zefa sente, é o
apego e o ciúme da neta. É a saudade do filho, mesmo não gozando
da sua companhia a todo instante. Finalmente, com muito custo, e a
contragosto, Seu Jairo convence a Dona Zefa retornar ao sítio.
Como
planejado, Ritinha e Martinha retornaram para a casa da mãe,
provisoriamente, enquanto construía o apartamento sobre a loja. Foi
instalado um berço no quartinho improvisado, onde passaram a dormir
Ritinha, Marquinhos e agora Martinha, o novo membro da família.
Marquinhos, muito feliz com a chegada da irmãzinha, já não dava
tanto trabalho a Ritinha. Pelo contrário, até ajudava em algumas
tarefas. Talvez por receio de se apegar, a mãe, em momento algum,
quis aproximar-se da neta. Passados alguns dias, ao atravessar a
sala, a mãe viu, através da porta do quarto entreaberta, que
Ritinha estava amamentando a filha. Sem conseguir controlar a
curiosidade, ela entrou ligeiramente no quarto, olhou Martinha e
comentou – é, parece com tu e teu Beto.
O
movimento na loja estava crescendo e Beto agora precisava da ajuda de
Ritinha. Mas Martinha ainda estava muito novinha e, além disso,
Ritinha não queria deixar Marquinhos sozinho em casa durante todo o
dia. Precisavam encontrar uma solução, porque essa situação não
podia perdurar por muito tempo. Também não podiam resolver a
questão de qualquer jeito, a toque de caixa, sem um planejamento
prévio. Como faltava pouco para findar o ano letivo, preferiram
aguardar um pouco mais e arrumar as coisas de uma maneira mais
lógica. Providenciariam uma escola para Marquinhos perto da loja,
onde ele poderia ir sozinho da loja para a escola, e vice-versa. Beto
levaria os três para a loja, onde permaneceriam durante o dia, e
retornariam somente à noite. Marquinhos iria à escola, Ritinha
ficaria trabalhando no escritório, ao tempo em que, também cuidaria
de Martinha. Quando Marquinhos retornasse da escola, Ritinha o
ajudaria nas tarefas da escola e, durante o resto do tempo, ficaria
aprendendo e ajudando Beto nas tarefas da loja.
Conseguiram
uma nova escola para Marquinhos e ficaram aguardando findar o ano
letivo, para providenciar a transferência. Ritinha aproveitaria os
poucos meses que faltavam, para aprender sobre as novas tarefas a
serem
realizadas na loja. Pegou as apostilas dos cursos que Beto havia
feito e começou a estudar. Beto comprou uma máquina de datilografia
remington, usada, e levou para a casa de Ritinha. Entre um afazer e
outro, Ritinha passava o dia treinando datilografia e estudando nas
apostilas de Beto. A vizinhança toda já sabia. Juntavam toda e
qualquer folha de papel usada, mas que tivesse uma das faces em
branco, e levavam para Ritinha treinar. O manual de instruções era
claro. Posicionar as mãos corretamente sobre o teclado, pressionar
as teclas correspondentes a cada dedo, e sem olhar para o teclado. O
dedo mindinho, vermelho e dolorido, sem trégua, vez por outra
escorregando por entre as teclas, enquanto uma por uma das páginas
eram povoadas de “asdfg”.
Mas
valeu o esforço. Mesmo vendo parte do escritório da Almari sendo
transformado em berçário, Beto estava muito satisfeito. Sem contar
que sua família estava ali, bem próxima, Ritinha havia se revelado
uma excelente gerente administrativa. Após efetuar os lançamentos
diários, examinava, minuciosamente, o fluxo de caixa. Solicitava
diariamente os extratos, e fazia a conciliação bancária. Todos os
pedidos e recebimentos passavam sob seu controle rigoroso. Despesas
extras só eram liberadas depois de analisadas e encaixadas no
orçamento. Antes, porém, o solicitante tinha que ouvir aquele
sermão: todas as despesas têm que estar dentro do orçamento. Aqui
não existe urgência, –
dizia
ela – porque urgência é tudo aquilo que não foi providenciado a
tempo.
Marquinhos
sempre foi um menino precoce. Prestes a completar oito anos, já não
dependia tanto de Ritinha e Beto. Pelo contrário, ajudava-os em
algumas pequenas tarefas. Uma vez ou outra pedia algum auxílio nas
tarefas da escola. Após o término dos deveres escolares, dividia
seu tempo entre cuidar de Martinha e ajudar Beto na loja. Esquentava
o leite, colocava na mamadeira e dava a Martinha. Depois, colocava
sua cabecinha no ombro e ficava passeando com ela, dando tapinhas nas
costas, até arrotar. Efetuava a venda de algumas mercadorias mais
corriqueiras, inclusive tinha sua própria clientela. Alguns até
ligavam para ele, faziam o pedido e solicitavam o seu serviço de
entrega. Era uma cola de pvc, uma conexão, ou outro material que
faltava na reforma. Marquinhos anotava, pegava o material e levava
até o cliente. Isso, invariavelmente, lhes rendia uma gorda gorjeta,
que Ritinha depositava em sua poupança. À noite, quando voltavam
para casa, após o jantar, dedicava-se aos estudos até a hora de
dormir.
Lentamente,
o apartamento sobre a loja começa a ser construído, na medida do
possível. O desafio era grande, porque as despesas com a construção
provinham dos recursos próprios. Tudo dentro do orçamento, e sem
usar o capital da empresa. Até mesmo uma sobra de estoque utilizada
na obra, era criteriosamente lançada.
Os
feriados e finais de semana eram agora dedicados à obra, exceto os
especiais, reservados para os encontros do casal. Antes, a
preocupação era somente Marquinhos. Agora tem Martinha que requer
maiores cuidados. Nesses dias de encontro, Ritinha prepara tudo com
antecedência. Leva Martinha com sua sacolinha para a casa das velhas
amigas solteironas, e Marquinhos passa o dia em companhia do filho do
sócio. Apesar da diferença de idade, eles se dão muito bem. A
filha do compadre, mãe do garoto, gosta muito de Marquinhos. Ela
fica muito feliz ao ver os dois se divertindo naquela casa imensa. É
no silêncio da loja fechada que, nesses poucos encontros amorosos,
Beto e Ritinha se entregam no quartinho improvisado, anexo ao
refeitório da Almari. Ao som baixinho de uma música melosa,
degustando um vinho barato, acompanhado de queijo e salame, se
entregam nas asas da velha paixão. Cansados, exaustos pela batalha
de todos os dias, mas felizes, deixam suas mentes viajarem pela longa
estrada percorrida. Ritinha já se acostumou, e não tem mais ciúmes
daquela loira oxigenada do calendário de borracharia. Nos outros
dias de folga, Beto e Marquinhos, sob o comando do velho mestre de
obra, conhecido de longas datas, literalmente metem mão na massa e,
aos poucos, seguem erguendo o pequeno castelo, onde pretendem viver
muitos dias felizes.
Após
um dia exaustivo de trabalho na Almari, Ritinha tinha acabado de
chegar em casa, cansada mas muito feliz. Era o final de tarde de uma
sexta-feira e ela havia
combinado com Beto passarem o sábado juntos. Marquinhos tinha
saído para comprar pão, e a casa estava em silêncio. Seus
pensamentos começaram a divagar. As coisas estavam melhorando a cada
dia, mas não via a hora de mudar-se para seu canto. Aí deixaria de
incomodar as amigas, Marquinhos teria seu quarto tão sonhado, e o
melhor, ficaria com Beto todas as noites. E não era somente poder
fazer amor quando quisesse, sem depender de favores. O prazer de
dormir de conchinha, aninhada no peito do seu amado, com os dedos dos
pés entrelaçados, sem sobressaltos, sem compromisso de horários,
não tem preço. Voltou à realidade quando percebeu que Martinha
havia parado de sugar seu seio. Olhou-a e constatou que dormia como
um anjo. Beijou-a e colocou-a no berço. Foi quando percebeu o ranger
da porta do quarto se abrindo. Admirada pensou – Marquinhos já
retornou? O que aconteceu para ele retornar tão rápido? Assustou-se
quando ouviu a voz do estrupício vociferando.
–
Sua vadia, rameira… você é minha, sempre foi minha. Eu é que
devia ter sido o primeiro. O primeiro e único.
Quando
Ritinha percebeu, já era tarde. Estava totalmente dominada por Zé
do Ouro. Espumando, com os olhos avermelhados, talvez embriagado,
drogado, ou possuído, imobilizou-a pelos braços. Quando Ritinha
conseguiu recuperar-se do susto e começou a gritar, ele enfiou um
pano em sua boca. Parece que o demônio estava na espreita,
aguardando o momento oportuno para atacar. Naquela hora, somente uma
intervenção DIVINA poderia salvar Ritinha das garras daquele
endemoniado. Foi então que Marquinhos apareceu. Voltou para pegar o
dinheiro do pão, que havia esquecido sobre a mesa. Atraído pelo
barulho, olhou através da porta do quarto entreaberta, e avistou a
sena.
–
Ritin… Zé do … Ritin… tá … Zé do … tá …
Era
Marquinhos, diante de Dona Romilda, gesticulando, como os olhos
arregalados, sem conseguir falar, tomado pelo desespero.
Marquinhos
ainda era muito pequeno, quando a mãe, definitivamente, deixou-o aos
cuidados de Ritinha. O seu mundo resumia-se ao pequeno quarto,
Ritinha e a escola. Quando a mãe e/ou Zé do Ouro chegavam em casa,
ele já estava dormindo. E, mesmo acordado, ele e Ritinha,
refugiavam-se no quarto improvisado. Nunca chamou a mãe de mãe, nem
o pai de pai. Para ele, Ritinha era a sua mãe.
Dona
Romilda entendeu perfeitamente o que estava acontecendo. Aliás, há
muito já esperava por isso. Depois dos últimos acontecimentos, até
baixou a guarda. Ritinha grávida, e agora com uma filha, achou que o
perigo havia passado, e não mais iria acontecer. Mas, infelizmente,
aconteceu. Agora não é hora de achismo, – pensou – é hora de
agir. Passou a mão no rolo de massa e saiu porta afora. Raul, ao ver
o semblante da velha companheira, percebeu que a coisa era séria, e
ela não estava para brincadeiras. Sem nenhuma pergunta, com a camisa
caqui semiaberta, por conta do abdômen bastante proeminente, e a
desgastada sandália japonesa sob os pés, seguiu a companheira.
Apesar dos quilos extras, Dona Romilda seguia adiante, em ritmo
acelerado. Ao entrar na casa de Ritinha, avistou-a rendida sobre o
beliche de Marquinhos, com os olhos arregalados, debatendo-se,
grunhindo, com os braços amarrados pelas costas, e uma fralda de
Martinha enfiada em sua boca. O estrupício já tinha rasgado sua
blusa, arrebentado o sutiã e arrancado sua calcinha. Ritinha,
totalmente dominada, com o endemoniado sobre ela, a saia levantada,
os seios e a genitália expostos, faltava muito pouco para a
consumação do ato libidinoso. Dona Romilda, com as mãos firmes,
desfechou um golpe certeiro no cabeção do meliante, que,
imediatamente, desfaleceu. Em seguida, puxou-o para o lado. O
asqueroso caiu no chão inerte. Pegou o lençol da cama e cobriu
Ritinha. Examinou a sacola de Martinha, rapidamente, e constatou que
estava quase pronta. Colocou mais algumas peças que achou
necessário. Em outra sacola, enfiou uma muda de roupa de Ritinha e
outra de Marquinhos. Pegou o rolo de massa, ainda sujo de sangue,
enrolou na fralda, que estava enfiada na boca de Ritinha, e colocou
também na sacola. Puxou Ritinha da cama, ainda trêmula,
choramingando assustada, abraçou-a carinhosamente, beijou-a e
entregou a Raul, juntamente com uma das sacolas. Enfiou a outra
sacola no braço, pendurou a bolsa de Ritinha no pescoço e pegou
Martinha no berço. A
essa altura, já havia acordado e estava aos berros. Acariciou-a, e
ordenou. – Vambora!
Ainda
assustada, Ritinha indagou: – Ele está morto?
Não.
Tá só dismaiado – esclareceu Dona Romilda. Se fosse pra matar, a
arma era outra – concluiu.
Quando
saíram da casa, alguns vizinhos já haviam percebido o movimento e,
solidários, indagaram o ocorrido, ao tempo em que se colocaram à
disposição. Sem entrar em detalhes, Dona Romilda disse apenas que o
estrupício tinha tentado agarrar Ritinha, mas, graças a DEUS, ela
tinham chegado a tempo de evitar a desgraça. Agradeceu e
tranquilizou a todos, dizendo-lhes que já estava tudo resolvido.
Ao
chegarem à pensão, incumbiu Raul de cuidar de Marquinhos, e tratou
de acomodar Martinha em sua cama. Providenciou um calmante para
Ritinha, deu-lhe um banho, agasalhou-a com um roupão e acomodou-a
também na sua cama, junto com Martinha. Após verificar que estava
tudo em ordem, tratou de avisar a Beto. Ao telefone, disse-lhe apenas
que tinha acontecido um probleminha, mas que agora estava tudo bem, e
todos estavam acomodados na pensão. Preocupado, Beto não demorou
muito a chegar, querendo saber realmente o que havia acontecido. Dona
Romilda relatou todo o ocorrido, e tranquilizou-o mais uma vez,
dizendo-lhe que todos estavam bem. Aconselhou-o a não ir ver Ritinha
porque ela havia tomado um calmante. Nesse momento, estava dormindo.
Pediu-lhe, encarecidamente, que não tentasse resolver nada naquele
momento. Que não fosse naquela casa, e muito menos tirar alguma
satisfação com o carniça, ou àquela que se dizia ser mãe de
Ritinha. Todas as decisões cabíveis já haviam sido tomadas. Nada
mais restava a fazer. Amanhã, sim. Depois de uma noite de sono, da
poeira assentada, era hora de começar a agir. Em seguida, Dona
Romilda foi até seu quarto, pegou as chaves da casa na bolsa de
Ritinha, e entregou-as a Beto.
Percebendo
que Beto estava mais tranquilo, aproveitou e esclareceu que essa não
havia sido a primeira vez, mas que foi a mais violenta de todas. Que
desde muito tempo, a partir do momento em que aquela insana colocou o
maldito dentro de casa, ela, Dona Romilda, vem vigiando todos os
passos de Ritinha. Fez tudo que pode para protegê-la. Somente agora,
nesses últimos tempos, achando que o perigo já havia passado, é
que relaxou um pouco. Aquela revelação fez Beto relembrar fatos
ocorridos, quando, por diversas vezes, estranhava o comportamento de
Ritinha. Em certos momentos, pronunciava frases desconexas, sem
sentido, outras vezes interrompia a frase pelo meio e desviava a
conversa para outro rumo. Agora estava claro. Durante esses anos
todos, Ritinha tentava dizer-lhe, alertar-lhe sobre os perigos que
tinha de enfrentar todos os dias. Quantas e quantas vezes percebeu o
seu semblante carregado, os olhos assustados, quando chegava a hora
de voltar para casa. Ele não entendia. Parecia que ela preferia
viver na rua. Como ele foi injusto com ela. Agora entendia porque ela
queria tanto assumir esse relacionamento. Precisava sair daquela casa
o mais rápido possível.
Dona
Romilda estava diante de um jovem homem maduro, sério, calado, os
olhos umedecidos, deixando transparecer o peso que carregava. Era a
mistura de sentimento de culpa com pitadas de remorso. Percebendo o
que ele sentia, Dona Romilda buscou, de imediato, isentá-lo de
qualquer culpa. Afinal, ele não sabia de nada. E se soubesse, talvez
não fosse a melhor coisa. Mas agora tudo já passou. O tempo é um
bom remédio, e cura todos os males. Ao final da conversa, bastante
esclarecedora, Dona Romilda aconselhou-o a ir descansar. No dia
seguinte, era o momento para começar a tomar as devidas
providências. Lembrou-lhe, mais uma vez, que fizesse tudo que
deveria ser feito, com bastante calma, para não tomar atitudes
erradas.
No
outro dia cedo, Beto parou a camioneta na porta da casa de Ritinha,
abriu a porta e entrou. Encontrou a mãe de Ritinha sentada na sala,
fazendo curativo na cabeça de Zé do Ouro. Sem sequer
cumprimentá-los, seguiu em direção ao quarto, colocou as caixas
que trouxera sobre o beliche, e começou a desmontar o berço. Em
seguida, acondicionou os poucos pertences de Ritinha e Marquinhos nas
caixas. Levou para o carro as caixas e o berço desmontado. Ao final,
fez uma inspeção rápida no quarto e verificou que não havia
esquecido nada. Retornou à sala e, como Dona Romilda havia
instruído, depositou as chaves sobre a mesa. Sem dizer uma só
palavra, saiu sem olhar para trás. Atravessou a porta da frente e,
mais uma vez, relembrou a conversa com Dona Romilda no dia anterior.
“Não se preocupe
meu
fio. Quando uma porta se fecha é porque DEUS já reservou pra nóis
outra porta bem mais larga”. Sem vacilar, puxou a porta, bateu o
trinco, sacudiu a poeira das sandálias e murmurou baixinho – meu
DEUS, sem nenhuma soberba, peço, humildemente, que Ritinha nunca
mais precise voltar a se abrigar debaixo deste teto. E que o SENHOR
tenha piedade destas pobres almas. “Assim, em tudo, façam aos
outros o que vocês querem que eles façam a vocês; pois esta é a
Lei e os Profetas.” (Mateus 7:12).
É a maldição. Tudo isso é por culpa da maldição. Ela, a mãe,
não tinha o direito de se apegar a ninguém, ou coisa alguma. Não
sabe quando começou. Talvez essa maldição a acompanha desde o seu
nascimento. Mal se lembra dos irmãos. Tem uma vaga lembrança dos
pais. Não tem notícias de nenhum deles. Não sabe por ode andam, se
estão vivos ou mortos. Desde cedo, a vida dela foi assim. Saindo da
casa de uns, indo para a casa de outros… Emprego certo, nunca teve.
Em troca do seu trabalho, conseguia um canto para dormir, um prato de
comida para saciar a fome, e, vez por outra, uma peça de roupa
usada. Para ela, aquilo era o suficiente. – Melhor do que dormir na
rua – pensava. Foi
nessa vida de andarilha que aprendendo a fazer as coisas,
principalmente cozinhar. Como
cozinheira
conseguiu um emprego de verdade. E assim, a maldição, foi tomando
dela todos a quem amava. O pai de Ritinha tinha sido a última perda
sofrida. Bastou começar a nutrir algum sentimento por ele, e a
maldição logo percebeu. Sem nenhum constrangimento, sem dó nem
piedade, sem aviso ou explicação, a maldição carregou-o para
longe. Foi muito difícil para ela, a mãe, entender como funcionava.
Quais regras eram
impostas
pela maldição. Mas agora ela sabia. A duras penas aprendeu como
proceder. Tinha que manter-se longe. A maldição estava atenta a
qualquer demonstração de afeto. Foi procedendo dessa maneira que
conseguiu manter Ritinha e Marquinhos fora das garras da maldição.
E Zé do Ouro? Esse estrupício não é levado em conta. Ninguém o
quer, muito menos a maldição. O erro foi aquela passadinha no
quarto de Ritinha, para ver a criança. Como foi estúpida. Não
devia subestimar a maldição. Muito segura de si, achou que uma
simples passadinha, passaria despercebido. Mas a maldição estava
atenta. Precisava apenas de um motivo. Por mais simples que fosse,
mas era uma demonstração de afeto. Foi o suficiente para a maldição
levar todos de uma única vez. Para Zé do Ouro, aquilo foi uma coisa
que se apossou dele. Mas, para a mãe, estava mais do que claro. A
maldição usou o infeliz para conseguir o seu intento. E conseguiu.
Ao
ouvir o barulho da porta da frente fechando, após a saída de Beto,
a mãe estremeceu. Doravante estaria novamente só, amargando sua
triste solidão. Apesar de triste e desolada, estava aliviada, porque
não teria mais ninguém para ser tragada pela maldição. Nesse
momento, uma lágrima rolou pela sua face ressequida.
Na
mesma rua, a pouco mais de um quarteirão, a camioneta parou em
frente à pensão de Dona Romilda. Beto carregou a pequena mudança
para dentro da pensão. Encontrou Ritinha bem melhor. Abraçou-a,
beijou Martinha, que estava dormindo, e seguiram para o salão de
refeições a
fim de
saborear o desjejum, preparado com muito amor e carinho por Dona
Romilda.
Enquanto
saboreavam o
desjejum,
comentaram sobre vários assuntos, procurando evitar falar sobre o
ocorrido do dia anterior. Terminada a refeição matinal, Ritinha
abriu as caixas, que Beto havia trazido, separou as coisas
essenciais, e o restante, pediu para Beto guardar no escritório. Sem
perda de tempo, Beto e Marquinhos seguiram para a Almari. Agora, mais
do que nunca, precisavam acelerar o ritmo da obra para possibilitar a
mudança o mais rápido possível.
Beto
chamou o mestre de obra e explicou que, devido à mudança de planos,
precisava mudar-se para o apartamento, o mais rápido possível. E o
desafio era, com os parcos recursos que dispunha, conseguir torná-lo
habitável, no menor prazo possível. O velho mestre, amigo de tantas
jornadas, retirou o boné da cabeça, pondo à amostra os poucos fios
de cabelos prateados, franziu a testa, ao tempo em que coçava a
cabeça. Era a maneira de demonstrar que estava pensando. Seria um
verdadeiro milagre, tornar habitável um apartamento de cerca de
setenta metros quadrados, com tão pouco recurso. Até então, tinha
apenas as paredes levantadas. E nada de solução do tipo: alterar o
projeto original, construir um verdadeiro barraco, um cai duro, para
depois desmanchar tudo e voltar a construir o projeto original.
Era
nessas horas que Beto mais sentia a falta do velho Jairo. Certamente
daria uma ajudinha financeira, um reforço e tanto na mão de obra,
sem contar com as brilhantes ideias para reduzir o custo. Não. Seu
Jairo já tinha muitos problemas. A labuta no campo é muito árdua e
não é nada fácil. A idade avançada já não permitia ter a
produtividade de outrora. Como aqui na cidade, também lá no campo,
ele sentia muita dificuldade em conseguir um trabalhador sério,
honesto, que fizesse jus ao seu salário. Para que não houvesse
aborrecimento, além de maiores prejuízos, melhor continuar sozinho
e ir realizando as tarefas na medida do possível. Essa era a
filosofia de Seu Jairo.
Após
analisarem, discutirem, projetar, reprojetar, fazer e refazer conta,
Beto e o mestre, finalmente, chegaram a um consenso. Primeiramente
definiram o que é tornar habitável. A construção não teria um
acabamento conclusivo. Seriam colocadas uma porta na entrada, uma
janela na sala, e outra no quarto de Marquinhos. Todas de segunda
mão, ou improvisadas. O quarto e o banheiro ficariam sem porta. As
portas do quarto de Martinha, e da suíte do casal, seriam fechadas
com blocos, sem reboco. Essa estratégia tinha como finalidade
isolá-los do resto do apartamento. Nessa primeira etapa, o
apartamento ficaria reduzido à sala, a cozinha americana com a área
de serviço, o quarto de Marquinhos e o sanitário social. Não seria
colocado piso em nenhum cômodo, exceto o banheiro social. As paredes
seriam somente rebocadas. Caso houvesse disponibilidade, seria
colocado revestimento no banheiro social. A cobertura seria,
provisoriamente, de telha de amianto. Para dar caimento no telhado
seriam colocados três tocos de concreto, com aproximadamente
quarenta centímetros de altura sobre uma das vigas (correntes)
laterais. E sobre os tocos, seria assentada a peça de madeira para
sustentação da cobertura. Toda a parte elétrica consistiria em
apenas quatro lâmpadas e duas tomadas, ligadas através de uma
gambiarra vinda da loja.
Aos
poucos, a vida do casal foi retornando à rotina. Com os parcos
recursos e os poucos braços para tocar aquela obra, foi um
verdadeiro milagre chegar até onde chegaram. Ainda assim, era pouco.
O tempo de permanência na pensão de Dona Romilda estava se
alongando. Ritinha, sentindo-se constrangida, queria mudar-se a
qualquer custo, de qualquer maneira. Para agravar a situação, Dona
Romilda não queria nem ouvir falar em qualquer tipo de ajuda. Beto,
por mais de uma vez, ensaiou alguma coisa nesse sentido, mas Dona
Romilda foi categórica. Eles não eram qualquer um. Eram a sua
família. E só sairiam da pensão, quando a morada deles estivesse
pronta. E ponto final.
O
apartamento estava quase habitável, mas ainda faltavam os móveis.
Beto pensou em recorrer aos compadres e ao sócio, mas Ritinha foi
taxativa. Todos eles já haviam ajudado, e até mais da conta. Agora
era hora de fazerem um pouco de sacrifício. Compraram uma cama de
casal à prestação, uma geladeira de segunda mão, mas ainda em
perfeito estado, e o fogão, dona Romilda deu um que estava em
desuso, porque o forno não funcionava. O mestre improvisou dois
cavaletes e, sobre eles, deitou uma folha de tapume. Beto construiu
quatro banquinhos com restos de madeira da construção, e Ritinha
deu o seu toque feminino. Cobriu a “mesa” com uma toalha plástica
e adornou com um singelo jarro de planta. O quarto, além da cama
nova, recebeu, em uma das paredes, em lugar do guarda-roupa, três
prateleiras, um cabideiro e um espelho barato.
Finalmente,
chegou o dia da mudança. Na véspera, logo pela manhã, deram uma
lavada nos poucos cômodos para tirar os detritos da obra. Ritinha
aproveitou e deu uma lavada caprichada na geladeira e no fogão. A
arrumação das roupas nas prateleiras ficou para o dia seguinte.
Naquela noite, Dona Romilda esticou suas tarefas, o mais que pode,
para evitar jantar em companhia de Beto e Ritinha. Pediu que não a
esperassem porque ainda tinha muito a fazer. No fundo, ela não
queria se deixar trair pela emoção. Ritinha, compreendendo seu
verdadeiro motivo, procurou respeitar sua decisão. Serviu o jantar a
Beto e a Marquinhos, comeu alguma coisa e, em seguida, foi para o
quarto. Deu um banho em Martinha, alimentou-a e colocou-a no berço.
Depois tomou o seu banho, arrumou-se e deitou. Tempos depois, quando
Dona Romilda chegou, Ritinha ainda estava acordada, mas permaneceu
com os olhos fechados, fingindo que estava dormindo. Dona Romilda
entrou, dirigiu-se ao canto do quarto, onde se encontrava uma pequena
oratória, abriu as portinholas, acendeu um toco de vela, incrustado
em um velho castiçal, e colocou diante da imagem da Mãe Maria
Santíssima. Aprendeu com a mãe. Peça com fervor à mãe, que o
filho atende – dizia-lhe ela.
No
dia que o pai expulsou Dona Romilda de casa, a mãe, coitada, sempre
submissa, receosa de aborrecer ainda mais ao pai, não foi se
despedir da filha. Sua vontade era entrar naquela sala, de cabeça
erguida, tomar a filha nos braços, protegê-la com toda a força e
coragem, jogar na cara do pai umas verdades, começando por dizer-lhe
o quanto era mesquinho, insensível, desnaturado, que, sem o menor
remorso, estava jogando a filha na sarjeta. Mas, e depois?! Era bem
provável que as duas, mãe e filha, fossem jogadas porta afora.
Ao invés disso, preferiu correr para dentro do seu quarto, e
jogar-se aos pés da Mãe Maria Santíssima, implorando por um
milagre. Após o incidente, aquela casa nunca mais foi a mesma. A mãe
de Dona Romilda, às escondidas de todos, principalmente do pai,
passou a guardar todo o trocadinho que conseguia economizar, na
esperança de, um dia, sair pelo mundo seguindo
o rastro da filha até encontrá-la. Esse seria o dia mais feliz de
sua vida. Derramaria todas as lágrimas represadas por tanto tempo.
Em pranto, abraçaria a filha, e teria a oportunidade de dizer-lhe o
quanto a amava, o quanto tinha sofrido com aquela brutal separação.
Os dias foram se passando e tornando-se cada vez mais longos. E
quanto mais o tempo passava, mais remota ficava a possibilidade de a
mãe poder realizar o seu sonho. Sem ânimo, sem vontade de viver,
ela começou a definhar. O pensamento fixo de reencontrar a filha foi
a única motivação que a fez perdurar por mais alguns poucos anos.
Após sua morte, encontraram, por um acaso, inúmeras cédulas de
pequeno valor, cuidadosamente dobradas e escondidas sob o forro do
velho colchão.
Depois
do ocorrido, Dona Romilda nunca procurou pela família. Vez por
outra, ainda pensou em procurá-los, especialmente por sua mãe, mas
preferiu sepultar de vez o seu passado. Tinha muita pena dela.
Lembrava-se daqueles olhos tristes e, em suas orações, pedia sempre
por ela. Que a Mãe Maria Santíssima continuasse dando-lhe forças,
para continuar suportando aquela vida miserável. Quanto ao pai,
nunca sentiu ódio, mas era um desprezo e uma mágoa muito grande.
Ainda não havia conseguido perdoá-lo, mas fazia um esforço muito
grande para livrar-se daqueles sentimentos fortes que a corroíam por
dentro. Eram tempos difíceis, muito duros. A sociedade cobrava, de
uma maneira implacável, atitudes drásticas, principalmente quando
envolviam defesa da honra e da família. Um pai de família
desonrado, jamais seria aceito pela sociedade. Em defesa da honra,
portanto, eram praticados todos os tipos de atrocidades. E a
sociedade, em cumplicidade com a própria justiça, corroborava e
até, de certa forma, estimulava esses tipos de delitos, mesmo
aqueles em que envolviam assassinatos e/ou suicídios.
O
último pedido que houvera
feito à sua Mãe Maria Santíssima, foi quando sentiu-se
obrigada a cravar o punhal no peito daquele miserável, dentro do seu
estabelecimento. Dona Romilda bateu os joelhos no chão, e pediu-A,
com fervor, que intercedesse junto ao PAI. Que a livrasse de tudo
aquilo, e guiasse seus passos em direção a uma vida mais digna e
honrada. Mesmo sem os devidos merecimentos, foi agraciada. No início,
foram muitos dias de temores e incertezas, diante do desconhecido.
Com a ajuda da sua Mãe Santíssima, e o apoio do velho companheiro
Raul, conseguiu se reerguer, virando mais uma página da sua vida
nada fácil. Antes, porém, teve o cuidado de deixar suas meninas, de
certa forma, protegidas e amparadas. Após vender todo o pequeno
patrimônio, deu uma boa quantia em dinheiro a cada uma delas. Depois
de muitos choros, abraços e despedidas, cada uma procurou seu novo
rumo. Umas permaneceram no mesmo estabelecimento, sob nova direção,
e outras mudaram de cidade em busca de dias melhores. Por onde
andariam aquelas meninas, que, por um bom tempo, haviam sido sua
família? Seus pensamentos retornaram imediatamente ao presente, e
Dona Romilda voltou a concentrar-se no novo pedido a ser solicitado à
sua MÃE. Sabia não ser merecedora de tanta graça, mas precisava,
mais uma vez, que ELA protegesse e amparasse os seus filhos nessa
nova jornada. Eram praticamente duas crianças, cuidando de outras
duas. Pedia também que eles não esquecessem daquela velha mãe e
avó, porque se ela perdesse mais essa família, tinha certeza que
seu coração não suportaria. Após suas orações, deitou-se, mas,
como Ritinha, não conseguiu conciliar o sono.
No
dia seguinte, após uma noite maldormida, Dona Romilda não teve como
evitar. Logo cedo, aconteceu o inevitável. O encontro da despedida.
–
Vê se não disaparece e isquecem dessa veia – com a voz embargada
falou Dona Romilda. Carinhosamente, com os olhos marejados, Ritinha
enlaçou-a e disse-lhe – mãezinha, jamais vamos esquecer de você.
Dona Romilda não aguentou a emoção, e desabou. Chorou
copiosamente. Derramou todas as lágrimas reprimidas durante os
muitos e muitos anos de sofrimento, agora com o coração
transbordando de alegria.
O
dia passou muito rápido. Ritinha não trabalhou no escritório.
Levou Martinha para o apartamento, e lá permaneceu arrumando as
últimas coisas. Toda a mudança é sempre assim. Falta uma coisa
aqui, improvisa-se outra ali, é uma tomada que não funciona, um
eletrodoméstico necessário e que não foi providenciado, e por aí
vai. Marquinhos e Beto ficaram revezando entre a loja e o
apartamento, dando apoio a Ritinha. Foi um sobe e desce o dia todo.
Pouco depois do meio dia, Beto providenciou uma marmita com uma
comidinha caseira, adquirida ali mesmo nas proximidades. Deram uma
breve parada, apenas o tempo suficiente para saciar a fome e
descansar um pouco. Já estava anoitecendo, quando, finalmente,
Ritinha olhou em sua volta, e verificou que havia feito tudo que
poderia ser feito, dentro das limitações disponíveis.
Não
era o ideal, mas ficou dentro do razoável. Dirigiu-se à cozinha, e
improvisou um jantar com o que dispunha. Tomou seu banho, preparou
Martinha, alimentou-a, e ficaram as duas deitadas na cama, aguardando
a chegada dos rapazes. Ao entrarem na sala, Beto e Marquinhos ficaram
surpresos. Como um toque feminino faz a diferença. O ambiente era
bastante simples, mas acolhedor. Quando retornaram do banho, sentiram
no ar um cheirinho de comida gostosa. Após o jantar improvisado,
regado a uma animada conversa, cada um querendo relatar os feitos do
dia, tomaram um café, feito na hora, e seguiram todos para o quarto
de Marquinhos, único concluído nessa primeira etapa da construção.
Exaustos, porém felizes, deitaram na camona e permaneceram ali, por
um breve tempo, calados, saboreando aquele momento tão sonhado.
Apesar da simplicidade, do quase imperceptível odor característico
de massa fresca, de reboco novo, pairava no ar uma energia boa, uma
sensação de leveza, uma paz indescritível. Ritinha e Marquinhos
experimentavam, pela primeira vez, o prazer, a satisfação de
estarem abrigados num ambiente seguro. Pela primeira vez sentiam o
que é viver em harmonia, com sua família, num verdadeiro lar.
Rompendo o silêncio mágico daquele momento ímpar, Marquinhos falou
– vou sentir falta da pensão, mas aqui é bem melhor. Já não
aguentava mais o ronco do vovô Raul. Todos caíram na risada. Até
Martinha, parecendo que estava entendendo tudo, começou a gargalhar.
Abraçados, exaustos, mas felizes, adormeceram.
Como
os compadres gostavam muito da companhia das crianças, de vez em
quando faziam isso. Beto levava os seus, passava na casa do sócio,
pegava o filho dele, e deixava todos na casa dos compadres. Esses
eram dias muito especiais. Martinha, já grandinha, não dava mais
tanto trabalho, e, dependendo da brincadeira, se enfiava no grupo e
participava ativamente. Não só ela, mas também os compadres.
Ficava difícil saber quem divertia mais, se as crianças ou os
adultos. Nesses dias, nada tradicional, tudo era de improviso.
Tomavam banho de mangueira no quintalzinho da casa, e o almoço era
no alpendre, sentados sobre uma esteira de palha de taboa. A comadre
preparava uma grande tigela esmaltada, com feijão-tropeiro, torresmo
e carne do sol, tudo cortadinho e misturado. E aí, pegava com a mão,
amassava fazendo os bolinhos e enfiava um a um nas boquinhas
famintas, ao tempo em que contava lindas estórias.
Era
um domingo ensolarado, e Beto já havia deixado as crianças na casa
dos compadres. Aproveitando a ausência das crianças, o casal foi
refugiar-se no quartinho antigo de Beto no fundo da loja. Era o
motelzinho particular. Aproveitavam aqueles momentos para descontrair
um pouco. Ficavam como dois namorados, tomando vinho, comendo
petiscos e trocando carícias. Quanto mais o tempo passava,
sentiam-se cada vez mais enamorados. Já passava das treze horas,
quando perceberam que ainda não tinham almoçado. Beto então subiu
até o apartamento, a fim de providenciar algo para comerem, e
Ritinha ficou deitada, aproveitando um pouco mais daquele descanso,
mais do que merecido. Enquanto ouvia uma música suave, proveniente
do pickup toca discos, acoplado ao velho rádio mullard, fez uma
retrospectiva, e percebeu o quanto tinha sido agraciada por DEUS.
Muito pouco a pedir e uma enorme gama a agradecer. Lembrou-se da mãe,
e sentiu dó. Como gostaria de saber como ela estava. Como gostaria
de compartilhar sua felicidade. Mas, como ela reagiria? Poderia até
sentir-se ofendida, humilhada, debochada. E se ao reaproximar-se
dela, todos aqueles medos e sofrimentos voltassem? Aí sentiu um frio
correr-lhe pela espinha. Não, melhor não. Talvez não tivesse mais
tanta força e energia, para suportar mais um viés em sua vida.
Desde o trágico acontecimento, nunca mais soube, ou procurou
notícias sobre ela. Marquinhos também nunca comentou nada, ou
mostrou algum interesse em saber sobre ela. O mais próximo que
chegavam, era quando iam à pensão, fazer visitas a Dona Romilda.
Olhou para o teto e lembrou-se do apartamento. Uma das poucas coisas
que se atrevia a pedir era o término do apartamento. Para Beto,
estava tudo bem. Ele não entendia essas coisas. Só outra mulher
para entender como incomoda uma moradia toda improvisada, sem um piso
decente, e sem pintura. Como é maravilhoso limpar e arrumar uma
casa, mesmo simples, mas tudo em seus devidos lugares. A Almari
estava financeiramente bem e tinha saldo suficiente para fazer uma
retirada, sem comprometer o capital de giro. Mas, ainda assim, ela
preferia que essa iniciativa partisse de Beto. Olhou para a loira
oxigenada do calendário de borracharia, e imaginou-a debochando
dela. Tinha tudo, mais ainda faltava-lhe uma moradia decente. Olhou-a
novamente e pensou –
ainda assim, sou feliz, muito feliz. Sorriu
por dentro, lembrando-se do tempo em que sentiu ciúmes dela. Hoje, é
parte da nossa história –
pensou. É peça fundamental do nosso acervo. Mesmo sabendo que não
passava de uma fotografia retocada, é uma testemunha ocular desse
amor, que sobreviveu a tantas tempestades e vendavais. Os
pensamentos, a música suave, o efeito do vinho, fizeram-na entrar
num estado alfa. Estava naquela madorna, quando ouviu uma voz.
–
Os pais dele estão se sentindo muito só. Vá visitá-los, e leve as
crianças.
Essa
voz não lhes era estranha.
–
Gabriel? – perguntou Ritinha com voz trêmula.
–
Sim, é Gabriel.
Abriu
os olhos, e deparou com ele dentro do quarto, olhando-a com ternura.
Assustou-se e, instintivamente, cobriu todo o corpo com o lençol.
Quase aos gritos, perguntou-lhe.
–
O
que você está fazendo aqui?
Desesperada,
nervosa, começou a se questionar como ele havia entrado. E Beto, o
que poderia pensar. Precisava mandá-lo ir embora. Acordou assustada,
e constatou que não havia ninguém no quarto. Mas afinal, aconteceu
ou foi um sonho? Se foi um sonho, foi muito real – pensou.
Quando
Beto retornou com o almoço, Ritinha já estava refeita. Durante a
refeição, ela continuou a pensar sobre o acontecido. Teria sido um
sonho, ou imaginação da sua cabeça. Poderia ter sido um aviso, um
pedido, um conselho, ou uma orientação, transmitida através de uma
espécie de sonho.
Ao
final da refeição, Ritinha abraçou e beijou Beto, tentando
dizer-lhe o quanto estava feliz, demonstrar o amor e o carinho que
sentia por ele. Agradeceu e elogiou a comida, apesar de ter deixado
quase tudo pronto, e Beto ter feito apenas os complementos. Antes que
perdesse a coragem, começou a relatar o acontecido.
–
Sonhei com…
Parou
no meio da frase porque, por mais que tentasse, não conseguiria
explicar a Beto quem era Gabriel. Até ela mesmo não sabia. As
poucas oportunidades que tivera, não aproveitou para indagar. A
princípio, pensou que seria mais um aproveitador, que queria apenas
tirar proveito do seu momento de vulnerabilidade. Depois, reconheceu
nele uma pessoa muito especial, que, realmente, só queria ajudá-la.
E, pelo visto, continua cumprindo o prometido. Sempre presente,
ajudando-a a transpor os grandes obstáculos que surgem em sua vida.
Mas, por quê? Qual o interesse em ajudá-la. E, afinal, quem é
Gabriel? Eram muitas questões sem resposta. Falaria sobre Gabriel em
outra oportunidade.
–
Sonhei com sua mãe. Eles estão se sentindo muito só, e ela pediu
que fossemos visitá-la, levando as crianças – complementou.
Beto
ficou pensativo. Já haviam se passado dois anos, desde o nascimento
de Martinha, quando tiveram o último encontro. De lá para cá,
apenas conversas telefônicas. Lembrou-se também daquele primeiro
natal que não pode passar com seus pais. Naquela ocasião, prometera
nunca mais deixar de comparecer aos natais de Dona Zefa. Promessa não
cumprida. Os anos foram passando, e ele, sempre protelando,
aguardando as coisas melhorarem. Como Dona Zefa deve estar sofrendo.
Em momento algum ela queixou-se. Realmente, seria mais do que justo,
fazer-lhes uma visita. Quem sabe, poderiam até passar o natal
juntos, agora com toda a família. Mas seria uma despesa extra.
Tinham tantas prioridades... E a Almari. – Não, dessa vez iriam de
qualquer jeito – pensou Beto. Durante o resto da tarde, analisaram
as possibilidades, fizeram planos, desmancharam, e refizeram. Pararam
de elucubrar, porque já estava ficando tarde, e precisavam ir buscar
as crianças. Mas estavam satisfeitos, porque estava quase decidido.
Fariam a viagem no final de novembro. Como era setembro, faltavam
apenas dois meses, tempo suficiente para ajustar os detalhes. Beto
adorava o mês de setembro, porque, segundo ele, era o mês que quase
sempre aconteciam coisas boas em sua vida.
Ritinha
estava radiante. Afinal, conciliariam a viagem com o término do
apartamento.
Aguardariam
o fim do ano letivo, data oportuna para Marquinhos viajar, sem se
prejudicar nos estudos. Viajariam logo no início das férias, e
permaneceriam em Riacho da Mata até meados de dezembro, tempo
suficiente para concluir a obra do apartamento. Por conta da obra e
da loja, Beto passaria apenas três ou quatro dias com os pais,
conciliando com o final de semana, e retornaria em seguida. Quanto ao
dinheiro para conclusão da obra, ficou acertado que Ritinha
providenciaria a antecipação da distribuição dos lucros da
Almari, e faria um reajuste nos investimentos para o semestre
seguinte. O projeto da obra seria ajustado de acordo com os recursos
disponíveis. Um estudante do curso de Ciências Contábeis, bem
recomendado, foi contratado para substituir Ritinha, durante sua
ausência.
Ao
receberem a notícia que seus filhos e netos viriam passar uns dias
em Riacho da Mata, Dona Zefa e Seu Jairo ficaram numa felicidade sem
tamanho. Contando os dias e as horas, esmeravam nos preparativos.
Finalmente, aproximava-se o dia da viagem. Na semana anterior, Beto
providenciou uma revisão caprichada na velha camionete, mas de nada
adiantou. Quando o seu sócio, o genro do compadre, soube que Beto
pretendia fazer aquela viagem com a velha camionete, simplesmente o
proibiu terminantemente. Disponibilizou a perua, mais nova e bem mais
confortável, ideal para empreender aquela viagem. Esclareceu que o
carro não faria tanta falta, porque era usado, eventualmente, pela
esposa. Além disso, eram poucos dias. A viagem era um pouco longa, e
seria muito cansativo para as crianças. Afinal, nossas famílias
merecem o melhor. Beto, sem argumento, foi obrigado a aceitar.
Era
pouco mais de seis horas da manhã de um sábado, e o carro já
estava a quilômetros de distância da metrópole, rumo a Riacho da
Mata. Como o carro ia relativamente vazio, Beto convidou aos
compadres, que prontamente aceitaram ao convite. Passariam o final de
semana em companhia de Dona Zefa e Seu Jairo, e retornariam, com
Beto, na terça-feira bem cedinho. Para Ritinha e Marquinhos,
marinheiros de primeira viagem, era uma festa para os seus olhos.
Margeando a estrada, avistavam-se vários sítios, cada um mais
bonito que o outro. As casas, os cercados com animais, as plantações,
pareciam verdadeiros presépios a céu aberto. Vez por outra,
passavam por um vilarejo, e Marquinhos ansioso, perguntava – é
aqui? E o vô, pacientemente, respondia – calma, ainda não.
Ainda
não eram dez horas da manhã quando Beto, guiando a perua do sócio,
entrou na vila de Riacho da Mata. Parou para abastecer no único
posto, localizado na praça principal. A pedido da comadre, Beto
estacionou o carro sob a sombra de uma árvore. A comadre abriu uma
sacola térmica onde trazia sanduíches, biscoitos, frutas e sucos,
dos quais todos se serviram à vontade. Beto, em pé, ao lado do
carro, avistou do outro lado da praça, o seu antigo grupo escolar.
Suas lembranças viajaram no tempo, e sentiu novamente aquele cheiro
suave de sabonete, há muito esquecido. Por onde andaria a sua
professorinha? Quis perguntar à sua mãe, mas faltou-lhe coragem.
Por muitas vezes, pensou em retornar, e saber notícias dela, mas
nunca concretizou. Nas suas longas noites de insônia, curtindo a dor
da solidão, sonhava reencontrá-la, dizer-lhe que ainda a amava
muito e, somente ao seu lado, conseguiria encontrar a verdadeira
felicidade. Mas aí vinha a incerteza e o medo de uma nova desilusão.
Uma dor insuportável invadia-lhe o peito, como se duas mãos de
ferro estivessem comprimindo o seu coração, esmagando-o até sentir
sua última batida. Ritinha, com uma fruta na mão, foi em direção
a Beto para oferecer-lhe, mas ao deparar com seu olhar fixo no vazio,
respeitando o seu momento, parou, e aguardou. Ao despertar do seu
devaneio, Beto deparou com Ritinha aproximando-se, ao tempo em que
estendia a mão, oferecendo-lhe uma fruta. Ela não lhes disse nada,
mas o seu olhar de ternura, carinho e muito amor, dizia tudo. Ele
abraçou-a carinhosamente, osculou-lhe a fronte, pegou a fruta, e
sorriu para ela. Ela retribuiu-lhe o sorriso, e, juntos, devoraram a
saborosa maçã.
Rodaram
cerca de mais alguns minutos, e chegaram diante da cancela do sítio.
O compadre, bastante familiarizado com a rotina, saltou, e abriu-a.
Beto atravessou a cancela aberta, com o carro, e aguardou. O compadre
fechou-a e embarcou novamente. De longe, os visitantes avistaram a
casa, e o casal de anfitriões plantados nos degraus da entrada da
varanda.
O
sítio não era dos mais bonitos. A casa modesta, avarandada, dava a
impressão de ser bastante aconchegante. Ao lado, um pouco mais ao
fundo, via-se um depósito e uma baia. Ao
fundo, um galinheiro e um curral. Do outro lado tinha uma pequena
horta, um pomar com diversas árvores frutíferas, cortado por um
pequeno córrego. O restante do terreno era ocupado por pastagens e
uma reserva florestal.
Quando
o carro parou, Dona Zefa espantada, com as mãos na boca, exclamou.
–
Jairo, os compadres também vieram!
Em
seguida, foram trocas de abraços calorosos, acompanhados de uma
enorme euforia. Dona Zefa tomou Martinha dos braços de Ritinha e
começou a cobri-la de beijos e abraços. A princípio Martinha ficou
um pouco assustada, mas, diante de tanto carinho e muitas risadas,
acalmou-se e também começou a sorrir. Marquinhos, sentindo-se um
pouco deslocado, permaneceu junto ao carro observando a cena. Foi
então que Beto se tocou e lembrou-se que ele ainda não conhecia
seus pais. Ele aproximou-se de Marquinho, agarrou-o enfiando debaixo
do braço e, abraçados, aproximaram-se do grupo.
–
Esse é seu vô Jairo e essa é sua vó Zefa – disse Beto a
Marquinhos.
Seu
Jairo então abriu os braços e, dirigindo-se a Marquinhos, falou.
–
Dá cá um abraço.
Marquinhos,
ainda um pouco tímido, aproximou-se lentamente de Seu Jairo e
recebeu aquele forte abraço. Um pouco mais à vontade, retribuiu-lhe
o abraço e pensou – aqui também estou em casa.
No
dia seguinte, logo após o desjejum, seu Jairo recomeçou sua labuta
diária, dessa vez acompanhado por Beto e Marquinhos. Enquanto
executava as tarefas, seu Jairo ia inteirando Beto das mudanças e
melhorias, bem como de algumas tarefas pesadas, que não estavam
sendo feitas por falta de mão de obra. Beto, por sua vez, enquanto
ajudava, fazia alguns comentários, e dava opiniões. Vez por outra
eram interrompidos por Marquinhos que, diante de tanta novidade,
ávido por aprender, não se continha e perguntava. Logo, logo,
percebeu que o que aprendera nos livros era bem diferente da
realidade. A começar pela carreira que tomou da galinha choca,
quando foi pegar um dos seus pintinhos. Não encontrou nenhum
porquinho dócil, limpo e asseado, como os dos livros. Pelo
contrário, o que viu, foi um chiqueiro cheio deles, chafurdando na
lama, com cara nada amistosa.
Os
homens seguiram para o campo, e as mulheres permaneceram em casa.
Dona Zefa, enquanto se inteirava das novidades, seguia no comando,
preparando as diversas iguarias, principalmente sua especialidade, os
famosos biscoitos assados no forno a lenha. Ritinha e a comadre, na
retaguarda, auxiliando-a. E Martinha, divertindo a todas com suas
peraltices.
Beto
precisava cuidar dos negócios, e dar continuidade à obra do
apartamento. Na segunda-feira cedo, como programado, ele e os
compadres retornaram à metrópole.
Já
havia transcorrido mais de duas semanas, desde a sua partida, e
Ritinha já não suportava mais a dor da saudade. Desde quando se
conheceram, nunca haviam passado tanto tempo sem se ver. Nesses
últimos tempos, então, que passaram a viver juntos, é praticamente
o tempo inteiro. Tanto em casa, como no trabalho. Acatando a sugestão
de Dona Zefa, Ritinha resolve ir ao posto telefônico da vila, para
falar com Beto. No dia seguinte, todos acordam mais cedo do que o
habitual. Seu Jairo e Marquinhos permaneceram no sítio, cuidando das
coisas, enquanto Dona Zefa, Ritinha e Martinha seguiram em direção
à estrada que passa em frente ao sítio, onde ficaram aguardando o
transporte, para conduzi-las até a vila.
Não
demorou muito para o ônibus chegar. As três embarcaram. Dona Zefa
cumprimentou o condutor, alguns sitiantes conhecidos
cumprimentaram-na, ao que cordialmente respondeu e, orgulhosamente,
apresentou a nora e a netinha. Outros, além de cumprimentá-la,
perguntaram por Seu Jairo. – Está bem, com saúde, graças a DEUS.
Continua na lida – respondeu.
Desde
quando foram morar no sítio, raras eram as vezes que Dona Zefa vinha
ao vilarejo. Ocupava a maior parte do seu tempo cuidando da casa e
nos afazeres domésticos. Em suas horas de descanso, ficava na
varanda, em sua cadeira de balanço, lendo um bom livro. Outras
vezes, sentava-se no sofá da sala, em companhia de Seu Jairo, onde
permaneciam por horas conversando, ouvindo músicas, petiscando e
saboreando um licorzinho caseiro.
Daquele
ponto da estrada, podia-se avistar a vila, no meio do vale. Meu pai
tinha razão – pensou Dona Zefa. A pequena vila parecia um lindo
presépio, erguido a céu aberto. E aí vieram as muitas outras
recordações. A casinha de janelas verdes, o quintal, o recomeço,
ou melhor, o começo de uma nova vida, os dias de incerteza, as
desilusões, os sonhos e as realizações. Lembrou-se de Seu Jairo,
homem simples, sem ambição, rude, mas com um coração de ouro. Ao
seu lado, sentia-se feliz, amparada, e protegida. Daquela união,
nascera Beto, seu maior tesouro. Na trajetória de sua vida, a essa
altura, o débito com sua Santa Rita das Causas Impossíveis, estava
enorme. Aventurava-se agora a pedir apenas vida e saúde para ela e
Seu Jairo, para usufruírem esses momentos felizes de suas vidas.
Olhou para o lado da poltrona, e viu sua nora com sua netinha no
colo. Com os olhos rasos d'água, abraçou-as, carinhosamente,
enquanto murmurava baixinho – obrigado meu DEUS.
–
Beto, como você está?
–
Ritinha! Aconteceu alguma coisa?
–
Não, não. Estamos todos bem. É que… é que eu estou com muita
saudade.
–
Oh meu amor. Eu também. Estou dormindo aqui embaixo, no nosso
cafofo. E tudo aqui me lembra você.
–
E aí, quando você vem nos buscar?
–
A obra está um pouco atrasada. Estamos com muito movimento na loja,
e eu pouco tenho ajudado ao mestre. Ele está praticamente só com o
ajudante. Acho que será concluída somente depois do natal.
–
Agora, além da saudade, estou muito triste. Eu estava sonhando em
armar nossa árvore de natal. Eu… eu nunca tive essa felicidade.
Seria a minha primeira vez!
–
Eu sinto muito. Mas teremos outros anos e…
–
É, eu sei, eu sei… e também não posso pedir mais. Não tenho do
que me queixar.
–
Verdade. Devemos agradecer pelo que a vida tem nos oferecido. Pelos
nossos sonhos realizados. E as nossas crianças, como estão, e meus
pais?
–
Estão todos bem, principalmente as crianças. Estão adorando. E
prepare-se. Nas férias do ano que vem, vão querer voltar. Sua mãe
está aqui, ansiosa para falar também. Beijo, beijo, beijo. Te amo
muito, muito, muito meu galego.
–
Também te amo muito meu docinho de jambo.
Retornaram
ao sítio, mas, apesar do esforço, Dona Zefa não conseguiu afastar
de Ritinha, a tristeza do seu semblante.
Por
algum tempo, nós, quando crianças, acreditamos em Papai Noel, nos
contagiamos e nos envolvemos com a magia do natal. Com o passar do
tempo, descobrimos a realidade, mas continuamos guardando dentro nós
aquele espírito natalino e, em todos os anos, deixamos aflorar
novamente aquele espírito de criança adormecido. Ritinha não viveu
essa fantasia. Logo cedo, a mãe expulsou Papai Noel da sua vida,
pisoteou e esmigalhou toda a magia, e o seu espírito natalino. Ela,
todos os anos, invejava os coleguinhas, seus brinquedos e suas
fantasias. E por mais que a mãe tentasse, não conseguiu destruir o
seu espírito criança que continuou adormecido por todos esses anos.
Dona Zefa, fazendo de tudo para animá-la, descrevia como seria
animado o natal deste ano, com toda a família reunida. Estava
contando até com a presença dos compadres, mas, não sabia ao certo
se viriam. Ritinha esforçava-se para demonstrar entusiasmo, mas, no
fundo, sabia que para ela não seria a mesma coisa. Nos dois últimos
anos, apesar de já estar debaixo do seu teto, não se sentiu animada
para comemorar. O apartamento ainda por terminar, e tudo improvisado,
não teria clima. Preferiu aguardar um pouco mais a realização do
seu sonho natalino, acalentado por tantos anos. Pode soar como uma
coisa boba, mas seu sonho é, no dia do natal, estar em sua casa, ao
lado de Beto e das crianças, desembrulhando os presentes. Em sua
visão, aparecem todos sentados na sala, sobre um lindo piso de
cerâmica clara, todo limpo, cheirando a jasmim, ao lado de uma
grande árvore de natal, toda enfeitada, cheia de luzes piscando, e,
no cume, uma grande estrela de David.
Depois
de falar ao telefone com Ritinha, Beto percebeu a imensa tristeza na
voz da sua companheira. Conhecendo agora um pouco mais sobre sua
vida, não foi difícil imaginar o quanto deve ter sido também dura
a sua infância. Ele sabe que o débito para com Dona Zefa é enorme.
Sempre foi uma boa mãe. Não devia dar-lhe nenhum desgosto. Sabe que
é um bom filho, mas, ultimamente, tem deixado muito a desejar. Esse
é o momento de reverter, e começar a cumprir o que prometera a si
mesmo. Dona Zefa ficará muito feliz. Afinal, toda a família estará
reunida, durante os festejos natalinos. Mas agora sabe a imensa
tristeza que causará a Ritinha. O que fazer.
As
vendas do final de ano estavam superando as expectativas. Poderia,
perfeitamente, fazer um aditivo ao orçamento da obra, sem
comprometer as finanças da Almari. Chamou o velho mestre de obra, e
incumbiu-o de providenciar um bom profissional, para ajudá-lo na
execução do projeto. A obra deveria estar concluída antes do
natal. Para isso, estaria disposto a pagar um valor até acima do
mercado, caso fosse necessário. O mestre esclareceu que não se
tratava de valores. A dificuldade consistia em conseguir um bom
profissional disponível, principalmente nessa época do ano, quando
a grande maioria das pessoas estava reformando suas casas para os
festejos de final de ano. Ainda assim, faria
o possível. Cerca de dois dias depois, o mestre comunicou a boa
nova a Beto. Foi um verdadeiro milagre. Conseguiu um bom
profissional, que, por coincidência, tinha sido um dos seus
estagiários. Por consideração ao mestre, ele conversou com o seu
contratante, cujo serviço não demandava tanta urgência, e
acertaram prorrogar o prazo da conclusão do serviço. Com essa
manobra, tornou-se disponível para reforçar a equipe de trabalho do
mestre.
Dona
Zefa e Ritinha, enquanto preparavam as guloseimas para as festas de
final de ano, conversavam animadamente, quando foram interrompidas
com a entrada de Martinha no recinto.
Segurando
cuidadosamente um pintinho, falou.
–
Vó, vó!
Posso levá pa casa?
Estava
uma graça. Queimada do sol, de short e camiseta, e toda
emborralhada. De branco, via-se apenas os dentes, e as escleras.
A vó
toda sorridente, respondeu.
–
Mas se
você levar, ele vai morrer!
Com
a carinha demonstrando impaciência e contrariedade, Martinha
retrucou.
–
Eu, eu
dou cumida!
–
Ainda
assim, ele vai morrer de saudade da mãe e dos irmãos –
complementou a avó.
A
essa altura, Martinha já estava sentada no chão, dividindo seu
biscoito com o pintinho. Balançando a cabecinha, enquanto abria os
bracinhos, dando a impressão que queria abarcar o mundo inteiro,
fechando os olhinhos para dar mais ênfase ao seu contra-argumento,
respondeu.
–
Eu levo
tuuudo tudo tudo!
A
vó não se conteve com a presença de espírito da neta.
–
Mas
menina! Quem te ensinou tanta sagacidade?
Martinha,
de cabeça baixa, olhando para o chão, respondeu baixinho.
–
Foi
mamãe.
Dona
Zefa e Ritinha não se contiveram e caíram na gargalhada. Martinha
contagiou-se e também acompanhou a dupla. O pintinho, com o papo
devidamente cheio, aproveitou a distração de sua pretensa dona e
debandou.
Era
o último sábado, anterior à véspera do natal. Ritinha triste,
porém conformada, acabou de preparar a mesa para o desjejum, e foi
levar a meia caneca de café preto, na varanda, para Seu Jairo. Essa
era uma das tarefas de Dona Zefa, mas, aproveitando que a sogra ainda
estava terminando os preparativos para o desjejum, Ritinha
adiantou-se em fazê-la. Seu Jairo dizia que tomar um café bem
quente ao amanhecer ajudava a despertar. Para Ritinha, foi mais um
pretexto para espichar um olhar saudoso pela estrada, na esperança
de, como um passe de mágica, seus desejos fossem concretizados. Mas,
tudo em vão. Nem sombra de Beto.
Terminado
os afazeres do dia, Seu Jairo, aproveitando o resto da manhã, foi
com Marquinhos até o galpão para consertar alguns arreios. De
repente, quebrando aquela quietude, ouviu-se, ainda muito distante, a
insistente buzina de um carro. Saíram do galpão e avistaram a nuvem
de poeira que um carro vinha deixando pela estrada, denotando que o
motorista devia estar apressado. Ritinha estava passando a vassoura
na casa, quando ouviu os gritos de Marquinhos – é Beto, é Beto!
Correu para a varanda, e avistou o carro parando em frente à
cancela. Jogou a vassoura para o lado, e correu para a frente da
casa. Marquinhos, de uma só carreira chegou até a cancela, abriu-a,
esperou o carro passar, fechou-a novamente, e pulou para dentro do
carro. Feliz da vida, com o rosto para fora da janela, acenava para
os demais, que já os aguardavam no terreiro. Quando Beto saltou,
Ritinha, chorando de felicidade, foi a primeira a abraçá-lo
euforicamente.
Passado
a euforia da chegada, os homens ficaram na varanda, e as mulheres
foram para a cozinha terminar de preparar o almoço. Enquanto
degustavam um licor caseiro, Beto foi inteirando Seu Jairo sobre os
últimos acontecimentos. No último mês, graças a DEUS, o volume de
vendas na Almari cresceu acima do esperado. Por isso, foi possível
acelerar o ritmo da obra, e terminar a tempo. Como Seu Jairo, Beto
também se queixou da escassez de uma boa mão de obra. Mesmo com o
dinheiro na mão, propondo pagar um valor acima do mercado, ainda
assim, quase não conseguia alguém para ajudar no término da obra.
É sempre assim. Os bons profissionais estão sempre abarrotados de
serviço. O que mais aparece, são aqueles profissionais de
meia-tigela, que dizem ter realizado obras magníficas, que já
trabalharam para meio mundo de pessoas importantes e, quando
contratados, a primeira coisa que fazem, é pedir um adiantamento do
salário. O tempo estava escasso para colocarem tanto assunto em dia.
Ora era Beto contando as novidades da cidade, ora era Seu Jaime
falando do progresso de Marquinhos, sem contar com as narrativas de
Dona Zefa, sobre as peraltices de Martinha. Durante o almoço, a
conversa continuava animada, pois ainda tinham novidades para contar.
–
Eu gostei muito daqui – disse Marquinhos, e continuou – se o vô
concordar, eu vou estudar esse negócio de cuidar das plantas, e
venho trabalhar com ele.
–
Agronomia, você quer dizer – complementou Ritinha.
–
Isso, isso – arrematou Marquinhos sorrindo.
–
Fico muito feliz – respondeu Seu Jairo, cheio de orgulho.
Quem
sabe, Seu Jairo não teria aquela tão almejada companhia de Beto,
através de Marquinhos. Não era seu neto de sangue, é bem verdade,
mas passou a gostar muito dele e já o considerava como tal.
Certamente não seria aquele garanhão putanheiro, até porque o seu
perfil era outro. Lembrava muito Beto, naquela mesma idade. Mas o
tempo muda as pessoas. Os conceitos de Seu Jairo agora eram outros.
Um homem de verdade, precisa ser sério, honesto e temente a DEUS.
Companheiro, prestimoso, e amigo de todas as horas. Alegre,
divertido, e amoroso. Se gostar de um rabo de saia, não faz mal. Vez
por outra pode dar uma chamegada aqui, outra ali, desde quando seja
discreto, não desonre, e não cause dissabores a ninguém.
–
A senhora não comeu nada Dona Zefa! – comentou Ritinha.
–
Estou sem apetite – respondeu Dona Zefa.
Seus
pensamentos estavam longe, muito longe. Aquele almoço alegre,
descontraído, aquela mesa cheia, com toda a família ali reunida,
remeteu-a a tempos atrás, quando os dois jovens casais, ela, Seu
Jairo, e os compadres, acompanhados de seus respectivos pais,
festejavam os muitos, e inesquecíveis natais. O tempo foi passando,
e, com a chegada dos filhos, as famílias foram crescendo, trazendo
com eles mais alegria. Depois começaram as despedidas. Uns foram
para não mais voltar. Esses últimos foram os mais tristes natais
festejados, perdendo apenas por aqueles vividos no outro período de
sua vida, há muito já esquecido, antes do seu recomeço em Riacho
da Mata. Apenas ela e Seu Jairo, sentados à enorme mesa. Nunca se
queixou. Sabe que os filhos não pertencem a quem os gera, ou os
cria. Os filhos pertencem ao mundo. Assim como chegou o momento de os
compadres ficarem sós, chegou também a sua vez. Esse ano, não
seria diferente. Estariam ela e Seu Jairo festejando mais um natal,
tristes, é bem verdade, mas agradecidos a Deus pela saúde, a mesa
farta, e, principalmente, pela felicidade de seus entes queridos. Não
é que ela tivesse desejado, mas, simplesmente aconteceu. Comungou
com a tristeza de Ritinha, por não poder realizar o seu sonho de
festejar o primeiro natal em sua casa. Ela é jovem, praticamente
começando a vida, e terá muitos outros natais a comemorar. A roda
da vida provocou as devidas mudanças, e fez com que rebrotasse então
aquele sonho adormecido. Mesmo que fosse a última, mas teria
novamente aquela mesa farta, com toda a sua nova família ao redor,
comemorando mais uma inesquecível noite de natal.
Já
haviam terminado de almoçar, e estavam todos na varanda, aguardando
o café e a sobremesa. Beto, sabendo o motivo da tristeza de Dona
Zefa, estava agora numa situação delicada. Encontrava-se,
literalmente, entre a cruz e a espada. Sem mais delongas, precisava
resolver aquela situação. Analisou rapidamente, e concluiu que
aquele era o momento mais apropriado. Aguardou Dona Zefa retornar da
cozinha com o café, e, depois de terminada a sua tarefa de servir,
sem perda de tempo, delicadamente puxou-a para um lugar mais
reservado da varanda, e disse-lhe.
–
Eu sei que o seu problema não é falta de apetite. Está mais pra
tristeza e decepção. E sei também que tem todos os motivos para
sentir-se dessa forma.
–
Não é nada disso. É impressão sua. Não tenho motivo algum para
estar triste – disse Dona Zefa tentando despistar, mas seus olhos
rasos d'água, aqueles olhos cinza esverdeado, traíram toda a sua
narrativa.
Beto
ficou ainda mais angustiado. Com tanta dor no coração, ainda assim,
a mãe era incapaz de queixar-se.
–
Ô mãe, me perdoa! – falou-lhe Beto, ao tempo em que a abraçava
e beijava.
Beto
estava sufocado com aquela angustia que o corroía por dentro, e
precisava arrancá-la do peito. Emocionado, com os olhos marejados,
começou a relatar, desde o seu descumprimento de trato, naquele
primeiro natal. Disse-lhe que preferiu deixá-la triste com a sua
ausência, a dar-lhe tamanho desgosto e decepção. E se não
bastasse, também viriam juntos as preocupações prevendo ver um
filho fracassado, sem futuro, com uma família para sustentar. E mais
angustiado estava, por não ter cumprido o juramento que havia feito
a si mesmo, o de não dar-lhe mais nenhum desgosto. Agora chega de
sofrimento para ambos os lados. Já havia preparado o quarto para ela
e Seu Jairo lá no apartamento. Tomara a liberdade de fazer um
pequeno roteiro das atividades que fariam na metrópole, a começar
pelas visitas aos compadres e Dona Romilda. Agora precisava do
perdão, e só mais um pouquinho de compreensão da mãe. Conforme
seus ensinamentos, natal é uma festa para se comemorar em família.
É a oportunidade de renovar e fortalecer os laços consanguíneos e
não consanguíneos. É congraçamento. É troca de energia entre
espíritos afins. E não é apenas estarem fisicamente reunidos. É
muito mais que isso. É momento de paz e harmonia, culminada com a
alegria do espírito natalino. O local não importa. É mero detalhe.
Nesse ano, em vez de comemorarem na casa do sítio, transfeririam a
comemoração dos festejos para o apartamento.
Dona
Zefa entende perfeitamente a situação delicada do filho.
Transferindo os festejos para a cidade, ficará melhor para os seus
negócios, e mais prático para ele se dividir em atenção entre a
loja e a família. Mas, a causa principal da mudança de planos, é
atender aos anseios de Ritinha. E porque não? Ambos se amam, e o
amor tem dessas coisas. Ha uma necessidade de fazer um ao outro
feliz. Um se realiza com a felicidade do outro. O amor, quando
verdadeiro, é incondicional. É bem verdade que se sentiu magoada, e
um pouco decepcionada com o filho. Mas tudo isso já passou. Coração
de mãe não guarda mágoas, porque só tem espaço para muito amor e
afeição pelos seus rebentos. É
um filho maravilhoso e não pode exigir dele a perfeição, porque
ela também é imperfeita. Ritinha é um doce de pessoa. Ama-o e o
faz muito feliz. Ambos deram-lhe dois netos, que enchem seu coração
de felicidade. O que mais pode pedir a sua Santa Rita das Causas
Impossíveis?
–
Não tenho nada a lhes perdoar meu filho. Eu é que te peço perdão
e compreensão porque sou imperfeita. E todo ser imperfeito é assim.
Quanto mais tem, mais quer. Vamos falar com Jaime para começar a
providenciar as coisas para a viagem.
Abraçados,
felizes, seguiram em direção ao grupo para anunciar a boa-nova.
Decidiram
viajar no dia seguinte após o almoço, se possível, pois tinham
ainda muita coisa para arrumar. Com a mudança do local dos festejos
foi necessário alterar também toda a programação. A começar
pelos abates que, certamente, Seu Jairo teria que antecipar. Uma
parte das carnes seria congelada e a outra parte, defumada. As
embalagens dos licores, e outras iguarias, ficariam por conta das
mulheres. Com exceção de Martinha e Beto, porque ia bater volante
no outro dia, durante quase toda à tarde, os demais quase não
dormiram. Enquanto Dona Zefa e Ritinha cuidavam das embalagens dos
comes e bebes, Seu Jaime e Marquinhos não arredaram pé do
defumador. Já era quase madrugada, quando, finalmente, todos se
recolheram ao merecido descanso. No dia seguinte, acordaram um pouco
mais tarde, porém felizes, porque quase todas as tarefas haviam sido
cumpridas. Apos o desjejum, Beto e Seu Jairo começaram a arrumar as
coisas no bagageiro do carro. Preferiam sair logo após o almoço,
como planejado, para chegarem ao destino antes do anoitecer. Beto
aprendera com Seu Jairo. O melhor horário para iniciar uma viagem
era na madrugada. E viajar à noite, somente em caso extremo.
Já
era quase meio dia, e, como haviam tomado o café mais tarde do que o
habitual, todos ainda estavam sem apetite. Mas precisavam almoçar no
horário, para não atrasar a viagem. Dona Zefa, com sua vasta
experiência, prevendo aquela situação, preparou então uma
apetitosa refeição leve, que conseguiu despertar aquela fomezinha,
e todos comeram satisfeitos.
Era
o último almoço da temporada. Cada um dos presentes com seus
secretos pensamentos. Dona Zefa, agradecida e feliz, em parte, porque
passaria o natal com sua família reunida, mas gostaria que fosse na
sua casa. E, quando retornassem, começaria a enfrentar aqueles
longos dias, ansiosa por notícias do filho. Para Seu Jairo, seria
muito difícil voltar a se acostumar com a solidão. A ausência do
jovem parceiro deixaria uma enorme lacuna. O dócil Marquinho tinha
essa peculiaridade de cativar, e se afeiçoar às pessoas. Marquinhos
e Ritinha, que nunca tiveram uma família de verdade, viveram,
naqueles poucos dias, uma experiência indescritível. Os pais de
Beto, amorosos, compreensivos e pacientes, conquistaram,
definitivamente, aqueles dois coraçãozinhos, tão carentes de amor
e afeto. A magia da vida tranquila e sossegada do campo, deu o toque
que faltava naquele cenário mágico. Diferentemente dos anteriores,
alegres e descontraídos, aquele almoço começou a dar espaço para
uma tristeza nostálgica. Nesse momento, o silêncio foi quebrado por
Beto. Propositalmente, ou não, lembrou-se de Marquinhos ter
expressado o desejo de trabalhar com Seu Jairo no sítio.
–
E então Seu Jairo, porque não monta uma parceria com Marquinhos? Se
é que ele ainda está interessado em trabalhar com o senhor, aqui no
sítio. Eu gostaria mesmo é que ele continuasse meu parceiro, lá na
Almari. Mas, para mim, acima de tudo está a felicidade dele. Torço
para que tudo dê certo. Minha sugestão é que vocês produzam algo
que eu possa comercializar na loja. Poderia ser produtos derivados de
madeira, por exemplo.
–
Eu me lembro de um cliente lá da loja que falou de uma madeira –
disse Marquinhos. Não esqueci porque tem o nome engraçado. É
balsa. É muito leve, forte, cresce ligeiro e é muito cara.
–
Eu já ouvi falar – disse Seu Jairo. E é capaz de se dar bem aqui
no sítio. Talvez precise fazer uma correção no solo, mas vale a
pena.
–
Olha só, estou gostando! – arrematou Beto animadamente. E
continuou – e eu já tenho um nome para a empresa. Dando mais
empolgação à sua fala, abriu os braços e disse: M&J
Madeireira Ltda.
Todos
sorriram do teatro improvisado de Beto.
Sério,
Beto continuou – vocês podem achar que é brincadeira, mas eu
acredito e boto fé em Marquinhos. Ele é um menino trabalhador e
confiável.
Marquinhos
sorriu encabulado.
–
E quem disse que eu não estou levando a sério! – retrucou Seu
Jairo. E continuou – eu tive prova do seu potencial, durante esses
poucos dias que esteve me ajudando na labuta do sítio.
Marquinhos
olhou firmemente para Seu Jairo, e disse-lhe – se o vô bota fé em
mim, eu topo. Em seguida, com ar um pouco desolado, complementou –
mas agora, agora, não vai dar porque tenho pouca idade e pouco
dinheiro na poupança.
–
Nã nã não! – retrucou Seu Jaime, meneando a cabeça. E concluiu
– quando comecei a bater a cabeça por esse mundo afora, era só um
pouquinho mais velho do que você. Enfrentei o mundo com Deus no
coração, dois tostões no bolso, a cara e a coragem. Só não
consegui chegar mais longe, hoje reconheço, porque abandonei os
estudos. Mas você não vai abandonar não. Quanto ao dinheiro, deixa
que o velho Jairo resolve. Sua poupança vai ficar guardadinha.
Quanto à idade, isso não tem a menor importância. O que vale mesmo
é o caráter, a responsabilidade, e a força de vontade. E num
piscar de olhos você estará com dezoito anos. Pode acreditar.
Beto,
que já tinha um bom conhecimento em planejamento, voltou a alimentar
a ideia e começou a esboçar um projeto. Marquinhos aprofundaria nas
pesquisas sobre a comercialização, onde e como vender, valor de
venda no mercado, custo do plantio, média de produtividade, etc. Seu
Jairo procuraria buscar informações sobre plantio, tipo de solo,
espaçamento, e tipos de pragas mais comuns. Compartilhariam ao
máximo todos os conhecimentos adquiridos. Inicialmente, seria uma
parceria informal. Mais adiante, tudo dando certo, constituiriam uma
empresa registrada. Durante as férias e feriados prolongados,
Marquinhos ficaria no sítio trabalhando na execução do projeto com
o avô. E os dias que permanecesse na cidade, dividiria seu tempo
entre os estudos, a Almari, e pesquisas relacionadas aos projetos da
parceria.
A
ideia do projeto reascendeu em Seu Jairo aquele jovem destemido,
determinado, obstinado, e, até mesmo um pouco utópico. Não que ele
almejasse alcançar uma posição de destaque na área financeira, ou
social. O casal passou por uns perrengues durante certos períodos,
principalmente quando Beto ainda era criancinha. Mas como
contribuintes do FUNRURAL – Fundo de Assistência ao Trabalhador
Rural, depois de muita peleja, conseguiram aposentar pelo INPS –
Instituto Nacional de Previdência Social. Não eram ricos, mas
agora, com as aposentadorias que recebiam, e mais alguma renda
extraída do sítio, dava para viverem modestamente. Também, àquela
altura da vida, não almejavam mais nada, além disso. A maior
preocupação era o destino do único filho, que agora, graças a
Deus, já estava encaminhado. Mas, dois fortes motivos
impulsionaram-no a abraçar aquela causa. Primeiramente, o desejo de
oferecer àquele menino homem, o Marquinhos, a grande oportunidade
que o jovem Jairo acalentou por tantos anos, e nunca lhes foi dada. É
bem verdade que, durante sua trajetória, encontrou pelo caminho
muitas almas caridosas, que o socorreram nas horas mais difíceis.
Mas nunca conseguiu realizar aquele sonho de amealhar uma boa soma, e
apostar em um projeto relevante, ou alguém confiar e acreditar no
seu potencial, a ponto de dizer-lhe: – pago pra ver, e agora me
mostre o quanto você é capaz. O segundo motivo é a satisfação, e
o prazer de encarar mais um desafio, e, mesmo depois de tantos anos,
mostrar a si próprio o quanto ainda é capaz.
–
A conversa está animada, mas agora vamos fazer uma pausa – disse
Dona Zefa, em tom de ordenação. Haverá muito tempo para
continuarmos o diálogo durante o trajeto. Agora vamos terminar de
arrumar as coisas e iniciar nossa viagem. Não é bom viajarmos à
noite – concluiu.
Acatando
a ordem da matriarca, sem contestar, encerraram a conversa, e
começaram a concluir os últimos detalhes para dar início à
viagem.
Pouco
tempo depois, devidamente acomodados na perua, seguiam viagem em
direção à metrópole. Enquanto o veículo se movimentava, deixava
para trás uma cortina de poeira. Absorto em seus secretos
pensamentos, acompanhando os sacolejos, provenientes das
irregularidades da estrada de chão batido, cada um dos passageiros,
em silêncio, seguia sua viagem. Ha muito que a cancela do sítio
havia sido deixada para trás, mas o pensamento de Seu Jairo
continuava lá. A área mais apropriada para o plantio das balsas
seria a do capoeirão. Seu tamanho é pouco mais de dez hectares. De
cabeça, calculou que poderia, num espaçamento de cinco por cinco,
plantar cerca de duzentas balsas, já levando em conta os carreirões
entre as glebas, também com cinco metros, para facilitar a
movimentação de tratores e caminhões. Descartou a possibilidade de
aumentar o plantio, porque, para isso, teria que reduzir a sua
reserva florestal. E isso ele não faria. Precisava agora saber se,
com essa quantidade de árvores, o projeto seria viável. Sabia que
em um plantio de cacau, por exemplo, a produção por hectare é de
cinquenta a sessenta arrobas. E é economicamente viável quando a
colheita anual atinge um mínimo de mil
arrobas.
Isso equivale a uma área plantada de, aproximadamente, vinte
hectares. Mas os cacauais não servem como parâmetro, porque são
plantios típicos de manejo manual, e, consequentemente, têm um
custo elevado. É uma árvore que se adapta muito bem nos boqueirões,
por necessitarem de bastante sombra e umidade. Quanto mais o terreno
acidentado, melhor. São muitos os fatores que dificultam a
mecanização de um cacaual. Esse, e muitos outros conhecimentos,
eram passados de geração em geração, ou adquiridos da forma mais
dolorida. Entre erros e acertos, até prosperar
ou
falir. Pensou em alguma coisa que pudesse dar-lhe um norte, mas nada
lhe ocorreu. Com a mente cansada de tanto pensar,
Seu
Jaime rompeu o silêncio.
–
Beto, calculo que, num espaçamento de cinco por cinco metros, o
mesmo espaçamento usado no plantio de coqueiros, conseguirei plantar
cerca de duzentas balsas naquela área do capoeirão. Preciso saber
agora se, inicialmente, com essa quantidade de árvores, o projeto já
seria viável.
Imediatamente,
Beto lembrou-se dos cursos gratuitos, que havia feito antes, e
durante a abertura da Almari. Mas, para surpresa de todos, inclusive
do próprio Beto, foi Ritinha que tomou a palavra e começou a
explanar.
–
Seu
Jairo, para encontrar essa resposta, é necessário fazer uma análise
de viabilidade econômica e financeira. Primeiramente, elabora-se um
pré-projeto. Após estudos sobre a produção média por hectare, o
custo de produção, o valor da venda do produto praticado no
mercado, o percentual médio das perdas. Em seguida faz-se uma
projeção de receitas, custos, despesas e investimentos. Também
deverá fazer parte da análise, as taxas e impostos que incidirão
sobre a comercialização, além do custo de materiais, maquinários,
e insumos a serem utilizados no projeto. É importante que esses
números utilizados nas projeções, sejam os mais reais possíveis.
Dessa forma é possível traçar um perfil de como o projeto se
comportará financeiramente por um determinado período. Feito isso,
operando com alguns indicadores e parâmetros econômicos, chega-se a
um valor estimado do lucro líquido. Esse lucro líquido, em termos
percentuais, é conhecido como a TIR (taxa interna de retorno). Outra
taxa também importante é a TMA (taxa mínima de atratividade). O
indicador payback, mede quanto tempo será necessário para que um
projeto gere o retorno de todo o investimento inicial.
–
Bravo Ritinha, é isso aí! – disse Beto entusiasmado e cheio de
orgulho. Em seguida complementou – e por último, faz-se uma
análise comparativa entre o lucro líquido, o montante do capital
aplicado, e o percentual de risco. Caso a TIR seja maior que a TMA,
significa que o projeto é viável e tem tudo para dar certo. Caso
contrário, deve-se descartar ou reavaliar o projeto.
Os
tempos mudaram. Já se foi o tempo em que o
empreendedor
perdia dinheiro entre os erros e acertos, ou às vezes pagava bem
caro, até mesmo com a própria falência. Ainda existem pessoas, que
continuam teimando e insistindo em ir pelo caminho errado. Seu Jairo
sabia disso, mas não imaginava a complexidade para avaliar a
viabilidade de um projeto, e o grau de conhecimento daqueles dois.
Mais confiante e aliviado, acrescentou.
–
Ótimo. Então peço que vocês me ajudem nessa parte, porque,
sinceramente, essa não é a minha praia. E esses dados que vocês
vão precisar, Marquinhos fornece.
Marquinhos
já estava preocupado, sem saber se daria conta de tantas novas
incumbências, e ainda chegando mais! Ressabiado e receoso de não
corresponder à tamanha expectativa, ponderou, quase que implorando.
–
Mas vocês vão me ajudar, não vão?
–
Mas é claro que vamos – disse Beto. Nós também não somos papa
no assunto. Temos o conhecimento, mas não temos muita prática.
Fique tranquilo. Vamos estudar e trabalhar juntos nesse projeto.
–
Pensei na sua antiga professora, Marquinhos. Ela gosta de ler e tem
uma biblioteca enorme. Tem até duas enciclopédias: o Tesouro da
Juventude e a Delta-Larousse – reforçou Ritinha.
–
É, ela gosta de ler, e tem muitos livros – disse Marquinhos. – E
pode também me ajudar a pesquisar na Biblioteca Municipal.
–
É, mas agora chega de falar em trabalho – atalhou Dona Zefa. Já
estamos na semana do natal. E onde está nosso espírito natalino?
Seu
Jairo, prontamente, respondeu cantando.
–
Jingle bel, jingle bel. Acabou o papel…
E
todos sorriram.
Ao
chegarem à cidade, primeiramente passaram na casa dos compadres. O
objetivo maior da visitinha curta, além de matarem um pouco a
saudade, era deixar logo o peru porque estava fresco. Dona Zefa sabia
que a comadre gostava de temperar ao seu modo. O outro, já estava
temperado ao gosto de Dona Zefa. Deixaram também requeijão, queijo
e doce. Não poderiam faltar os biscoitos assados no forno a lenha.
A
tarde já estava findando, quando, finalmente, chegaram ao
apartamento, ou melhor, ao novo apartamento. A primeira mudança foi
o acesso. Não precisavam mais entrar por dentro da loja. O
apartamento agora tinha uma porta de ferro independente, que dava
acesso à escada. Por sua vez, a escada recebeu um piso
antiderrapante. Carregando algumas coisas, Beto e Ritinha subiram as
escadas. Ao chegarem ao patamar, no final da escada, Ritinha deparou
com uma porta trabalhada, envernizada, que Beto abriu. Sorridente,
com um gesto de cavalheiro à moda antiga, fez menção para Ritinha
entrar. Ritinha olhou demoradamente a porta, e, vagarosamente, entrou
na sala. Beto colocou os objetos no chão e, em seguida, abriu o
janelão. Ritinha ficou encantada com o que viu. O teto todo branco,
as paredes pintadas de um branco Areia, e o chão todo coberto com
uma cerâmica marrom bem clarinha, um pouco mais escura que as
paredes. O balcão da cozinha americana, confeccionado com pedra de
granito corumbá cinza, estava ladeado por dois bancos altos. A velha
geladeira e o fogão foram substituídos por novos eletrodomésticos.
E, no meio da sala, em lugar da mesa improvisada, tinha agora uma
linda mesa de seis lugares. Sem palavras, com os olhos brilhando,
Ritinha abraçou Beto e aconchegou seu rosto em seu peito. O tempo
parou por alguns segundos, enquanto eles permaneceram ali abraçados,
no meio da sala. Seus pensamentos viajaram, revivendo as incertezas
de cada um dos dias difíceis que passaram, para chegarem até ali.
Desfilaram em suas mentes, cada uma daquelas etapas vividas durante
tão poucos anos, mas que pareceram uma eternidade. Desde o primeiro
toque das mãos, no colégio, ao lado da cantina, o primeiro beijo
trocado na formatura de Ângelo, as brigas, as reconciliações, os
encontros no quartinho da loja, as juras de amor trocadas… O
momento foi interrompido pela algazarra das crianças, acompanhadas
pelos avós. Beto encheu-se de orgulho diante de tantos elogios,
principalmente de Seu Jairo.
Cansados
da viagem, fizeram uma leve ceia e não demoraram a se recolher. Com
o término da obra, o apartamento agora passou a ter uma suíte e
dois quartos. Não era grande, mas todos ficaram confortavelmente
acomodados.
Marquinhos,
compenetrado, agora tinha um quarto somente dele. Não era cheio de
brinquedos, como sempre sonhara, até porque agora já era um
homenzinho, mas estava muito feliz. Em sua mente, não havia mais
registros de seus verdadeiros pais. Tinha apenas vagas lembranças.
No
tempo em que moravam naquele
minúsculo quartinho, ele e sua mãe Ritinha, teve muito medo de ser
abandonado. Marquinho sempre fora um menino precoce, porque a vida o
fez amadurecer bem cedo. Teve apenas um breve período de infância.
Por mais de uma vez, Ritinha prometera que nunca iria abandoná-lo,
mas ele tinha consciência que, por mais que se esforçasse, Ritinha
não poderia cuidar sozinha de duas crianças. Ela precisava da ajuda
de Beto. Se Beto não o aceitasse, ela seria obrigada a abandoná-lo,
sob pena de sucumbirem os três. Como ele poderia sobreviver sem o
amor da mãe Ritinha, e agora, também sem o amor da irmãzinha que
estava para chegar. Mas, quando conheceu Beto sentiu-se
verdadeiramente acolhido e, de imediato, aceitou-o como seu pai. Até
então, sentia-se órfão. Nunca reconheceu
Zé do Ouro como seu progenitor, e vice versa. Com Beto foi
diferente. Aquela criancinha de olhos negros, tão carente de afeto,
conquistou, imediatamente, o coração de manteiga do galego. Desde
então, Marquinhos foi ficando cada vez mais confiante, e seus
temores foram se dissipando. Sentindo-se protegido e amparado por uma
família de verdade, começou a ter um pouco de paz e felicidade.
Beto
já havia armado o berço de Martinha na suíte. Dona Zefa, com a
aquiescência da própria neta, conseguiu transferir o berço da
suíte para o quarto de Martinha, onde dormiriam Seu Jairo, Dona Zefa
e a
neta.
Nada mais justo. Afinal, após tanto tempo de convivência, seria a
primeira noite que o casal dormiria em seu próprio aposento. Era
mais uma nova experiência. Sem contar com os dias que ficaram
separados. Nem no tempo de namoro ficaram tanto tempo sem se ver.
Beto ainda tentou relutar, alegando que Martinha poderia estranhar e,
certamente iria incomodá-los, mas foi voto vencido. Dona Zefa e Seu
Jairo estavam muito felizes com a presença da neta.
Ainda
faltavam os lustres da sala e dos quartos, espelhos dos banheiros, e
outras coisinhas, mas Beto preferiu deixar essa parte a critério de
Ritinha. Ela tinha um gosto mais refinado. Nada mais agradável do
que uma moradia, por mais simples que seja, decorada ao gosto do
casal. O ambiente fica mais agradável e a energia flui melhor.
Em
fim, sós. Abraçados, os dedos dos pés entrelaçados, Beto afagando
os cabelos de Ritinha, com o rosto aninhado em seu peito, relembrava
aquela primeira noite no pequeno terraço da república de um amigo,
sob a luz das estrelas. Não havia passado tanto tempo assim, mas é
como se fosse uma eternidade. Após tanta tempestade, tinha que haver
uma bonança. Não foi fácil. Tiveram muita ajuda, sim. Muitos
momentos de desanimo, vontade de desistir e abandonar tudo, mas o que
pesou mesmo na balança foram o trabalho incansável, e,
principalmente, a força e a perseverança de Ritinha. A guerreira
agora tinha o descanso merecido. No aconchego do quarto, desfrutava o
conforto da cama macia, sentindo o cheiro de lençóis limpos.
Como
num filme, Ritinha relembrou quantas vezes sonhara com este momento,
deitada em seu beliche, no minúsculo quartinho improvisado. Um
quarto amplo e arejado só seu e de Beto. Seus utensílios e suas
roupas limpas e arrumadas como devem ser. O banheiro cheiroso e
perfumado seu, de Beto, e de mais ninguém. Sentiu a mão de Beto
acariciando seu corpo, a maciez da camisola nova, de seda, comprada e
guardada para aquela noite especial. Como Ritinha gostaria de ver,
agora, a cara da loira platinada, do calendário de borracharia. Como
gostaria que ela visse, com seu olhar provocante, o seu ninho de
amor. Mas isso seria impossível, porque a loira jamais entraria
naquele quarto. Ela nunca terá o direito, sequer, de dar uma
espiadinha pela porta entreaberta da suíte.
Foi
uma noite memorável.
No
dia seguinte, logo cedo, após o café da manhã, todos desceram para
a loja, com exceção de Dona Zefa, que ficou cuidando de Martinha.
Ritinha
dirigiu-se ao escritório e, acompanhada do seu substituto, começou
a examinar a papelada. Foram muitos dias de ausência, e ela sabia o
quanto é importante para uma empresa manter o controle
administrativo e financeiro devidamente organizado, alinhado com a
contabilidade. Beto é bastante conhecedor do assunto, até mais que
ela, mas isso só não basta. É preciso não descuidar do controle
orçamentário, acompanhar diariamente o fluxo de caixa, e,
principalmente, não misturar as finanças da empresa com as finanças
pessoais. Não querendo usar de má-fé, mas por displicência, ou
equívoco, ocasionado pelo excesso de trabalho, Beto poderia mandar
lançar indevidamente, ou deixar de mandar lançar, alguma receita ou
despesa. Organização e disciplina. É disso que toda a empresa
necessita para manter sua saúde em dia.
Enquanto
Beto seguiu com o encarregado para a área externa, a fim de
acompanhar a chegada de mercadorias, Marquinhos permaneceu no
interior da loja com Seu Jairo. Puxando-o pelo braço, Marquinhos
disse-lhe sorrindo.
–
Venha. Ainda não sei muita coisa, mas vou te ensinar algumas
tarefas.
Em
seguida, pegou uma prancheta com formulários rodados em mimeógrafo,
e começaram a fazer um rápido levantamento do material com estoque
baixo, para fazer novos pedidos. Alguns itens, mesmo ainda tendo uma
quantidade razoável, ele pedia a Seu Jairo para anotar, porque sabia
que o pedido demoraria a chegar. Outros, além da quantidade a ser
pedida, colocava também a marca e o nome do fornecedor. O valor
daquela marca era mais caro, mas era preferível, porque a qualidade
era bem superior à dos concorrentes. Concluída a tarefa, levaram o
formulário devidamente preenchido para o escritório. Ao retornarem,
Marquinhos pegou uma agenda com os nomes e telefones de alguns
clientes, aproximou-se do telefone e começou a fazer ligações.
Quando o cliente atendia, ele puxava a conversa naturalmente,
perguntando a uns sobre o andamento da obra, a outros sobre a saúde,
comunicava que já estava de volta dos breves dias de férias, e
aproveitava para desejar os votos de “feliz natal e próspero ano
novo”.
Após
o almoço, Ritinha, Martinha e a sogra, foram visitar Dona Romilda.
Era o melhor horário, porque sempre tinha pouco movimento na pensão.
Levaram também alguns mimos trazidos do sítio. Beto aproveitou a
ausência de Ritinha, e, com a ajuda de Seu Jairo e Marquinhos,
levaram a árvore de natal, que estava escondida no depósito, para o
apartamento. Armaram-na e deixaram os enfeites para serem colocados
pelas mulheres, quando chegassem. Ao retornarem da visita, qual não
foi a surpresa de Ritinha, quando viu, armada no canto da sala,
aquela linda árvore, com mais de dois metros de altura. Seu coração
encheu-se de alegria. Imaginou que Beto, tão atribulado com o
término do apartamento, e cuidando da loja, havia se esquecido desse
importante detalhe. Homem não se preocupa muito com essas coisas –
pensou. Já era final de tarde, e Beto não demoraria a subir. Sem
perda de tempo, com a ajuda de Dona Zefa, começaram a enfeitar a
belezura.
Dona
Zefa estava na cozinha terminando de preparar o jantar, e Ritinha
estava junto à árvore dando os retoques finais, quando a porta da
sala se abriu. Ritinha virou-se e deu de cara com Beto, segurando uma
caixinha. Ele a abriu, retirou de dentro uma brilhante Estrela de
Davi e colocou nas mãos de Ritinha. Em seguida puxou-a para perto da
árvore e suspendeu-a pelas pernas. Ritinha colocou delicadamente a
estrela no topo da árvore, e Beto desceu-a vagarosamente. Ritinha
enlaçou o pescoço do seu amado, e retribuiu-lhe com um caloroso
beijo na boca. O torpor daquele momento íntimo, de troca de afetos,
foi interrompido por um ran ran. Era Dona Zefa, tentando avisar que
havia menores na platéia. Martinha, como uma sombra, estava
sentadinha, embaixo da árvore, tentando colocar em seus galhos duas
bolinhas que haviam sobrado. Compenetrada, sem tirar os olhos do
trabalho que estava realizando, falou.
–
O Prispe beijou Xinderela e… e ela acordouuu.
Para
não perder a compostura, corrigiu Ritinha. – Não foi a Cinderela.
Foi a Bela Adormecida.
Como
se não tivesse ouvido a correção de Ritinha, Martinha continuou.
–
E foi morá com o Prispe no castelo qui… qui tinha uma ave de natal
bemmm grandona.
Aí
foi que todos entenderam que ela, Martinha, estava contando a sua
versão da estória. Para ter certeza de que era isso mesmo, Ritinha
complementou – e a linda filha do Príncipe, e da Cinderela, ajudou
a enfeitar a enorme árvore de natal, armada num canto da sala do
castelo, correto? Martinha virou-se para ela, e respondeu com uma
gostosa gargalhada, como se dissesse: matou a charada. Todos sorriram
com a gargalhada contagiante de Martinha. Como não poderia deixar
passar em branco aquela oportunidade, Dona Zefa, sem parar o seu
serviço na cozinha, profetizou, cheia de orgulho.
–
Quando essa menina crescer, vai se tornar uma grande escritora.
Escrevam o que estou dizendo.
O
cheiro gostoso do peru assado rescendeu no ambiente. Era véspera do
natal e todos estavam animados para a ceia. Apenas Seu Jairo, Dona
Zefa, Beto, Ritinha e as crianças estavam presentes. Sentaram-se à
mesa, e, antes de dar início ao banquete, fizeram uma oração, e
agradeceram pelas dádivas recebidas, principalmente pela Graça da
família estar reunida novamente. Os compadres não vieram, porque o
genro e a filha ceariam com eles. Mas combinaram que, no dia
seguinte, estariam todos reunidos para o almoço, na casa do genro
dos compadres.
Apesar
de muita coisa ter sido adiantada no sítio, ainda assim, as mulheres
tiveram muito trabalho para preparar a ceia. Dona Zefa, acostumada
com a sua cozinha, sentia-se agora como uma sardinha enlatada. Mas
valeu. No fim, deu tudo certo, e a recompensa veio em forma de
elogios. Tudo estava maravilhoso, diziam. Ritinha, fazendo bico,
reclamou.
–
Será que a ajudante não recebe nem meio elogio!
Marquinhos
levantou-se muito sério, apontou para Dona Zefa e Ritinha, e com a
voz empostada, disse.
–
Vocês são os esteios de sustentação desta pequena falange, ou
melhor, da primeira e da segunda geração desta família. Unidas
novamente, tornar-se-ão mais fortes, e estarão prontas para
resistir aos vendavais e furacões dessa jornada. Em seguida,
carinhosamente, abraçou e osculou cada uma das mães. Todos
atônitos, inclusive o próprio Marquinhos, esqueceram os elogios
mendigados por Ritinha, e começaram a elucubrar sobre o acontecido.
Talvez tenha sido o efeito da taça de vinho. Pela primeira vez,
Marquinhos ingeriu uma bebida alcoólica. Mas, e o vocabulário
rebuscado! O mais apropriado seria uma pilheria de bêbado. Ritinha,
lembrando-se do episódio acontecido com Dona Firmina, percebeu que o
assunto era mais sério, e nenhum dos presentes estaria apto a dar
alguma explicação. Tratou de desviar o rumo da conversa e, logo,
logo, o episódio caiu no esquecimento.
Vinte
e cinco de dezembro é a data em que os Cristãos comemoram o
nascimento de Jesus Cristo. Segundo a tradição Cristã, os Três
Reis Magos, guiados por um sinal dos Céus, a estrela de Belém,
encontram o recém-nascido, o Menino Jesus, deitado sobre uma
manjedoura. Nessa visita, presentearam-no com ouro, incenso e mirra.
Tornou-se então tradição, nesse dia, a troca de presentes.
Para
a criança Ritinha, todos os anos, o dia vinte e cinco era um
verdadeiro martírio. Deitada em seu quartinho improvisado, entre
soluços, ouvia a algazarra das crianças com seus novos brinquedos.
Para ela, há muito que o Papai Noel deixara de existir, mas o seu
espírito natalino, teimosamente, permanecia imortal. Naqueles
momentos de angustia e tristeza, quantas e quantas vezes sonhara,
vivendo em sua verdadeira casa, arrodeada de seus entes queridos. Em
sua visão, apareciam todos na sala, sentados sobre um lindo piso de
cerâmica clara, todo limpo, cheirando a jasmim, ao lado de uma
grande árvore de natal. Com exceção de Marquinho, não conseguia
ver os demais, mas sentia fortemente suas presenças.
Uma
cena bastante comum é a troca de presentes no dia de natal, com a
família reunida. Um momento de paz e harmonia, que nem todos têm o
privilegio de vivenciar, enquanto outros são agraciados, e não dão
o devido valor. Mas, para Ritinha, aquele era um sonho acalentado
durante muitos anos, agora transformado em realidade. Uma forte
emoção tomou conta do seu ser, quando viu sua pequena família,
querida e amada, ali reunida, todos alegres, felizes, sentados sobre
o piso claro, ao lado de uma grande árvore de natal, exatamente como
aparecia em seus sonhos. Em um momento ímpar, imbuídos pelo
espírito natalino, eram todos verdadeiramente crianças. Somente
quem teve a oportunidade de vivenciar a realização de um grande
sonho, é capaz de mensurar a doce dor sentida por Ritinha, naquele
momento.
Perante
Deus, a família e os amigos mais chegados, Beto e Ritinha já
estavam casados de fato. Mas, perante a justiça, ainda não tinham
realizado a legalização do estado civil. Para eles, não havia
muita diferença. Apenas mais uma burocracia a ser cumprida.
Analisaram, questionaram, ponderaram, e chegaram à conclusão que
deveriam dar mais esse passo. Não que houvesse dúvidas quanto à
idoneidade de qualquer um dos membros da família, ou alguma
imposição, mesmo de uma maneira sutil. Talvez, sim, de forma
bastante discreta, astuciosa, o preconceito social não deixa de
existir. A sociedade hipócrita, através de seus preceitos, é
cruel. Procura atingir aos membros mais vulneráveis da família, que
são, certamente, as crianças. Seria uma forma de dar uma resposta,
com luvas de pelica, a esses preconceituosos. Com
o casamento civil, os cônjuges passam a ter plena comunhão de vida,
e assumem mutuamente a condição de consortes, companheiros, e
responsáveis pela entidade familiar, que deverá ser exercida em
colaboração por ambos os cônjuges, sempre no interesse do casal, e
dos filhos. Mas esse compromisso de companheirismo, e
responsabilidade pela entidade família, já havia sido assumido
pelos nubentes, desde aquela noite em que conceberam a ideia de
montar uma loja de Materiais de Construção. O
ato civil poderia acalentar, um pouco, os anseios de Dona Zefa e da
Comadre. Mas, pela vontade das duas, há muito que os seus filhos já
deveriam ter, não somente casado civilmente, mas também recebido as
bênçãos do matrimônio na Casa de Deus.
As
nubentes, em geral, sonham adentrando na Igreja, lindamente florida,
vestidas de princesa, e, ao final da cerimônia, oferecer aos
convidados uma recepção digna de destaque em colunas sociais,
culminada com o corte de um bolo de cinco andares, a duas mãos.
Ritinha era uma exceção. O mais importante para ela, era uma
família estruturada, e um teto para abrigá-los, impregnado de boas
energias, muita paz e harmonia. Uma cerimônia coletiva no Fórum
seria o bastante. A princípio pensaram em surpreender a todos, na
noite de natal, exibindo simplesmente a certidão lavrada,
registrada, e festejariam com um brinde. Mas aí, como seria a reação
de seus pais, seus familiares. Considerariam uma grande desfeita, uma
tremenda falta de consideração. Poderiam sentir-se cerceados, por
não participarem de algo tão importante na vida dos dois. Agindo
dessa maneira, certamente estariam cobertos de razão. Além do mais,
o tempo era bastante curto para a tramitação da papelada. Então
decidiram postergar para logo após as férias forenses.
Dona
Zefa e a Comadre não se conformaram com a decisão dos dois. Como
poderia um evento tão importante na vida do casal, o sagrado
matrimônio, ser relegado a uma simples assinatura de um papel, na
presença do juiz, e ainda por cima em conjunto com vários
desconhecidos. Sonhavam com os filhos e padrinhos, elegantemente
trajados, entrando na igrejinha de Riacho da Mata, toda enfeitada,
repleta de convidados, ao som do grupo regional. Depois da cerimônia
iriam todos para o sítio, onde seria realizada uma festança com
muita música, comida e bebida à vontade. Esgotados todos os
argumentos, sem alternativa, prevaleceu a vontade dos dois.
Ainda
assim, foi melhor do que o esperado. Ritinha optou por um vestido
midi de renda floral, azul-celeste, gola em v, forrado com seda da
mesma cor. A faixa de seda, da mesma tonalidade, amarrada na cintura,
dava-lhe um ar de menina moça, ao tempo em que ressaltava as linhas
do seu corpo. A bolsa pequena de mão, preta, com detalhe prateado, e
sapato de salto, igualmente preto, completavam o look. Beto estava
também muito elegante, trajando um blazer de linho azul-marinho. Ao
entrarem no salão do Fórum, acompanhados dos filhos, ficaram
surpresos com a quantidade de casais, que, como eles, queriam
oficializar a união
perante a Lei.
O recinto estava repleto de nubentes e seus convidados. Eram casais
de todos os tipos. Jovens, idosos, e também, como eles, com filhos.
Como nas cerimônias religiosas, no ato jurídico, do mesmo modo, é
exigido o tão sonhado “sim”. A cerimônia do Casamento Civil,
por força do artigo 1.538 do Código Civil Brasileiro, exige que os
nubentes, perante um oficial designado para tal, respondam “sim”,
de forma clara e objetiva, sob pena da suspensão imediata da
cerimônia.
Apesar
do ambiente solene e austero, quando ouviram o “sim” como
resposta à pergunta de praxe, proferida pelo juiz de paz, a emoção
tomou conta dos presentes, principalmente a Comadre e Dona Zefa.
Naquele momento, diante de Beto, como um filme em velocidade
acelerada, passaram pela cabeça de Ritinha, os raros momentos de
felicidade, e todas as dificuldades passadas, durante sua vida vivida
tão precoce. Pensou em sua mãe. Como gostaria que ela estivesse
presente, vibrando emocionada pela sua felicidade. Mas aí veio uma
nuvem negra, acompanhada da imagem do estrupício. Um arrepio
tomou-lhe o corpo. Fazendo um grande esforço, tratou de recompor-se.
O
melhor agora é
esquecer essas lembranças sombrias que só lhes fazia mal. E a
mãezinha Dona Romilda, como estaria? Ritinha convidou-a por
convidar, mas sabia que ela não viria. Não era do seu feitio
assistir a essas cerimônias, tão pouco participar de festas e
eventos. Apesar de demonstrar ser aquela mulher durona, casca grossa,
tinha o coração de manteiga. De fato, naquele momento, Dona Romilda
estava ajoelhada diante da imagem da Mãe Maria Santíssima,
humildemente agradecendo e pedindo-Lhe proteção para sua família.
Era ali que ela, no cantinho do seu quarto, em raros momentos, se
permitia desnudar-se do personagem, e deixar seu velho coração
comandar suas emoções.
Depois
da cerimônia, dirigiram-se todos à casa do genro dos Compadres,
sócio de Beto e Ritinha, onde os recém-casados foram recepcionados
com um delicioso e agradável jantar. Além dos familiares, estavam
também presentes alguns poucos amigos mais chegados.
No
dia seguinte, como era final de semana, resolveram todos ir à praia,
na vizinha cidade litorânea. Como Riacho da Mata fica distante da
costa, Seu Jairo e Dona Zefa não poderiam deixar de aproveitar a
oportunidade. O dia estava convidativo. O céu límpido e o sol
propício, é a perfeita combinação para um excelente banho de mar.
Chegaram cedo, caminharam pela areia, e brincaram nas ondas. Antes do
sol do meio dia, já estavam abrigados sob a cobertura de um dos
bares, próximo à praia, admirando aquela linda paisagem. Ritinha,
distraidamente, bebia uma água de coco, quando avistou Gabriel
sentado em outra mesa, não muito distante da sua. Ele olhou para
ela, sorriu, ergueu a taça de vinho em uma das mãos, e brindou.
Ritinha retribuiu-lhe o sorriso, e, o primeiro impulso foi de
dirigir-se até ele. Sem sequer tomar fôlego, crivar-lhe com todas
as perguntas acumuladas durante tanto tempo. E ainda mais, pediria,
aliás, exigiria o seu contato, a começar pelo telefone, endereço
residencial, comercial e tudo o mais. Não importa o que ele
pensaria. Ela é que não iria continuar, nem mais um dia, com
aquelas perguntas, sem resposta, martelando seu juízo. Olhou em
volta e percebeu que apenas Martinha se fazia presente. Não poderia
ir ao encontro de Gabriel deixando Martina sozinha, muito menos
saírem as duas e deixar os pertences sobre a mesa. – Acalme-se
Ritinha – pensou. Ele não vai sair por agora, porque está,
calmamente, bebericando seu vinho. Seu Jairo e Dona Zefa podem até
demorar um pouco mais, porque foram buscar acarajé, e,
provavelmente, estão esperando terminar a fritura. Acarajé só é
bom quentinho, feito na hora. Mas Beto e Marquinhos foram ao
sanitário, e, pela hora, já devem estar de volta. Para
certificar-se, olhou mais uma vez e constatou que Gabriel estava
sozinho, porque havia apenas a garrafa de vinho e uma taça sobre a
mesa. – Melhor assim – pensou Ritinha. Diante das tantas
perguntas que iria lhes fazer, a mulher que estivesse com ele
pensaria um monte de besteira. – E Beto, meu Deus, o que irá
imaginar – pensou novamente aflita. É, mas Beto não haveria
maiores problemas. Não faltariam oportunidades para novos encontros.
Gabriel era uma pessoa maravilhosa, e seria uma grande honra tê-lo
como amigo do casal.
–
Ah! Finalmente – exclamou Ritinha aliviada, quando avistou Beto e
Marquinhos retornando. Em seguida, fez sinal para apressarem o passo.
Antes mesmo que eles chegassem até a mesa, Ritinha levantou-se e
começou a falar.
–
Venha que eu preciso te apresentar uma pessoa.
–
Quem? – indagou Beto – tentando entender o motivo da
importância.
–
Venha – continuou Ritinha, virando-se e seguindo na direção da
mesa onde se encontrava Gabriel. E aí espantou-se
quando avistou a mesa completamente vazia. Mas não é possível –
pensou. Seria bastante
improvável,
em alguns segundos, Gabriel ter pago a conta e saído. Descartada
também a possibilidade de ter saído sem pagar, porque a
taça e a garrafa de vinho já haviam sido recolhidas.
Olhou em volta, e constatou que era realmente aquela mesa, porque as
outras estavam ocupadas. Pensou em chamar o garçom para elucidar o
caso, mas, ao aproximar-se um pouco mais da mesa, constatou que ela
estava sem cadeiras, e até um pouco suja, com um aspecto nítido de
abandono. Sentiu o sangue gelar e um calafrio a correr-lhe pelo
corpo.
Mais
uma vez sem resposta, se perguntou baixinho.
–
Será o Anjo Gabriel?