Lembro-me como se fosse hoje. A casa grande, avarandada, antiga, cheia de quartos. Bem no fundo do quintal, cheio de plantas, junto ao portão que dava acesso ao rio, havia a latada, onde ficavam o forno grande, o pilão e o cortiço. As abelhas adoravam lamber o pilão sujo de paçoca de murici, isto é, o resto que eu deixava.
Acordava cedo, nos dias de ir à escola, e minha Vó já estava dando as últimas ordens na cozinha. Ampla, de teto baixo, um fogão a lenha no canto, o pote de barro aparando os pingos d água da talha, com a boca cuidadosamente cobertas de cambraia branca. A porta do fundo dava para a enorme despensa, com seus baús e jiraus cheios de mantimentos. Da minúscula janela, sempre aberta, cravada em grossas paredes, ouviam-se os passos dos transeuntes sobre o calçamento da rua estreita, em direção ao rio.
- Bença madinha Mariana.
- Deus te abençoe. Tua mãe já deu a luz?
- Inda não. É mês qui vem.
- Passa lá na loja. Separei uns cortes de pano pra ela.
- Tá.
Enquanto acompanhava o Vô, coronel, num prato de coalhada ou batata doce com leite, adoçado com raspa de rapadura, eu apreciava aquele movimento. Na maioria das vezes, enquanto dialogavam, continuavam seus afazeres. Outras vezes Vó Mariana parava para receber uma cuia de murici fresco ou entregar uma garrafa de mel de cana. Era feijão verde, folha de boldo, garrafa de manteiga, jerimum, garrafa de mel, conselhos, consolo e tudo o mais.
Sempre que o velho Galdino abatia um bode, embaixo da latada, no fundo do quintal, lá estava eu esperando o rim, para comer passado na manteiga. Após o sacrifício, o velho esquartejava o animal, trazia uma parte para a despensa e o restante distribuía. Esse pacto silencioso era regiamente seguido pelos compadres, pelos afilhados, pelos sobrinhos, verdadeiros ou por consideração.
Os ovos eram guardados em alguidás de barro, enterrados na areia. Não havia geladeira nem freezer, mas quase sempre havia carne fresca no jirau.
Aquela pequena janela funcionava como um verdadeiro guichê de uma agência bancária, onde transitava a mais forte moeda corrente daquela longínqua cidade sertaneja. O Amor.
À noitinha, na “Hora da Saudade”, programa de grande audiência na época, todos se reuniam nas poucas casas que tinha rádio. Depois, ficavam conversando, sentados nas calçadas, até a hora da ventania, hora de dormir. De mãos dadas, aquela pequena comunidade seguia seu rumo, indiferente às crises internacionais.
Hoje, aquela pequena janela foi substituída por caixas eletrônicos de grandes agências bancárias, com sistemas “on-line” de compensação integrada. Os compadres, os sobrinhos, os afilhados já não existem mais. Já não existem mais mãos dadas. Apenas mãos que apertam botões de controle das telinhas mágicas, na solidão de um mundo moderno.
Acordava cedo, nos dias de ir à escola, e minha Vó já estava dando as últimas ordens na cozinha. Ampla, de teto baixo, um fogão a lenha no canto, o pote de barro aparando os pingos d água da talha, com a boca cuidadosamente cobertas de cambraia branca. A porta do fundo dava para a enorme despensa, com seus baús e jiraus cheios de mantimentos. Da minúscula janela, sempre aberta, cravada em grossas paredes, ouviam-se os passos dos transeuntes sobre o calçamento da rua estreita, em direção ao rio.
- Bença madinha Mariana.
- Deus te abençoe. Tua mãe já deu a luz?
- Inda não. É mês qui vem.
- Passa lá na loja. Separei uns cortes de pano pra ela.
- Tá.
Enquanto acompanhava o Vô, coronel, num prato de coalhada ou batata doce com leite, adoçado com raspa de rapadura, eu apreciava aquele movimento. Na maioria das vezes, enquanto dialogavam, continuavam seus afazeres. Outras vezes Vó Mariana parava para receber uma cuia de murici fresco ou entregar uma garrafa de mel de cana. Era feijão verde, folha de boldo, garrafa de manteiga, jerimum, garrafa de mel, conselhos, consolo e tudo o mais.
Sempre que o velho Galdino abatia um bode, embaixo da latada, no fundo do quintal, lá estava eu esperando o rim, para comer passado na manteiga. Após o sacrifício, o velho esquartejava o animal, trazia uma parte para a despensa e o restante distribuía. Esse pacto silencioso era regiamente seguido pelos compadres, pelos afilhados, pelos sobrinhos, verdadeiros ou por consideração.
Os ovos eram guardados em alguidás de barro, enterrados na areia. Não havia geladeira nem freezer, mas quase sempre havia carne fresca no jirau.
Aquela pequena janela funcionava como um verdadeiro guichê de uma agência bancária, onde transitava a mais forte moeda corrente daquela longínqua cidade sertaneja. O Amor.
À noitinha, na “Hora da Saudade”, programa de grande audiência na época, todos se reuniam nas poucas casas que tinha rádio. Depois, ficavam conversando, sentados nas calçadas, até a hora da ventania, hora de dormir. De mãos dadas, aquela pequena comunidade seguia seu rumo, indiferente às crises internacionais.
Hoje, aquela pequena janela foi substituída por caixas eletrônicos de grandes agências bancárias, com sistemas “on-line” de compensação integrada. Os compadres, os sobrinhos, os afilhados já não existem mais. Já não existem mais mãos dadas. Apenas mãos que apertam botões de controle das telinhas mágicas, na solidão de um mundo moderno.
Zumbi/1995
