PREFÁCIO
A princípio, nas páginas iniciais da leitura, imaginamos tratar-se de uma literatura nos moldes de “autoajuda” – Ledo engano. A estória de Ritinha vai nos conduzir por caminhos muito mais reflexivos da vida. Vivida com simplicidade, mesclando intuição, razão e religião, articulada em um período, que remonta algumas décadas passadas, a estória de Ritinha envolve ao menos três ou quatro gerações. A leveza da leitura, ainda que narrando dificuldades enfrentadas por seus protagonistas, é latente. O contexto é enriquecido e abrilhantado pela riqueza de detalhes, trazidas pelo autor, retratando fielmente cada uma das gerações. As paisagens, os ambientes, veículos de transporte, vestimentas e adereços, até os utensílios domésticos utilizados, nos faz retroceder no tempo. Outro ponto de destaque é a facilidade com que ele demonstra os conhecimentos com a agricultura, construção civil, empreendedorismo, entre outros, plenamente ilustrados neste belo trabalho.
Para os leitores mais jovens, este link entre o passado dos avós, geração rádio Mullard até a geração iPad, terá uma contextualização retro valorosa, proporcionando uma viagem a um passado remoto, enquanto que para os leitores das gerações mais próximas, caberá o saudosismo de um tempo mágico.
A paquera tímida, o toque na mão, os ensaios de dança de rosto colado, a sensação do primeiro beijo, são momentos inesquecíveis das gerações passadas. Talvez, ingrediente em desuso nos relacionamentos amorosos atuais, insípidos, e que, acredito, fazem muita falta.
“Faça por ti que, te ajudarei” – Eis o outro ponto de abordagem desta linda estória. Beto e Ritinha enfrentam diversas dificuldades, porém, não dispensam as oportunidades que a vida lhes reserva. O amor entre eles, funciona como uma alavanca propulsora, capaz de erguer o mundo, eliminando qualquer interferência, sendo ela provocada ou natural. A conexão entre o amor e a força Divina parece ser a receita que o autor usa como estímulo em nosso benefício.
Apertem os cintos e viagem nesta reveladora história de gerações.
Salvador(Ba), 4 de março de 2024.
Mozart Teixeira
Engenheiro Eletricista e Professor.
O Anjo Gabriel?
Era uma noite fria e úmida. Uma garoa fina, insistente, molhava seus cabelos, e descia por sobre sua face, misturada com as lágrimas, que teimosamente brotavam dos seus olhos. Ela corria desesperadamente, tentando fugir daquele lugar, ou melhor, daquela situação. Queria deixar tudo para trás. Tudo que a afligia. Mal enxergava o caminho. Com os olhos anuviados, trôpega, vez por outra olhava para trás e, por sobre a passarela de pedestres da ponte, continuava sua fuga desesperada. Por mais de uma vez tentou jogar-se por sobre o alambrado, na esperança de acabar com aquela angustia que dilacerava seu peito, sufocando-a, esmagando seu coração, imprimindo uma dor insuportável. Uma queda daquela altura seria fatal. Seu corpo esfacelaria sobre as pedras do leito do rio quase seco, e aí tudo estaria terminado. Como num passe de mágica, desapareceriam todas as angústias, todo o seu sofrimento. Não estaria mais vivendo aquela vida miserável, não precisaria mais conviver com aquelas pessoas, não precisaria mais retornar àquela casa cheia de más lembranças. Tudo deixaria de existir. Ela, o presente, e todo o seu passado de dor e sofrimento. A garoa persistente deixava a pista escorregadia. Indiferentes àquele acontecimento, conduzindo seus veículos reluzentes, garbosamente enfileirados, passavam as pessoas. Sentindo-se só, desamparada, a jovem não tinha a quem recorrer. Tudo estava perdido, encontrava-se literalmente num beco sem saída. Apenas o instinto de sobrevivência prevalecia. Naquele momento de desespero recusava-se a pensar, raciocinar, até porque já estava no limite de suas forças, prestes a desfalecer. Inconscientemente, segurou o ventre na busca de auxílio, como último recurso de um náufrago à deriva buscando uma tábua de salvação. Ao tocá-lo, milagrosamente sentiu suas forças renovarem. Aquele pequenino rebento, não se sabe como, conseguia transmitir-lhe novas energias, impulsionando-a a continuar sua maratona. O cenário mudou. Agora era a loba lutando para proteger sua cria. Abraçada ao seu pequeno tesouro, continuou sua trajetória. Precisava afastar-se dali, o mais rápido possível, e deixar de pensar aquelas coisas terríveis que continuavam, a todo custo, querer invadir seus pensamentos. Nada de mal poderia acontecer com aquele rebento. Já estava no final da travessia da ponte quando deparou com um carro branco parado à sua frente, com a porta aberta, como se estivesse convidando-a a entrar. Naquele momento não pensou em nada. Apenas entrou e, num fiapo de voz, pediu ao motorista que a levasse para longe daquele lugar. Num último esforço, fechou os olhos, e jogou-se sobre o acento do veículo. O carro partiu, e ela desabou em prantos. Não tinha a menor ideia de quem seria o motorista, e para onde a levaria. Aquela atitude impensada, insensata, poderia trazer-lhe consequências desastrosas, complicar ainda mais sua vida, agravar seus problemas, que já não eram poucos. Abraçou seu ventre, pensou na criaturinha, e mais uma vez buscou ajuda, apoio, energia para revitalizar seu corpo debilitado. A resposta veio clara: “Fique tranquila, estamos protegidas”.
Nunca havia sentido tanto a falta de um colo, um afago, como agora. Desde cedo aprendeu a viver sem esses mimos. As poucas palavras que ouvia da mãe se resumiam em ordens e reclamações. Levou muito tempo para permitir a aproximação de Beto. Beto agora era seu porto seguro. Mas, quando o ouviu proferir aquelas duras palavras, não resistiu, e desabou. Aquela jovem confiante, decidida, desapareceu. Sentia-se como uma nau à deriva. Precisava agarrar-se a algo para não sucumbir. Nosso cérebro, nesses momentos difíceis, ativa um mecanismo de proteção, anestesiando nossos pensamentos, embaralhando e inibindo nosso raciocínio. Embalada pelo balanço do carro em movimento deixou-se levar pela imaginação. Ela era agora uma linda gaivota, voando por sobre um oceano de águas azuis, um céu límpido, e a brisa a acariciar suas penas alvíssimas. No horizonte avistava-se uma pequena ilha. Sentia que era ali o seu destino. Lá encontraria água fresca, muita paz, e uma família feliz à sua espera. Trazia no bico alimento para seus filhotes. Num voo rasante, seguiu firme e confiante, em direção ao seu ninho.
Despertou do sonho quando percebeu que o carro estava parando. Novamente voltou a preocupar-se. Quem era essa pessoa que a trouxera até ali? O que ele pretendia? Apesar das indagações, não estava com medo. Ao contrário, sentia-se segura, mais tranquila, e mais confiante. Experimentou um pouco de paz no coração. Proporcionalmente à velocidade do veículo, sua angustia foi se dissipando, restando apenas alguns poucos soluços espaçados. Naquele momento sentiu o abraço do seu companheiro de viagem. Sem resistir, docilmente deixou-se aninhar no peito do desconhecido. O tempo parou. A quietude do lugar, o perfume inebriante de rosas completou o cenário, deixando-a entorpecida. Não fez ideia do tempo transcorrido. Não sabia se era sonho ou realidade. Apenas não queria acordar. Queria permanecer ali, eternamente, esquecida do mundo, embalando seu rebento, e sendo embalada.
Acordou estremecida ao ouvir uma voz, grave e suave ao mesmo tempo, dizendo-lhe:
– Não se preocupe. Tudo se resolverá. Você nunca esteve, nem nunca estará só. Eu estarei sempre por perto, protegendo você e a criança.
As últimas lágrimas de Ritinha, não mais de desespero, mas agora de uma imensa gratidão, brotaram dos seus olhos, e salpicaram o peito largo daquele então desconhecido.
Ritinha, ainda envolvida por aquele momento mágico, nada questionou. Mais calma, mais tranquila, olhou pela primeira vez o seu “salvador”. Era um homem bonito, pele clara, traços finos, cabelos loiros, aparentando seus trinta anos. Seus olhos azuis transmitiam muita ternura, segurança e paz àquela jovem tão carente de carinho e afeto, principalmente naquele momento de total desamparo em que se encontrava. Olhou em volta e, de imediato, não percebeu onde estavam. Apesar da iluminação, viu apenas que o veículo estava estacionado em uma praça muito bonita. Agradavelmente iluminada e bem cuidada, tinha um extenso gramado com árvores frondosas, muitas flores e bancos acolhedores. A chuva havia cessado. Respirou profundamente, e sentiu aquele aroma adocicado penetrando em seus pulmões, arrancando todo aquele resquício de angústia e temores. O frescor da brisa noturna foi como um bálsamo tranquilizante. Deixou-a com a alma renovada, pronta para vencer mais uma noite de tormenta, pois há muito não sabia o que era ter um sono reparador. Mas, aquela noite seria diferente. Gabriel, o seu “salvador”, embalaria o seu sono, povoando seus pensamentos, levando-a a um fantástico mundo desconhecido.
– Ritinha, Ritinha – era a voz aflita da vizinha – você está bem?
Já eram quase duas horas da manhã, quando a vizinha a encontrou, toda encolhida no batente da porta, enrolada em seu casaco marrom.
Ritinha levantou-se assustada, atordoada, sem saber onde estava, e o que estava acontecendo. Acalmou-se quando reconheceu a vizinha, e percebeu que estava na porta da sua casa.
No dia seguinte, ao acordar, Ritinha deparou-se com a realidade nua e crua. Estava de volta à sua humilde casa, no seu quarto improvisado. Era um apêndice da sala, separado apenas por uma meia parede, feita de compensado fino. Tinha um beliche, algumas prateleiras presas na parede, protegidas por uma cortina de plástico rosa, desbotada, onde guardava algumas poucas peças de roupa e objetos pessoais. Dividia o quarto com Marquinhos, seu meio irmão de apenas seis anos, que dormia na parte de baixo do beliche.
Levantou-se, mirou-se no pequeno espelho, e viu uma menina moça, pele morena, traços delicados, cabelos castanhos ondulados, corpo esguio, magro, de estatura mediana. Mesmo sem os devidos tratos, por falta de recursos, ainda assim era uma jovem bonita, no frescor dos seus dezessete anos. Afastou-se um pouco mais do espelho, posicionou-se de lado, mirou o ventre, e constatou que sua gestação ainda era imperceptível. Quantos meses mais ainda poderia esconder. Provavelmente não concluiria o terceiro ano. Abandonaria os estudos antes de findar o ano letivo. Não suportaria os olhares, e as línguas maledicentes. Antes disso, estaria longe, muito longe. Mas, para onde iria?
Estremeceu ao lembrar-se do episódio do dia anterior. No momento do desespero quis jogar-se da ponte, na tentativa de libertar-se de tudo.
– Meu DEUS, não me castigue – murmurou. Jurou solenemente à Mãe Maria Santíssima que jamais pensaria fazer aquela loucura novamente. Aquilo foi um pensamento insano, não dela, mas do maligno que se se aproveitou do seu momento de fraqueza. O amor que sentia por aquela criaturinha que carregava no ventre já era muito grande. Seria capaz de dar sua própria vida por ela.
– Como seria? – pensou. Se fosse menina pareceria com ela. Mas, se fosse menino, certamente teria os cabelos e os olhos de Beto. Também não precisava parecer tanto com o pai. Alguns traços que lembrasse a mãe seriam bem-vindo.
– Será que DEUS irá me castigar? – se perguntou Ritinha. Não, não iria. ELE não negaria um pedido de sua Mãe Maria Santíssima. Compreendeu e já a perdoou. Mas, a Helena ELE não perdoou. Porque Helena foi muito má. Ali foi caso pensado. Mas, bem que Helena poderia ser castigada de outra forma. Ricardinho era tão doce! Depois de tanto tempo, ao lembrar, Ritinha sentiu um nó na garganta, e os olhos marejar.
Ricardinho era coleguinha de Marquinhos. Estudavam na mesma creche escola. Às vezes Helena se atrasava e, enquanto ela não chegava para pegá-lo, Ritinha ficava brincando com os dois amiguinhos até a chegada da mãe. A amizade entre os três foi se estreitando cada vez mais. Qual não foi o choque quando souberam do falecimento de Ricardinho. Tinha acabado de completar quatro anos quando foi acometido de um febrão. Os médicos fizeram de tudo, os pais não mediram esforços, mas não houve jeito de salvá-lo.
Helena apaixonou-se perdidamente por um rapaz. Apesar da sua beleza, não conseguiu despertar nele os mesmos sentimentos que ela nutria por ele. Ela fazia de tudo para não perdê-lo. O tempo foi passando, ficaram noivos, mas, como era de se esperar, o rapaz terminou o compromisso. Helena inconformada pediu que ele reconsiderasse. Tentaram mais uma ou duas vezes, mas no final acabou não dando certo. Quando percebeu que o rapaz estava decidido a casar-se com outra, Helena aproveitou-se de uma dessas tentativas de recomeço, e providenciou uma gravidez. O pobre moço ficou numa encruzilhada: abandonar o prematuro ou a felicidade eminente? O que poderia fazer? Decidiu assumir a criança, e casar-se com a outra. Helena entrou em desespero. Disse-lhe que se não podia tê-lo, também não queria a criança. Transtornada, Helena começou a pôr em prática sua ameaça. Era chá disso, daquilo, querosene, remédios fortíssimos, e nada de abortamento. Tomava tudo que lhe ensinavam para interromper a gravidez. O feto que seria um aliado transformou-se num estorvo. Era um fardo a mais em sua vida, e não estava em seus planos carregá-lo sozinha. Mimada, acostumada a ter tudo que queria, Helena não suportava a ideia de assumir aquela responsabilidade. Uma criança em sua vida seria um verdadeiro transtorno. As suplicas do seu ex-noivo foram em vão. Pelo contrário, incentivavam-na a continuar usando o inocente como moeda de troca naquela acirrada chantagem emocional. Vencido, mais uma vez o pobre moço abriu mão da sua felicidade para salvar aquela criaturinha inocente e indefesa. E assim, finalmente, Helena conseguiu realizar o tão almejado casamento.
Como se um Manto Celestial cobrisse aquele cenário, ao contrário do esperado, uma paz infinita começou a reinar sobre aquele casal. O nobre rapaz, boníssimo, de uma elevada evolução moral e ética, perdoou Helena. Helena passou uma borracha no passado e, como num conto de fadas, deram início a uma vida nova. Depois de confirmado o sexo, começaram os preparativos para a chegada do rebento. Não mediam esforços. Toda entusiasmada, Helena preparou um quarto decorado com muito bom gosto, enxoval completo, álbum de fotografia, e tudo o mais.
Finalmente, chega o tão esperado e grande dia. Helena já havia providenciado tudo. Internação em um dos melhores hospitais da cidade, contratação de um médico renomado, data e hora para realização do parto cesariano. Nada de parto normal porque ela não suportava sentir dores, muito menos estragar seu lindo corpo. Nada de amamentação. Certamente providenciaria uma ama ou recorreria a um banco de leite materno. O movimento era intenso. Havia um grande número de entra e sai de amigos e parentes no quarto da parturiente. O ambiente cheirava a um misto de éter com perfume importado. Os presentes não paravam de chegar. Helena, em clima de festa, foi levada para o centro cirúrgico. Durante todo o tempo em que ela estava em trabalho de parto, o rapaz, futuro pai, permaneceu na capela do hospital, contrito em suas orações. Pedia pelo seu filho, que estava chegando, e por Helena. Que nada de mal acontecesse a ambos. Que o parto transcorresse sem maiores consequências. Que ela aceitasse a missão sublime de ser mãe, desempenhando o seu papel com esmero e dedicação. Que fosse paciente, compreensiva, e desse ao filho muito amor e carinho.
Após o término dos trabalhos de parto, sem maiores complicações, Helena foi reconduzida ao seu quarto para o repouso pós-cirúrgico. A criança, como de praxe na época, após o asseio, foi levada para o berçário. O rapaz, agora pai, depois de agradecer sinceramente ao PAI, dirigiu-se ao berçário. Ao chegar ao janelão de vidro, foi tomado repentinamente de uma grande emoção. Inexplicavelmente começou a sentir a sensação de uma imensa saudade. Olhou para dentro do berçário, ainda com aquele aperto no coração, e pensou: como identificar entre tantos recém-nascidos quem eu procuro? Era cerca de uma dezena, quase todos bastante semelhantes. Seria uma missão praticamente impossível. Pensou em pedir auxílio a uma enfermeira, mas não havia ninguém no berçário. Pensou em desistir, mas aquela sensação, aquele aperto no coração ficou ainda mais forte. Foi aí que seus olhos se cruzaram. Era uma criaturazinha, cujo berço estava próximo ao janelão de vidro, porém na lateral, um pouco escondido. Não foi um simples olhar. Naquele momento teve a certeza de que era ele, o seu filho. Era um par de olhos azuis que, em frações de segundos, disseram-lhe tantas coisas que ele não teve dúvida. Disse-lhe o quanto estava agradecido por tê-lo salvo, da imensa alegria de tê-lo reencontrado, e da grande responsabilidade que teriam doravante. Cumprir a missão, com êxito, de pai e filho, unificando e harmonizando a família. O pai, parceiro, amigo de vidas passadas, não entendeu nada. Apenas foi tomado por uma grande emoção, enquanto duas lágrimas quentes rolaram em suas faces.
Era uma criança linda, meiga e carinhosa. Loiro com os olhos azuis, ele parecia um anjinho. Herdou a beleza da mãe. A cumplicidade entre ele e o pai era explicita, e isso incomodava por demais a Helena que, como os demais, há muito já havia se rendido aos encantos de Ricardinho. Helena era muito possessiva. Tinha ciúmes de todos que se aproximavam do seu filho. Até mesmo de Ritinha, apesar da sua gratidão pelo carinho e cuidados a ele dispensados.
Era um dia normal, como outro qualquer. O pai, ao sair pela manhã para mais uma jornada de trabalho, percebeu que Ricardinho despediu-se dele, com a mesma meiguice de sempre, mas de uma forma mais demorada, mais especial. O pai sentiu um aperto no coração, como se aquela despedida fosse mais longa. Achou que era fruto de sua imaginação, e procurou extirpar aquele pensamento da sua mente. Com o passar das horas, a angustia aumentava. O pai não via a hora de retornar ao lar para sentir novamente seu coração encher-se de alegria, ao ver Ricardinho sorrindo, correndo para abraçá-lo. Foi absorto naqueles pensamentos que recebeu o comunicado de Helena. Aflita, informava ao telefone que estava com Ricardinho no Hospital. Deslocou-se imediatamente para lá. Ao chegar, foi informado que Ricardinho começou a sentir febre na escola. Deram-lhe um antitérmico, e deixaram-no repousando, em observação. Ao perceberem que, após todas as providências tomadas, não houve sinal de melhora, levaram-no imediatamente para o hospital. Apesar do empenho e dedicação da competente equipe médica, o quadro clínico continuava o mesmo. Já era tarde da noite, e Helena, não suportando ver o filhinho naquele estado, inerte sobre a cama de um hospital, afastou-se do quarto. O pai, de cabeça baixa e olhos cerrados, continuou orando, confiante, junto ao leito de Ricardinho, segurando-lhe a mãozinha, na esperança de uma melhora a qualquer momento. Em resposta, sentiu seus dedos sendo levemente pressionados. Ergueu a cabeça, abriu os olhos e, mais uma vez, comunicaram-se apenas com o olhar. Em segundos, novamente tiveram uma longa conversa. Não era impressão. Aquele abraço matinal realmente foi uma despedida. Sentiam-se entristecidos pela separação, mas agraciados e jubilosos pelo êxito da missão. Caberia agora a Helena, através da dor, resgatar e aprender a lição. Ao pai, naquele momento a liberdade cerceada lhe estava sendo devolvida. Seu compromisso como pai havia sido concluído. O elo carnal estava sendo rompido. E foi-se.
Qual não foi o desespero de Helena, quando soube da lastimável perda. No íntimo, sabia que era apenas o começo da colheita de tudo aquilo que havia plantado. Ainda assim, insistia em não aceitar, não enxergar. Como a maioria de nós, seres humanos, apontamos o argueiro nos olhos alheios, mas não enxergamos a trava em nossos próprios olhos. Preferimos encobertar nossas falhas acusando as faltas alheias. Tentamos a todo custo sufocar o grito que vem de dentro das nossas entranhas, clamando, implorando para fazermos a coisa certa. As batalhas diárias são ferozes, mas para induzir-nos ao erro, temos fortes aliados como o orgulho, a vaidade e o egoísmo. De tanto afirmarmos as inverdades, passamos a acreditar piamente nelas como sendo verdadeiras. Helena, no ápice de sua dor, começou a bradar para os quatro cantos do mundo:
– Meu DEUS, o que eu fiz para merecer tamanho castigo?
Naquela noite, Beto havia sido muito duro. Ritinha sabia que ele não aceitaria, de imediato, aquela nova situação, mas não imaginou que ele teria aquela reação. Descontrolou-se. Ficou indignado. Classificou-a de imatura e irresponsável. Se ela decidiu sozinha, que assumisse as consequências. Ele já tinha problemas de sobra. Agora era cada um por si.
Beto tinha toda a razão de ficar bravo. O combinado era aguardar o momento certo e, com cautela, matando um leão a cada dia venceriam todos os obstáculos. Tinham que ter muita paciência e esperar. Era pedir com fé e acreditar que as oportunidades iriam surgindo. Mas, na ótica de Ritinha, Beto era cauteloso demais, precisava às vezes de um empurrão. Não foi assim a compra da moto, o seu sonho? Alguém lhe ofereceu uma moto seminova, a marca e modelo que ele almejava. Vermelha, linda. Bastaria que ele pagasse um valor como entrada, e assumisse as prestações restantes. Precisava também de um avalista. Beto tinha o valor da entrada, podia assumir o pagamento das prestações restantes, mas não tinha o avalista. O patrão ofereceu-se como avalista, mas, ainda assim, ele ficou relutante. E se ele adoecesse e não pudesse mais trabalhar? E se o patrão o demitisse? – argumentou. Um caso de doença pode acontecer com qualquer um, argumentou Ritinha. Mas, ter um patrão como o seu, é uma grande benção. E concluiu – caso o patrão tivesse a mínima intenção de demiti-lo iria desencorajá-lo a comprar a moto, seria o lógico.
Tantos planos… talvez ele não a amasse o suficiente ou, como ele havia dito, achava-a imatura, não acreditava que ela seria capaz de arregaçar as mangas, e enfrentar as dificuldades que, certamente, não seriam poucas. Juntos, teriam força para vencer todos os desafios. Unidos seriam mais fortes, seriam uma equipe. Mas, Beto não abria mão dos seus planos de passar em um concurso, e conseguir um bom emprego. Prevalecia a base plantada por Dona Zefa, sua mãe. Ritinha, sem nenhuma perspectiva, os dias passando e, cada vez mais, tornando-se difícil a permanência naquela casa. Às vezes dava vontade de sumir no mundo, desaparecer. Marquinhos era o único elo que a prendia àquela vida miserável. Quanto tempo mais suportaria? Quanto tempo mais para acontecer uma tragédia. Quem iria protegê-la?
Sentiu-se tão só, tão desamparada. Instintivamente acariciou seu ventre, e murmurou baixinho.
– Não liga não. Ele falou aquilo tudo porque ficou desesperado. Mas nós te amamos muito, viu. Tudo vai ficar bem. Gabriel…
Que tonta que ela era. Não pediu a Gabriel um telefone, endereço, nada. Como ele iria encontrá-la? Há, mas ele só falou aquilo para tranquilizá-la. Era o mínimo que poderia fazer naquela situação. Porque ele protegeria a ela e a criança? Talvez fosse mais um oportunista querendo se aproveitar da situação. Não, não poderia ser. No fundo, Ritinha sentia que ele era especial. Aquele momento mágico que passou ao seu lado foi surreal. Queria tanto que Beto fosse como Gabriel, tranquilo, firme, decidido. Como ela se sentiu segura, confiante ao lado dele. Mas, agora já tem dúvida se foi real ou foi apenas um sonho, um devaneio. Como fumaça, todo o encanto se desfez, e a tristeza voltou a imperar naqueles lindos olhos castanhos.
Marquinhos já havia acordado, e fitava-a com seus olhinhos negros, que mais pareciam duas quixabas. Ritinha sentou-se ao seu lado, no beliche, puxou-o em sua direção, e deu um longo abraço apertado, acompanhado de muitos beijos. Era assim, todas as manhãs, desde quando ele era pequenino. Dava-lhe banho, servia-lhe as refeições, levava-o à escola, ajudava-o nas tarefas escolares e, quando adoecia, medicava-o. Quase todas as noites ela o colocava na cama, rezava e contava-lhe histórias. Considerava-o como filho. Ela era a verdadeira mãe de Marquinhos.
–Vou te contar um segredo – disse-lhe Ritinha – mas você tem que guardar, e muito bem guardado. Jura?
– Juro – disse Marquinhos, ao tempo em que beijava em cruz os dedinhos roliços.
– Você vai ganhar um irmãozinho ou uma irmãzinha.
– Verdade? – falou-lhe Marquinhos com os olhos arregalados, cheio de entusiasmo.
– Verdade – repetiu Ritinha com os olhos marejados, temerosa dos dias difíceis que estavam por vir.
Marquinhos era uma criança muito prematura e esperta. Percebeu a angústia de Ritinha. Procurou consolá-la, dizendo que logo, logo, estaria grande e forte. Teria um bom emprego, ganharia muito dinheiro, compraria uma casa com um quintal bem grande, onde morariam os três. O irmãozinho teria um quarto só para ele, cheio de brinquedos. Ritinha sorriu, abraçou-o agradecendo, e disse-lhe:
– Já estamos atrasados. Temos muito que fazer antes de te levar pra escola.
A tarde estava findando quando Ritinha retornou para casa. Passara parte do dia cuidando de Larissa, uma das crianças que ela costumava tomar conta. Era um dos trabalhos que fazia para conseguir algum dinheiro. Há muito deixara de mandar currículo. Perdera a esperança de conseguir algum emprego “decente”, ou seja, com carteira assinada, e tudo o mais. O último que tentou foi a vaga para auxiliar de escritório, indicação de um frequentador do restaurante onde a mãe é cozinheira. Mal havia começado a entrevista, o futuro patrão foi logo passando a mão pelas suas pernas. Eram inúmeras as propostas libidinosas recebidas. Talvez se tivesse nascido homem, ou fosse feia, enxergassem além do seu rostinho bonito, o seu verdadeiro potencial, sua garra, seu interesse em aprender, e conquistar um lugar ao sol. Vencer através dos seus méritos, e não apenas pelos seus lindos olhos.
Esforçou-se para voltar cedo, na esperança de Beto aparecer. Pediu a Deus que Zé do Ouro, o companheiro da mãe, ainda não tivesse chegado. Desamarrou da cintura o velho casaco marrom, desbotado, vestiu-o, puxou, repuxou, tentando enfiar dentro dele todo o seu corpo encolhido e assustado. Entrou rapidamente em casa, e trancou-se no quarto. Olhar fixo no vazio, a mente tentando fugir da realidade e a razão, buscando apenas uma resposta. O que fazer se Beto não vier?
Será que Beto não imagina o inferno que é a sua vida – pensou Ritinha. Uma mãe que não demonstra um pingo de amor por ela. Para a mãe, Ritinha não passava de uma sombra dentro de casa. Talvez tenha providenciado a gravidez no intuito de conseguir alguma ajuda financeira do pai. Deu com os burros n’agua. O pai de Ritinha sumiu no mundo sem dar a menor satisfação, e jamais deu algum sinal de vida. Parece que esperou somente até o seu nascimento. É possível que se ele tivesse ido antes, a mãe teria feito um aborto para livrar-se do fardo. Quem sabe se ele esperasse mais um pouco, teria se afeiçoado a ela, não iria embora, seria um pai amoroso, e a mãe não seria uma pessoa tão amarga e revoltada. Talvez fosse até um pouco mais carinhosa com ela. Melhor não. Melhor assim. Melhor ele ter ido. Se o pai foi embora é porque não é um bom pai. Um pai de verdade jamais abandonaria um filho, ainda mais um recém-nascido. Seria uma decepção bem maior se estivesse hoje se sentindo ignorada pela mãe e pelo pai. Melhor pensar que ele teve seus motivos para ir embora. Talvez pela ranhetice da mãe. E que sente muito pelo que fez, que sente vontade de vir conhecer a filha que abandonou, mas não pode mais voltar atrás. Agora está casado, com uma nova família constituída. Seria uma atitude muito arriscada, pois, além de poder ser rejeitado pelo abandonado, correria o risco de desestruturar sua nova família. Mas Ritinha jamais o rejeitaria. Muito pelo contrário. O maior presente que sua Mãe Maria Santíssima poderia ofertá-la seria um único encontro, apenas um, com seu pai. Hoje, não mais. Mas ha alguns anos atrás, sonhara muitas e muitas vezes com um homem alto, moreno, cabelos e olhos castanhos, simpático e muito elegante. Ele chegava a sua casa, e procurava pela mãe. Ritinha, ansiosa por saber quem seria, o que ele queria com a mãe, respondia prontamente que a mãe estava no trabalho. Ele então, com uma voz suave, amiga, perguntava-lhe como se chamava, e se tinha algum parentesco com a mãe. Ritinha, cheia de orgulho, respondia-lhe que se chamava Maria Rita da Silva, que tinha seis anos, e era filha dela. O homem, com os olhos marejados, cheios de ternura, balbuciava então que ela era filha dele, que ele era seu pai. Ritinha surpresa, olhando aquele homem enorme, ajoelhado diante dela, com lágrimas nos olhos, quase que incrédula, pedia confirmação sobre o que ele acabava de dizer, se ele realmente era o seu pai. O homem, emocionadíssimo, reafirmava que era o pai dela, e tinha vindo buscá-la. Ritinha, em prantos, se deixava envolver por aquele abraço fraterno. Por um longo tempo, ela permanecia desfrutando daquele abraço tão caloroso e aconchegante. Mas, invariavelmente, ela acordava no meio da noite, chorando baixinho, abraçada ao travesseiro. Na realidade, Ritinha não sabe sequer o nome do pai, e nunca viu uma foto dele. O pouco que sabe a respeito do episódio foi narrado pela mãe, debaixo de vários impropérios. Para completar, aparece esse pesadelo chamado Zé do Ouro.
Como Ritinha gostaria de ter um pai e uma mãe de verdade. Sente inveja de Beto. Pelo pouco que sabe, ele sim, tem uma família de verdade. Seus pais o amam, e se preocupam muito com ele. Toda a família gosta muito de Beto. Até o compadre e a comadre gostam muito dele. E olhe que não são nem parentes. Mas o consideram como um filho.
As pessoas se sensibilizam quando vêm um jovem batalhador. Não medem esforços para ajudá-lo. Uma jovem mãe, séria, cumpridora dos seus deveres, que se impõe, dificilmente recebe uma cantada. Muito pelo contrário, recebe muita ajuda, apoio e solidariedade. Ao contrário do que imaginamos, para nossa felicidade, as pessoas boas são em muito maior número. Elas fazem a boa ação, mas preferem ficar no anonimato. Esse era o pensamento de Ritinha. Esse rebento iria uni-los ainda mais, dar forças para vencer os desafios que não seriam poucos. Unidos teriam mais forças e, aos poucos, venceriam todos os obstáculos. Maria e José tinham pouco ou quase nada. Seu filho nasceu num estábulo, em uma manjedoura. Mas, tinham união e muito amor, puro e verdadeiro. E isso foi o bastante para proteger Jesus da tirania de Erodes.
Antes de morar com a mãe, Zé do Ouro vendia joias. Metido a conquistador, andava bem-vestido, e gabava-se das mulheres que se rendiam a seus pés. Era considerado um bom partido, disputado entre o mulherio da redondeza. Quando caiu em desgraça, ou seja, ficou falido, perdeu o status de majestade, e foi parar no rol dos esquecidos. Segundo sua versão, foi roubado e perdeu tudo, mas dizem que na verdade foi a jogatina que o levou à falência. A mãe sempre soube, mas faz vista grossa. Nunca tem, e está sempre pedindo algum dinheiro a ela.
Ritinha tinha pouco mais de dez anos quando o viu em casa pela primeira vez. Na época, já era meio barrigudo, braços peludos, alguns fiapos de cabelos lisos sobre a cabeça grande, e um olhar meio estranho. Falido, sem ter onde morar, a mãe era sua salvação. Foi se chegando de mansinho, todo cordial, até que a mãe o aceitou.
– Ritinha, venha conhecer Zé do Ouro – falou a mãe meio ríspida.
– Ele vai morar aqui com a gente – sentenciou.
A princípio era apenas o olhar meio estranho. Com o passar do tempo, Ritinha percebeu que havia maledicência naquele olhar de Zé do Ouro. Por mais de uma vez Ritinha tentou alertar a mãe, mas ela retrucava dizendo-lhe que era apenas fruto da sua imaginação. Não existia nada daquilo. Era fantasia de menina cheia de coisas na cabeça. Era só cobrir as vergonhas e pronto, estava tudo resolvido. E deu a Ritinha o casaco marrom, doação de alguma alma caridosa.
Na primeira vez que ele, Zé do Ouro, embriagado, tentou agarrar Ritinha, ela saiu numa desabalada carreira, e foi parar na Pensão de Dona Romilda, quase vizinha.
Estatura mediana, roliça, olhos vivos, depravada, mas tinha um coração de ouro. Essa era Dona Romilda. Foi dona de Bordel, e contam que fechou seu “comércio” porque matou um homem. Na ocasião, ela tinha conhecimento com pessoas influentes, fazia “favores” a políticos importantes, e o caso foi abafado. Ela gostava muito de Ritinha. Não tanto quanto seu gato, mas gostava. Dona Romilda conheceu muitos do tipo Zé do Ouro. Pedia sempre a Deus que nada de mal acontecesse a Ritinha porque ela sabia, não tinha dúvidas que mandaria aquele infeliz pros quintos dos infernos. Daquele dia em diante, Dona Romilda passou a ter atenção redobrada. Quando acontecia de Zé do Ouro passar chumbado, ela ficava na espreita. Aguardava Ritinha passar, vindo da escola, chamava-a por um pretexto qualquer, dava-lhe alguma tarefa, servia-lhe o almoço, e só a liberava quando a mãe passava.
Ritinha gostava muito de Dona Romilda. Mesmo com o jeitão meio grosseiro, dava-lhe carinho e atenção, coisas que não existia em sua casa. Com o passar do tempo, Ritinha foi se habituando à rotina da pensão, conquistando, e sendo conquistada pelos seus hóspedes. Até o gato, arisco, que só aceitava o colo de Dona Romilda, se afeiçoou a ela. Dona Romilda tinha verdadeira paixão pelo seu gato, e não fazia segredos. O gato tinha mais mordomias do que Raul, seu velho companheiro desde os tempos do Bordel. Ficava admirada e satisfeita, vendo seu gato de estimação sendo alimentado e acariciado por Ritinha.
Na pensão, o gato era o “rei”. Na parte mais baixa do teto, no fundo da sala de refeições, havia uma mesa propositalmente colocada, sem cadeiras, para nenhum hóspede sentar-se. Sobre essa mesa havia uma cadeira. Nesse ponto do telhado havia um buraco. Arte de Dona Romilda para facilitar a subida do gato para o telhado. Afinal ele era macho, e precisava namorar, dizia ela cheia de orgulho. O gato comia seu filé, passado na manteiga, descansava um pouco, depois subia na mesa, pulava para a cadeira e, passando pelo buraco, ganhava o telhado, e ia ao encontro das gatas. Esse malabarismo do gato era um verdadeiro espetáculo, apreciado pelos hóspedes.
Outro espetáculo na pensão, digno de nota, era quando surgia, entre os seus frequentadores, discussões sobre política, principalmente quando o assunto era regime capitalista versos regime socialista. Aquilo soava como música para os ouvidos de Raul. Não perdia a oportunidade de mostrar seus conhecimentos sobre as teorias marxistas. Quase que imediatamente, aparecia na sala com suas preciosidades nas mãos. Eram livros ensebados, com aspecto de terem sido bastante manuseados. Cartilhas do regime socialista. Raul era meio gago e, quando se emocionava, evidenciava ainda mais sua gagueira. Aparecia na sala, empunhando suas preciosidades, acariciando a capa de algum dos mais prediletos exemplares, com a mesma reverência e carinho que um pastor afaga sua bíblia.
– Poooorqe Max… – começava ele com seu discurso.
Antes mesmo de concluir a primeira frase, sua fala era drasticamente interrompida. Com uma colher de pau na mão, ou algo similar, surgia da cozinha, nada menos que Dona Romilda, já esbravejando.
– Ai daí seu corno, cafetão discarado. Tu nunca soube o que é trabalho, nunca bateu um prego numa barra de sabão e vem com essas baboseira. Chispa daqui e deixa meus hóspidis em paz.
O pobre do Raul enfiava os livros debaixo do braço, dava meia volta, e, rapidamente, desaparecia da sala. Aqui e acolá, viam-se cabeças baixas suprimindo risos.
Trancada em seu quarto, deitada no beliche de Marquinhos, os olhos vidrados, olhando para o infinito, Ritinha relembrava uma das ameaças da mãe.
– Se tu me aparece aqui prenha, te boto no olho da rua. Já tem muito peso morto aqui vivendo do meu suor.
– É, essa menina tá meio estranha mesmo. Aí tem coisa – arrematava Zé do Ouro.
Zé do Ouro não tomava a carapuça para si, ou fingia que não era com ele. Achava Ritinha que aquele estrupício estava mesmo era preparando terreno para, caso conseguisse seu intento, jogar a culpa em alguém. Imagine se ele sonha que ela não era mais virgem, e ainda por cima que estava grávida. Ritinha estremeceu só em pensar.
Precisava tanto de Beto, de seu apoio, sua compreensão e confiança. Já estava anoitecendo, e ele ainda não havia dado sinal. Beto passava na moto, dava um toque diferenciado na buzina, e ia esperá-la na esquina. Era o código.
Recusava-se a acreditar que ele iria abandoná-la, depois de tanto tempo de convivência, tantos planos, tantas promessas, tantas juras…
Quase dois anos mais velho que ela, Beto também tinha suas dificuldades. Veio do interior para continuar os estudos, graças à benevolência do compadre que cedeu um quartinho nos fundos de sua residência.
Ainda lembra como se fosse ontem. Ele, todo tímido, começou a aproximar-se dela. Estudavam no mesmo colégio, na mesma série, porém em salas diferentes. A princípio, ela não deu bolas. Achava até que ele era um daqueles repetentes, mimados e inconsequentes, que tudo tinha, e não reconhecia os esforços dos pais. Depois é que soube o verdadeiro motivo do seu atraso escolar. Por falta de recursos para manter-se na metrópole foi forçado a parar seus estudos. No interior, onde morava, tinha apenas uma professora que lecionava do primeiro ao quinto ano.
Desde cedo, a mãe sonhava com um futuro brilhante para Beto. Preparava-o para alçar voo. Seu destino era longe daquele lugar. Moravam modestamente em uma propriedade rural próxima do vilarejo. Como a maioria dos sitiantes, sobreviviam de pequenas plantações, e a cria de alguns animais. Quando DEUS ajudava e tinham uma boa colheita, sobrava algum dinheiro, mas normalmente conseguiam apenas o necessário para as despesas básicas. Beto ia a pé, todos os dias, estudar na vila. Depois de algum tempo, seus pais conseguiram juntar algum dinheiro, e comparam uma bicicleta usada para ele. Já havia concluído o primário, e agora precisava continuar os estudos na metrópole, mas como?
Na opinião de Seu Jairo, o pai de Beto, bastava aprender a ler e fazer conta. O resto era perda de tempo. Pelo seu gosto, Beto devia era aprender a domar potro. Ganharia bastante dinheiro. Pelas redondezas não havia um bom domador. Quem tinha seu potro de raça era obrigado a levá-lo para longe, a fim de ser adestrado. Beto poderia até aprender outras profissões, inclusive menos arriscadas, e também seria bem remunerado. Mas, na verdade, aquilo era uma tentativa do pai, visando puxar para fora a masculinidade do rapaz. Seu Jairo tinha medo de admitir, mas, no fundo, no fundo, achava o filho meio afeminado. Naquela idade, ele, o pai, já tinha até sido acometido de doença venérea, adquirida no puteiro. Queria ver o filho ralando os joelhos em uma pelada, voltando tarde para casa, vindo de algum coco, cansado de dançar, alcoolizado, cambaleando, falando alto, para ele poder dar uma reprimenda, dar-lhe um banho frio, jogá-lo na cama, e depois, sem se conter de orgulho, tranquilizar a mãe dizendo-lhe: não foi nada, é coisa de homem. Mas o filho só gostava mesmo era de estudar. Terminava as tarefas do dia, e depois se enfiava no quarto. Não sabia para que tanto estudo. A culpa era da mãe, enchendo de coisas a cabeça do menino.
A mãe, Dona Zefa, pensava diferente. Queria algo muito melhor para o filho. A princípio pensou no Clero. Seria um seminarista e, quem sabe, se DEUS ajudasse, poderia chegar a ser um Bispo ou talvez um Cardeal. Contava-lhe as histórias de Marcelinho Pão e Vinho, menino tão puro que nunca havia olhado para seu pinto. Manipulá-lo então, jamais. Por amor e obediência à mãe, Beto até tentou, mas era muito difícil. A tentação era grande. Depois que experimentou o gozo da masturbação, e a relação com sua cabra de estimação, sentiu-se muito mais distante, indigno dessa santíssima casta. Mas a sua professora não estava no rol dessas tentações. Muito pelo contrário, era um anjo. Foi amor à primeira vista, desde o primeiro dia de aula. O pior de tudo era aquela deferência que ela tinha por ele. Menino dócil, estudioso, dizia ela. Ele até evitava tirar alguma dúvida com ela. Imediatamente aproximava-se dele, com muita boa vontade, carinho e atenção, impregnando o ar com aquele cheiro suave de sabonete que o deixava descontrolado. Não podia decepcioná-la de forma alguma. Enfiava a cara nos estudos, única maneira de ter aquele tratamento diferenciado, de tê-la mais próximo.
Com o passar do tempo, foi percebendo o quanto ela era importante para ele, principalmente naquele começo, ajudando-o a desvendar o véu do saber. Não, não poderia perdê-la de forma alguma. Guardava aqueles sentimentos reprimidos a sete chaves. Como falar para a mãe que não poderia ser um seminarista. Não poderia abraçar o Clero com aquele amor impossível a dilacerar-lhe o coração. Era grande o amor que nutria pela mãe. Era serviente, respeitoso e obediente. Mas o celibato era inacessível, praticamente impossível. Seria um sacrifício muito grande para ele.
A mãe, percebendo o perfil de Beto, cada vez mais distante do pontificado, trocou o clero pelo funcionalismo público. Um Agente Federal, um Promotor ou talvez um Juiz. Orava todos os dias para Santa Rita das Causas Impossíveis. Pedia-lhe que não desprezasse seu novo pedido. Não era tão nobre quanto o Clero, mas eram também profissões dignas. De que adiantaria realizar seus desejos, agradar à Santa, e ver o filho querido tão infeliz. Foi com grande alívio que Beto recebeu a mudança de planos da mãe. Passou a comungar também esse novo sonho, mas como realizá-lo? Estava muito longe de sua realidade.
Já era noite. Beto acabara de jantar, e estava deitado em seu quarto, relembrando, com muita saudade, a última conversa que tivera com sua professora. Era hora de ir continuar seus estudos na metrópole, disse-lhe ela. Não tinha mais nada para ensiná-lo. Sabia das dificuldades que uma família de camponeses enfrentaria para manter um filho estudando em uma cidade grande, mas não podiam perder a fé. Ela colocava-se à disposição para ajudá-los nesse difícil desafio. Ofertou-lhe alguns livros para que ele não parasse o avanço nos estudos, enquanto aguardava a oportunidade chegar. Beto não sabe como conseguiu forças para suportar aquela separação. A professora o tinha como sua cria. Com os olhos rasos d’água, abraçou-o como se fosse pela última vez, sem saber se algum dia o veria novamente, com ou sem seus sonhos realizados. Naquele momento, o ímpeto de Beto foi tomá-la em seus braços, beijar-lhe os olhos, as faces, a boca, e falar-lhe daquele sentimento forte, reprimido durante tanto tempo. Prendê-la num abraço forte, e não a deixar nunca mais. Limitou-se apenas a retribuir-lhe o abraço e, timidamente, com uma voz trêmula, sumida, agradecê-la por tudo que fez e continuava fazendo por ele. Voltou para casa com o coração dilacerado. Passou alguns dias sem dormir e sem se alimentar direito, mas conseguiu superar. Por muitas vezes ensaiou desculpas para ir vê-la, apenas mais uma vez. Não. Seria um desastre. Por mais que ensaiasse, no fundo sabia que o fracasso seria iminente. E, além do mais, serviria apenas para acender ainda mais a chama daquele amor impossível. Voltava então a devorar os livros que lhes fora ofertado, na ânsia de preencher aquele vazio, na esperança de, entre suas páginas, sentir novamente aquele cheiro suave de sabonete, de banho fresco.
Era duro admitir, mas o pai tinha razão. Seu Jairo era contra essas ideias da mãe. Condenava-a por incutir esses sonhos fantasiosos em sua cabeça, mas Dona Zefa era assim. Era tinhosa, persistente e determinada. Quando encasquetava com alguma coisa, não havia meios para fazê-la mudar de opinião.
Beto já não tinha mais esperança. Seria um desalento para a mãe, mas não podia mais esperar. Estava prestes a completar dezesseis primaveras, e estava na hora de acordar para a realidade, esquecer os sonhos impossíveis e, como dizia o pai, botar os pés no chão. Estava decidido, amanhã mesmo conversaria com o pai e, pé na estrada.
Os pensamentos de Beto foram interrompidos com a chegada dos compadres. O casal recém-chegado era vizinho de sítio, velhos amigos de longas datas. Os pais de Beto tinham muita consideração pelo casal, e vice-versa. Bem que podiam ser padrinhos de Beto, mas eram apenas compadres de fogueira. Apenas, não. Dona Zefa dizia que uma das coisas mais sagradas era compadre de fogueira.
Os compadres chegaram com uma grande novidade. A sua filha, casada e, por sinal, bem-casada, morava na metrópole, e estava grávida. Os compadres, felizes com a notícia, foram visitá-la. O genro, que sempre teve muito carinho pelos sogros, ficou felicíssimo com a visita. Depois de alimentados e restabelecidos da viagem, o genro aproveitou e puxou o assunto. Falou-lhes que até já havia conversado com a esposa sobre a preocupação que tinha com os sogros, já com idades avançadas, continuarem vivendo no interior, e sozinhos. Com amigos, é bem verdade, mas sem parentes próximos. Agora que ele estava financeiramente bem, e que a esposa estava grávida, era chegado o momento de providenciarem uma casa para os sogros na metrópole. A filha necessitava desse apoio, desse suporte, principalmente nesse final da gestação, e após o nascimento da criança. Os sogros apresentaram mil e um argumento para não aceitar, mas, finalmente, foram vencidos. O genro os consideravam como seus pais e, para ele, uma recusa seria uma desfeita muito grande. Quanto ao sítio, combinaram que não deveria ser vendido. Inicialmente arrendariam porque, caso os sogros não se adaptassem à nova moradia, poderiam retornar ao sítio. Esses últimos argumentos quebraram definitivamente toda e qualquer resistência, deixando os compadres sem alternativa. Tiveram que aceitar. Qual não foi a surpresa de Dona Zefa, quando os compadres confessaram que outro motivo havia contribuído muito na decisão de aceitarem a proposta do genro. Agora, com uma moradia na metrópole, poderiam levar o Beto para morar com eles. E assim, finalmente, Beto poder continuar os seus tão almejados estudos. Beto ficou estupefato, sem saber o que dizer. Dona Zefa, chorando de alegria, murmurou baixinho – obrigada minha Santa Rita das Causas Impossíveis. Seu Jairo, mais sensato, ponderou que não seria justo os compadres arcarem com esse peso. Afinal, era mais uma boca. Beto, já refeito da surpresa, contra argumentou que poderia conciliar os estudos com um trabalho de meio turno para poder ajudar nas despesas. Posteriormente, passaria a estudar à noite, e trabalharia tempo integral. Sempre que possível, também mandaria uma ajuda para os pais, uma maneira de compensar a sua ausência na labuta das tarefas diárias do sítio. Precisaria apenas que o pai confiasse. Durante o seu período de adaptação, enquanto se ambientava e providenciava um emprego, necessitaria que o pai arcasse com o apoio financeiro necessário. Aos compadres, caberia ter um pouco de paciência durante essa fase inicial. Seu Jaime e o Compadre ficaram surpresos com a fala de Beto. Outro dia era um menino, agora é um homem assumindo compromissos, chamando para si toda uma responsabilidade, sereno e confiante. Seu Jairo comprometeu-se a desfazer de alguma cria para arcar com as primeiras despesas, ajudar aos compadres na intermediação do arrendamento das terras, e outras providências que fossem necessárias. Pouco tempo depois da partida dos compadres, Beto, com os olhos rasos d’água, e o coração transbordando de alegria, partiu em busca dos seus sonhos. Fé, esperança e muita determinação, herdadas de Dona Zefa, acompanhada da coragem e o destemor de Seu Jairo eram as características marcantes na personalidade de Beto. Levava em sua bagagem, além de uma sacola com os poucos livros e algumas mudas de roupa, um antigo rádio da marca Mullard, presente de Seu Jairo, para espantar a solidão.
Cortez e gentil, Beto foi se aproximando de Ritinha, fazendo-a esquecer aquela rejeição inicial. Alto, magro, pele clara, cabelos loiros, ondulados, e olhos esverdeados, formavam um conjunto interessante, uma figura agradável. Aos poucos, foram descobrindo muita coisa em comum e, cada vez mais se afeiçoando.
Ambos tímidos, poucos amigos, parcos recursos, focados nos estudos, buscando um lugar ao sol. Cupido, esperando uma oportunidade, sem a menor chance de conseguir êxito.
A todo o momento, sem pedir licença, aqueles olhos castanhos invadiam sua mente. Beto já não conseguia controlar. Às vezes implorando carinho, outras vezes proteção, mas eram sempre aqueles olhos castanhos.
– Não, não vou mais encontrá-la. Isso está ficando meio sem controle – pensava Beto. Nada de namoro. A prioridade são os estudos. Não posso decepcionar Dona Zefa. Mas, quando tocava a sirene anunciando o intervalo, não resistia e acabava indo para o final do corredor, próximo à cantina, ponto de encontro dos dois. Aquele sorriso tímido era um alento. Uma trégua para seu conflito interior. Será que ela sentia o mesmo que ele sente por ela? Não sabia ao certo qual a razão: a promessa, o pacto com Dona Zefa ou a timidez? O fato é que batia uma insegurança, e aí ele pensava: – não, é muito arriscado. Não posso perdê-la. E o que farei sem esse sorriso tímido, sem esse olhar misterioso? Ela está apenas sendo gentil comigo. Quer somente a minha amizade. Como eu, sente-se deslocada. E se eu me declarar e ela aceitar, como fica o compromisso firmado com Dona Zefa? E o meu futuro?
– O que será que ele quer de mim? – pensava Ritinha. Será que o que sinto é amor, ou apenas a falta de um ombro amigo? O que ele sente por mim? Se sente algo, nunca demonstrou. Vou dar um tempo. Vou evitar encontrá-lo, e ver o que acontece. Eram muitas perguntas sem resposta. – Não – pensou ela. Ele não merece ser magoado. Eu sinto que seus olhos tristes se alegram com minha presença. E se ele ficar magoado, e não quiser mais me ver? Talvez seja timidez, ou incerteza dos seus sentimentos para comigo. Ou ele apenas sente-se só, deslocado, e quer apenas minha amizade. É tudo muito novo para mim. Sinto que sua companhia me faz bem. Ela está sendo um estímulo para eu continuar lutando, tentando mudar essa minha vida miserável.
Um belo dia, um amigo de Beto convidou-o para sua festa de formatura do terceiro ano. No primeiro momento Beto pensou imediatamente em Ritinha. Era uma oportunidade que não poderia deixar passar. No primeiro intervalo, coração batendo descompassado, transbordando de felicidade, esperou Ritinha, como das outras vezes, no ponto de encontro próximo à cantina. – Ela não aceitará o convite – pensou Beto. É possível até que ache algo frívolo, fora do foco dos nossos estudos. É o que também Dona Zefa diria. Ou talvez alguém já a tenha convidado. Melhor esquecer essa festa, agradecer a Ângelo pelo convite, e focar nos estudos – finalizou Beto. Não só Dona Zefa, mas também Ritinha ficarão felizes com essa decisão.
Ao encontrar Ritinha, sem maiores preâmbulos, antes que perdesse a coragem, de chofre, num único fôlego, falou-lhe da festa, e convidou-a para ser seu par. Estava certo de que o convite seria aceito, acompanhado de um largo sorriso, demonstrando toda a felicidade do mundo estampada em seu rosto, mas a reação de Ritinha não foi a esperada. Beto sentiu um aperto no coração. Estava ele equivocado? Ritinha não nutria nenhum sentimento por ele? Não, não podia ser. Será que tudo era fruto da sua imaginação? A ausência da família, morando numa cidade grande, onde malmente as pessoas se cumprimentam por mera formalidade, é preciso aprender a conviver com a solidão. Beto, perdido nesse imenso deserto, viu em Ritinha um oásis, um porto seguro onde conseguiria renovar suas energias para prosseguir sua caminhada. Sim, tudo isso é possível, mas, para Beto, neste caso, estava muito claro. Aquilo era castigo da Santa Rita das Causas Impossíveis. Ele não poderia ter esquecido as promessas que havia feito à Santa, por intermédio de sua mãe. Nada de namoro. Tinha que dedicar-se somente aos estudos. Todo o tempo vago seria dedicado às apostilas preparatórias para concurso, mas Ritinha era diferente. Não era nenhuma daquelas garotas mimadas, muito menos sirigaita. Pelo contrário, comungavam os mesmos ideais. Ela entendia e apoiava Beto na sua batalha, no seu projeto. Também era batalhadora e responsável. Não custava nada à Santa reconsiderar. A princípio Dona Zefa iria recriminar, mas quando conhecesse Ritinha, certamente mudaria de opinião. Agora nada mais importa. Ritinha havia respondido com um sim que estava mais para um talvez, ou não. Lembrou-se da sua primeira paixão, a professora do primário, e seu cheiro suave de sabonete. Por onde andaria? Não teve coragem de revê-la, de despedir-se. E se ele tivesse lhe revelado o seu amor? Não. Poderia ter estragado tudo. Melhor assim. Guardaria para sempre essas lembranças. O toque de suas mãos delicadas segurando as suas, ensinando-lhe a desenhar as primeiras letras. Aqueles lindos olhos rasos d'água na despedida… Talvez fosse melhor ter seguido o caminho do clero. A essa altura, estaria enclausurado em algum mosteiro, longe dessas tentações, livre dessas decepções que tanto machucavam seu peito, e dilaceravam seu coração. Beto não entendia certas coisas que Seu Jairo dizia. Apesar da sua pouca escolaridade, Seu Jairo é um verdadeiro filósofo. Desde muito cedo, começou a viver uma vida dura, e continua até hoje. Dizia ele que “a vida é feita de alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, sonhos e decepções”. Esses acontecimentos nos ferem por dentro. Muitos deles partem o coração. O tempo vem e cura. Como legado, resta-nos apenas um velho coração com pequenas marcas e inúmeras cicatrizes. Uma verdadeira colcha de retalhos que devemos guardar como um valioso troféu. As águas de um rio se renovam a cada curva, cada corredeira e, para sua completa oxigenação, nada melhor que uma cachoeira. É o pulsar do coração que marca o compasso da vida, traçando uma linha sinuosa de altos e baixos, mapeando nossa caminhada. A vida é música, é movimento, é a antítese da inércia. Quem nunca teve um amor oculto, um amor não correspondido, um sonho, juras secretas de amor, uma grande paixão, ainda tem muito para viver.
O coração de Ritinha bateu descompassado ao ouvir o convite de Beto. Achava até que ele não havia percebido seus sentimentos. Mas agora, quando viu o brilho nos seus olhos, teve a certeza de que era correspondida. A felicidade foi tamanha que teve o ímpeto de abraçá-lo e beijá-lo, ali mesmo, no corredor do colégio. – Contenha-se Ritinha – disse para si mesma. O que Beto iria pensar? Que ela era uma daquelas assanhadinhas, oferecidas. Imediatamente, Ritinha se recompôs e voltou à realidade. Como aceitar o convite? A mãe jamais a deixaria ir a uma festa sozinha, com um colega de colégio que ela sequer conhecia. Não, não poderia aceitar, depois dar uma desculpa qualquer, e não ir. Também não poderia dizer não. Seria uma grande decepção para Beto. Aquela situação constrangedora foi salva pelo ecoar da campainha, anunciando o término do intervalo, adiando o final do colóquio. Retornaram às suas respectivas salas de aula com os corações apertados, incertos do que viria a acontecer no próximo ato.
O quartinho dos fundos, cedidos pelos compadres, era o refúgio de Beto. Uma janelinha que se abria para o pequeno quintal, uma antiga cama de solteiro encostada em uma das paredes. Na outra, um espelho manchado, um calendário de borracharia com a foto de uma loira sorridente, nua. Com uma das mãos cobria o sexo, e a outra, parte dos seios. Em um canto, um pequeno guarda-roupa de duas portas e, ao lado, duas prateleiras improvisadas. Na prateleira de cima estavam alguns livros, lembranças da professorinha, seu primeiro amor, e as apostilas. A de baixo era sua mesa de estudos, onde ficava também o antigo rádio a válvula, presente de seu pai. Acoplado ao rádio, estava o toca discos, de segunda mão, primeiro bem adquirido com seu próprio salário.
Como um autômato, deitado em seu quartinho, Beto tentava digerir os últimos acontecimentos, mas estava muito difícil suportar a dor e a angustia que sufocava seu peito. Em tão pouco tempo de existência, já era a segunda dor, o segundo golpe forte que dilaceravam seu coração. Pensou nas lições filosóficas de Seu Jairo. Seu coração estava partido. Agora o novo sangramento se juntara à velha cicatriz que reabrira. Restava saber se suportaria esperar que o tempo lhe curasse as feridas. Esse novo amor era real, acessível, palpável, viável, estava sendo um bálsamo, ajudando-o a esquecer aquele primeiro amor. Por que ela, Ritinha, deixou-o acreditar, deu-lhe esperanças, e agora…? Ou será que foi apenas uma fantasia imaginada por ele. É, foi isso, apenas uma fantasia imaginada por ele. Melhor pensar assim. Não será fácil, mas conseguirá superar. – Vamos Beto – pensou–, levante-se e lute. O caminho é árduo quando se almeja vencer na vida, obtendo sucesso, e realizando nossos sonhos. Levantou-se, colocou um compacto simples de vinil no toca-discos e, como um autômato, voltou a deitar-se. Com os olhos úmidos, vidrados, olhando para o nada, ouviu os primeiros acordes: “Você não soube amar, amar, amar, você não soube amar. O seu amor meu bem, não passa de ilusão, e que sente a dor é o meu coração…” e adormeceu.
Mas afinal, o que é vencer na vida? Conquistar um império, morar em Ipanema e comprar um corcel 73, como musicou Raul Seixas, ou simplesmente viver em paz, com muito amor no coração, sozinho, ou ao lado da pessoa amada, sem se importar onde e como?
Respeitosamente, peço licença ao leitor para, juntos, fazermos uma reflexão. Nossos pensamentos e ideias mudam de acordo com o passar do tempo, e a experiência adquirida. Nas primeiras décadas de nossa existência, acreditamos que vencer na vida é, certamente, conquistar um império ou, no mínimo, “morar em Ipanema e comprar um corcel 73”, dentro de um prazo razoável. Para sermos considerados um vencedor, não podemos chegar à terceira década de existência sem conseguir, pelo menos um bom emprego, uma casa, um carro, e uma esposa leal, honesta, com condições físicas perfeitas, gozando de boa saúde para procriar. É de suma importância, a existência de um varão, para dar continuidade ao pequeno ou grande império conquistado. Setenta décadas depois, na busca de uma paz perdida, trocaremos, não só o corcel 73, mas todo o império adquirido, por uma vida simples, ao lado de Maria ou Stela, morando em “… uma casa de campo onde eu possa ficar do tamanho da paz…”, como diz a canção, erguida na beira de um córrego, rodeada de animais e plantas, bebendo água de pote em caneca de alumínio. Aconchegados numa rede, abraçados, acariciando-se, os dedos dos pés entrelaçados, sentindo o calor dos corpos contrastando com a brisa da noite, apreciando a lua, ouvindo apenas as batidas dos corações em harmonia com a paz reinante, muito amor, e os pensamentos povoados de belas recordações. Nesse momento, um avião passa a quarenta mil pés de altura, deixando seu rastro de fumaça iluminado pela luz prateada da lua, e imaginamos quantos seres viajantes daquele aparelho, ansiosos, tentando alcançar a tão almejada felicidade, passeando pelo mundo, comendo sanduíches apressados para cumprir os horários de exaustivas excursões, fotografando tudo, tirando selfies com aqueles sorrisos congelados, tentando imitar propagandas de dentifrícios, desejosos de retornar logo da viagem para mostrar tudo aos parentes e amigos, acompanhado da seguinte mensagem, gravada nas entrelinhas: vejam como sou feliz. Quantos outros, viajantes das alturas, imaginam a vida dos pobres infelizes, sobrevivendo de forma precária, num lastimável desconforto, em uma casa erguida na beira de um córrego qualquer, rodeada de bichos e mato, sem jamais ter a oportunidade de saborear o prazer de conseguir ganhar o seu primeiro milhão de dólares.
Ritinha levou dias criando coragem, e buscando uma maneira para pedir consentimento à mãe. Iria à festa com quem? Seria a primeira pergunta. Precisava achar logo uma solução. Não estava mais suportando aquela situação com Beto. Evitavam até mesmo de se encontrarem para não tocar no assunto. Mas aí soube que uma vizinha iria à festa. Ritinha, um pouco temerosa, procurou-a e expôs sua delicada situação. A vizinha, não só aceitou como concordou em ser a alcoviteira dos pombinhos.
– É bom mesmo que vá – disse a mãe. Quem sabe tu toma jeito de gente, e melhora essa cara de bicho do mato.
– Não achou que seria tão fácil – pensou Ritinha. Agora estava mais aliviada. A mãe até apoiou! Mas seu contentamento durou pouco, porque a mãe concluiu.
– Agora quero saber com que roupa tu vai. Com esses teus vestidinhos tu vai passar vergonha, e eu não tenho dinheiro pra gastar com roupa pra festa.
Beto também não tinha roupa adequada, mas não era difícil providenciar uma calça e uma camisa social. O problema maior era Ritinha. Mesmo que eles juntassem seus parcos recursos e comprassem um vestido no crediário, como explicar à mãe? Ficaria para outra ocasião. Deus sabe quando, e se haveria outra oportunidade de ouro como aquela.
A mãe havia deixado, mas, sem roupa, Ritinha não poderia ir à festa. Que adiantaria falar com Beto? Precisava falar-lhe, mas o que dizer? Tocar no assunto iria magoá-lo ainda mais. Ritinha preferiu continuar esperando por um milagre.
O dia da festa já estava bem próximo quando a mãe chegou do trabalho com um vestido que sua patroa a havia ofertado. Não servia mais para sua filha, mas certamente serviria para Ritinha, dissera-lhe a patroa. O vestido era branco, longo, rodado, de musseline com detalhes em renda e forro de seda, lindo. O coração de Ritinha quase salta pela boca, tamanha foi a sua felicidade. Com os olhos marejados acariciou o vestido e pensou – meu vestido de festa. Sentiu-se a Cinderela da estória. Faltava-lhe agora apenas o sapatinho de cristal. Uma vizinha fez alguns ajustes no vestido, outra conseguiu um sapato emprestado e, finalmente, tudo pronto para a grande noite.
Beto buscou no trabalho e nos estudos uma maneira de fugir da realidade, tornando suas dores mais tênues e mais amenas. Não sabia ele o quanto Ritinha também estava sofrendo com aquela situação. A campainha soou anunciando o primeiro intervalo do dia. Beto relutou em sair da sala. Certamente Ritinha não estaria aguardando por ele no local costumeiro. Melhor ficar, e rever alguns assuntos da aula passada. Mesmo assim, resolveu sair, tomar um pouco de ar, beber um copo d'água, e retornar à sua sala de aula. Mas qual não foi a sua surpresa ao ver Ritinha, sorridente, aguardando por ele no lugar de sempre. Depois de esclarecido os verdadeiros motivos causadores de tantas tristezas e dissabores, Beto segurou, discretamente, uma das mãos trêmulas de Ritinha e, com os olhos marejados disse-lhe, com a voz emocionada – que bom que você vai comigo pra festa. O tempo parou por alguns instantes, enquanto os dois, ali, olhos nos olhos, num cantinho do corredor do colégio, ficaram discretamente acariciando-se pelas mãos.
Beto e Ritinha faziam contagem regressiva, ansiosos para que chegasse logo o dia da festa. Sonhavam imaginando como seria. – Será que ele iria beijá-la? – pensava Ritinha. Certamente que sim. Seria seu primeiro beijo. Será que iria decepcioná-lo? Não, não poderia fazer feio. Treinara várias vezes no braço. É, mas no braço é bem diferente. E se ele debochasse da sua inexperiência? Se ele realmente a ama, jamais caçoaria dela. Estava decidido. Seria autêntica e verdadeira. Nada de aparentar o que não é. –Tem que gostar de mim como sou – pensou Ritinha.
No interior, aprende-se a dançar logo cedo. Mas nada além do forró pé de serra, o xote e a gafieira. Era o que Beto sabia. Ao contrário do que Seu Jairo imaginava, Beto não tinha nada de afeminado. Apenas era discreto. Evitava provocar discórdias entre os pais, e trazer-lhes preocupações. Vez por outra comparecia a um coco, bebia moderadamente, ensaiava uns passos de dança com as meninas disponíveis, e chegou até a dar uns amassos na Gerusa. Mas nada sério. Se soubesse dos temores de Seu Jairo, certamente teria sido menos comedido, e cuidadoso.
Uma festa de formandos é totalmente diferente de um “rala bucho” lá do interior. A começar pelo requinte, os trajes e, principalmente as músicas que seriam outras. Precisava urgentemente tomar umas aulas. Lembrou-se de Ângelo, o amigo formando. De certo que o ensinaria com todo o prazer, e muita satisfação, disse-lhe o amigo. Numa tarde de sábado, o disco rolando na vitrola, e os dois amigos ensaiando, dançando no pequeno quarto de Beto. Os pés descalços, a música e a dança transportaram Ângelo no tempo. Estava revivendo a noite em que conheceu Simone.
Conheceram-se num bar, em um encontro desses casuais. Uma dessas peças pregadas pelo destino. Era um dia de domingo, e já passava das vinte horas. Ângelo, pensando nas tarefas a elaborar na segunda-feira, decidira voltar cedo para casa. Dirigindo sua Rural Willis, vermelha e branca, mergulhado em seus pensamentos, foi despertado por uma espécie de chamamento. Percebeu que estava passando em frente a um bar, recém-inaugurado, com música ao vivo. Relutou, mas resolveu parar, dizendo para si mesmo que seria uma parada rápida, apenas para conhecer. Gostando, certamente retornaria outro dia. Mas ao entrar, deparou com um par de olhos verdes que fez gelar seu coração. Ângelo, de imediato, rendeu-se àquele olhar. Um misto de candura e inocência. Era uma jovem, cabelos loiros, cacheados, que estava sentada sozinha em uma mesa, olhou-o com um leve sorriso, dando a impressão que estava ali, apenas aguardando sua chegada. Ângelo aproximou-se, pediu permissão, e sentou-se ao seu lado. O novo ambiente, ainda não badalado, estava quase vazio. Nesse momento, alguns poucos casais dançavam na pista, ao ritmo de uma bela música suave. Ângelo, empolgado, convidou-a para dançar. Ela, gentilmente recusou, alegando que não sabia dançar, e não gostaria de machucar os pés do seu par. Ângelo sugeriu então que ambos dançassem descalços. Assim, um não machucaria os pés do outro, porque ele também não sabia dançar. Dizendo-lhe isso, tratou de retirar seus calçados e, delicadamente, puxou-a para dançar. Rodopiando no salão, embalados pela música, sentiram-se muito íntimos como se fossem dois velhos conhecidos. Aproveitaram o intervalo para retornar à mesa. Outra jovem sorridente já os aguardava e, antes que os dançarinos se acomodasse, confessou que estava curiosa em conhecer o herói que havia conseguido conduzir Simone até a pista de dança. Simone e Ângelo sorriram para a amiga e, em seguida, Ângelo argumentou: – nada em especial, apenas um pouco de sorte. Num piscar de olhos, as horas se passaram. Quando perceberam, já estava na hora de ir. Ângelo ofereceu-se para levá-las até em casa. Na despedida, combinaram um novo encontro para o dia seguinte.
O dia seguinte foi longo. As horas se arrastaram. Ângelo não via o momento de reencontrar Simone. Antes da hora marcada, já estava ele tocando a campainha da casa da amiga, onde Simone estava hospedada. Quem atendeu foi a amiga de Simone. Saiu, cerrou a porta, e convidou-o a sentar-se na balaustrada da varanda. Pediu desculpas por estar se intrometendo, mas explicou que, por gostar muito de Simone, tomava a liberdade de esclarecer alguns fatos. Simone era uma jovem muito especial. Havia terminado de concluir o terceiro ano e esta era a primeira viagem de férias que realizava sozinha. Os pais de Simone a haviam confiado, com mil e uma recomendação. Apesar de não ser mais uma adolescente, Simone nunca teve namorado, e não tinha nenhuma experiência com o mundo real, porque, durante toda a sua formação, estudou em um colégio interno de freiras. Ela, Simone, confessou-lhe que, pela primeira vez, havia se interessado por um rapaz. Estava impressionada, vislumbrada por Ângelo. Por fim, a amiga concluiu dizendo que Ângelo havia conseguido passar a ambas, ela e Simone, uma boa impressão. Um jovem confiável, sério, honesto e de caráter. Caso ele não tivesse a intenção de assumir um compromisso sério com Simone, ela pedia, encarecidamente, que ele não continuasse a vê-la porque, certamente, iria fazê-la sofrer. Ângelo prontamente tranquilizou-a dizendo-lhe que, desde o primeiro instante que a conheceu, percebeu que Simone era alguém muito especial, que havia mexido profundamente com os seus sentimentos, e que não tinha a menor intenção de separar-se dela.
O coração de Ângelo bateu mais forte quando avistou Simone no limiar da porta. Estava mais linda do que na noite anterior. Seus olhos verde safira fitaram-no, translúcidos e transparentes, dizendo tantas coisas e, ao mesmo tempo, carregado de mistério. Sob o comando da brisa vespertina, os cabelos brilhantes acariciando sua face, com um sorriso ingênuo nos lábios, caminhou devagar em direção a Ângelo. O corpo esbelto, com um andar elegante, natural, parou, e disse com voz meiga – você veio! Ângelo, sem dizer nada, simplesmente abraçou-a. Aquele perfume suave, a pele macia, e o corpo trêmulo, tímido, retribuindo-lhe o abraço, transformaram aqueles poucos minutos num longo tempo de intensa felicidade. Permaneceram ali, imóveis, receosos de quebrar aquele momento mágico, saboreando cada segundo como se fossem os únicos habitantes do planeta. Acordou com a voz de Beto afastando-se dele, dizendo-lhe – epa, epa rapá, tá me estranhando? Ângelo sorriu e respondeu-lhe – nada disso cara, apenas estava sonhando com minha Simone.
Finalmente chegou o dia da festa. Beto, muito elegante, trajando blazer, camisa de manga comprida branca e calça social, atravessou o salão em direção à mesa do amigo Ângelo. Com passos relativamente lentos, fazendo um tremendo esforço para não sair correndo, sem saber o que fazer com os braços e as mãos, o trajeto de poucos metros pareceu-lhe uma longa e penosa travessia. Os pés mais pareciam duas bolas de chumbo. Um suor frio correu por sua espinha dorsal. Sentindo-se como se todos o estivessem observando, foi com grande alívio que finalmente chegou ao seu destino. Na gafieira, lá no Riacho da Mata, era diferente. Todos se conheciam. Era tudo muito simples. Não tinha essas coisas de trajes elegantes, etiquetas, e formalidades. Era chegando e tomando logo uma dose para esquentar. Pegava-se a primeira figura disponível, e ia disputar um espaço no salão. Ao chegar junto à mesa do formando, foi recepcionado com um forte abraço e, mais uma vez, Beto agradeceu ao amigo pelo convite. Em retribuição, o Ângelo agradeceu-lhe pela presença e, em seguida, apresentou-o a seus pais, aos irmãos, e à encantadora Simone. Entabularam uma conversa animada, os garçons começaram a servir drinques e petiscos, enquanto a música animada tomava conta do ambiente. Beto continuava tenso e ansioso porque ainda não havia visto Ritinha. O que aconteceu? –deveria ter ido buscá-la – pensou. Mas Ritinha achou melhor não. Viria com as amigas vizinhas. A mãe poderia mudar de ideia se soubesse da existência de Beto.
– Ponha o livro na cabeça e não deixe cair – dizia uma das amigas. Ombros pra trás, barriga pra dentro… não, não, não dobre o joelho… mulher usando salto, e marchando igual a um soldado, nem pensar. Melhor não usar. Pegando um livro menor, e colocando na mão de Ritinha, acrescentou – não esqueça a carteira. É um acessório importantíssimo. Sem ela, o traje não está completo. Segure-a de forma natural.
– Ah! Estou cansada – dizia Ritinha. – Nada de cansada – dizia a outra amiga. O tempo está acabando. Mais uma vez…
Como eram dedicadas e prestimosas as amigas de Ritinha. Como aprenderam, como sabiam essas coisas?! Eram duas solteironas que estavam muito felizes pela oportunidade de viverem a noite de Cinderela da Ritinha. Seriam suas fadas-madrinha. Para elas, Ritinha era um desafio. Seria uma verdadeira obra-prima. Seria a realização de seus sonhos nunca concretizados.
Inicialmente, haviam feito um curso de modelo, mas a idade foi chegando, e nada de conseguirem alguma oportunidade. Essa é uma área bastante concorrida, e depende muito de alguém influente. Mais precisamente um padrinho para dar um empurrão. O tempo passou, passaram da idade, mas permaneceu o sonho de trabalhar na área. Conseguiram um espaço, e começaram a dar aula para jovens que pretendiam seguir a carreira de modelo. Das poucas alunas que apareceram, nenhuma conseguiu evoluir e se destacar. E o sonho acabou.
Beto tentou disfarçar o mais que pode a sua ansiedade. Pensou em ir até a entrada porque talvez ela estivesse com dificuldades para entrar, mas desistiu. Certamente as amigas estavam com os convites, não era o caso. O mais provável era o atraso peculiar das mulheres. Resolveu acalmar-se e esperar. Os poucos minutos de espera foram uma eternidade, mas valeu. Foi indescritível a felicidade que sentiu quando avistou Ritinha entrando no recinto. Quase não a reconheceu. Não era aquela adolescente de casaco marrom amarrado na cintura. Era uma linda jovem, radiante, totalmente diferente, desfilando garbosamente, segura, confiante, mas era ela mesma, a sua Ritinha.
Ritinha estava deslumbrante. Um arremate nos cabelos, uma maquiagem suave, discreta, para não ofuscar o frescor da juventude. Trajando elegantemente seu vestido longo de musseline branco, sapatos pretos, de salto alto, segurando discretamente uma carteirinha de couro com detalhes prateados. Acompanhada de suas fadas-madrinha, sentiu-se a verdadeira Cinderela dos contos de fada. Aquela seria sua noite. Uma noite inesquecível. Seria sua viagem à Disney, todas as comemorações de aniversário, e sua festa de debutante que nunca tivera.
Quando os olhos de Ritinha e Beto se cruzaram, cupido lançou mais uma flecha, selando definitivamente aquela união. Abraçaram-se timidamente. Ritinha apresentou Beto às amigas que, imediatamente aprovaram o pretendente da protegida. Beto, por sua vez, agradeceu o apoio e carinho das amigas, fundamental naquele início do relacionamento. Em seguida, tomou Ritinha pelo braço, retornou à mesa do seu anfitrião e, por sua vez, apresentou-a aos convidados de Ângelo.
Beto e Ritinha queriam aproveitar minuto a minuto aquela noite. Afinal, esperaram muito. Tiverem que vencer inúmeros obstáculos. Era um sonho que estava se realizando. De mãos dadas, seguiram para a pista de dança. Olhos nos olhos, ao som da música, o lindo casal saiu rodopiando pelo salão. Naquela noite, aqueles corações enamorados, borbulhando de felicidade, tiveram uma trégua em suas vidas nada fáceis. Por um momento, Ritinha esqueceu seus medos, os dissabores, e a ausência de um verdadeiro lar. Desejou que aquela noite perdurasse eternamente.
Ecoava no recinto a voz do Rei Roberto Carlos, “O que é que você tem? Conta pra mim, não quero ver você triste assim. Não fique triste, o mundo é bom, a felicidade até existe… Olhe, vamos sair…”, novamente de mãos dadas saíram para o jardim.
– Sou a pessoa mais feliz do mundo, por estar aqui com você, a garota mais linda e maravilhosa que conheci – falou Beto.
– Não exagera porque de repente vou acreditar – arrematou Ritinha sorrindo, envaidecida com tantos elogios.
– Mas é a pura verdade – ratificou Beto. Em seguida, puxou-a suavemente para si, afagou seus cabelos, acariciou seu rosto, e procurou seus lábios.
Sob o manto das estrelas, trocaram o primeiro beijo.
Novamente, tomo a liberdade de pedir licença ao leitor para, juntos, fazermos uma viagem no tempo. Busquemos no sótão de nossas lembranças a sensação do primeiro beijo. Algo indescritível e pessoal. Quando os rostos se aproximam, nosso organismo começa a liberar a dopamina, substância responsável pela sensação de prazer e motivação. Quando os lábios se tocam, mandam ao cérebro todo um dossiê de dados sobre umidade, pressão e temperatura. Pernas trêmulas, boca seca, ocasionada pela ansiedade, e o coração batendo descompassado, querendo saltar pela boca. Depois o tempo para, e ficamos envolvidos por uma sensação divina de plenitude e felicidade. Sentimos aquela embriaguez, acompanhada de uma leveza, dando-nos a impressão que estamos flutuando.
Ângelo está cada vez mais apaixonado por Simone. Sente que também é correspondido, mas existe alguma coisa que está segurando Simone. Ele percebe que ela evita ficar a sós com ele, mas tem certeza que não é falta de confiança. É como se ela temesse fraquejar, e entregar-se antes do momento certo. Na verdade, ela ainda não se sentia pronta. Tinha muitas dúvidas, tudo aquilo era novo para ela. Simone, por mais de uma vez, pediu a Ângelo que entendesse e respeitasse o seu tempo. Ângelo tentava entender, mas a realidade de Simone era surreal. Na festa de formatura, Ângelo bebeu moderadamente, e procurou seguir rigorosamente as recomendações da amiga – tenha muito cuidado para não a assustar, sob pena de perdê-la para sempre. Dançaram quase a noite inteira, trocaram abraços, carícias, afagos, beijou-a na face, na testa, um ou dois selinhos roubados furtivamente, e nada mais.
Como de outras vezes, Ângelo e Simone estavam passeando no jardim, próximo à residência onde ela estava hospedada, quando ele puxou-a em direção à sombra de uma árvore, abraçou-a, e começou a afagar seus cabelos, acariciar seu rosto, tentando criar um clima mais íntimo, quando ela suavemente o afastou. Ângelo, sem entender, sem saber como proceder, receoso de quebrar aquele cristal tão precioso, aguardou.
– Você me ama, ou apenas me deseja? – perguntou Simone.
Ângelo percebeu o enorme esforço que ela havia feito para formular aquela pergunta, e o motivo. O toque na pele macia, os cabelos sedosos, o cheiro delicado, o corpo trêmulo deixou-o excitado. Ela percebeu ao ser abraçada. Essas coisas corriqueiras, aparentemente normais, para Simone era sempre algo novo. Ele não podia esquecer que ela era especial.
– Você é muito especial para mim – respondeu Ângelo.
– Eu te amo muito. Faço, e farei o impossível, para estar com você sempre ao meu lado. Vibro quando vejo a felicidade estampada em seu rosto. Não sei por que, mas são raros esses momentos. É como se você não se permitisse ser feliz. Quero muito te fazer feliz. Daria tudo para tê-la inteira nos meus braços e nos entregarmos de corpo e alma. Esse, certamente, será o dia mais feliz da minha vida.
Qualquer mulher se sentiria envaidecida e orgulhosa de sentir-se amada e desejada pelo seu pretenso futuro parceiro. Mas Simone tinha outro pretendente secreto. O nome dele era Jesus Cristo. Isso fazia uma grande diferença. Amava muito Ângelo, mas tinha receio de magoá-lo. Ele era muito especial e não merecia isso. Foi o único homem que conseguiu aproximar-se tanto dela, além do próprio pai. Naquele momento, ela percebeu o abismo que existia entre eles. Que não conseguiria, nem poderia se entregar a Ângelo de corpo e alma. Não poderia viver intensamente, inteiramente, aquele amor tão lindo, concebido na noite em que dançaram descalços. Por mais que Ângelo protelasse, cedo ou tarde ela teria que compartilhar, além desse sentimento lindo, puro e sublime, também o seu corpo. Cristo queria dela apenas amor, muito amor e dedicação. Seu corpo seria apenas o instrumento de trabalho, indispensável, usado em prol dos projetos sociais. O desejo carnal era muito forte, mas precisava resistir. Pedia forças à Maria Imaculada Conceição, todos os dias, para impedi-la de fraquejar. Não, não poderia continuar essa situação. Tinha que parar, encerrar de vez, antes de envolvê-lo, e se envolver, ainda mais. Como resolver isso. Ensaiava palavras por palavras, mas quando via tanto amor nos olhos de Ângelo, o carinho, o cuidado, faltava-lhe forças. Por outro lado, ELE calmo, tranquilo, seguro, aguardava o final daquelas suas últimas férias, da sua experiência extraconjugal. Sim, porque ela já era SUA legítima esposa, mas ainda não sabia. Estava escrito que, em muito breve, seria selada aquela união, e tudo estaria consumado.
Sentado à mesa de uma lanchonete, tomando maquinalmente um suco de laranja, Ângelo absorto, focalizava o outro lado da rua, especificamente a casa onde Simone estava hospedada. Por um longo tempo, permaneceu ali, os olhos marejados, uma dor incontida no peito, como se uma espada estivesse atravessando o seu coração. Estava sofrendo a dor daquela grande paixão, quando alguém, educadamente, aproximou-se e disse-lhe.
– Sei o quanto você está sofrendo. Nesse momento, não temos muito o que falar. Só o tempo para aplacar a dor, e cicatrizar as feridas. Nós não lembramos, mas geralmente escolhemos nossas missões. Outras vezes, somos apenas um essencial e fundamental instrumento para o êxito da missão de outrem. E, quanto mais difícil, maior será nosso mérito.
Ângelo ouviu tudo, não entendeu muito bem, mas, no estado em que se encontrava, não teve animo sequer de indagar o nome do seu interlocutor.
– Como falei inicialmente – continuou o recém-chegado – com o tempo, também você entenderá tudo isso que lhe falei, e muito mais. Meu nome é Gabriel. Que DEUS, através do seu Anjo de Guarda, continue iluminando seus caminhos. Despediu-se e saiu.
Novamente a sós, Ângelo abriu a carta de Simone pela enésima vez.
“Ângelo. Antes de qualquer coisa, quero te dizer que está sendo a tarefa mais difícil da minha vida. Por inúmeras vezes ensaiei te falar pessoalmente, mas não encontrei forças. Peço-lhe perdão por recorrer a esta carta, única maneira que encontrei para dizer-lhe tudo que precisava ser dito. Ainda assim, perdi a conta de quantas páginas foram parar no lixo.
Conhecê-lo, foi uma das coisas mais maravilhosas que aconteceram em minha vida, e não encontro palavras para descrever o quanto você é importante para mim. Você transbordou meu coração de alegria e felicidade.
Minhas férias acabaram, e preciso voltar para o interior. Não só minhas férias, mas meu tempo de tomar decisões importantes, relativas ao meu futuro, também acabou.
Gosto muito de você, mas fui arrebatada por Jesus Cristo Nosso Senhor. Senti todo o meu ser vibrar nesse chamamento. É muito mais forte que eu. Não consigo alimentar esse sentimento de amor compartilhado sem me sentir traindo. Está entranhado em meus princípios.
É praticamente impossível eu sentir esse prazer carnal, livre, descontraída, porque vem sempre acompanhado de um sentimento de culpa. Sei que é difícil você compreender, mas quando realizo com êxito uma tarefa, por mais simples que seja, e vejo como resultado a mão DIVINA aplacando a dor e o sofrimento do meu semelhante, quando vejo as crianças do nosso coral recebendo os merecidos aplausos e elogios, eu sinto um prazer intenso, até mesmo uma espécie de orgasmo. Eu sinto o alívio do sofrimento e da dor das pessoas. É a certeza de contribuir para o surgimento de melhores cidadãos nas gerações futuras. É sentir que, com muito amor, estou dando a minha singela parcela de contribuição para um mundo melhor. Tudo isso se transforma em comburente, que faz vibrar todo o meu ser, que me dá vida, me alegra, e me faz feliz.
Não pense que eu queria apenas viver uma simples aventura de verão. Não. Eu precisava ter certeza para tomar a decisão certa. Para isso, precisava de alguém muito especial que mexesse comigo, que abalasse minhas estruturas. Não poderia ser qualquer um. Você foi fundamental. Paciente, compreensivo, amoroso e respeitoso. Sinto que nosso encontro não foi por acaso. Você precisava fazer parte da minha vida.
Foram os poucos dias mais intensos e maravilhosos que vivi. Guardarei, com todo o carinho, cada momento que passamos juntos.
Peço-lhe que respeite e aceite minha decisão, e que me perdoe se te magoei.
Em meu novo batismo, usarei o nome de Irmã Angélica, uma maneira de levar um pouquinho de você para minha nova vida.
Que DEUS, através de seu Anjo de Guarda, ilumine seus caminhos.
Um abraço fraterno da futura Irmã Angélica.”
Ângelo terminou de ler a carta mais uma vez, enquanto, proveniente de algum aparelho sonoro, ouvia a voz do Rei Roberto Carlos.
“Eu te proponho, nós nos amarmos, nos entregarmos.
Neste momento, tudo lá fora deixar ficar.
Eu te proponho te dar meu corpo, depois do amor o meu conforto.
E além de tudo, depois de tudo, te dar a minha paz…”
Uma lágrima quente rolou pelo seu rosto jovem, caindo sobre o papel, deixando pelo caminho a marca de uma grande paixão.
Absorta, olhando para o vazio, Ritinha continuava imóvel, relembrando os últimos acontecimentos. Estava evitando encontrar Dona Romilda porque no primeiro olhar ela saberia tudo. Ritinha não teria como esconder-lhe nada. Certamente ela, Dona Romilda, que não era de meias palavras, diria simplesmente – Vai, desembucha, fala logo. E ela, Ritinha, certamente diria tudo. E aí, dizer o que? Dizer que todos os seus conselhos não valeram de nada, que se entregou ao primeiro que apareceu?
Dona Romilda sempre foi, e continuava sendo, a sua verdadeira mãe. Nos momentos mais importantes de sua vida ela estava sempre presente. Lembrou-se quando aconteceu a sua primeira menstruação. Ficou aflita. Quem a socorreu? Dona Romilda. Ela com aquele jeitão, sem os devidos polimentos, olhou pra Ritinha e, sem perguntar nada, ordenou.
– Entra no meu banhero, tira a calcinha, senta no vaso e me espera qui já volto.
Pouco tempo depois, retornou com um pacote de absorvente e uma calcinha um pouco maior que as medidas de Ritinha. Com seu linguajar peculiar tranquilizou-a, explicando-lhe o que estava acontecendo, e ensinou-a a usar o absorvente. Com dois broches ajustou provisoriamente a calcinha, o absorvente e, finalmente, olhando bem nos olhos de Ritinha, concluiu:
– Agora você já é uma muié. Guarde e proteja sua piriquita pro homi de sua vida. Quando ele aparecê você vai sabê. Não vai na conversa de quarquer um. Homi é bicho tinhoso.
Para Dona Romilda, uma mulher que passa pela mão de vários homens é uma mulher desvalorizada, é uma puta. Puta não é somente a mulher que comercializa seu corpo. É também aquela que se entrega por prazer. A que vende seu corpo, às vezes porque não tem outro meio para sobreviver, como foi o caso dela, não é certo, mas é até compreensível e tolerável. Mas uma mulher que se deita com qualquer um apenas por prazer, é uma puta, uma rameira desqualificada. Isso vale também para os homens. Para se divertir, o homem procura uma puta profissional ou uma mulher desfrutável. Mas para casar, juntar as escovas de dente, ele valoriza a mulher séria, honesta e confiável.
Mas Ritinha tinha certeza que Beto era o homem da sua vida. Será que ela se enganou? Tanto tempo de convivência e, ainda assim, cometeu esse tremendo erro? Não, seu coração não se enganaria tão facilmente. O amor que nutriam um pelo outro era muito verdadeiro. Por mais de uma vez ela viu nos olhos de Beto aquele sentimento de amor puro que ele sentia por ela.
O resultado de uma criança que aprendeu a viver sem a figura do pai, a ausência e o desamor da mãe, será, certamente, uma adolescente carente, insegura, que se agarrará à primeira oportunidade que surgir em sua vida. Essa carência exacerbada, fatalmente, confundirá e turvará o raciocínio, prejudicando sua análise, favorecendo e induzindo ao erro na escolha.
– Homi é bicho tinhoso – Ritinha ouvia a voz de Dona Romilda. Será que Beto me enganou esse tempo todo? – Não, não posso acreditar – pensava Ritinha.
O coração de Ritinha bateu apressado, quando ouviu o barulho da moto e, em seguida, o toque diferenciado da buzina. Beto estava passando pela sua rua, seguindo em direção ao ponto de encontro. Abriu a porta do quarto e saiu apressada. Mal passou as mãos por sobre os cabelos e seguiu em direção à esquina, o ponto do encontro. Como seria essa conversa? Sabia como seria difícil convencê-lo a mudar de ideia. E esse era o momento mais impróprio para tentar algo nesse sentido. O que fazer então? Melhor seria escutá-lo. Se veio é porque tem algo a dizer. Pediu a DEUS que lhes concedesse serenidade e discernimento para ouvi-lo. Ao final, tentaria expor seus argumentos. Começaria pelo perigo que o estrupício do Zé do Ouro representava para ela. Mas aí ele teria o mesmo argumento da mãe: a culpa era dela que ficava usando os tocos de saia, se exibindo para ele. Ou pior ainda, tomar as dores dela e querer tirar satisfação com o traste. Não. Melhor não falar.
É difícil sobreviver numa selva, sem a existência de um abrigo, onde se possa descansar protegido, recarregar suas energias, e enfrentar o recomeço de um novo dia. Como ela gostaria de ter uma mãe como Dona Zefa. Como seria bom ter uma mãe preocupada, zelosa, ouvir seus conselhos, abraçá-la e ser abraçada, agasalhar-se no seu peito, sorrir, chorar, desabafar, falar-lhe dos seus temores, e confidenciar os seus sonhos. Mas, na realidade, ela era a mãe de Beto. E aí surge outra preocupação. Como Dona Zefa a receberia? Afinal, Ritinha estava interferindo no futuro do seu filho. Ela estava motivando Beto a mudar completamente seu futuro. O compromisso, a promessa assumida com a Santa. Mas Dona Zefa precisa entender que ela, Ritinha, ama muito seu filho, e também quer muito a sua felicidade. Dona Zefa deve conhecer o ditado que diz: “Quem ama meu filho, a minha boca adoça”. E ainda tem o netinho ou netinha, que, certamente, levará a eles muita alegria. Conquistará de vez os corações de Seu Jairo e de Dona Zefa, fazendo-os esquecer os compromissos, as promessas, e tudo o mais. Ritinha parou, acariciou o ventre, olhou com tristeza para a esquina, há poucos metros, e pensou – será que algum dia minha criança conhecerá Dona Zefa?
Após o final do expediente, Beto seguiu maquinalmente ao encontro de Ritinha. Protelou o quanto pode, mas sabia que não poderia deixar de ir. O que dizer-lhe? Repetir tudo que ela já sabia? De que adiantaria lembrar-lhe dos projetos, dos planos e metas, tão amplamente discutidos e analisados? Tinha sido muito duro na noite anterior, descontrolou-se e até ameaçou de abandoná-las, deixando ela e a criança relegadas à própria sorte. Mas sabia que não seria capaz. Ambos divergiam em alguns pontos, mas agora não cabia mais tentar convencê-la. Tinham um problema que precisava ser resolvido. Pediu a DEUS calma, tranquilidade, discernimento, e pensou – se ela tomou essa decisão é porque pensou em como resolver. Melhor então ouvi-la. Mas será que ela tem mesmo a solução? Certamente que não.
Beto ficou surpreso quando viu o estado em que se encontrava Ritinha. Os cabelos desalinhados, enfiada no casaco marrom, com enormes olheiras, e um olhar assustado. Como um filme, passou em sua mente a imagem daquela menina de cabelos longos, olhos castanhos, que no instante em que seus olhos se cruzaram seu coração começou a bater descompassado. No dia da festa de formatura de Ângelo, aquela colegial introvertida havia sido substituída por uma linda mulher, segura de si, tão exuberante que qualquer homem se sentiria envaidecido em tê-la em seus braços. Para ambos foi uma noite inesquecível. Como num conto de fadas, viveram momentos mágicos que ficaram gravados para sempre em suas memórias. Agora, diante dele, estava uma mulher que ele não conhecia. Era uma mulher sofrida, ainda bonita, mas envelhecida precocemente, carregando um pesado fardo em seus ombros frágeis.
Ficaram por algum tempo olhando um para o outro, esperando o que tinham a dizer. Finalmente Ritinha rompeu o silêncio.
– O que você tem pra me dizer?
Beto reconsiderou, e concluiu que realmente ela tinha razão. Ele precisava dizer alguma coisa, mas não estava preparado para aquela situação. Vendo o estado em que ela se encontrava, não poderia magoá-la ainda mais. Mas também não tinha nenhuma solução. Não sabia como resolver aquela situação. Era um compromisso enorme, um peso muito grande para assumir praticamente sozinho. O que fazer, o que dizer?
De repente, iluminado pela luz de um poste, no final da rua, surge um carro branco. Ritinha percebeu e reconheceu o carro de Gabriel. Ficou apreensiva. Será que Beto a viu entrando naquele carro ontem à noite? E se Gabriel se aproximar e falar com ela, o que dirá, como proceder? E Beto, como reagirá? O que Gabriel estaria tentando dizer, aparecendo naquele momento. Talvez estivesse querendo dizê-la: estou aqui, você não está sozinha, jamais irei te abandonar, ainda mais nesse momento. O carro permaneceu parado no final da rua, mas Ritinha recebeu toda aquela energia, respirou profundamente, e sentiu-se totalmente fortalecida. Era outra pessoa. Aqueles olhos de uma mulher sofrida e assustada haviam se transformados no olhar de uma mulher guerreira, a loba defendendo sua cria.
Beto, de costas, não avistou o carro. Absorto em seus pensamentos, não percebeu o drama estampado no rosto de Ritinha. Voltou à realidade quando novamente Ritinha quebrou aquele longo silêncio.
– Não se preocupe. Se você não quiser, certamente encontrarei alguém que se interesse por mim e pela criança.
Foi como tivesse recebido uma ordem para falar aquilo. Será que ela teria a coragem de conviver sob o mesmo teto, compartilhando a criação de um filho, fruto do amor entre ela e Beto, com uma pessoa estranha? É bem verdade que não seria uma pessoa qualquer. E quem garante que Gabriel iria realmente cumprir o prometido? Pode ter sido palavras ditas naquele momento, apenas para confortá-la. Porque disse aquilo? Foi culpa daquela coisa que a tomou de repente. Certamente Beto agora vai encher a cabeça de caraminholas, e abandoná-la para sempre. Deve tê-la visto entrando no carro de um estranho, e duvidará até que o filho é dele.
Não era nada daquilo que ela queria dizer. Naquele momento, Ritinha gostaria de dizer apenas o quanto amava aquele galego comprido e magricelo. Que ninguém, além dele, tocaria seu corpo. Que estava disposta a enfrentar todas as dificuldades e, juntos, criariam aquela criança, fruto de um amor puro e verdadeiro.
Beto olhou-a, a princípio assustado com o que ouviu, mas depois percebeu que os olhos de Ritinha não diziam nada daquilo. Muito pelo contrário, mandavam claramente uma linda declaração de amor, muito amor.
Abraçando-a com muita ternura, disse-lhe – te amo muito. Não quero perder você, muito menos nosso gurizinho.
Como fumaça, o carro branco desaparece no final da rua.
Novos planos começaram a ser traçados. Beto propôs vender a moto, Ritinha procuraria alunos para dar banca, e juntariam todo o tostão arrecadado para abrirem uma loja de Materiais de Construção. Ritinha vibrou com a ideia, mas questionou a venda da moto. Achariam outra maneira para conseguir o dinheiro. Afinal, a moto era a realização do sonho de Beto. Não seria justo vendê-la. Mas Beto foi taxativo. Já havia decidido que venderia a moto, pois era o seu único bem com algum valor significativo. Não poderia contar com a ajuda de Seu Jairo e Dona Zefa. Eles já tinham seus problemas. O certo é cada um assumir e superar suas dificuldades. Além do mais, Dona Zefa não ficaria nada satisfeita com essa mudança de planos. Aliás, esse seria outro problema a ser resolvido posteriormente.
Prevendo o quanto aquela tarde seria difícil, Ritinha pediu a uma das vizinhas para buscar Marquinhos na escola. Quando retornou do encontro com Beto, somente Marquinhos estava em casa. Melhor assim. Estava eufórica, e teria dificuldade em esconder tamanha felicidade aos demais habitantes da casa. Abraçou fortemente Marquinhos, rodopiou pelo quartinho improvisado, encheu-o de beijos, e depois, ainda agarrado a ele, jogou-se no beliche. Marquinhos, que havia terminado de guardar seus objetos escolares e, pacientemente, aguardava Ritinha para servir-lhe o café, ficou surpreso com tamanha festa e, inocentemente, com os olhinhos arregalados, perguntou baixinho.
– Foi o meu irmãozinho que já chegou?
– Não, respondeu Ritinha sorrindo. Ainda vai demorar pra chegar, mas já vamos começar a arrumar as coisinhas dele. Você também vai ajudar. E concluiu sussurrando – não esqueça que é segredo.
– Tá bom – sussurrou Marquinhos.
– Agora chega de festa, venha tomar seu banho e tomar café – concluiu Ritinha.
Passada a euforia dos primeiros instantes, Ritinha voltou a pensar nos detalhes. Sabia que era grande o desafio, mas não poderia esmorecer, muito menos deixar transparecer para Beto. Amanhã mesmo contactaria algumas conhecidas para ajudá-la a encontrar alunos para dar banca. A primeira da lista seria a professora de Marquinhos. Procuraria inicialmente alunos que morassem nas proximidades, pois pretendia dar aulas em domicílio. Para isso, precisava organizar os horários para não chocar com os compromissos já assumidos. Não podia esquecer que necessitaria também aprender tudo sobre materiais de construção, e o funcionamento de uma loja. Beto, certamente, não daria conta de tudo sozinho. E os estudos, como ficariam. Ela, Ritinha, teria que interromper durante a gravidez. Mas depois? Voltaria a estudar sim, provavelmente à noite. Quando Beto, por conta do trabalho, teve que começar a estudar à noite, ela também pensou em mudar seu horário, mas Beto achou mais prudente que ela continuasse a estudar durante o dia. Seria um risco desnecessário transitar todos os dias, à noite, naquelas ruas próximas da sua casa. Mas agora a situação era outra e, quem sabe, estariam morando em outro local. E onde morariam? Marquinhos iria com ela. Quanto a isso, era líquido e certo. Não haveria acordo. E ainda tinha a criança que estava por vir. É, teria que dar um tempo até ela crescer um pouco mais. Não poderia contar com a mãe para ajudá-la. Marquinhos não seria problema. Mais um pouco e ele já poderá se virar sozinho. A criancinha não, necessitaria de atenção e muitos cuidados. Não seria jogada no mundo, como ela e Marquinhos, feito uma coisa imprestável, um fardo incomodo e pesado. Era muita coisa a se resolver. A cabeça começou a latejar.
– Calma, muita calma – pensou Ritinha. Vamos matar um leão a cada dia. Somente assim conseguiremos sobreviver nessa selva urbana.
Beto entrou no seu quartinho, jogou-se na cama sem ânimo até para comer. Com o olhar perdido no vazio voltou a meditar sobre o enorme compromisso que acabara de assumir. Feliz, em parte, por ter reconciliado com Ritinha, mas apreensivo porque sabia o que o esperava dali para frente. A responsabilidade que estava assumindo era muito grande. Precisava ter calma, perseverança, fé, e muita força de vontade, para vencer todos os desafios que estavam por vir. O dinheiro arrecadado com a venda da moto, único bem que possuía, deduzido o valor das prestações que ainda devia, seria irrisório para montar uma loja. Mas era o que estava ao seu alcance. Aprendeu muito com o seu patrão, e sabia que era um ramo de negócios bastante rentável. Eram produtos não perecíveis, com boa margem de lucro. Precisava apenas encontrar um local favorável para se estabelecer, preferencialmente um bairro popular em franca expansão. Conhecia muitos fornecedores, que vendiam produtos de qualidade, com preços accessíveis. Amanhã mesmo começaria a tomar as providências. A primeira delas seria deixar seus temores embaixo da cama. Não poderia de forma alguma decepcionar Ritinha, muito menos o guri que já estava a caminho. Providenciaria a venda da moto, conversaria com seu patrão, que em todos os momentos mostrou-se sempre um grande amigo, um verdadeiro pai. Deixaria bem claro que, em qualquer situação, jamais iria prejudicá-lo, muito menos o seu comércio. Beto era imensamente grato ao seu patrão, por tudo que fez por ele, e o que ainda haveria de fazer. Aquele pouco tempo de convivência foi o suficiente para solidificar uma amizade respeitosa, e uma confiança mutua muito forte. A transição seria feita passo a passo. Antes de sair definitivamente, deixaria um substituto à altura e, ainda assim, estaria sempre à disposição para qualquer eventualidade. Ainda bem que o velho Jairo estava longe, porque se visse como os dois se tratam, morreria de ciúmes. E Dona Zefa, como reagiria? De forma alguma ela poderia saber. Somente depois, quando as coisas estivessem mais ou menos arranjadas. E aí se lembrou de mais um pedido da mãe. Que não deixasse de passar o natal com ela. Era uma data em que a família deveria estar reunida. Mas esse ano, não teria como. Seria a primeira vez que faltaria a esse compromisso, e não sabia se, e quando, poderia rever os pais. Não teria como, olhando nos seus olhos, esconder todos esses acontecimentos de Dona Zefa. Além do mais, todo o seu dinheiro agora seria poupado para montar a loja. Até os estudos seriam interrompidos. Beto sofria só em imaginar a tristeza de sua mãe durante a ceia, olhando aquele lugar vazio, ao lado da mesa, onde sempre era ocupado por ele. Melhor uma tristeza, do que um grande desgosto, ao ver o filho fracassado, sem futuro, e com uma família para sustentar – pensou. A vida de Seu Jairo também não foi fácil. Contou que começou a trabalhar desde cedo, e não deu para terminar os estudos. No começo foi muito difícil. Suou muito para fazer a nossa casa. Carregou muita areia e bloco nos finais de semana. Os colegas se divertindo na gafieira, enquanto eles, Seu Jairo, e mais uns dois amigos de fé, rolavam massa para levantar as paredes e rebocar. Mas Beto não pretendia deixar de estudar. Na primeira oportunidade, ele retomaria os estudos. Estava muito cansado, mas precisava pensar mais um pouco. Inicialmente poderia alugar um ponto, mesmo sabendo que o aluguel consumiria parte dos lucros, mas precisaria ter um bom capital de giro. Melhor que tomar empréstimo em bancos. Pior ainda seria ficar na mão de agiotas. Conheceu casos de pessoas prósperas que perderam tudo no jogo, e na mão de agiotas. – Deus me livre desse tipo de gente – pensou. Começou a selecionar alguns bairros que poderiam servir para estabelecer seu negócio. De início, bastava um pequeno galpão de quatro por seis metros, mas tinha que pensar em futuras expansões. Não seria bom sair para outro local, por falta de espaço, porque perderia grande parte da freguesia. Precisaria também de uma área anexa para armazenar os materiais mais pesados como brita, areia e blocos. São o carro-chefe de qualquer loja de materiais de construção. Precisaria também de uma cobertura para abrigar as madeiras. Absorto nesses pensamentos, adormeceu. Nessa noite não orou.
No dia seguinte, Beto tomou seu café e seguiu cedo para o trabalho. Durante o trajeto foi repassando os tópicos da conversa que teria com o patrão. Escolheria um momento mais propício porque sabia ser um assunto muito delicado. Pretendia não lhe esconder nada. Seria uma conversa franca, aliás, como sempre foram as conversas entre eles. Como de costume, estacionou a moto, e começou a rotina de destravar os cadeados e abrir as portas da loja. Surpreso e feliz percebeu que já se aproximava um freguês. Ainda era muito cedo. Os fregueses costumavam aparecer um pouco mais tarde. Mas isso era um bom sinal. O dia prometia ser bastante promissor. Certamente teriam muitas vendas.
– Bom dia – saudou o recém-chegado. E foi se aproximando da moto.
– É essa a moto que está à venda?
– Ritinha não perdeu tempo – pensou Beto. – Já providenciou um comprador. Mas ela está certa. Quanto mais cedo começarmos a executar nossos planos, melhor – concluiu seu pensamento.
Lutando contra o tempo, contando com a ajuda dos poucos amigos mais chegados, algum resquício de sorte e a proteção DIVINA, Beto e Ritinha necessitavam, agora mais do que nunca, concretizar aquele plano mirabolante. Disso dependia a subsistência de um inocente que já estava a caminho. Precisavam dar-lhe, não só o alimento necessário, mas também um lar com o mínimo de conforto, harmonia, e muita paz. As ajudas já estavam chegando. Naquele instante, diante dele, de Beto, estava um comprador interessado em comprar sua moto, primeiro item das várias etapas de um plano quase que inexequível. Caberia a Beto, usar seus argumentos de bom vendedor, e vendê-la. Não era momento para indagar quem captou o comprador. A venda já estava praticamente feita, pois o comprador mostrava-se muito interessado em adquirir o bem. Caberia a Beto, como bom vendedor, apenas efetuar a venda. Mas era muito forte a curiosidade de saber como aquele comprador chegou até ele.
– É sim, mas… – Beto começou a balbuciar.
O comprador entusiasmado interrompeu sua frase pelo meio.
– Realmente ele tinha toda a razão quando disse que eu ia gostar muito, que fosse cedo antes que alguém chegasse primeiro. Essa é a moto que eu estava procurando. A descrição foi exata. Até a cor, vermelha como eu queria.
– Ele quem? – indagou Beto.
– Não me lembro se perguntei, mas acho que era seu tio – respondeu o comprador. – Mas vamos ao que interessa. A moto já é minha. Diga-me como e quanto devo pagar por ela – falou-lhe o comprador, ao tempo em que abria o rosto num sorriso de satisfação.
A tarde estava morrendo quando Ritinha retornou à sua casa, acompanhada de Marquinhos. Seu semblante denotava a exaustão e o cansaço. Era desanimador. Mais uma coleção de portas batendo em sua cara, sem perspectiva de encontrar uma mão amiga que a ajudasse a transpor esses primeiros obstáculos, dos muitos que haveriam de surgir em sua trajetória. Mas a vida é assim. Como diz os versos de uma canção, “… Tudo que se vê não é, igual ao que a gente viu há um segundo…”. Ontem era uma Ritinha eufórica, cheia de esperanças. Hoje, adentrando ao mesmo quarto, é uma Ritinha exaurida, desanimada, quase que derrotada. Marquinhos não sabe o porquê, mas percebe a angustia no olhar da sua meia irmã/mãe. Com o olhar perdido no vazio, ela procura um norte, uma réstia de luz para iluminar seu caminho. Instintivamente, acaricia seu ventre, ainda sem nenhum sinal de protuberância, e sente aquela energia revigorante.
– Ritinha! – pensou. O primeiro dia da primeira batalha ainda nem terminou. Depois dessa batalhar haverá muitas outras. Lembre-se que você não está sozinha. Esse foi apenas um dia. E haverá outro e mais outro, e mais outros. Levantou-se do beliche, sacudiu a cabeça como se a esvaziá-la dos pensamentos negativos, acariciou novamente seu ventre, como um silencioso agradecimento, abraçou Marquinhos e, com novos ânimos, ordenou:
– Vamos preparar seu café, e depois fazer os deveres.
Ritinha ouviu o barulho da moto, e a buzina. Percebeu que Beto estava passando e, em pouco tempo, estaria esperando por ela na esquina. Novamente o desanimo quis apoderar-se dela. Não tinha conseguido nada. O que dizer a Beto? – Não, não podia deixar transparecer nenhum desanimo – pensou. Cabeça erguida, coragem, confiança e fé. Amanhã será um novo dia cheio de esperanças. Ou, quem sabe, Beto tem alguma boa nova?!
Beto então lhe contou a novidade. Um pouco triste, mas feliz porque as coisas começaram a acontecer. A moto já estava vendida. Amanhã cedo o novo proprietário iria buscá-la na loja.
– Mas tão rápido? – indagou Ritinha, alegre e surpresa.
– Você comentou com alguém? – indagou Beto, por sua vez.
– Não – respondeu Ritinha.
Beto então explicou que alguém teria informado ao comprador que a moto estava à venda. Ele, o comprador, havia comentado que, pelas informações detalhadas, passadas sobre a moto, imaginou que seria algum parente dele.
– Seria um tipo alto, loiro dos olhos azuis? – perguntou Ritinha.
– O comprador não informou, e eu não insisti por achar irrelevante – respondeu Beto.
– Porque, você sabe quem é a pessoa? – insistiu Beto.
– Não. Apenas uma suposição – respondeu maquinalmente Ritinha.
Nem sempre os desafios são tão grandes quanto aparentam. Quantas vezes somos surpreendidos com histórias que tiveram um final feliz, rotuladas como um verdadeiro conto de fadas. Como é possível acontecer essas coisas? A resposta está dentro de nós. Nós queremos, nós podemos. E não são apenas simples palavras. Já há dois mil anos nos ensinaram tudo isso, e ainda não aprendemos. “E ELE lhes disse: Filha, a tua fé te salvou; vai em paz, e sê curada deste teu mal.” (Marcos 5;34). Palavras d'ELE, nada menos que o MESTRE DOS MESTRES que, por mais de uma vez, afirmou o poder que temos, e o tamanho da fé que precisamos ter para fazer acontecer. Experimentemos começando pelo básico do básico. Ao surgir um problema, enfrentemo-lo de frente, como deve ser. Por maior que aparente ser, por maior que sejam os temores dentro de nós, não nos deixemos intimidar. Imaginemos um verdadeiro exército em nossa retaguarda, e sigamos em frente, firmes, confiantes, e com muita FÉ. Um gato, quando se sente acuado, transforma-se num verdadeiro leão.
Beto precisava ter um encontro com a mãe de Ritinha. Sabia que seria uma conversa muito difícil, e deveria estar preparado para qualquer reação. Não seria prudente Ritinha estar presente. A mãe poderia passar dos limites, e até colocar em risco a gravidez da filha. Era capaz de não sentir nenhum remorso, caso acontecesse o pior. Pensou em discutir o assunto com Ritinha, pedir sua opinião, trocar algumas ideias, principalmente no tocante em como iniciar a conversa a fim de evitar o descontrole da mãe, tornando inviável a continuação do diálogo. Preferiu não comentar nada, e deixar Ritinha fora do assunto. Seria melhor. Talvez Ritinha preferisse deixar esse encontro para depois, mas Beto pensava diferente. Esse encontro era inevitável, e tinha prioridade.
Mais uma vez, contou com o apoio do patrão. Ao expor-lhe o assunto, o patrão não só deu alguns conselhos, como também lhe facultou a saída da loja pelo tempo que fosse necessário. Concordou plenamente com Beto. Era um assunto que teria que ser conversado e esclarecido o mais rápido possível.
À noite, orou, e pediu a Santa Rita das Causas Impossíveis, que lhes desse a fé de Abraão, a paciência de Jó, e a sabedoria de Salomão.
No dia seguinte, esperou que Ritinha saísse de casa para então bater à porta. A mãe atendeu.
– Bom dia. A senhora não me conhece, mas meu nome é José Alberto Almeida Ribeiro, e sou de paz – apresentou-se Beto.
Em seguida, Beto esclareceu que sabia que ela, a mãe, não poderia demorar-se, pois tinha horário a cumprir. Ele, Beto, prometeu que sua demora seria o mais breve possível, pois também teria que ir trabalhar. A mãe convidou-o a entrar. Beto acomodou-se em uma cadeira que lhe foi oferecida, e começou dizendo que era do interior, do Riacho da Mata. Veio para a cidade com o objetivo de estudar. Como os pais não tinham condições de custear seus estudos, trabalhava durante o dia e estudava à noite…
Á tardinha, quando Ritinha retornou à sua casa com Marquinhos, a mãe já havia chegado.
– O teu Jusé Auberto teve aqui hoje cedo – falou de chofre a mãe.
Ritinha quase desmaia, tamanho foi o susto.
– Gostei dele. Rapaz educado – falou novamente a mãe.
– Parece que ele gosta muito de você. Espero que tu tenha mais sorte do que eu.
Pela primeira vez Ritinha viu a mãe desnuda. O semblante abatido, uma sombra de tristeza estampada em seus olhos. Percebeu como a mãe estava velha. Naquele momento Ritinha entendeu, até certo ponto, o porquê de tanta amargura, tanta secura, tanto desamor. A mãe não conhecia o amor. Ritinha nunca conheceu um parente, um companheiro ou um amigo que fizesse parte da vida da mãe, a exceção do estrupício do Zé do Ouro. Como poderia a mãe dar amor e carinho sem nunca ter recebido? Era sempre aquela vida dura, tentando ganhar o pão de cada dia. Com muito sacrifício conseguia apenas o suficiente para sobreviver. E, o pouco que conseguia, ainda tinha que dividir com o estrupício, em troca de um afago que recebia vez por outra. Ritinha sentiu-se até um pouco egoísta. Não que ela, Ritinha, não tivesse problemas. Tão jovem, com tantas questões a resolver, sua vida também não era nada fácil, mas tinha um grande diferencial em seu favor. Não estava só nessa batalha. Um dia, apenas um dia, quando se sentiu abandonada por Beto, quase enlouqueceu. Antes de Beto, também se sentia só nesse mundão de DEUS. Mas seus problemas não eram tantos e, além do mais, sempre nos momentos de aflição contava com a ajuda de sua Mãe Maria Santíssima. E a mãe, lutando sozinha durante uma vida inteira, sem ninguém, sem ao menos uma devoção por uma Santa. Ritinha esqueceu seus problemas, esqueceu o susto, e sentiu pena da mãe.
Beto contou tudo. Não escondeu nada. Contou como conheceu Ritinha, a afeição que sentiu desde o primeiro encontro, a amizade que cresceu e transformou-se num grande amor, até o momento da gravidez não programada. Sempre contou com a compreensão e o apoio de uma família estruturada. Nunca se sentiu desamparado, pois tinha muita fé e confiança em sua Santa à qual tinha muita devoção. A mãe de Ritinha, calada, continuou escutando. Nunca conhecera alguém tão fino, educado, que lhes transmitisse tanta confiança, falando-lhe com tanta firmeza, como aquele rapaz – pensou.
Beto então continuou. Trabalharia duro, agora mais do que nunca, para oferecer o melhor à criança, e a Ritinha. Seus pais não eram ricos, mas nunca o privaram do básico. Para isso teria que interromper os estudos, e protelar um pouco o sonho, seu e da sua mãe, de tornar-se uma figura importante na área jurídica. Ritinha também trabalharia para, juntos, conseguir adquirir moradia e sustento para a nova família que estavam constituindo. Durante esse período inicial, Ritinha permaneceria morando na casa da mãe, se a mãe consentisse e concordasse, é claro. Mas enquanto perdurasse essa situação, nada mais justo que eles contribuíssem também nas as despesas. Beto também pediu à mãe que abençoasse a união dos dois, e que o permitisse, sempre que possível, sua visita a Ritinha, e ao prematuro.
Após recompor-se, a mãe continuou em tom de ameaça.
– Se eu subesse disso antes de teu Jusé Auberto ter vindo aqui acertar tudo direitinho cumigo, tu já tava agora era no olho da rua.
A felicidade de Ritinha foi tão grande que nem conseguiu escutar as ameaças da mãe. Era a concretização de parte do plano anteriormente elaborado. Se ainda havia alguma dúvida com relação aos sentimentos de Beto para com ela, agora deixaram de existir. Não tinha mais nenhuma dúvida. Beto estava decidido a seguir em frente e enfrentar todos os desafios, que não seriam poucos. O coração de Ritinha agora estava bem mais leve, apesar dos receios com relação ao amanhã. Mas, apesar dos temores, ela também estava disposta. De forma alguma decepcionaria Beto.
Ritinha terminou de dar o banho em Marquinhos, serviu-lhe o jantar, aproveitou também para comer alguma coisa e, em seguida, acompanhada de Marquinhos, seguiram para o quarto.
– Você está chorando? – Perguntou Marquinhos em voz baixa.
– Sim, mas de felicidade. Acabei de constatar que meu amor é correspondido – respondeu Ritinha.
– É por causa do Beto, não é? – perguntou novamente Marquinhos, de cabeça baixa, quase sussurrando.
– Sim – respondeu Ritinha, mais confirmando para si mesma do que em resposta a Marquinhos. Enquanto tentava secar as lágrimas com as mãos, continuou – Não tenho dúvidas. Ele me ama. E eu o amo muito, muito, muito.
Alheia a tudo, não percebeu a tristeza no rosto de Marquinhos. Foi então que ele, ainda com a cabeça baixa, os olhinhos lacrimejando, fez uma pergunta que soou mais como uma afirmação – Então você não me ama mais?!
Ritinha, saindo do torpor, percebendo o quanto o irmãozinho estava magoado e triste, abraçou-o com doçura e disse-lhe – Não Marquinhos, ninguém toma seu lugar dentro do meu coração. Puxou seu rostinho em direção ao seu, olhos nos olhos, e continuou – o que sinto por você é um amor muito especial. Você é meu tesouro, meu irmãozinho, meu filho querido. Tenha certeza de uma coisa: nunca deixarei de te ama e, pra onde eu for, levarei você comigo. Agora vá arrumar suas coisas pra amanhã enquanto vou ali compartilhar minha alegria com alguém também muito especial.
Ao perceber a chegada de alguém, Dona Romilda virou-se, e deparou com Ritinha, com os olhos rasos d'água. Numa das poucas e raras demonstrações de afeto, Abraçou Ritinha, e disse – já ia te percurar.
– Não queria vir sem antes resolver a situação. Respondeu Ritinha retribuindo o abraço.
– Sei – disse por sua vez Dona Romilda, maquinalmente, com o pensamento ha quilômetros de distância, em outras épocas.
Antes que Ritinha começasse a expor todo o seu drama, Dona Romilda, com sua vasta experiência, já havia imaginado toda a situação. Foram várias e várias histórias mais ou menos parecidas, que ela testemunhara, acompanhara, aconselhara, e sofrera juntamente com suas meninas, nos tempos do bordel. Lembrou-se da sua própria história. Como foi difícil sentir-se de repente jogada nesse mundo cão, e sobreviver graças ao amparo de uma estranha.
Ele era um bom rapaz – pensou Dona Romilda. Passados tantos anos, ela ainda lembrava-se dele com muito carinho. Por muitos anos, alimentou a ideia de ir procurá-lo, não para cobrar alguma coisa, mas para saber se estava feliz. A mãe, sim, era uma megera. Foi a culpada de tudo. Criou o rapaz numa redoma de vidro. Rico, mimado, fazia tudo que a mãe queria. Um pobre infeliz. Deixou de viver a sua própria vida para ser o bibelô da mãe. Não teve coragem de enfrentá-la, mesmo sabendo que aquilo seria uma tragédia na vida de Dona Romilda. A história se repete. Rapaz jovem, bonito, rico, engravida moça linda, bem-criada, honesta, sem muita instrução, e pobre. O pai da moça, ao tomar conhecimento e, sabendo o quanto seria difícil obrigar ao rapaz reparar a sua falta, põe a filha desonrada para fora de casa.
Somente com a roupa do corpo, grávida, Dona Romilda não teve outra alternativa. Pedindo carona, saiu do subúrbio da cidade onde morava, e chegou até a cidade mais próxima. Cansada, suja, empoeirada, e com fome, foi como chegou ao seu destino. Por ser uma cidade maior, talvez oferecesse mais oportunidades para ela conseguir um meio de sobreviver. Sem conhecer ninguém, no estado deplorável em que se encontrava, restava-lhe aguardar por um milagre. Nova e bonita, logo logo a convenceram a ir pedir ajuda num bordel. Ao chegar, a dona do estabelecimento deu-lhe alimento, providenciou sabonete, toalha, e colônia para um banho reparador, roupa limpa, uma cama cheirosa, e calmante para dormir. No dia seguinte, já um pouco mais refeita, após o desjejum, a dona do estabelecimento chamou-a para uma conversa. Explicou que, caso ela não tivesse para onde ir, poderia continuar morando com ela e as outras meninas, mas teria que aprender o ofício, e trabalhar. Dona Romilda então lhe contou a sua história, e disse-lhe que estava grávida de aproximadamente dois meses. A dona do estabelecimento disse-lhe que isso não seria problema. Tomaria um abortivo e estaria tudo resolvido. Pediu-lhe apenas que não demorasse muito em tomar uma decisão porque tempo era dinheiro. A clientela daquela casa era muito exigente, e ela, a dona do estabelecimento, não poderia correr o risco de colocar uma despreparada na pista. Se decidisse por ficar, seria muito bem tratada, desde quando respeitasse as normas da casa, e não fizesse nada que desmerecesse a sua confiança. Ficaria em repouso pelo tempo que fosse necessário para recuperar-se da intervenção, e começaria os treinamentos assim que estivesse em condições. Caso contrário, teria toda a liberdade para procurar outro local para ficar. Sabendo o quanto seria difícil, a dona do estabelecimento concedeu-lhe um prazo para pensar, lembrando-lhe que qualquer uma das decisões tomadas seria irreversível.
Foram duas noites de angustia e sofrimento para Dona Romilda. Sem ter para onde ir, sem ninguém para conversar, ouvir uma orientação, um conselho, foi sem alternativa, praticamente, que decidiu por ficar. Sabia que dali em diante não teria mais volta. Seguiu em frente, e procurou aprender tudo que lhes foi ensinado. Uma das primeiras lições foi: nessa profissão não se deve falar. Apenas ouvir. Não teve nenhuma aula para melhorar a dicção e o vocabulário. Em compensação, treinou exaustivamente esboçar um lindo sorriso e um gemido bem convincente. Se for para ser, pois que seja a melhor das melhores. Com esse lema, com empenho e dedicação, conseguiu fama e muito dinheiro. Seus lindos cabelos platinados, bem tratados, faziam grande sucesso. O corpo escultural, adornado de jóias, tratado com cremes especiais, mataram a fome de desejo de muitos homens importantes. As mãos sedosas, de unhas feitas todas as semanas, acariciaram muitos homens, levando-os ao delírio. Essas mesmas mãos empunharam um punhal e ceifaram uma vida.
Voltou das suas amargas lembranças quando Ritinha disse-lhe quase num sussurro – a senhora vai ser avó. Dona Romilda não conseguiu conter duas grossas lágrimas que rolaram da sua face tão sofrida, bastante destruída pelo tempo. Quem a conheceu nos tempos áureos jamais acreditaria tratar-se da mesma pessoa, exceto alguns traços com vaga semelhança.
– Obrigada meu Deus – pensou Dona Romilda. Obrigada pela Tua bondade, pela Tua misericórdia. Sei que não sou merecedora dessa imensa alegria. Depois de tantos erros cometidos, ser agraciada com uma filha tão meiga e carinhosa, e agora com um neto.
Recompondo-se, Dona Romilda tratou de enxugar as lágrimas com suas gordas mãos, agora tão maltratadas e cheirando a tempero. Em seguida, voltando-se para seus afazeres, aproveitou para também esconder o rosto, numa tentativa de disfarçar aquele momento de fraqueza.
– Traga ele aqui qui eu quero fazê umas recumendação – sentenciou.
Ritinha contava agora com uma boa clientela de alunos, e Beto havia melhorado seu ganho na loja. Por conta do seu empenho redobrado, passara a receber comissões sobre as vendas. Aos poucos, as coisas estavam melhorando.
Era um domingo ensolarado. Depois de uma semana cansativa, cheia de trabalho e compromissos, nada melhor que um dia de descanso. Ritinha preparava-se para ir almoçar com os compadres dos pais de Beto. Pediram-no que a levasse. Queriam conhecê-la. Ambos estavam bastante apreensivos. Seria o primeiro compromisso social do casal. Tomaram o ônibus e seguiram em direção a casa onde Beto morava. Pela primeira vez, Ritinha conheceria alguém da família de Beto. Sim, porque eles consideravam Beto como um filho. E Beto tinha a maior consideração por eles. Tanto é que, logo após a conversa com a mãe de Ritinha, onde assumiu todo o compromisso, relatou todo o ocorrido aos compadres. Eles, apesar de lamentarem pela gravidez numa hora tão inoportuna, ficaram muito felizes, e deram todo o apoio. Concordaram também em respeitar o desejo de Beto em não comunicar a Seu Jairo e Dona Zefa, pelo menos nos primeiros momentos, enquanto as coisas estavam sendo arrumadas e ajustadas.
A casa simples, mas de aspecto agradável, ficava situada numa rua tranquila, nas proximidades do centro da cidade. Do muro baixo na frente da casa, dava para ver um pequeno jardim florido, bem cuidado, e um hall na entrada. Entraram pelo portãozinho de ferro, e logo foram recepcionados pelo casal de meia idade. Ritinha ficou encantada com a recepção. A sala ampla, arejada, bem iluminada, era bastante aconchegante. Tanto da janela da frente como da janela lateral, emanava uma leve brisa, acompanhada do aroma adocicado das flores do pequeno jardim. Tudo era muito simples, mas de bom gosto. Acomodaram-se todos. O anfitrião abriu uma garrafa de vinho e, referindo-se a Ritinha e o bebê, disse:
– Vamos brindar a chegada de dois novos membros à nossa família. Mais uma filha, e mais um netinho ou netinha.
Todos brindaram e, em seguida, iniciaram animada conversa.
A senhora, tratando-a como filha, começou a indagar de Ritinha como estava indo a gestação, se estava tudo bem, como ela estava se sentindo, em fim, queria saber tudo. Explicou que viera do interior, a pedido do genro, exclusivamente para cuidar da filha. Cuidou e acompanhou a sua filha durante toda a gravidez, e depois continuou cuidando do neto. Agora ele, o neto, já estava grandinho e não precisava mais tanto dela, porque estava sob os cuidados de uma babá. Nesse ponto da narrativa, deixou transparecer uma pontinha de ciúmes. Ela agora, continuou, exercia apenas a função de avó, que consistia em encher de mimos e fazer as vontades do neto. Cheia de orgulho, afirmou ter bastante experiência, pois, além da filha que, modéstia à parte, sempre cuidou dela praticamente sozinha, e agora, recentemente, foi a vez do neto. E aí começou a passar as primeiras dicas para Ritinha, que ouvia tudo com bastante atenção. Explicou e orientou sobre todo o processo. Desde o período de gestação até os primeiros cuidados com o bebê. E, ao final, colocou-se à disposição para ajudá-la no que fosse possível.
Depois pediu licença, foi lá dentro no quarto e voltou com uma caixa. Ritinha aguardou apreensiva e curiosa. Nesse momento, Beto, que conversava animadamente com o seu pai adotivo, também ficou curioso. Qual não foi a surpresa do jovem casal. Ritinha emocionada, não conseguiu conter as lágrimas. A senhora, toda orgulhosa, abriu a caixa e começou a exibir os sapatinhos, a toquinha e o casaquinho, terminado recentemente. Era um conjuntinho que ela confeccionara em crochê para o recém-nascido.
Seria muito desejar que a mãe tivesse ao menos comprado um mordedor ou um chocalho, ou até mesmo um sabonete, e dissesse – tome, comprei pro meu neto – pensou Ritinha. Não, o destino quis que ela recebesse o primeiro presente para o seu rebento, justamente de uma pessoa que sequer a conhecia. Mas – continuou Ritinha em seus pensamentos, enquanto as lágrimas insistiam em brotar de seus olhos – só tenho a agradecer a minha Mãe Maria Santíssima, por me ter presenteado com mais uma verdadeira mãe. Meu coração é grande, e Dona Romilda, certamente, não irá se importar em ceder um pedacinho dele para eu acomodar essa minha nova mãe.
Após o almoço, foi servida uma deliciosa sobremesa caseira. Uma ambrosia que estava um verdadeiro manjar dos deuses. Em seguida, Beto convidou Ritinha para conhecer seu quartinho, seu refúgio. Ao entrar, mais pensando alto, entre suspiros, Beto fala para Ritinha.
– Essas quatro paredes são testemunhas das muitas alegrias e tristezas vividas durante esses últimos anos. Quantas lembranças e recordações…
Ritinha estava emocionada. Pela primeira vez entrava na intimidade de Beto. Como gostaria de ouvir daquelas paredes todos os segredos, todas as confissões de Beto – pensou. Será que ele pensava nela, tanto quanto ela pensava nele, naquele seu quartinho improvisado? Seus pensamentos foram bruscamente interrompidos quando seus olhos pousaram na figura do calendário da borracharia. Aquela loira oxigenada com olhar provocante, como se estivesse a desafiá-la.
– O que é isso? – indagou Ritinha. – No nosso quarto, esse tipo não vai entrar de jeito nenhum – complementou.
– Isso é coisa de homem – Beto respondeu sorrindo.
– Não quero saber – respondeu Ritinha com cara de brava. Não vai entrar e pronto – complementou.
– Está com ciuminho do seu galego hem – arrematou Beto.
Em seguida, tomou-a em seus braços e plantou um caloroso beijo em seus lábios, pondo fim à discussão.
Precisamos acreditar na energia do cosmo. “… Pois em verdade vos digo, se tivésseis a fé do tamanho de um grão de mostarda, diríeis a esta montanha: transporta-te daí para ali e ela se transportaria, e nada vos seria impossível” (Mateus, 17: 14-20). No momento em que o subconsciente está trabalhando, pensando em algo que desejamos ardentemente que aconteça, automaticamente ficamos conectados ao campo energético do planeta, do cosmo, na faixa vibratória compatível, passando então a sintonizar com outras fontes de pensamentos, também conectadas na mesma faixa vibratória. Esses pensamentos conectados entre si formam um campo magnético gigantesco, capaz de produzir os fenômenos, comumente chamados de milagre.
Beto e Ritinha já estavam de saída quando o casal anfitrião pediu, insistentemente, que os acompanhassem na visita que fariam à filha, ao genro, e ao netinho. Gostariam muito que Ritinha os conhecessem. Como Ritinha demonstrou desejo, não só em conhecer outros membros dessa família que a acolhera como tanto carinho, mas também seria uma forma de retribuir, atendendo ao desejo dos anfitriões, Beto terminou concordando, e aceitou ao convite. Como não era muito distante, seguiram caminhando. E lá se foram, dando continuidade à animada conversa.
Parece que o tempo passa mais depressa quando estamos felizes, em companhias agradáveis. Já passava das três horas da tarde quando chegaram ao novo destino. Era uma residência de dois andares, construída num padrão mais elevado que a casa dos compadres. Também murada, como a anterior, porém maior, com dois portões trabalhados na entrada. Um portão para a entrada de veículos, e outro menor, onde se deduzia ser a entrada principal. Diante do portão menor, o pai pressionou a campainha, e aguardou. Sem muita demora, o portão foi aberto.
Dentro, em volta da casa, havia um lindo jardim, ornamentado de flores variadas, e plantas exóticas. Do portão até a porta principal havia um caminho, pavimentado em pedras portuguesas brancas e pretas, artisticamente bem trabalhado. O caminho, predominantemente na cor branca, serpenteava graciosamente pelo meio do jardim. Ora mais largo, ora mais estreito, toda a sua extensão era margeado por duas faixas de pedras pretas com, aproximadamente, vinte centímetros de largura. Pelo caminho, alternadamente, apareciam grandes tulipas desenhadas em pedras pretas. No meio do trajeto, em um dos lados do caminho, erguia-se um pequeno chafariz que mais parecia uma espécie de grande pia batismal. No seu centro, sobre um pedestal, via-se a escultura de uma criança com carinha de anjo, esculpida em mármore escuro, em tamanho natural, segurando o seu pintinho, fazendo xixi. A água, ou melhor, o xixi do anjinho, caia na grande pia, piscina e bebedouro dos pássaros, frequentadores do jardim.
Quando o pequeno grupo chegou ao final do caminho de pedras, a grande porta de madeira trabalhada já estava aberta. Diante dela, a filha e o netinho já os aguardava. O netinho, de aproximadamente dois anos, correu, e jogou-se nos braços da avó que, imediatamente, agarrou-o cobrindo-o de beijos. A filha, uma moça linda, sorridente, abraçou o pai, a mãe, e também Beto. Olhou para Ritinha e, com o mesmo sorriso indagou: – Você deve ser a Ritinha de Beto. Em seguida, caminhando em direção à jovem gestante, abriu os braços, e enlaçou-a com ternura.
Após a calorosa recepção, os recém-chegados foram conduzidos pela filha, em direção ao interior da residência. A essa altura, o netinho já estava no colo do avô, enlaçado em seu pescoço, quase a sufocá-lo. Adentraram numa grande sala, decorada com muito requinte, dividida em diferentes ambientes, demarcados com tapetes de pelo alto. Percebendo o constrangimento, principalmente de Ritinha, a filha sugeriu, discretamente.
– Vamos para a varanda, lá dentro. É mais aconchegante, e ficaremos mais à vontade.
O varandão, ao lado da cozinha, também decorado com muito bom gosto, porém mais simples, deixou o pequeno grupo mais à vontade.
Mal haviam se acomodado, e já estava uma serviçal depositando sobre a mesa bandejas de bolo, biscoitos, jarras de suco, café, chá, talheres e louças. Ritinha, sentindo-se mais à vontade, com apetite alterado devido à gravidez, foi a primeira a servir-se.
O genro, após executar algumas tarefas pendentes, e dar alguns telefonemas, saiu do gabinete, e foi saudar os visitantes. A relação entre ele e os sogros era de pai e filho. Apesar da avantajada posição financeira, sempre tratou a todos com muito respeito, e consideração. Os seus comandados gostavam muito dele pela maneira como os tratava. Sempre cortês, carismático, sem arrogância, e bastante humano. Ao chegar ao varandão, pediu desculpas a todos por não tê-los recepcionados, abraçou aos sogros, carinhosamente como sempre, Beto e Ritinha. Em seguida, relatou ao sogro algumas providências tomadas a respeito do andamento de tarefas que ele ficara incumbido de providenciar, indagou do sogro sobre as atribuições que ficaram sob sua alçada e, na sequência, parabenizou ao jovem casal, desejou-lhes muita saúde, paz e harmonia. Aconselhou-os a ter confiança, respeito mútuo e, sempre que necessário, diálogo, franco e verdadeiro. Essa é a chave para o sucesso de uma união duradoura – disse o genro.
– Agora com a chegada da criança, é importante que vocês façam uma revisão em seus planos, para que possam colher frutos num menor espaço de tempo – concluiu o genro.
– Já elaboramos novos planos e estamos colocando em prática. As dificuldades são muitas, mas continuamos confiantes e com muita fé. Acreditamos que vai dar tudo certo – respondeu Beto.
O sogro tomou a palavra, pediu licença a Beto e, sem dar-lhe tempo para autorizar ou não, começou a descrever o “quase impossível” plano do jovem casal. Empolgado, teceu altos elogios sobre Beto, menino que viu nascer, e participou ativamente da sua criação. Inteligente, esforçado, honesto, crédulo, tem tudo para obter êxito em sua trajetória.
– Mas para abrir uma loja de materiais, ou qualquer outro negócio, não basta somente querer, esforçar-se e saber vender. É necessário experiência e muito conhecimento – contestou o genro.
O sogro então começou a descrever, melhor que o próprio Beto, toda a sua trajetória, desde quando chegou à metrópole. Foi o seu primeiro emprego. Precisou bater em muitas portas até conseguir. E não foi fácil. Lembrou inclusive que precisou contar com a ajuda do genro. Salvo engano, foi através do amigo de um outro amigo. O genro lembrou-se do episódio e balançou a cabeça afirmando que sim. Beto agarrou aquela oportunidade com unhas e dentes. Inicialmente começou a trabalhar meio turno. Estudava pela manhã, e à tarde trabalhava na loja. Ainda não tinha uma função definida. Aliás, como até hoje, é um faz tudo na loja. Executa tarefas bancárias, serviços de limpeza, atende no balcão, recebe e arruma mercadorias, e por aí vai. Depois passou a estudar à noite, e começou a trabalhar em tempo integral. Não mede esforços. Sempre dedicado e interessado, foi aprendendo todos os serviços da loja. Hoje Beto, depois do dono, é quem resolve tudo. Sua função vai desde o atendimento no balcão, recebimento e conferência de mercadorias, a negociação com fornecedores. O seu patrão reconhece sua capacidade e experiência. Gosta muito dele e está lhes dando o maior apoio nesse seu novo começo. Sobre o caráter e responsabilidade de Beto, não era novidade para o genro. Isso ele já conhecia. Mas os pormenores com relação à sua capacidade e conhecimento no ramo foram providenciais. O genro estava com uma boa soma de dinheiro aplicado no banco, rendendo muito pouco e, ha muito, vinha pensando em algum outro tipo de investimento. Para o genro, aquela narrativa do sogro foi a cereja que faltava no bolo. Levantou-se resoluto e, dirigindo-se ao sogro e a Beto, convidou-os a acompanhá-lo até o escritório, dizendo – acho que precisamos conversar mais detalhadamente sobre esse assunto.
Ritinha, participando da conversa com a mãe e a filha anfitriã, também estava interessada na conversa entre os homens. Com a retirada deles para o escritório, a curiosidade aumentou ainda mais. Impossibilitada de acompanhar paralelamente a conversa entre eles, conformou-se, e voltou a prestar mais atenção à conversa das mulheres. Mataria sua curiosidade mais tarde.
A filha anfitriã, percebendo que Ritinha agora estava mais presente, aproveitou para dar sua parcela de contribuição. Sua pouca experiência de primeira gravidez, mas bem assessorada, seria bastante válida para Ritinha que, ao que parecia, não tinha nenhuma. Procurou então, valendo-se também das observações da mãe avó, passar a Ritinha orientações valiosas sobre gestação, parto, e os primeiros cuidados para com o bebê. Na medida do possível, com bastante cuidado, ia enquadrando as orientações à realidade de Ritinha. Sabia que havia uma grande diferença entre as duas, com relação à condição financeira e, de maneira alguma não se perdoaria, caso magoasse ou a deixasse constrangida.
Mais descontraída e menos preocupada, Ritinha mostrou à anfitriã, toda orgulhosa, ainda um pouco emocionada, o primeiro presente do seu bebê, que acabara de ganhar. A anfitriã ficou radiante. Lembrou-se da emoção que sentiu, quando também recebeu de sua mãe uma caixa contendo mimos graciosos similares, confeccionados com muito amor e carinho.
Chegou agora o momento esperado para fazer a minha oferta – pensou a filha anfitriã.
– Ritinha – falou-lhe a anfitriã – eu recebi muitos presentes para meu filho. Você sabe como criança cresce rápido. Tenho bastante coisa nova, com pouco uso, e outras que nunca foram usadas. Tem de tudo. Sapatinhos, casaquinhos, gorros, luvas, batas, enfim, uma infinidade de coisas. Caso você não se incomode, gostaria de presenteá-la. Aliás, na verdade não é um presente. É uma retribuição ao presente que DEUS me deu. Você, a irmão que eu sempre quis ter. Dizendo isso, a anfitriã abriu os braços acompanhados de um belo sorriso, e enlaçou-a novamente com ternura. A mãe, com os olhos rasos d'água, abraçou as duas, e ficaram ali, vivendo aquele momento mágico. Era um encontro, ou talvez um reencontro, de espíritos sintonizados numa mesma frequência, também conhecido como peças do destino.
Aquele dia de domingo estava chegando ao fim, mas seria inesquecível. Ficaria gravado na memória daquele jovem casal como um domingo abençoado, o domingo da graça. O sol já estava se preparando para recolher. De mãos dadas, os corações saltitando de felicidade, sob um céu límpido seguiram em direção à casa da mãe de Ritinha. Como gostariam de ter um cantinho só deles. Como gostariam de, naquela noite tão especial, poderem deitar na mesma cama, abraçadinhos com os dedos dos pés entrelaçados, conversar até tarde relembrando os momentos marcantes do dia, refazer e fazer novos planos. Depois trocarem afagos, carícias, cafuné, e dormir de conchinha.
Cheios de confiança, ansiosos pelo início do novo dia, pelo início de uma vida nova, tinham pressa. Queriam deixar para trás aqueles dias de angustia, de incertezas, mas, no fundo, sabiam que precisavam ter calma. Tudo tem seu tempo. Não seria como um passe de mágica que as coisas aconteceriam. Antes teriam muito trabalho pela frente. Esmorecimento e desanimo seriam as primeiras palavras a serem riscadas de seus dicionários.
No dia seguinte, após contar a boa nova ao patrão, Beto foi consultar o contador da loja para orientá-lo com relação à abertura da sua própria empresa. Disse-lhe que gostaria de contratá-lo para fazer também a sua contabilidade. Em seguida, explicou em detalhe os termos do seu sócio: seria uma sociedade limitada. O sócio entraria com 60% do capital inicial, Beto entraria com os 40% restantes, e mais a mão de obra. O sócio confiaria a Beto toda a administração da empresa. Como ele, Beto, dispunha somente da metade do capital referente à parte que lhe caberia, o sócio propôs emprestar-lhe o restante, ou seja, os outros 20%. Só que esse empréstimo seria pago com o próprio lucro da empresa, em pequenas parcelas, de modo a não comprometer o capital de giro. Inicialmente, como não teria mais salário, Beto faria retiradas mínimas para seu sustento, a título de pró-labore e, posteriormente, quando a empresa estivesse solidificada, iniciaria a divisão real dos lucros.
Na verdade, o genro entraria na sociedade como um investidor anjo. Isso é bastante comum no mundo dos negócios. Mas para Beto, o genro não era apenas um investidor anjo. Era muito mais. Ele, o genro, estava fazendo por Beto o que o pai e o sogro gostariam de fazer, mas não tinham condições financeiras suficientes para tal. Como um homem de negócios, sabia que o risco era mínimo e, futuramente, ganharia muito mais do que qualquer aplicação financeira, além da ajuda providencial que daria àquele jovem casal.
No mundo dos negócios, não é apenas querer, ter conhecimento no ramo, e trabalhar duro, que o sonho se concretiza. Muitos empreendimentos naufragam nos primeiros anos. O genro já havia vivenciado muito isso. Sabia que Beto precisava ainda aprender muito. Não como uma imposição, e mais como uma orientação, o genro sugeriu a Beto procurar uma empresa bastante conceituada, cujo objetivo é apoiar às pequenas empresas. Essa empresa é, na realidade, uma instituição privada sem fins lucrativos, gerida pelo governo federal, e grandes empresas do país, que orienta e disponibiliza cursos gratuitos para todos os pequenos e médios empresários. Os homens de negócio, os grandes empresários, não vêm um concorrente como uma ameaça. Aquela pequena empresa poderá, no futuro, tornar-se uma grande parceira. Quanto mais empresas, mais o mercado é aquecido. Esse é o pensamento: “Somente uma andorinha não faz verão”.
Nesses cursos, a primeira coisa que o empresário aprende é separar o patrimônio da empresa do seu particular. O conteúdo programático dos cursos abrange Gestão Financeira, Fluxo de Caixa e Demonstração de Resultados. Vai aprender a elaborar planilhas para controlar receitas, despesas e resultados. E o mais importante, ter um planejamento e elaborar projetos. Essa é a base fundamental para se ter sucesso em um empreendimento.
Após conclusão dos cursos iniciais, Beto elaborou o projeto da construção da loja, e submeteu à apreciação do sócio. O projeto foi aprovado. Os sócios abriram uma conta conjunta, depositaram o capital inicial, e Beto deu início à execução do projeto.
O terreno há muito almejado foi adquirido. Os gastos seriam o mínimo possível. Quanto menor as despesas com a construção, maior seria o capital de giro. E nada de tomar empréstimos. Esse era o lema.
E o nome da loja? – pensou Beto – um empreendimento sem um nome fantasia é como uma igreja sem sino. Até então não havia imaginado nada. Poderia ser a junção dos nomes dos dois: Beto e Ritinha. Talvez surja um bom nome. Seria também uma maneira de homenageá-la. Afinal, Ritinha tinha sido a mola propulsora desse sonho quase impossível.
Beri – Não, pensou. Seria uma confusão. Berí ou Beri. Com ou sem acento. E depois parece nome de Bairro.
Berita – Também não. Lembra britadeira, ou pior, birita.
Alberi – Alberto e Rita. Horrível. Lembra albergue.
Quem sabe Alma, a junção de Alberto e Maria – mas o nome dela não é Maria. É Maria Rita, ou simplesmente Ritinha. Além do mais, Alma é alma do outro mundo. Cruz credo.
Almari, Alberto e Maria Rita. É, gostei – pensou. Almari – Materiais de Construção.
Acho que Ritinha também vai gostar – concluiu. Pensando em Ritinha, lembrou-se que ainda não haviam escolhido o nome da criança. Precisavam selecionar pelo menos dois: um masculino, e outro feminino.
– E o sócio? Afinal, o sócio também deveria participar do processo da escolha do nome da loja. Antes de tudo, seria melhor consultá-lo. São coisas aparentemente simples, mas que podem gerar depois um grande problema. Na maioria das vezes o primeiro impulso, motivado pelo entusiasmo, na melhor das intenções, nos faz tomar decisões precipitadas. E aí vem o arrependimento, mas já é tarde. A complicação generaliza e fica fora de controle. Decidiu então aguardar e submeter à apreciação do sócio, quando fosse apresentar seu relatório costumeiro. Mas o sócio cada vez mais o surpreendia. Para ele, sua opinião sobre essas questões de nome e outros detalhes eram irrelevantes. Ficariam a cargo de Beto. O que ele resolvesse, estava resolvido. Mesmo assim, com toda a regalia e confiança que o sócio lhes facultava, Beto fazia questão de apresentar um relatório semanal ou, no máximo, quinzenal.
Tocar uma obra sem conhecimento e com poucos recursos, não é tarefa fácil. Quem já teve essa experiência sabe o que é sentir-se impotente nas mãos de profissionais desonestos e inescrupulosos. Mas a providência DIVINA intercedeu mais uma vez em favor de Beto. Por intermédio do seu ex-patrão, conseguiu um mestre de obra muito competente, responsável e honesto. Por outro lado, Beto não era nenhum leigo no assunto. Durante a convivência com Seu Jairo, conseguiu adquirir um pouco de conhecimento sobre construção. Isso favoreceu por demais o entendimento entre Beto e o mestre de obra, resultando em uma melhor fluidez na execução do projeto.
De um lado do terreno seria construída a loja no andar térreo. Sobre a loja seria erguido o pequeno apartamento, futura morada de Beto, Ritinha, Marquinhos e a criança que estava chegando. No andar térreo, inicialmente seria construído apenas a loja na frente e, no fundo, o escritório, um sanitário e uma sala de refeição com uma cozinha americana. O outro lado seria apenas cercado com uma cancela larga na frente para dar acesso aos caminhões. Os blocos, areia, brita etc., ficariam armazenados nessa área. Uma pequena parte no fundo da área cercada seria coberta de telha de amianto, para armazenagem das estroncas, barrotes e cimento. Futuramente, quando o estoque começasse a aumentar e diversificar com mercadorias mais caras, em lugar da cerca seria erguido um muro alto, e a cancela seria substituída por um portão de ferro. E a escada para o acesso ao andar de cima, onde ficaria? Era preciso definir tudo, antes de iniciar a fundação. A escada precisa de coluna e viga de sustentação. E o correto é aproveitar colunas e vigas da estrutura para a sustentação da escada. Com isso, evita-se o desperdício de material. Não pode haver nada pior do que uma obra mal estruturada, onde se vê uma escada improvisada, mal localizada, estreita, com pisos e/ou espelhos fora do padrão. Mesmo sabendo que o apartamento não seria construído por agora, mas o projeto da escada tinha que ser feito. Chamou o mestre de obra e começaram a definir os detalhes, não só da escada, mas também os sanitários e a caixa d'água. As colunas de água e esgoto precisam ficar alinhadas, para não comprometer a pressão da água e o escoamento do esgoto, além de evitar o desperdício de material.
Tratando-se de um terreno de esquina, indiscutivelmente a escada deveria ser construída no fundo, depois das dependências, com acesso pela outra rua. O apartamento ficaria com a entrada totalmente independente da loja. Para alcançar o primeiro andar, considerando um pé direito de dois metros e oitenta, uma escada, dentro de um padrão razoável, precisa ter vinte degraus. A escada foi projetada com pisos de 24,25 cm, espelhos de 14 cm, e mais um recuo de 115 cm, já considerando a largura da parede. A escada ficou com, exatamente, seis metros. Como a largura da construção era de seis metros, não haveria espaço para o patamar de acesso. É aí onde surgem as verdadeiras aberrações. Para solucionar o problema, os autodenominados “profissionais” reduzem a medida do piso, aumentam a altura do espelho, ou, simplesmente, constroem o primeiro degrau da escada sobre o passeio publico. Foi descartada a opção fazer a escada em formato de “U”, com um patamar de descanso no meio, porque haveria perda de espaço e aumento no custo da obra. A solução encontrada foi aumentar uma das vigas de sustentação, no primeiro andar, em mais 135 cm, na direção da área cercada, e construir um patamar de 135 cm x 270 cm, no balanço, para dar acesso ao apartamento. As ferragens das vigas ficariam nuas, aguardando a concretagem. E, até a construção da escada, a entrada pelo outro lado da rua ficaria fechada. Confirmou os cálculos com o mestre, e constatou que não haveria risco em o patamar ficar no balanço, porque, sobre ele, teria apenas a mureta de proteção. Beto olhou satisfeito o desenho da escada e pensou – depois de pronta vai ficar perfeita. Até seu Jairo vai gostar. Ficará orgulhoso do meu trabalho.
Por mais de uma vez Beto teve que alterar o seu projeto. Foi uma das coisas que aprendeu nos cursos que fizera. Toda empresa precisa, antes de qualquer coisa, ter um planejamento a curto e a longo prazo. O projeto é um detalhamento das ações definidas no planejamento. Ele não é algo engessado, inalterável. Muito pelo contrário, é dinâmico. Sempre que necessário, altera-se, corrige-se, de modo a representar, o mais fiel possível, a realidade.
Inicialmente, para reduzir o custo da obra, Beto pensou em construir apenas o salão da loja, cobrir com telha de amianto, e deixar a parte do fundo para outra etapa. Posteriormente, na medida do possível, substituiria as telhas por laje, setor por setor. Mas, conversando com o mestre de obra, ponderou: a mercadoria em exposição teria que ser remanejada de um canto para outro, à medida que ia substituindo as telhas por laje. O resultado seria uma laje cheia de emendas, além do risco de avariar alguns produtos. Desistiu da ideia e optou por bater a laje em todo o salão. Aproveitou também para ampliar um pouco mais, já que seria definitivo. Para não perder tempo e iniciar a vendagem precisava, o mais rápido possível, de um local para receber os representantes. Necessitava também de um local para dormir. Ele faria também o papel de vigia. O risco de deixar o material exposto era muito grande. O melhor então seria construir o salão e as dependências do fundo em uma tacada só. Quando fez as devidas correções no projeto, percebeu que o capital de giro praticamente havia desaparecido. Sem contar com o aumento do material que foi além do previsto. Não poderia simplesmente recorrer ao seu investidor anjo, pois esse já havia feito até demais. O que fazer? Fez e refez os cálculos, mas o resultado era o mesmo. Os fornecedores eram implacáveis, ele bem sabia. Principalmente os de materiais pesados, os carros-chefe das vendas. Bloco, areia, brita e cimento eram os que ofereciam menor prazo para pagamento. Era praticamente pagamento à vista. No primeiro atraso a empresa perderia o crédito. E uma empresa iniciando, com todas as dificuldades, e ainda sem crédito na praça, estaria fadada a fechar as portas antes mesmo de começar. Foi aí que surgiu a grande ideia. Conversou com seu ex-patrão, e expôs a proposta. Beto pegaria todo o material para sua obra na loja do ex-patrão. Uma parte seria consumida na construção da Almari, e a outra parte, seria destinada à venda. E aí, à medida que Beto fosse consumindo o material na obra ou vendendo, pagaria aquele material retirado e faria uma nova retirada. Pediu ao ex-patrão que a parte destinada à venda seria fornecida a preço de custo, e o lucro obtido seria dividido, ou seja, 50% para cada. Na verdade, o que Beto estava propondo era que o ex-patrão lhes fornecesse a mercadoria em consignação. Naquele início, Beto não estava visando uma boa margem de lucro. Estava ciente que a margem seria bem pequena. O que ele precisava mesmo era fazer o giro e conquistar a clientela. O ex-patrão, não só aceitou como também melhorou a proposta de Beto. Todo o material que fosse utilizado na construção da Almari seria fornecido também a preço de custo, acrescido apenas dos impostos. Beto, sem palavras, com os olhos marejados, simplesmente abraçou-o e, mentalmente, pediu a DEUS proteção para aquele homem, e a tantas outras almas caridosas que o ajudaram e continuavam a ajudá-lo naqueles momentos tão difíceis de sua trajetória.
Comprou tapumes, barrotes e telhas, um sofá-cama, duas cadeiras e uma mesa de bar. Tudo de segunda mão. Com a ajuda do mestre de obras, improvisou um barraco num canto do terreno. O barraco serviria, não só para guardar as ferramentas e o cimento, como também seria o seu novo dormitório. Durante o dia era vendedor, fiscal de obra, e ajudante. À noite era o vigia. Só saia do seu posto nos finais de semana, quando o sobrinho do seu mestre de obra podia rendê-lo.
Durante a construção da Almari, Beto dividia seu tempo aprimorando seus conhecimentos através dos cursos gratuitos, fiscalizando e vigiando a mercador e o canteiro de obra. Sempre que requisitado ia à loja do seu ex-patrão para auxiliar e/ou orientar ao seu substituto. Em suas folgas, fazia visitas sistemáticas a Ritinha, e seu rebento. Tinha consciência do quanto era imprescindível esse apoio durante as fases da gestação.
– Ritinha, tu vem armuçar aqui hoje. Vou fazer uma coisa gostosa pra tu.
Era Dona Romilda preocupada com a alimentação de Ritinha, naquele corre-corre pra cima e pra baixo dando aula. Vez por outra preparava um fígado mal passado acompanhado de uma verdurinha refogada, ou até mesmo aumentava a porção de filé do gato, passado na manteiga, com cebola e batata gratinada, e dividia com Ritinha.
– Tu já tá veia, mas a minina percisa se alimentar direito pra nascer forte – disse Dona Romilda.
– Mas eu ainda não sei o sexo – argumentou Ritinha. E lá vem a Senhora de novo com essa estória.
– É, eu ainda tinha cá cumigo as minhas dúvidas. Mas agora tenho certeza. É minina sim – contra argumentou Dona Romilda.
– E de onde vem essa certeza, posso saber? – perguntou Ritinha curiosa.
Calmamente, sem responder, Dona Romilda dirigiu o olhar na direção dos quartos onde ficavam seus hóspedes e, num tom mais alto, ordenou:
– Vem cá Dona Firmina.
Dona Firmina era uma preta já de idade avançada, tipo miúda com os cabelos esbranquiçados, olhos vivos que denotavam ter sido uma pessoa dinâmica. Por conta da idade, já não era tão ágil. Apareceu no limiar do corredor e, com passos lentos, um sorriso nos lábios, aproximou-se das duas que estavam sentadas a uma das mesas do refeitório. Nesse horário, a sala já estava vazia.
Era uma velha conhecida de Dona Romilda, mãe de um dos seus hóspedes. Era um bom hóspede, e bom filho. Sempre que podia, trazia a mãe do interior para a cidade, com o pretexto de levá-la ao médico. Na verdade a mãe tinha uma saúde de ferro. Era mais uma maneira de dar um passeio pela cidade. Dona Romilda gostava quando ela vinha. Ficavam proseando, ajudava nos afazeres e, até iam juntas fazer compras. As estadias não eram longas e, ultimamente, Dona Romilda só cobrava as diárias do filho. As da mãe ficavam como cortesia.
– Diz pra ela aí, vai! – era o jeitão de Dona Romilda falar.
Dona Firmina, mantendo o sorriso no rosto, olhou para Dona Romilda, voltou o olhar para Ritinha e disse:
– Outro dia, quando te vi, falei pra Dona Romilda. É uma minina.
Dona Romilda, demonstrando satisfação, ajeitou-se na cadeira, começou a balançar as pernas gordas e disse – Hum. Como se dissesse: está convencida agora?
Novamente Ritinha curiosa indagou a Dona Firmina – como a senhora sabe, e diz com tanta certeza?
Dona Firmina aproximou-se calmamente de Ritinha, acariciou o seu ventre e disse:
– Ô minha fia, eu num sei. Só sei qui é uma minina.
Percebendo que a resposta não havia convencido à jovem grávida, continuou: – Se eu falá uma coisa tu num vai se assombrá, num vai dizê qui essa veia é doida e num vai caçuá deu?
Ritinha, num misto de espanto e curiosidade, respondeu num fio de voz.
– Não. Prometo.
Então Dona Firmina ficou séria e começou a relatar com calma, pausadamente, e com toda a segurança. Estava sendo projetada ali, na frente dela, a imagem de uma linda moça de olhos azuis, cabelos castanhos e ondulados. Seu olhar é muito meigo, e tem um sorriso franco, espontâneo, quase que angelical. Agora uma voz explicava que se tratava da filha de Ritinha quando alcançasse a idade de mais ou menos dezoito anos. Ela se chama Marta. Queria muito fazer parte desse grupo, dessa falange. Sentia-se muito feliz e realizada porque, finalmente, dessa vez tudo se concretizaria. Caso não houvesse nenhum inconveniente, ela gostaria de continuar a usar o nome de Marta. Agradecia, primeiramente a DEUS, pela oportunidade que lhes fora concedida, e às mães, por aceitá-la e recebê-la com tanto amor e carinho.
Dona Romilda, tomada de uma forte emoção, inexplicavelmente sentindo uma angustia no peito, acompanhada de uma sensação de imensa saudade, desabou em prantos. Ritinha, também emocionadíssima, não deu espaço para o pânico ou medo. Um pouco mais refeita, Dona Romilda vira-se para Dona Firmina e diz.
– Assim a sinhora me mata. Meu coração veio num aguenta mais esses ripuxos.
Antes mesmo de concluir a primeira etapa da construção da Almari, Beto já contava com uma boa clientela. Era bloco, cimento, areia, e brita saindo do depósito a todo instante. Precisou contratar um ajudante para ajudá-lo no carrego das mercadorias para os clientes, pois, ao final do dia, estava todo alquebrado, sem contar com a dormida no surrado sofá-cama nada confortável.
Finalmente, a primeira etapa da obra foi concluída. O salão estava rebocado, pintado, com portas e piso de cerâmica. O restante, apenas rebocado, com portas e janelas improvisadas, construídas com tábuas usadas da própria construção. Muito satisfeito e feliz, Beto nem esperou a sua folga do final de semana. Dirigiu-se ao orelhão, localizado na outra esquina, próxima da Almari, ligou para o seu sócio, investidor anjo, e contou a boa nova. Para ele, Beto, era apenas uma etapa concluída. Mas para o sócio, não. Aquele era um acontecimento muito importante e, de maneira alguma, poderia passar em branco. Fez questão, alias, praticamente exigiu que Beto comparecesse no próximo domingo em sua casa, acompanhado de Ritinha. Seria um almoço em família, mas um almoço especial, em comemoração ao sucesso do novo empreendimento.
Devido à correria nos últimos tempos, Beto não encontrava mais os compadres com tanta frequência. Raramente num dia ou outro, quando tinha folga, conseguia tempo para jantar com eles e matar um pouco a saudade. Não só dos compadres/pais, mas também do seu quartinho e da sua cama. Então o almoço do domingo foi providencial. Tiveram a oportunidade de se reencontrarem. Estavam presentes o sogro, a sogra, o genro, a esposa e o filhinho. A alegria foi geral. Muitas novidades para contar, além, é claro, do motivo principal daquela reunião: a inauguração oficial da Almari. O genro propôs que, após o almoço, iriam todos conhecer, cortar a fita simbólica, e inaugurar a loja. Todos riram, mas aceitaram a proposta. O sogro, aproveitando o momento da euforia, anunciou.
– Eu tenho algo a dizer.
Sem muito arrodeio, foi direto ao ponto. Disse que não pediu o consentimento a Beto, porque sabia que ele negaria, mas quebrou a promessa, e contou tudo aos pais dele. Beto arregalou os olhos, e Ritinha ficou pasma.
– Mas vocês prometeram – balbuciou Beto. E Dona Zefa, deve ter ficado arrasada. O meu compromisso com ela…
– Esqueça, esqueça – agitando as mãos, arrematou o sogro.
E a sogra complementou – minha comadre Zefa está tão feliz que nem tocou nesse assunto.
– E Jairo, tá tão besta com a chegada do neto, que não fala em outra coisa – complementou o sogro.
Os compadres precisaram fazer uma viagem de última hora até Riacho da Mata para resolver assuntos com certa urgência. O encontro com Dona Zefa e Seu Jairo era sempre festivo. Como costumeiramente, foram recepcionados com muita alegria. Entre um gole e outro de café, acompanhado dos deliciosos petiscos de Dona Zefa, a conversa versou sobre variados assuntos. Inevitavelmente chegou o momento crucial. Foi quando Dona Zefa perguntou pelo filho. Os compadres se entreolharam e, não tiveram outra escolha. Procuraram contar tudo, de forma adocicada, deixando de lado os momentos tristes e dolorosos. Ao saber da notícia que teriam um neto, que seriam avós, Dona Zefa ficou tão eufórica que já queria tomar o primeiro transporte para a cidade. Queria ir para cuidar da norinha, acompanhar a gestação, porque os últimos meses requer um cuidado especial etc. etc. Foi preciso Seu Jairo interceder e acalmá-la. Também a comadre, por sua vez, garantiu a Dona Zefa que estava tudo sob controle. O jovem casal estava tendo muita ajuda, graças a DEUS, e a norinha estava sendo muito bem assistida. Tanto a comadre, como a filha, deram toda a orientação a Ritinha. A comadre esclareceu que está acompanhando a gestante em todos os exames preventivos e dando toda a assistência necessária. Diante do exposto, Dona Zefa ficou mais tranquila e convenceu-se de que, por enquanto, não havia necessidade da sua presença na cidade. Mas antes, fez a comadre jurar que a manteria sempre informada. Por Beto, ela ficaria sem saber de nada, queixou-se a mãe. A comadre, por sua vez, aproveitou a deixa para tecer um comentário em forma de conselho. Precisava ter confiado um pouco mais no filho. Não deveria interferir tanto na sua vida, a ponto de decidir por ele o seu próprio futuro. O silêncio em volta dos acontecimentos não foi ingratidão por parte do filho, e muito menos por parte dos compadres. Ha muito que eles, os compadres, queriam dar as boas novas, mas, com receio de magoar Dona Zefa, pactuaram com Beto e optaram por aguardar um momento mais oportuno. Dona Zefa, talvez por conveniência, ou pela euforia da boa nova, desconversou e pediu mais detalhes à comadre. Nesse momento, a conversa polarizou. A comadre, atendendo ao pedido de Dona Zefa, e o compadre, a responder às inúmeras perguntas do Seu Jairo. A comadre começou por descrever Ritinha. Uma moça encantadora. Meiga, amorosa, educada, direita, e muito bonita. Seu Jairo, ouvindo do compadre um monte de elogios dedicados a Beto, pensava cá com seus botões – mais não é que meu menino virou mesmo homem e, ainda por cima, um comerciante de mão cheia!
Beto e Ritinha, apesar do susto inicial, agora estavam mais calmos e, porque não dizer, bastante aliviados.
Já passava do meio dia, quando um delicioso cheiro invadiu o ambiente. Era o almoço que estava sendo servido. Seguiram todos em direção à mesa. Como de costume, fizeram a oração de agradecimento e deram início à refeição. Antes, porém, o genro fez questão de abrir uma garrafa de vinho especial e fazer um brinde ao sucesso da Almari. Nesse dia especial, saborearam um leitão à pururuca e um ensopado de galinha ao molho pardo, trazidos pelos compadres diretamente de Riacho da Mata. Em seguida, após a refeição, foi servido um pudim de leite, um verdadeiro manjar dos deuses, acompanhado de biscoitos assados no forno a lenha, especialidade de Dona Zefa.
Durante a conversa animada, alguém lembrou que o neto ou neta de dona Zefa ainda não tinha nome.
– Como não? – Interveio Ritinha. – Ainda não sabem?
– Desculpem-me – disse Beto. A correria foi tanta durante essa semana que nem tive oportunidade de comentar. Mas foi uma coisa incrível. Conte aí Ritinha – concluiu.
Ritinha começou então a relatar o ocorrido. Dona Romilda, a sua mãezona, por mais de uma vez já havia falado que seria uma menina. Mas ela, Ritinha, não levou a sério. Achou que era apenas um palpite de Dona Romilda. Mas aí teve a confirmação através de Dona Firmina. Nunca havia presenciado uma coisa daquela. Dona Firmina, uma pessoa sem muita instrução, de repente começou a falar de uma maneira diferente do seu habitual. Usando um vocabulário um tanto rebuscado, começou a descrever e relatar minuciosamente tudo. As duas, Ritinha e Dona Romilda, sentiram naquele momento uma sensação indescritível. Foi uma emoção muito forte. Ao final, sem saber como, Ritinha recebeu o abraço carinhoso de sua filha, ainda dentro do útero. A partir daí, ela não teve mais nenhuma dúvida.
Com os olhos marejados, Ritinha concluiu o relato e, instintivamente, abraçou Martinha ainda no ventre.
Todos ficaram em silêncio, sem saber o que dizer.
– Que coisa fantástica, maravilhosa, disse finalmente a comadre. Gostaria muito de conhecer essa Dona Firmina.
Dona Zefa e a comadre sonhavam com um casamento, não tão pomposo, até porque as condições financeiras não permitiam, mas também não tão simples. A igrejinha da vila toda decorada com flores, repleta de convidados, Beto no altar, nervoso como todo noivo, ao lado dos padrinhos e madrinhas, aguardando a noiva. Como não poderia deixar de ser, a noiva faria o tradicional desfile, ao som da marcha nupcial, de braço dado com o pai, ou outro representante. Ao final do desfile, a noiva seria entregue ao noivo. O padre, após o pequeno sermão, realizaria a cerimônia. Após a célebre pergunta do sim, pediria que trocassem as alianças e, finalmente, diria “pode beijar a noiva”.
Mas, nem sempre tudo é possível. E daí? De que adianta a celebração de uma união, cheia de requintes, acompanhada de festas com muitos convidados, juras e mais juras de eterno amor, para depois acabar tudo em cinzas. As festas acabam com a saída do último convidado. As juras não verdadeiras são apenas palavras ao vento. Será que tudo isso não passa de regras impostas por uma sociedade hipócrita? Tudo bem. Dona Zefa e a comadre, assim como muitas outras mães, sonham para os seus filhos, celebrar a união em uma linda cerimônia de casamento. É uma tradição, carregada de sentimentos sinceros, que acompanha muitas gerações. Mas o que importa mesmo é a felicidade que brota da união entre dois seres, alimentada por um amor verdadeiro. É a paz reinante, mantida pela compreensão, paciência e renúncia. É a sinceridade e confiança que fortalece, a cada novo dia, a união entre dois seres.
Após o almoço, a pequena comitiva, com o intuito de realizar o ato da “inauguração”, segue em direção à loja. Localizada em um bairro classe média, nas proximidades da entrada da cidade. Com uma topografia relativamente plana, o bairro em franca expansão tinha todos os ingredientes necessários para o crescimento e expansão da loja. Pararam próxima a uma esquina bastante movimentada, em frente a uma edificação nova. Na fachada, no alto, via-se pendurada uma modesta placa azul clara, com letras vermelhas, onde se lia “Almari – Materiais de Construção”. Na frente do estabelecimento haviam duas portas de ferro, com cerca de dois metros de largura cada, do tipo bastante comum, conhecida como rolante, que abre suspendendo e corre sobre dois trilhos laterais. Nas laterais haviam mais duas portas de madeira, uma em cada lado. Ambas com oitenta centímetros de largura, reforçadas com grades de ferro. Na parte do fundo, toda a ventilação e iluminação era obtida através de aberturas feitas na parte alta das paredes. Essas aberturas eram emolduradas com vigas de concreto e fechadas com barras paralelas, também de concreto. As barras eram colocadas enviesadas, no sentido vertical, com espaçamento de cerca de dez centímetros entre elas. As barras enviesadas, colocadas propositalmente para impedir a visão do ambiente interno. Em resumo, era uma mine fortaleza.
Beto dirigiu-se à porta localizada em uma das laterais, abriu-a, entrou e acendeu as luzes.
O salão tinha cerca de seis metros de largura por dez de comprimento. O teto era pintado de branco, e as paredes, de um bege bem claro, quase areia. Todo o piso coberto com uma lajota marrom clara. No salão, as mercadorias estavam expostas em mostruários improvisados, separados mais ou menos por artigos: tintas, tubos e conexões, pisos e revestimentos, etc. Na ala de tubos e conexões, foram erguidas duas estruturas que mais pareciam umas espécies de árvores, com cerca de um metro de base e um metro e sessenta de altura, elaboradas com os próprios materiais em exposição, ou seja, os tubos, joelhos, curvas, luvas, etc. Uma feita com materiais soldáveis, sem rosca, e a outra, de peças com rosca. Na base ficavam os materiais com bitola mais grossas e, com o auxílio das reduções, a estrutura ia sendo erguida, culminando com as peças de bitola mais fina. Todos eles cuidadosamente etiquetados com suas respectivas especificações e bitolas. Tinha também uma terceira, só de material para esgoto. Em outra ala, duas placas de tapume, lixadas e envernizadas, presas em uma das laterais, formando um “v” de cabeça para baixo. As duas laterais da estrutura de tapume eram cobertas, aleatoriamente, de amostra de pedras cerâmicas. De um lado eram pisos, e do outro, revestimentos. Outra estrutura de tapume foi utilizada para exposição de azulejos e pastilhas. Latas e galões de tintas, de diversas cores e vários tamanhos, estavam expostas em estruturas cônicas. Todas essas estruturas eram erguidas sobre pedestais improvisados, feitos de paletes, cuidadosamente lixados, e envernizados com verniz transparente. Com essa decoração simples e barata, as poucas mercadorias encheram o salão que, além de mostruário, passou também a ter a função de depósito. No fundo do salão tinha um pequeno balcão e, sobre ele, havia uma balança, uma máquina registradora, canetas e blocos de nota. Atrás do pequeno balcão, prateleiras com mercadorias miúdas.
Todos ficaram admirados com a criatividade de Beto. Até Ritinha ficou surpresa, pois desconhecia esse lado artístico do seu galego.
– E a inauguração, cantada em versos e prosas? – indagou a filha dos compadres. E completou – ai dos homens se não fossem as mulheres.
Dizendo isso, com aquele sorriso de vitória, próprio das mulheres, reforçado pelos olhares de aprovação das demais, depositou uma pequena caixa térmica sobre o balcão, e convidou a todos. Abriu a caixa, sacou um champagne ainda gelado e entregou ao marido. Colocou uma pequena bandeja sobre o balcão e, sobre ela, as tacinhas de plástico, e um pacote de guardanapos. Sem nenhum comentário, vencido mais uma vez pela perspicácia da esposa, o sócio de Beto abriu o champagne, encheu as taças, pegou uma e, com um largo sorriso nos lábios, anunciou:
– Ao sucesso da Almari.
Após o brinde, enquanto as mulheres estavam admirando e observando tudo em detalhe, o genro aproveitou a oportunidade e, diante de Beto e do sogro, comentou.
– Sinceramente Beto, você está de parabéns. Extrapolou minhas expectativas. Tinha quase certeza que você pediria mais recursos. Tanto é que, já prevendo o seu grito de socorro, reservei um capital extra. Mas você realizou um verdadeiro milagre!
Sorrindo, Beto respondeu – Deus realizou o milagre. Eu apenas acreditei, confiei, e executei.
Felizes, todos se abraçaram e, mais uma vez, Beto agradeceu ao sócio e ao compadre pela confiança a ele depositada.
Durante os últimos meses de gestação, Ritinha é obrigada a diminuir a clientela. Sem um local para dar banca aos seus pequeninos, ficava cada vez mais difícil movimentar-se todos os dias de um lado ao outro da cidade. Optou então por dispensar os que moravam mais distante, ficando apenas com aqueles que moravam mais perto. Era com muita dor e lágrimas nos olhos, que se despedia dos seus pequerruchos. Muito emotiva, se apegava facilmente aos seus alunos. Com isso, sua renda foi ficando cada vez menor, e agora mal dava para ajudar nas despesas da casa (compromisso que Beto assumira com sua mãe). Beto, por sua vez, assumiu novo compromisso, comprometendo ainda mais o orçamento. Comprou uma camionete usada, dando uma pequena entrada e dividindo o resto em prestações. Era uma oportunidade que não poderia deixar passar. Com isso, ha meses que não botava um prego na construção. Todo o lucro da Almari agora era para aumentar o capital de giro. Precisava diversificar o estoque, e não poderia ficar a depender da boa vontade do seu ex-patrão, recebendo mercadoria em consignação. Além do mais, com a venda da mercadoria consignada, a margem de lucro era pequena. Já era tempo de a Almari firmar-se e começar a caminhar com suas próprias pernas.
Com a camioneta, deixou de pagar pequenos carretos. Passou a fazer entrega do material vendido, a título de cortesia, somente para aqueles clientes especiais, e em horários após o expediente. Com isso foi cativando a clientela, e aumentando a sua freguesia.
Beto agora raramente dormia em seu quartinho, na casa dos compadres. Sentia muita falta dele. Aquele quartinho humilde, mas confortável, guardava em suas paredes muitas lembranças, alegres e tristes. Segredos, muitos deles inconfessáveis. O tempo passou muito rápido. Os fatos decorridos eram relativamente recentes, mas dava a impressão de que haviam acontecidos há muito tempo. Agora, em sua solidão, deitado no seu improvisado quarto, no escritório da loja, sentia falta de tudo. Dos beijos e abraços de Ritinha, do sossego de Riacho da Mata, do aconchego daquele novo lar, que o ajudou a suportar os primeiros dias na metrópole, da companhia dos compadres, dos mimos da comadre, sua segunda mãe, do cheirinho do café fresco, e dos lençóis limpos. A mente fica vagando, trazendo as lembranças aleatoriamente. Foi indescritível a emoção que sentiu, quando pela primeira vez escutou aquele som contagiante dos Beatles, reproduzido através do seu toca-discos. Desconhecendo o idioma, apenas sentia a música envolvente, frenética. O que dizia a letra? Com as poucas palavras aprendidas no colégio não dava para entender. Mas não importa. A música é pura magia. Tem o poder de nos conduzir, levado pela imaginação. E a saudade de Dona Zefa e Seu Jairo, misturada com incertezas, sentida logo nos primeiros dias de sua chegada à metrópole. Havia momentos que dava vontade de largar tudo, voltar para Riacho da Mata, cair no colo de Dona Zefa, como fazia quando era criança. Abraçar a professora do primário só para sentir novamente aquele cheiro suave de sabonete. A primeira sena de ciúmes, quando Ritinha viu o seu calendário de borracharia. Ah Ritinha, como era bonita. Agora, com aquela barriguinha estava ainda mais linda. Mas tinha que continuar sua batalha, contentando-se com o mínimo de conforto que seu velho e surrado sofá-cama podia lhes oferecer.
Pensando bem, não poderia ficar eternamente arranchado no escritório da Almari, até porque precisava de um escritório com cara de escritório. A clientela da loja estava crescendo e, cada vez, mais exigente. Já era chegado o momento de contatar representantes de produtos de qualidade, de marcar consagradas no mercado. Não poderia barganhar preço em um escritório que mais parecia um cortiço. Precisava encontrar uma solução barata que resolvesse ambas as situações. Pensou, pensou e, eis que surge uma brilhante ideia. Construiria uma meia parede na sala de refeição, separando um espaço com cerca de dois metros e vinte. A meia parede não interferiria na luminosidade do ambiente. A sala de refeição continuaria grande o suficiente para caber uma mesa de seis lugares, armário, e o que mais fosse necessário. E no espaço reservado, caberia a sua cama, o pequeno guarda-roupas, as prateleiras para colocar seus discos, livros, o toca-discos, e seu velho rádio mullard. E assim fez. Sarrafeou um contrapiso na sala, ergueu a meia parede no lado oposto à cozinha, rebocou, e pronto. Naquele momento, era o que podia ser feito. Agora precisava concluir o escritório. Colocou um piso com pontas de estoque de cerâmica, tendo o cuidado de combinar as pedras formando desenhos, rebocou e pintou as paredes. Comprou um conjunto de móveis para escritório todo em aço, ainda em perfeito estado, precisando apenas de uma nova pintura. O conjunto era composto de um arquivo com quatro gavetões, um armário de duas portas, e uma mesa escrivaninha com duas gavetas. A cor era de um verde até bonito, mas estava muito estragado. Colocou tudo em cima da camioneta e levou para uma oficina de pintura de carro de um conhecido. Quando os móveis retornaram, estavam irreconhecíveis. O pintor fez um trabalho no capricho. Lixou todas as peças, aplicou um zarcão e, sobre ele, um cinza claro que combinou perfeitamente com o piso do escritório. Por último, comprou três cadeiras de ferro com estofado preto. Uma de braços com roldanas, e as outras duas, comuns. O velho sofá-cama já fazia parte da história da Almari e não podia simplesmente ser descartado. Recebeu uma bela reforma e continuou ocupando seu lugar de destaque no novo escritório. Colocou um tampo de vidro sobre a escrivaninha e, sob ele, as poucas fotos que possuía. Em destaque, uma tirada no dia da festa em que trocaram o primeiro beijo, onde aparecia ele e Ritinha de corpo inteiro, elegantemente trajados.
Ainda nem tinha dissipado o odor característico de massa fresca, e Beto já estava entrando na Almari com sua mudança. Colocou os poucos móveis na mesma disposição que estavam no quartinho do fundo, na casa dos compadres, somente invertendo as paredes. Agora, o calendário da borracharia ficara na parede oposta à cabeceira da cama, ao lado do espelho manchado.
A comadre sabia que cedo ou tarde, como se foi sua filha, Beto também iria. A estada de Beto foi por pouco tempo, mas o suficiente para se apegarem. Era mais um filho que ia embora. Não para tão longe como fora sua filha.
Conheceram-se numa festa de rodeio. Era tão novinha. A comadre lembra-se como se fosse hoje. Ao chegarem em casa, viu nos olhos da filha o que temia ver. O brilho, o encanto, a leveza que sentimos quando o amor invade nosso coração. – Meu DEUS, o que vamos fazer – pensou a comadre. – Esse homem, que nem conhecemos, arrebata o coração da nossa única filha, tão nova, tão inexperiente, e leva por esse mundão, sabe lá para onde! E a filha se foi. Mas, por ironia do destino, além de não perderem a filha, os compadres ganharam mais um filho maravilhoso. Mas coração não pensa. Apenas sofre. Enquanto estava lá, o quartinho arrumado, mesmo com a ausência de Beto, cada vez mais frequente, ele ainda estava lá. Mas agora, vendo o quarto vazio, mesmo sabendo que não estará tão distante, é sempre uma partida, uma despedida. E aí vem aquele velho aperto no coração.
– Meu filho, não se esqueça de nós – exclama a comadre, junto ao portãozinho do jardim da modesta casa, ao lado compadre, ambos com os olhos rasos d'água.
– Não estarei tão longe – retrucou Beto. São apenas a alguns quarteirões. E jamais esquecerei vocês – concluiu emocionado.
Como a filha, também Beto trouxe-lhes outro membro para fazer parte da família. Uma filha, meiga, carinhosa, educada que, por sua vez, trará uma neta – pensou a comadre. Mas, ainda assim, continua o aperto no coração teimoso que se recusa a raciocinar.
Ritinha já estava nos últimos dias da gestação. A qualquer momento poderia começar as contrações, ou até mesmo romper a bolsa, e sem ninguém por perto. Não, de forma alguma ela poderia ficar só. Beto e os compadres, preocupados com a situação, decidiram que a gestante ficaria na casa deles, dos compadres. A comadre estava bem lembrada do compromisso assumido com Dona Zefa. Além do mais, os compadres já haviam adotado Ritinha e a neta. Era agora uma só família. Dona Zefa não poderia nem sonhar porque a ciumeira seria grande demais. Ritinha tinha consciência de que seria a melhor solução, mas, ainda assim, ficou relutante porque não queria deixar Marquinhos sozinho. Não poderia levá-lo. Além de ser mais um incômodo, tinha a escola. Ficaria muito complicado ele ir sozinho da casa dos compadres até a escola. Não conhecia ninguém por lá que pudesse levá-lo todos os dias. Ele acabaria perdendo as aulas. Mas Marquinhos já era grandinho e poderia muito bem se virar sozinhos. Afinal, eram apenas poucos dias. Mesmo com esses argumentos, Ritinha continuava irredutível. Foi necessário Beto tomar uma posição mais enérgica para convencê-la a ir. Marquinhos era seu filho, é bem verdade. Beto também o tinha como filho. Mas ela, Ritinha, estava pondo em risco a vida de Martinha, sua filha nascitura, totalmente indefesa, com essa atitude infantil, beirando a irresponsabilidade. Ritinha então ponderou e deu-se por vencida. Mas antes, porém, precisava conversar com a mãe biológica de Marquinhos e fazer-lhe algumas recomendações. Beto concordou, mas logo desistiram da ideia. Não que a mãe fosse má, ou irresponsável. Ritinha agora a compreendia melhor. Foram tantas as decepções em sua vida que lhe restou poucas opções. Os filhos, frutos de esperanças frustradas, tornaram-se pesados fardos. E para não dar cabo dos rebentos e de sua própria vida miserável, optou por viver como uma autômata, sem presente, passado ou futuro. Chamaram Marquinhos e tiveram uma longa conversa. Já era um rapazinho e sabia se cuidar. E, no final, recomendaram que qualquer problema que surgisse, recorresse a Dona Romilda ou à vizinha amiga que, durante esses dias, ficaria incumbida de levá-lo à escola. E à mãe, apenas comunicaram as decisões que haviam tomado. Em seguida, Beto retirou a parte superior do beliche e, juntamente com o colchão, arrumou na carroceria da camioneta. Em uma sacola arrumou algumas poucas roupas de Ritinha, pegou a sacola de Martinha, já previamente arrumada, e colocou tudo no carro. Por último, após despedirem de Marquinhos, Beto, com todo o cuidado, conduziu Ritinha até o carro, acomodou-a no banco, e rumaram com destino à casa dos compadres. Foi com grande alívio que Beto deixou Ritinha em casa, sob os cuidados da comadre.
A semana foi de grandes expectativas. Quase todos os dias, após o expediente, Beto ia até a casa dos compadres para fazer companhia a Ritinha. A comadre não conseguia disfarçar a felicidade, ao ver o jovem casal em harmonia. Não se cansava de paparicar os dois. O esmero era tanto que até a sua própria filha já estava com uma pontinha de ciúmes. Nem por sonhos Dona Zefa poderia saber de uma coisa dessas. Aí a ciumeira seria geral.
Finalmente chegou o dia. Ritinha começou a sentir as primeiras contrações. Ao tomar conhecimento, o compadre imediatamente ligou para o taxista que já se encontrava de sobreaviso e, em seguida, avisou a Beto. Sem muita demora, o táxi parou na porta. Os três já se encontravam à espera no portão. Era um final de tarde com poucas nuvens, e soprava uma brisa leve. Martinha não poderia ter um dia melhor para seu retorno. Ritinha estava tranquila e confiante, quando embarcou no veículo, acompanhada dos compadres. Chegaram à maternidade sem maiores incidentes. Era uma maternidade pública, mas bem-conceituada pela organização, e o seu quadro de bons profissionais. Ao contrário do pomposo acontecimento que foi o parto de Helena, Ritinha foi acomodada em uma enfermaria, em companhia de outras parturientes. Pertencente à alta sociedade, gozando de alto poder aquisitivo, Helena tratou de contratar uma doula para acompanhá-la durante o período da gravidez. Essa prática estava começando a ser implantada, visando um parto mais humanizado, no intuito de proporcionar mais conforto, saúde e bem-estar à mãe, e ao bebê. Mas, para Helena, o importante era não sentir dor, não prejudicar sua aparência física, e seguir os ditames da sociedade. Fazia questão de acompanhar o que estava em moda. Sua preocupação com a aparência, de tão exagerada, chegava a dar sinais de Transtorno Dismórfico Corporal (TDC). Enquanto Helena, em seu apartamento individual, aguardava o momento de entrar na sala de parto, Ritinha aguardava em uma enfermaria. Para amenizar a espera, acompanhantes e parturientes confabulavam, falando de quase tudo. Era uma forma de descontrair, acalmar os ânimos, e esquecer os temores. Trocavam informações, falavam das experiências, e até mesmos de coisas íntimas. Para elas, tudo que almejavam naquele momento era uma assistência obstétrica mais humanizada, o direito de ter um acompanhante durante o parto e, após o nascimento, aconchegar seu rebento no seu peito, dando-lhe proteção, amor e carinho. Hoje, graças a DEUS, o parto humanizado é um direito estendido a toda gestante, inclusive na rede pública, independente da sua classe social ou condição financeira.
Um caso em particular, bastante comovente, chamou a atenção de todas. Uma jovem que aparentava pouco mais de quinze anos, a única que estava sem acompanhante, contou que havia sido violentada. Os pais não acreditaram em sua história, e expulsaram-na de casa. Já fazia cerca de cinco meses que, momentaneamente, estava acolhida em uma instituição de caridade. Trouxeram-na e deixaram na maternidade para ter a criança. Após o parto, prometeram que viriam buscá-la, mas já avisaram que não poderá mais ficar na instituição, porque lá não aceitam mulheres com filhos. Daí em diante, o destino dela, e do seu filho, estarão nas mãos de Deus. Ao ouvir a história da jovem, Ritinha lembrou-se da sua própria história. Com os olhos marejados, pediu fervorosamente à sua Mãe Maria Santíssima que, assim como foi amparada, protegesse e amparasse àquela jovem e seu rebento, tão sozinha e tão desamparada nesse mundão cheio de armadilhas.
Beto já havia chegado e, em companhia do compadre, ficou aguardando lá fora. Como estava um pouco nervoso, para acalmá-lo, o compadre começou a falar das inúmeras dificuldades que os antigos tinham que enfrentar. Ele mesmo, o compadre, passou o maior aperreio quando sua progenitora estava grávida da irmã caçula. Naquela época não havia maternidade aparelhada com médicos, enfermeiras, estoque de medicamentos, e tudo o mais. Contavam apenas com uma velha parteira que atendia toda a região, e a proteção DIVINA. A progenitora estava na última semana de gestação, quando a velha parteira precisou ausentar-se por uns dois dias a fim atender a um chamado de emergência. Mas antes de partir, a velha tomou todas as precauções. Acompanhada da sua assistente, dirigiu-se até a casa da mãe do compadre, examinou-a, e constatou que estava tudo em ordem. Apenas a criança ainda não havia encaixado. Mas isso era normal. Presumiu então que, mesmo que ainda não tivesse retornado, a sua assistente daria conta do recado. Seguiu então, montada em sua égua pachorrenta, para atender ao chamado. Por uma fatalidade, as contrações da progenitora começaram antes do previsto. O compadre correu até a casa da assistente da velha parteira, e trouxe-a imediatamente. A assistente, coitada, inexperiente, visivelmente nervosa, começou a prepara a parturiente. As contrações começaram a ficar mais intensas, mas nada de sinal da criança. Por uma centelha DIVINA, a assistente, mesmo com a pouca experiência, constatou que o bebê ainda não havia encaixado. Era um caso que só a sua mestra poderia tentar resolver. Para buscar um médico, além de caro, não haveria tempo. Mesmo com tempo firme, de jipe, (veículo leve, fabricado no Brasil durante as décadas de 50 a 80, com tração nas quatro rodas, que conseguia trafegar por caminhos de difícil acesso) seria mais de um dia de viagem para ir de Riacho da Mata até a metrópole, e retornar com o médico. Foi então que o compadre Jairo prontificou-se a buscar a velha parteira.
– Mas como? – retrucou o compadre. Com aquela égua ronceira, quando a velha chegasse, nossa mãe já estaria morta.
Se tivesse estrada, poderia providenciar um carro. Seria mais rápido. Seu Jairo nem deu ouvidos ao compadre, que naquela época nem sonhavam em ser compadres, porque ainda nem eram casados. Arreou seu cavalo campolina, passou o cabresto na mula russa, famosa e cobiçada pela sua marcha ligeira, esquipado macio, e tocou pras bandas do Maturí, onde se encontrava a velha parteira. Quando lá chegou, a velha tinha acabado de botar mais uma criança no mundo. Seu Jairo pediu água para ele, e os animais, engoliu uma caneca de café, pegou o silhão da parteira (antiga sela feminina que a mulher cavalgava de lado) e a bride da égua pachorrenta, arreou sua mula russa. Ajeitou a velha parteira em sua sela especial e gritou para a sua parceira de viagem – segura a rédea firme que agora nós vamos andar! Tocou a espora de leve no vazio do seu cavalo e, imediatamente, a mula entrou no seu ritmo de pisada ligeira. Cara para cima, cauda baixa, narinas arregaçadas, e olhos arregalados filmando a estrada. Era um animal digno de uma pintura a óleo. E o cavalo também não ficava atrás. E foi assim, nesse ritmo que viajaram quase todo o percurso. Diminuíam a marcha apenas nas passagens mais difíceis, ou nas travessias de algum córrego. Como dizia o ditado antigo, antes que o cuspe secasse no chão, Seu Jairo já estava riscando na porta da casa da parturiente. Com alívio o compadre viu os dois viajantes chegarem montados sobre os animais ofegantes e suados. Agilmente, como um verdadeiro peão, Seu Jairo pulou do seu cavalo, deu a volta, posicionou-se ao lado da mula, e ajudou sua parceira de viagem a apear. Antes mesmo que a velha parteira entrasse na casa da parturiente, um adolescente, ajudante de Seu Jairo, já seguia rua abaixo, puxando os animais pelos cabrestos, para desarreá-los e soltar no pasto. Seu Jairo, com ar de vitorioso e a sensação do dever cumprido, seguiu em direção ao grupo de homens que aguardavam, ansiosamente, o desfecho daquela situação. O amigo, futuro compadre, sem dizer uma só palavra, abraçou-o calorosamente e, em seguida, ofereceu-lhe uma dose de meladinha (cachaça com mel de abelha e outros ingredientes). Desse dia em diante, tornaram-se amigos inseparáveis. Pouco tempo depois, com muita tristeza, Seu Jairo vendeu sua parelha de animais, magnificamente adestrados por ele próprio, para completar o dinheiro da compra do sítio.
Sem perda de tempo, a velha tomou dois goles de água, que lhes ofereceram, e adentrou ao quarto da parturiente. Sem tirar os olhos daquela barriga, arregaçou as mangas da blusa e, maquinalmente, lavou as mãos na bacia que já se encontrava ao lado da cabeceira da cama. Segurou a barriga e, com maestria, começou a fazer movimentos. Apenas com as mãos, sem uso de nenhum aparelho, a velha parteira usou a técnica conhecida como VCE – versão cefálica externa. O suor começou a escorrer da sua fronte. Prontamente, com uma toalha, a atendente enxugou seu rosto, bastante marcado pelas rugas do tempo. Seus cabelos grisalhos, ainda desalinhados pelo vento da viagem, aguardavam o momento oportuno para serem penteados. O estado da parturiente era lastimante. Já havia passado a hora da criança nascer. Continuava a corrida contra o tempo. E foi com um leve sorriso de satisfação que a velha parteira tranquilizou a todos. A criança já estava encaixada. Restava agora um último esforço da mãe para expulsar a sua cria. Acatando ao pedido da velha parteira, a mãe buscou os últimos resquícios de força que ainda lhes restava para, finalmente, coroar com êxito aquele trabalho que, mais uma vez, contou com a ajuda do ALTO. Ha muito que a velha sabia, e sentia muito porque não lhe era possível passar aquele “dom” para sua assistente.
Hoje, em Riacho da Mata, as coisas estão bem mudadas. A vila conta com um pequeno posto médico, as estradas estão bem melhores, e o tempo da viagem até a metrópole está bastante reduzido. A conversa descontraída do compadre deixou Beto bem mais tranquilo. A realidade agora era bem diferente. Os tempos eram outros. Ritinha estava lá dentro, bem assistida, e bem acompanhada pela comadre. Mesmo assim, agora bem mais calmo, Beto murmurou baixinho, pedindo a DEUS que nada de mal acontecesse a Ritinha e a Martinha.
Já fazia quase um par de horas que Ritinha havia sido conduzida à sala de parto. A comadre não sabia mais quantas vezes tinha debulhado o seu terço, quando avistou a jovem auxiliar do médico sair da sala sorridente. A comadre já sabia, mas esperou apenas que a moça confirmasse. Sua neta havia nascido. A mãe e a filha passavam bem. Com grande emoção e os olhos rasos d'água, ela abraçou a portadora da boa notícia e pediu, por gentileza, que transmitisse a boa nova ao primeiro galego alto que encontrasse lá fora, ou na sala da recepção, cujo nome era Beto, que a essa altura deveria estar próximo a um ataque dos nervos. Ela, a comadre, não deixaria o seu posto por nada desse mundo. Ficaria ali de prontidão para acompanhar sua filha e a neta de volta à enfermaria. E lá, sem desgrudar das duas, por um minuto sequer, permaneceria até o momento de irem para casa. Com as graças de DEUS, nada de mal haveria de acontecer.
Depois que Dona Zefa soube do nascimento de Martinha, Seu Jairo não teve mais sossego. Ela queria vir para a metrópole de qualquer jeito, e sem demora. Foi com muito custo, paciência, e bastante diálogo, que Seu Jairo conseguiu acalmá-la. Ponderou que, certamente, saindo naquele horário chegariam tarde da noite ao destino. E, ao chegarem, ainda teriam que providenciar um local para dormir. Finalmente, Dona Zefa convenceu-se de que o melhor seria aguardar até a manhã seguinte. Tomariam o ônibus bem cedo e chegariam à metrópole pouco depois do meio dia. E aí teriam tempo bastante para tomar todas as providências. E assim fizeram. Quando desembarcaram do ônibus, Beto já os aguardava na plataforma. Com os olhos marejados, um misto de alegria e saudade, Dona Zefa abraçou o filho, como se quisesse trazê-lo de volta para seu útero. Naqueles poucos segundos, como um filme, passaram em sua mente os nove meses de gestação, as horas e horas de diálogo mãe e filho, as noites mal dormidas cuidando das cólicas, das febrículas, os sobressaltos oriundos das quedas, dos arranhões, a dor da primeira desilusão. Calada, sem dizer nada, sem deixar transparecer, sentindo-se impotente, comungava a dor do filho. Sabia que era impossível, mas como ela gostaria de curar aquela dor tão doída com merthiolate e band-aid, como sempre fazia. Em seguida, abraçaram-se pai e filho. Cronologicamente, o tempo passado foi muito curto, mas para Seu Jaime foi uma eternidade. Já nem se lembrava mais sobre aquelas dúvidas que tivera a respeito da masculinidade do seu filho. Os temores de ter que sustentar, por toda uma vida, uma maricona mal falada por toda a redondeza, estavam sepultados. Seu filho agora é um homem-feito, um jovem empresário em plena ascensão, motivo de orgulho para qualquer pai. Melhor seria se tivesse dado um neto, mas estava conformado. DEUS sabe o que faz. Dona Zefa olhou mais demoradamente para o filho e pensou – não estava diante de um Cardeal, de um Juiz, ou alguma outra autoridade, mas era seu filho. Lembrou-se dos conselhos da comadre. O que importa é a sua felicidade. E ela viu a felicidade estampada nos olhos de Beto. Mas, mãe é mãe, e não pode deixar de observar os mínimos detalhes.
– Meu filho, você está magro – sentenciou Dona Zefa. Aposto que não está se alimentando direito – complementou.
Sem contra-argumentos, Beto pegou a bagagem, arrumou tudo na camioneta, e rumaram em direção à casa dos compadres, onde Ritinha e Martinha também se encontravam, recém-chegadas da maternidade.
Ritinha estava apreensiva e temerosa. Era o primeiro encontro com a mãe de Beto, e não sabia como seria a recepção. Depois que soube da chegada da neta, Dona Zefa esqueceu completamente o compromisso seu e de Beto com a Santa. Os compadres já haviam tranquilizado ao jovem casal. – Mas uma coisa é esquecer, outra coisa é apenas não comentar para evitar atritos e/ou constrangimentos – pensou Ritinha. Isso poderia tornar-se um grande empecilho, prejudicando substancialmente o relacionamento entre mãe e nora. Com esses pensamentos povoando sua mente, na tentativa de amenizar o nervosismo, Ritinha mergulhou nos afazeres domésticos. Na cozinha, um pouco mais calma, absorta em seus pensamentos, ela ouviu a comadre anunciar a chegada dos compadres. Era chegado o momento de estar frente a frente com a sogra. Seu coração disparou.
De formação bem diferente de Seu Jairo, Dona Zefa era uma verdadeira leide. Alta, pele alva, cabelos ondulados, grisalhos, mesmo com roupas mais simples, não deixava de transparecer seu porte fino e elegante. Seu pai, comerciante, descendentes de espanhóis, tinha dupla cidadania. Já tinha alguns bens, quando recebeu uma polpuda herança, que promoveu uma melhora substancial em sua situação financeira. Dona Zefa alcançou grande parte desse período de apogeu. Frequentou bons colégios, teve aulas particulares de educação doméstica, e de música. Chegou até a executar algumas peças musicais em seu piano de calda. Conheceu pessoas importantes da alta sociedade. Rapazes elegantes, bonitos, filhos de famílias ricas. Dentre eles, alguns pretendentes. Na ocasião, era muito jovem e nem pensava em casar-se. Mas aí, sua mãe adoeceu, e seu pai gastou quase toda a sua fortuna na tentativa de salvá-la. Foi um período negro em sua vida. De um lado, o pai sofrendo, sentindo-se impotente por não poder salvar sua amada, mesmo com todo o dinheiro que possuía. Do outro, a mãe definhando a cada dia, prostrada em seu leito, até o dia da inexorável partida. Filha única, ainda jovem e inexperiente, foi muito difícil lidar com tudo isso. O pai emocionalmente abalado, sem condições de trabalhar, e o dinheiro ficando cada vez mais escasso. A criadagem foi reduzida a apenas uma serviçal, que passou a cuidar de tudo. Como o trabalho ficou muito pesado para uma só pessoa, Dona Zefa foi obrigada a aprender e realizar tarefas domésticas. O piano já não mais existia, os amigos foram se afastando, e não recebiam mais convites para as festas. Quando a mãe faleceu, Dona Zefa teve uma conversa com o pai e, com muito custo, conseguiu convencê-lo a executar um plano emergencial. Motivado pelo intuito de não deixar a filha desamparada, começou a executar o plano emergencial. Vendeu o resto dos bens, inclusive o palacete com móveis e pratarias, as poucas ações que ainda possuía, quitou todos os débitos e ainda sobrou algum dinheiro. Esse capital foi o suficiente para comprar uma modesta casa na vila de Riacho da Mata, e conseguir mantê-los até a chegada da aposentadoria.
A escolha do lugar não foi por acaso. Numa dessas andanças, em viagem de negócios, o pai de Dona Zefa passou pela vila, e achou a paisagem muito bonita. Foram poucas horas que permaneceu na vila, mas ficou encantado com a harmonia do lugar, a simplicidade e prestimosidade dos habitantes. Conseguiu o número do posto telefônico e, como um milagre, em pouco mais de quinze dias, já estava quase tudo resolvido. O pai, sempre pedindo a Dona Zefa uma opinião, ou um parecer, mas a resposta era invariavelmente a mesma. Ela queria apenas o bem-estar do pai. Tinham sofrido muito. Ele, principalmente, estava muito debilitado, e precisava de um canto onde pudesse restabelecer suas energias. Eram as últimas economias, e as últimas forças que o pai dispunha para executar o planejado. Dona Zefa pedia a DEUS, todos os dias, para que nada desse errado, pois tinha certeza de que o pai não sobreviveria a mais uma derrota.
Como sempre, o encontro dos compadres foi com muita alegria, principalmente agora com a chegada dos novos membros.
– Olha só compadre, quem herda não furta – falou Seu Jairo admirando Ritinha. Veja que linda nora meu filho me arrumou! – e continuou entusiasmado – com certeza herdou o bom gosto do pai. Em seguida, deu um abraço caloroso em Ritinha, osculou-lhe a testa e acrescentou – seja bem-vinda minha filha, e me aceite como um velho pai. Em seguida, foi a vez de Dona Zefa. Olhou a norinha carinhosamente, e viu sob seus lindos olhos castanhos, um olhar tímido e assustado. Lembrou-se de quando ela, Dona Zefa, chegou a Riacho da Mata pela primeira vez, tímida e assustada. Tudo novo, pessoas novas, e o pai debilitado, necessitando de alguém para cuidar dele. Ela frágil, num lugar estranho, precisando buscar forças, sabe DEUS de onde, para um novo recomeço.
O lugar era como o pai havia descrito. Parecia um presépio em tamanho real. A casa que estavam negociando, pertencia a uma senhorinha, de idade bastante avançada, que não tinha filhos. Estava fechada, desde quando a proprietária havia falecido. O pai adquiriu das mãos dos herdeiros. Como já possuía alguns poucos móveis e utensílios domésticos, Dona Zefa preocupou-se em trazer apenas roupa de cama, mesa e banho, além dos seus pertences pessoais. O pai separou, dentre os muitos que existiam no palacete, um colchão de casal, um colchão de solteiro, quatro travesseiros, embalou tudo, e despachou para Riacho da Mata, a ser entregue no posto telefônico. Ao chegarem, ficaram hospedados na única pensão existente, enquanto concluíam a negociação. No dia seguinte, procuraram o representante dos herdeiros, o que ficou à frente de toda a transação. Apreensivos, pai e filha pediram para ver a casa e a documentação. Até então, tudo havia sido tratado através de telefonemas. Como o pagamento ainda não tinha sido efetuado, não perderiam nada, caso houvesse qualquer suspeita de fraude, ou o imóvel não estivesse de acordo com o que haviam combinado. Mas, a essa altura, desfazer o negócio e procurar outro imóvel, seria um desastre. Dificilmente encontrariam outro imóvel à venda naquele lugar. Teriam que prolongar a estada na pensão, e o pai, certamente, não resistiria. Dona Zefa não queria nem pensar em uma coisa dessas. Mas DEUS estava no comando. Ela orava todos os dias, pedindo para que tudo desse certo, e que seu pai pudesse viver seus últimos anos, em paz, naquele cantinho do mundo, que ele mesmo havia escolhido.
O representante dos herdeiros, com olhar sereno, bastante solícito, cumprimentou-os e convidou-os a entrar. Em seguida, como manda a tradição e os bons costumes dos anfitriões do interior, pediu à serviçal que trouxesse café e água para os recém-chegados. Enquanto degustavam um delicioso café autêntico, torrado em bolandeira, e untado com pedaços de rapadura, trocaram dois dedos de prosa. Aos poucos, a tensão dos visitantes foi se dissipando. Sem mais preâmbulos, o anfitrião apresentou toda a documentação do imóvel, inclusive o contrato e as procurações. O pai e Dona Zefa examinaram tudo, e constataram que os documentos estavam em ordem. Seguiram então para vistoriar o imóvel.
A casa era pequena e modesta, mas bem aconchegante. As paredes pintadas de um bege bem clarinho, quase palha, e as portas e janelas eram verdes. No lado direito tinha um pequeno hall e, do lado esquerdo, ficava a janela do primeiro quarto. No hall havia uma porta de duas bandas, que dava acesso a uma sala retangular. Em cada banda da porta tinha uma portinhola, tipo vigília. O acesso do primeiro, e do segundo quarto, era através da sala. A única diferença era a posição das janelas. A do primeiro quarto abria para a rua, enquanto a do segundo abria para uma espécie de beco que existia na lateral da casa. Uma arcada separava a sala da cozinha, com um fogão a lenha. E, finalmente, no fundo da cozinha, uma porta, que dava acesso a uma latada, e um pequeno quintal. Sob a latada, havia um tanque para lavar roupas e, na lateral, o sanitário.
Após a vistoria do imóvel, foram até o posto avançado do único banco ali existente, onde o pai entregou ao representante dos herdeiros um cheque administrativo, e recebeu um contrato de compra e venda assinado por todos os herdeiros. No contrato constava uma cláusula, onde os herdeiros se comprometiam a assinar a escritura do imóvel, logo após a quitação ali estabelecida. Compradores e representante dos vendedores despediram-se, ao tempo em que pressentiam o nascimento de uma sólida amizade.
A manhã passou rápida, e já era quase meio dia quando retornaram à pequena pensão. Estavam aliviados, tranquilos, satisfeitos e agradecidos ao Pai Celestial, com o desfecho do negócio. Após o almoço, Dona Zefa deixou o pai descansando e, acompanhada de uma auxiliar, conseguida através da dona da pensão, seguiram em direção à sua nova residência, para fazer uma faxina geral. Antes, porém, passou no armazém e comprou baldes e material de limpeza. Ao chegarem ao destino, Dona Zefa passou as primeiras atribuições à serviçal e foi refugiar-se no quintal. Estava exausta e precisava repor suas energias. Sentou-se em um banco tosco de madeira, debaixo de uma mangueira, olhou o firmamento e, imediatamente desfilaram as lembranças dos últimos acontecimentos em sua vida. Na solidão daquele quintalzinho começou a chorar. Chorou agradecida pela aquisição de um novo lar, pela morte de sua querida mãezinha, pela doença do seu pai, causada pela tristeza, pela incerteza do amanhã. As economias estavam quase no fim, mas, confiantes, aguardavam a aposentadoria do pai. Sem imaginar que um dia chegaria àquela situação, por um sopro DIVINO, o pai começou a contribuir para o IAPC – Instituto de Aposentadoria e Pensões dos comerciários, que, posteriormente, foi unificado ao ISS – Instituto de Serviços Sociais do Brasil. Dona Zefa tinha receio de, com essas mudanças, poderia haver atraso, e a aposentadoria demorar de sair. Poderia até mesmo nem sair, ou o pai viesse a falecer, deixando-a sozinha, sem ninguém para socorrê-la. O pai não pensou em prepará-la para uma situação dessas. As únicas coisas que aprendera, foram etiquetas de boas maneiras e tocar piano. O que seria deles sem a aposentadoria. O que seria dela sem o pai, perdida naquelas terras desconhecidas, sem parentes, sem amigos, sem conhecidos. Porque não pensou nisso antes? Reconhecia agora que tinha sido imprudente. Pensou em satisfazer aos desejos e ao bem-estar do pai, mas não pensou em sua própria segurança. Seus pensamentos foram interrompidos com a chegada da serviçal.
– Dona Moça, a vizinha disse qui quer conhecer a sinhora.
– Peça-lhe que entre – respondeu Dona Zefa, tentando enxugar as lágrimas.
Ao entrar no quintal, a vizinha olhou nos olhos de Dona Zefa, e sentiu algo muito estranho. Um misto de alegria e saudade invadiu-lhe o ser. Mas como é possível um sentimento assim por uma pessoa estranha? – pensou a vizinha. Foi aí que veio a certeza. Ela era a pessoa esperada. Por muito tempo, pedia em suas orações que viesse alguém para compartilhar seus momentos de alegria e tristeza, que juntas pudessem vencer as batalhas diárias, naquele mundinho quase esquecido. Apesar do bom relacionamento que mantinha com seus pais, era muito difícil eles entenderem seus anseios, esclarecer suas dúvidas. Por mais que haja esforço entre ambos os lados, existem assuntos que uma mãe não consegue entender a filha, principalmente quando ha uma grande diferença de idade entre elas, como era o caso. As barreiras tornam-se praticamente intransponíveis. Além do mais, o povoado contava com poucos habitantes e, na grande maioria, eram pessoas idosas. Também como Dona Zefa, a vizinha tinha chegado ali por ironia do destino. Não sabia ao certo, pois ainda era muito pequena, quando o fato aconteceu.
Percebendo o estado em que se encontrava Dona Zefa, a vizinha sentou-se ao seu lado e, sem dizer uma só palavra, carinhosamente abraçou-a. Dona Zefa soluçou e derramou as últimas lágrimas reprimidas. Por um bom tempo, permaneceram ali, abraçadas, naquela quietude, ouvindo apenas o cantar de pássaros e o farfalhar das folhas das árvores, embaladas pela brisa. Dona Zefa não queria, mas precisava afastar-se daquele ombro tão acolhedor.
– Desculpem-me. Não posso abusar da bondade de alguém que nem ao menos conheço – disse Dona Zefa, quebrando o silêncio, ao tempo em que se afastava para examinar melhor a recém-chegada.
– Sem problema – respondeu-lhe a visitante esboçando um lindo sorriso.
Como Dona Zefa, a vizinha também era jovem. Olhos e cabelos negros, ondulados, pele clara curtida pelo sol, tinha um rosto bonito, alegre, agradável, e dava a impressão de ser bastante familiar. Em seguida, adentrou a cachorrinha a procura da sua dona. Ao avistá-la, fez festa, pediu e recebeu afago. Olhou para Dona Zefa e abanou o rabinho, querendo dizer que tinha aprovado a nova amiga de sua dona. Pouco tempo após a chegada da vizinha, Dona Zefa já estava refeita. Tagarelando como velhas amigas, acompanhadas pela cachorrinha, entraram na casa, e começaram a ajudar na faxina. Nem imaginavam o quanto perduraria aquela amizade, e que, tempos depois, seriam comadres de fogueira.
O pai de Dona Zefa, agora ciente da situação em que ambos se encontravam, deitado no quartinho acanhado da pensão, olhando para o teto, sem conseguir dormir, pensava. Veio parar naquele lugar, por uma espécie de intuição, um chamamento. Estava certo de que viveria ali, em paz, seus últimos dias. Além disso, não teria outra opção, porque suas condições financeiras não permitiam. E Zefa, será que também encontraria sua paz, sua felicidade? O homem de outrora, produtivo, dinâmico, que conseguia vencer qualquer concorrência e gerar lucro nos seus negócios, já não mais existia. Foi negligente com a filha, criando-a em uma verdadeira redoma de vidro, sem prepará-la para uma situação como aquela. Ficou até surpreso e admirado com o empenho dela, discutindo estratégias, traçando planos para salvá-los de uma situação financeira caótica. Mas agora, eles chegaram ao limite. Só tinham um ao outro. Qualquer um dos dois, sozinho, dificilmente conseguiria sobreviver. Restava-lhe agora, pedir a DEUS que não o levasse antes de aparecer alguém para amparar e cuidar dela.
Retraída, sem saber o que fazer com as mãos, Ritinha aguardou. Elegante, com passos firmes, Dona Zefa aproximou-se dela. Seus olhares se cruzaram. Quando Ritinha fitou aqueles olhos cinza esverdeado, viu tanto amor e tanta ternura que seus temores e dúvidas se dissiparam como num passe de mágica.
– Dificilmente uma mãe se engana – disse Dona Zefa, ao tempo em que abraçava carinhosamente Ritinha. E continuou – meu filho está feliz, e você é a causadora dessa felicidade. Só tenho a agradecer a você por tudo que tem feito a ele, e retribuir com meu amor sincero, e muito carinho. E a minha neta, posso vê-la?
– Sim, pode sim – respondeu Ritinha com o melhor dos seus sorrisos.
– Venha Jairo, vamos ver nossa neta – falou Dona Zefa. E completou, com ar de experiente – não faça barulho porque ela deve estar dormindo. Recém-nascido é assim, dorme a maior parte do tempo.
O casal recém-chegado acompanhou Ritinha e a comadre até o quarto onde estava Martinha. Como de fato, estava dormindo. Mas pela fisionomia dava para perceber a mistura dos dois, o pai e a mãe. A avó coruja, puxando brasas para sua sardinha, exclamou – mas é a cara do Beto! Seu Jairo olhou, olhou, com cara de entendido, e sentenciou: – pra mim, tem cara de joelho. Não tem jeito. Todo recém-nascido tem cara de joelho. Mas, depois dessa desastrosa declaração, teve que sair do recinto quase que às pressas, porque ficou em desvantagem. Três mães, sentindo-se ofendidas, atacando de uma só vez, é um páreo muito duro para qualquer ser vivente.
Retornando à sala e, sentindo-se mais aliviado na companhia de Beto e do compadre, Seu Jairo procurou redirecionar ao dialogo interrompido. Não que as mulheres fossem companhias desagradáveis, mas é que são mais sensíveis – pensou Seu Jairo. A conversa com os homens corre mais solta, não precisa ter tantos cuidados. Os homens, de um modo geral, relevam qualquer deslize, qualquer comentário ou palavra inadequada. As mulheres não, porque se melindram muito facilmente. Seu Jairo sabia muito bem disso. Dependendo dos participantes da conversa, procurava se policiar, escolher as palavras certas, mas, vez por outra se descuidava e, quando percebia, já tinha soltado a pérola. Aí, não tinha jeito. Melhor não tentar remendar, porque é sempre pior.
– E aí homem, conta as novidades de Riacho da Mata – era o compadre querendo saber notícias do rincão.
– Tudo na mesma – respondeu Seu Jairo. Uma melhora aqui, outra piora ali, e vamos levando, até o dia que Deus quiser.
Nesse momento, o assunto começa a girar em torno do sucesso de Beto, que fica meio sem jeito, com tantos elogios, por parte do compadre. Seu Jairo, por sua vez, não cabe em si com tanto orgulho do filho. Se Beto seguisse seus conselhos – pensou Seu Jairo com seus botões – talvez estivesse agora longe, amansando bichos bravos por esse mundo afora, amancebado com alguma quenga, ou participando de rodeios, exercendo uma profissão arriscada, onde qualquer erro poderia ser fatal. Ou talvez nem chegasse a fazer algum sucesso. Poderia sofrer um acidente grave e morresse, ou ficar inutilizado para sempre.
Admirando a neta, o pensamento de Dona Zefa voou para bem longe. Foram incontáveis as vezes em que orou, pedindo a Santa Rita das Causas Impossíveis, que abrisse uma porta para seu filho, que o afastasse dali, principalmente para livrá-lo daquele sofrimento, daquela dor causada por um amor impossível. Esses sentimentos profundos, vindo de dentro da alma, dificilmente um filho consegue esconder de uma mãe. Era muito grata a Ritinha por ter conseguido trazer paz ao coração do seu filho. Para uma mãe, antes de tudo, está a felicidade do seu filho. A Santa Rita também era mães e, certamente, compreenderia. ELA perdoaria e aceitaria a quebra da promessa, pois o motivo era mais do que justo. Lá no fundo, Dona Zefa preferia que Beto conseguisse uma posição mais privilegiada. Como juiz, ou outro cargo importante, certamente estaria mais próximo de alcançar uma vida opulenta, como Dona Zefa teve a oportunidade de viver. Não que ela tivesse saudade ou desejasse voltar àquela vida de apogeu. Em sua remota lembrança, aquilo tudo aconteceu como se fosse uma noite mágica, como num conto de fadas, um faz de contas. Para Dona Zefa, Riacho da Mata não foi apenas um recomeço. Foi realmente o início da sua existência. Em sua memória, daquele período de deslumbre, restou apenas uma vaga lembrança. Foi em Riacho da Mata que ela começou a viver uma vida realmente verdadeira. Teve a oportunidade de conhecer pessoas autênticas, prestativas, que, desinteressadamente, ajudam àqueles que precisam, sem almejar nada em troca. As pessoas sentem prazer em servir. É algo tão corriqueiro, tão comum, que os forasteiros facilmente se adéquam àquele processo de escambo. Em troca, como dádiva, sem saber como, os doadores recebem aquela energia revigorante, acompanhada de uma indescritível paz reparadora. Talvez Dona Zefa desejasse que, como ela, Beto também tivesse a oportunidade de conhecer os dois mundos e decidisse em qual deles estaria mais feliz.
Apesar da insistência dos compadres, Seu Jairo e Dona Zefa acharam melhor ficar na pensão de Dona Romilda, onde Beto já havia providenciado as acomodações. Alegaram que, com a presença do casal, a comadre ficaria ainda mais sobrecarregada, sem contar com as instalações físicas, que não era suficientemente grande para abrigar tantas pessoas. Se não houvesse alternativa, dava-se um jeito, e todos se acomodariam. Ma não era o caso. A contragosto, os compadres concordaram, mas sob uma condição. Não abririam mão da presença de todos, no dia seguinte, para um almoço em família. Satisfeitos, todos concordaram. Despediram-se e seguiram, na camioneta de Beto, em direção à pensão de Dona Romilda.
Ao chegarem, foram recepcionados pela própria dona do estabelecimento, com seu jeitão peculiar, espontâneo e descontraído. Alegando que estava assoberbada, pois era ora de servir o jantar, pediu a Beto e a Raul que acomodassem o casal no quarto reservado para eles. E, quando terminassem de se aprontar, retornassem à sala de refeições, para tomar uma sopa de verduras, acompanhada com torradas de pão de alho, especialidade da casa. Pediu a Beto que também ficasse para o jantar. Na verdade, não foi um pedido. Foi uma intimação. Além de fazer um pouco mais de companhia aos seus pais, Beto relataria a Dona Romilda, tintim por tintim, as últimas novidades sobre a sua filha Ritinha, e a sua neta. Ela não aguentava mais de saudade. Durante esses dias todos, só tinha conseguido vê-las uma única vez no hospital. Estava indignada, porque, depois de enfrentar uma burocracia sem tamanho, só teve direito a fazer uma visita de meia hora.
A sala de refeições já estava vazia quando o grupo se reuniu para jantar. Enquanto Seu Jairo e Beto conversavam com Raul, Dona Zefa pode ficar mais à vontade com Dona Romilda. Com seu jeitão espontâneo, agradeceu de coração pela receptividade, o amor e carinho que eles estavam dedicando à sua filha. Como havia dito, a visita no hospital foi muito curta. Ainda assim, deu para observar o cuidado e o carinho que a comadre dispensava a Ritinha e à criança. Nem ela, Dona Romilda, cuidaria tão bem da filha. Foi Deus que colocou pessoas tão maravilhosas no caminho de Ritinha. Não tinha palavras para expressar a sua gratidão a todas elas. Confidenciou também, que Ritinha era a filha do coração, presenteada pela sua Mãe Maria Santíssima. A Graça Divina colocou-a em seu caminho, em substituição à outra filha que ela havia perdido há muito tempo. Nesse momento, uma imensa tristeza tomou conta de Dona Romilda. Dona Zefa, olhando no fundo daqueles olhos vivos, verdes, agora enevoados, percebeu muita tristeza e sofrimento naquele ser. E aí reconheceu. Estava diante de alguém que, sem sombra de dúvida, sofrera muito mais que ela. Os olhos são as janelas da alma. Basta uma análise criteriosa, acompanhada de minuciosa observação, para percebermos os inúmeros detalhes que passam despercebidos. Na maioria das vezes, nos detemos a observar o superficial e deixamos de admirar o que verdadeiramente importa. Embevecidos com o aspecto físico, o traje e a elegância, deixamos de enxergar a beleza interior, verdadeiro tesouro que habita dentro de nós.
Recuperando-se daquele momento nostálgico, Dona Romilda passou as mãos pelo rosto, como se tentasse tirar aquelas lembranças da sua cabeça, deu um leve sorriso e completou a sua fala. Pediu a Dona Zefa que não ficasse enciumada, porque Beto havia conquistado seu coração e também tinha sido adotado. Era um menino de ouro, gentil, educado, trabalhador e muito responsável. Mas agora, conhecendo os pais, entendia que não poderia ser diferente. Como diz o ditado popular, “filho de peixe, peixinho é”.
E a vida continua. É chegado o momento de Seu Jairo retornar ao sítio. Ele alega que tem muitas tarefas a serem realizadas, e já está passando o tempo de plantar. Dona Zefa, por sua vez, contra-argumenta que a neta ainda necessita de cuidados, e é muito trabalho para a comadre. Mas, no fundo, o que Dona Zefa sente, é o apego e o ciúme da neta. É a saudade do filho, mesmo não gozando da sua companhia a todo instante. Finalmente, com muito custo, e a contragosto, Seu Jairo convence a Dona Zefa retornar ao sítio.
Como planejado, Ritinha e Martinha retornaram para a casa da mãe, provisoriamente, enquanto construía o apartamento sobre a loja. Foi instalado um berço no quartinho improvisado, onde passaram a dormir Ritinha, Marquinhos e agora Martinha, o novo membro da família. Marquinhos, muito feliz com a chegada da irmãzinha, já não dava tanto trabalho a Ritinha. Pelo contrário, até ajudava em algumas tarefas. Talvez por receio de se apegar, a mãe, em momento algum, quis aproximar-se da neta. Passados alguns dias, ao atravessar a sala, a mãe viu, através da porta do quarto entreaberta, que Ritinha estava amamentando a filha. Sem conseguir controlar a curiosidade, ela entrou ligeiramente no quarto, olhou Martinha e comentou – é, parece com tu e teu Beto.
O movimento na loja estava crescendo e Beto agora precisava da ajuda de Ritinha. Mas Martinha ainda estava muito novinha e, além disso, Ritinha não queria deixar Marquinhos sozinho em casa durante todo o dia. Precisavam encontrar uma solução, porque essa situação não podia perdurar por muito tempo. Também não podiam resolver a questão de qualquer jeito, a toque de caixa, sem um planejamento prévio. Como faltava pouco para findar o ano letivo, preferiram aguardar um pouco mais e arrumar as coisas de uma maneira mais lógica. Providenciariam uma escola para Marquinhos perto da loja, onde ele poderia ir sozinho da loja para a escola, e vice-versa. Beto levaria os três para a loja, onde permaneceriam durante o dia, e retornariam somente à noite. Marquinhos iria à escola, Ritinha ficaria trabalhando no escritório, ao tempo em que, também cuidaria de Martinha. Quando Marquinhos retornasse da escola, Ritinha o ajudaria nas tarefas da escola e, durante o resto do tempo, ficaria aprendendo e ajudando Beto nas tarefas da loja.
Conseguiram uma nova escola para Marquinhos e ficaram aguardando findar o ano letivo, para providenciar a transferência. Ritinha aproveitaria os poucos meses que faltavam, para aprender sobre as novas tarefas a serem realizadas na loja. Pegou as apostilas dos cursos que Beto havia feito e começou a estudar. Beto comprou uma máquina de datilografia remington, usada, e levou para a casa de Ritinha. Entre um afazer e outro, Ritinha passava o dia treinando datilografia e estudando nas apostilas de Beto. A vizinhança toda já sabia. Juntavam toda e qualquer folha de papel usada, mas que tivesse uma das faces em branco, e levavam para Ritinha treinar. O manual de instruções era claro. Posicionar as mãos corretamente sobre o teclado, pressionar as teclas correspondentes a cada dedo, e sem olhar para o teclado. O dedo mindinho, vermelho e dolorido, sem trégua, vez por outra escorregando por entre as teclas, enquanto uma por uma das páginas eram povoadas de “asdfg”.
Mas valeu o esforço. Mesmo vendo parte do escritório da Almari sendo transformado em berçário, Beto estava muito satisfeito. Sem contar que sua família estava ali, bem próxima, Ritinha havia se revelado uma excelente gerente administrativa. Após efetuar os lançamentos diários, examinava, minuciosamente, o fluxo de caixa. Solicitava diariamente os extratos, e fazia a conciliação bancária. Todos os pedidos e recebimentos passavam sob seu controle rigoroso. Despesas extras só eram liberadas depois de analisadas e encaixadas no orçamento. Antes, porém, o solicitante tinha que ouvir aquele sermão: todas as despesas têm que estar dentro do orçamento. Aqui não existe urgência, – dizia ela – porque urgência é tudo aquilo que não foi providenciado a tempo.
Marquinhos sempre foi um menino precoce. Prestes a completar oito anos, já não dependia tanto de Ritinha e Beto. Pelo contrário, ajudava-os em algumas pequenas tarefas. Uma vez ou outra pedia algum auxílio nas tarefas da escola. Após o término dos deveres escolares, dividia seu tempo entre cuidar de Martinha e ajudar Beto na loja. Esquentava o leite, colocava na mamadeira e dava a Martinha. Depois, colocava sua cabecinha no ombro e ficava passeando com ela, dando tapinhas nas costas, até arrotar. Efetuava a venda de algumas mercadorias mais corriqueiras, inclusive tinha sua própria clientela. Alguns até ligavam para ele, faziam o pedido e solicitavam o seu serviço de entrega. Era uma cola de pvc, uma conexão, ou outro material que faltava na reforma. Marquinhos anotava, pegava o material e levava até o cliente. Isso, invariavelmente, lhes rendia uma gorda gorjeta, que Ritinha depositava em sua poupança. À noite, quando voltavam para casa, após o jantar, dedicava-se aos estudos até a hora de dormir.
Lentamente, o apartamento sobre a loja começa a ser construído, na medida do possível. O desafio era grande, porque as despesas com a construção provinham dos recursos próprios. Tudo dentro do orçamento, e sem usar o capital da empresa. Até mesmo uma sobra de estoque utilizada na obra, era criteriosamente lançada.
Os feriados e finais de semana eram agora dedicados à obra, exceto os especiais, reservados para os encontros do casal. Antes, a preocupação era somente Marquinhos. Agora tem Martinha que requer maiores cuidados. Nesses dias de encontro, Ritinha prepara tudo com antecedência. Leva Martinha com sua sacolinha para a casa das velhas amigas solteironas, e Marquinhos passa o dia em companhia do filho do sócio. Apesar da diferença de idade, eles se dão muito bem. A filha do compadre, mãe do garoto, gosta muito de Marquinhos. Ela fica muito feliz ao ver os dois se divertindo naquela casa imensa. É no silêncio da loja fechada que, nesses poucos encontros amorosos, Beto e Ritinha se entregam no quartinho improvisado, anexo ao refeitório da Almari. Ao som baixinho de uma música melosa, degustando um vinho barato, acompanhado de queijo e salame, se entregam nas asas da velha paixão. Cansados, exaustos pela batalha de todos os dias, mas felizes, deixam suas mentes viajarem pela longa estrada percorrida. Ritinha já se acostumou, e não tem mais ciúmes daquela loira oxigenada do calendário de borracharia. Nos outros dias de folga, Beto e Marquinhos, sob o comando do velho mestre de obra, conhecido de longas datas, literalmente metem mão na massa e, aos poucos, seguem erguendo o pequeno castelo, onde pretendem viver muitos dias felizes.
Após um dia exaustivo de trabalho na Almari, Ritinha tinha acabado de chegar em casa, cansada mas muito feliz. Era o final de tarde de uma sexta-feira e ela havia combinado com Beto passarem o sábado juntos. Marquinhos tinha saído para comprar pão, e a casa estava em silêncio. Seus pensamentos começaram a divagar. As coisas estavam melhorando a cada dia, mas não via a hora de mudar-se para seu canto. Aí deixaria de incomodar as amigas, Marquinhos teria seu quarto tão sonhado, e o melhor, ficaria com Beto todas as noites. E não era somente poder fazer amor quando quisesse, sem depender de favores. O prazer de dormir de conchinha, aninhada no peito do seu amado, com os dedos dos pés entrelaçados, sem sobressaltos, sem compromisso de horários, não tem preço. Voltou à realidade quando percebeu que Martinha havia parado de sugar seu seio. Olhou-a e constatou que dormia como um anjo. Beijou-a e colocou-a no berço. Foi quando percebeu o ranger da porta do quarto se abrindo. Admirada pensou – Marquinhos já retornou? O que aconteceu para ele retornar tão rápido? Assustou-se quando ouviu a voz do estrupício vociferando.
– Sua vadia, rameira… você é minha, sempre foi minha. Eu é que devia ter sido o primeiro. O primeiro e único.
Quando Ritinha percebeu, já era tarde. Estava totalmente dominada por Zé do Ouro. Espumando, com os olhos avermelhados, talvez embriagado, drogado, ou possuído, imobilizou-a pelos braços. Quando Ritinha conseguiu recuperar-se do susto e começou a gritar, ele enfiou um pano em sua boca. Parece que o demônio estava na espreita, aguardando o momento oportuno para atacar. Naquela hora, somente uma intervenção DIVINA poderia salvar Ritinha das garras daquele endemoniado. Foi então que Marquinhos apareceu. Voltou para pegar o dinheiro do pão, que havia esquecido sobre a mesa. Atraído pelo barulho, olhou através da porta do quarto entreaberta, e avistou a sena.
– Ritin… Zé do … Ritin… tá … Zé do … tá …
Era Marquinhos, diante de Dona Romilda, gesticulando, como os olhos arregalados, sem conseguir falar, tomado pelo desespero.
Marquinhos ainda era muito pequeno, quando a mãe, definitivamente, deixou-o aos cuidados de Ritinha. O seu mundo resumia-se ao pequeno quarto, Ritinha e a escola. Quando a mãe e/ou Zé do Ouro chegavam em casa, ele já estava dormindo. E, mesmo acordado, ele e Ritinha, refugiavam-se no quarto improvisado. Nunca chamou a mãe de mãe, nem o pai de pai. Para ele, Ritinha era a sua mãe.
Dona Romilda entendeu perfeitamente o que estava acontecendo. Aliás, há muito já esperava por isso. Depois dos últimos acontecimentos, até baixou a guarda. Ritinha grávida, e agora com uma filha, achou que o perigo havia passado, e não mais iria acontecer. Mas, infelizmente, aconteceu. Agora não é hora de achismo, – pensou – é hora de agir. Passou a mão no rolo de massa e saiu porta afora. Raul, ao ver o semblante da velha companheira, percebeu que a coisa era séria, e ela não estava para brincadeiras. Sem nenhuma pergunta, com a camisa caqui semiaberta, por conta do abdômen bastante proeminente, e a desgastada sandália japonesa sob os pés, seguiu a companheira. Apesar dos quilos extras, Dona Romilda seguia adiante, em ritmo acelerado. Ao entrar na casa de Ritinha, avistou-a rendida sobre o beliche de Marquinhos, com os olhos arregalados, debatendo-se, grunhindo, com os braços amarrados pelas costas, e uma fralda de Martinha enfiada em sua boca. O estrupício já tinha rasgado sua blusa, arrebentado o sutiã e arrancado sua calcinha. Ritinha, totalmente dominada, com o endemoniado sobre ela, a saia levantada, os seios e a genitália expostos, faltava muito pouco para a consumação do ato libidinoso. Dona Romilda, com as mãos firmes, desfechou um golpe certeiro no cabeção do meliante, que, imediatamente, desfaleceu. Em seguida, puxou-o para o lado. O asqueroso caiu no chão inerte. Pegou o lençol da cama e cobriu Ritinha. Examinou a sacola de Martinha, rapidamente, e constatou que estava quase pronta. Colocou mais algumas peças que achou necessário. Em outra sacola, enfiou uma muda de roupa de Ritinha e outra de Marquinhos. Pegou o rolo de massa, ainda sujo de sangue, enrolou na fralda, que estava enfiada na boca de Ritinha, e colocou também na sacola. Puxou Ritinha da cama, ainda trêmula, choramingando assustada, abraçou-a carinhosamente, beijou-a e entregou a Raul, juntamente com uma das sacolas. Enfiou a outra sacola no braço, pendurou a bolsa de Ritinha no pescoço e pegou Martinha no berço. A essa altura, já havia acordado e estava aos berros. Acariciou-a, e ordenou. – Vambora!
Ainda assustada, Ritinha indagou: – Ele está morto?
Não. Tá só dismaiado – esclareceu Dona Romilda. Se fosse pra matar, a arma era outra – concluiu.
Quando saíram da casa, alguns vizinhos já haviam percebido o movimento e, solidários, indagaram o ocorrido, ao tempo em que se colocaram à disposição. Sem entrar em detalhes, Dona Romilda disse apenas que o estrupício tinha tentado agarrar Ritinha, mas, graças a DEUS, ela tinham chegado a tempo de evitar a desgraça. Agradeceu e tranquilizou a todos, dizendo-lhes que já estava tudo resolvido.
Ao chegarem à pensão, incumbiu Raul de cuidar de Marquinhos, e tratou de acomodar Martinha em sua cama. Providenciou um calmante para Ritinha, deu-lhe um banho, agasalhou-a com um roupão e acomodou-a também na sua cama, junto com Martinha. Após verificar que estava tudo em ordem, tratou de avisar a Beto. Ao telefone, disse-lhe apenas que tinha acontecido um probleminha, mas que agora estava tudo bem, e todos estavam acomodados na pensão. Preocupado, Beto não demorou muito a chegar, querendo saber realmente o que havia acontecido. Dona Romilda relatou todo o ocorrido, e tranquilizou-o mais uma vez, dizendo-lhe que todos estavam bem. Aconselhou-o a não ir ver Ritinha porque ela havia tomado um calmante. Nesse momento, estava dormindo. Pediu-lhe, encarecidamente, que não tentasse resolver nada naquele momento. Que não fosse naquela casa, e muito menos tirar alguma satisfação com o carniça, ou àquela que se dizia ser mãe de Ritinha. Todas as decisões cabíveis já haviam sido tomadas. Nada mais restava a fazer. Amanhã, sim. Depois de uma noite de sono, da poeira assentada, era hora de começar a agir. Em seguida, Dona Romilda foi até seu quarto, pegou as chaves da casa na bolsa de Ritinha, e entregou-as a Beto.
Percebendo que Beto estava mais tranquilo, aproveitou e esclareceu que essa não havia sido a primeira vez, mas que foi a mais violenta de todas. Que desde muito tempo, a partir do momento em que aquela insana colocou o maldito dentro de casa, ela, Dona Romilda, vem vigiando todos os passos de Ritinha. Fez tudo que pode para protegê-la. Somente agora, nesses últimos tempos, achando que o perigo já havia passado, é que relaxou um pouco. Aquela revelação fez Beto relembrar fatos ocorridos, quando, por diversas vezes, estranhava o comportamento de Ritinha. Em certos momentos, pronunciava frases desconexas, sem sentido, outras vezes interrompia a frase pelo meio e desviava a conversa para outro rumo. Agora estava claro. Durante esses anos todos, Ritinha tentava dizer-lhe, alertar-lhe sobre os perigos que tinha de enfrentar todos os dias. Quantas e quantas vezes percebeu o seu semblante carregado, os olhos assustados, quando chegava a hora de voltar para casa. Ele não entendia. Parecia que ela preferia viver na rua. Como ele foi injusto com ela. Agora entendia porque ela queria tanto assumir esse relacionamento. Precisava sair daquela casa o mais rápido possível.
Dona Romilda estava diante de um jovem homem maduro, sério, calado, os olhos umedecidos, deixando transparecer o peso que carregava. Era a mistura de sentimento de culpa com pitadas de remorso. Percebendo o que ele sentia, Dona Romilda buscou, de imediato, isentá-lo de qualquer culpa. Afinal, ele não sabia de nada. E se soubesse, talvez não fosse a melhor coisa. Mas agora tudo já passou. O tempo é um bom remédio, e cura todos os males. Ao final da conversa, bastante esclarecedora, Dona Romilda aconselhou-o a ir descansar. No dia seguinte, era o momento para começar a tomar as devidas providências. Lembrou-lhe, mais uma vez, que fizesse tudo que deveria ser feito, com bastante calma, para não tomar atitudes erradas.
No outro dia cedo, Beto parou a camioneta na porta da casa de Ritinha, abriu a porta e entrou. Encontrou a mãe de Ritinha sentada na sala, fazendo curativo na cabeça de Zé do Ouro. Sem sequer cumprimentá-los, seguiu em direção ao quarto, colocou as caixas que trouxera sobre o beliche, e começou a desmontar o berço. Em seguida, acondicionou os poucos pertences de Ritinha e Marquinhos nas caixas. Levou para o carro as caixas e o berço desmontado. Ao final, fez uma inspeção rápida no quarto e verificou que não havia esquecido nada. Retornou à sala e, como Dona Romilda havia instruído, depositou as chaves sobre a mesa. Sem dizer uma só palavra, saiu sem olhar para trás. Atravessou a porta da frente e, mais uma vez, relembrou a conversa com Dona Romilda no dia anterior. “Não se preocupe meu fio. Quando uma porta se fecha é porque DEUS já reservou pra nóis outra porta bem mais larga”. Sem vacilar, puxou a porta, bateu o trinco, sacudiu a poeira das sandálias e murmurou baixinho – meu DEUS, sem nenhuma soberba, peço, humildemente, que Ritinha nunca mais precise voltar a se abrigar debaixo deste teto. E que o SENHOR tenha piedade destas pobres almas. “Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles façam a vocês; pois esta é a Lei e os Profetas.” (Mateus 7:12).
É a maldição. Tudo isso é por culpa da maldição. Ela, a mãe, não tinha o direito de se apegar a ninguém, ou coisa alguma. Não sabe quando começou. Talvez essa maldição a acompanha desde o seu nascimento. Mal se lembra dos irmãos. Tem uma vaga lembrança dos pais. Não tem notícias de nenhum deles. Não sabe por ode andam, se estão vivos ou mortos. Desde cedo, a vida dela foi assim. Saindo da casa de uns, indo para a casa de outros… Emprego certo, nunca teve. Em troca do seu trabalho, conseguia um canto para dormir, um prato de comida para saciar a fome, e, vez por outra, uma peça de roupa usada. Para ela, aquilo era o suficiente. – Melhor do que dormir na rua – pensava. Foi nessa vida de andarilha que aprendendo a fazer as coisas, principalmente cozinhar. Como cozinheira conseguiu um emprego de verdade. E assim, a maldição, foi tomando dela todos a quem amava. O pai de Ritinha tinha sido a última perda sofrida. Bastou começar a nutrir algum sentimento por ele, e a maldição logo percebeu. Sem nenhum constrangimento, sem dó nem piedade, sem aviso ou explicação, a maldição carregou-o para longe. Foi muito difícil para ela, a mãe, entender como funcionava. Quais regras eram impostas pela maldição. Mas agora ela sabia. A duras penas aprendeu como proceder. Tinha que manter-se longe. A maldição estava atenta a qualquer demonstração de afeto. Foi procedendo dessa maneira que conseguiu manter Ritinha e Marquinhos fora das garras da maldição. E Zé do Ouro? Esse estrupício não é levado em conta. Ninguém o quer, muito menos a maldição. O erro foi aquela passadinha no quarto de Ritinha, para ver a criança. Como foi estúpida. Não devia subestimar a maldição. Muito segura de si, achou que uma simples passadinha, passaria despercebido. Mas a maldição estava atenta. Precisava apenas de um motivo. Por mais simples que fosse, mas era uma demonstração de afeto. Foi o suficiente para a maldição levar todos de uma única vez. Para Zé do Ouro, aquilo foi uma coisa que se apossou dele. Mas, para a mãe, estava mais do que claro. A maldição usou o infeliz para conseguir o seu intento. E conseguiu.
Ao ouvir o barulho da porta da frente fechando, após a saída de Beto, a mãe estremeceu. Doravante estaria novamente só, amargando sua triste solidão. Apesar de triste e desolada, estava aliviada, porque não teria mais ninguém para ser tragada pela maldição. Nesse momento, uma lágrima rolou pela sua face ressequida.
Na mesma rua, a pouco mais de um quarteirão, a camioneta parou em frente à pensão de Dona Romilda. Beto carregou a pequena mudança para dentro da pensão. Encontrou Ritinha bem melhor. Abraçou-a, beijou Martinha, que estava dormindo, e seguiram para o salão de refeições a fim de saborear o desjejum, preparado com muito amor e carinho por Dona Romilda.
Enquanto saboreavam o desjejum, comentaram sobre vários assuntos, procurando evitar falar sobre o ocorrido do dia anterior. Terminada a refeição matinal, Ritinha abriu as caixas, que Beto havia trazido, separou as coisas essenciais, e o restante, pediu para Beto guardar no escritório. Sem perda de tempo, Beto e Marquinhos seguiram para a Almari. Agora, mais do que nunca, precisavam acelerar o ritmo da obra para possibilitar a mudança o mais rápido possível.
Beto chamou o mestre de obra e explicou que, devido à mudança de planos, precisava mudar-se para o apartamento, o mais rápido possível. E o desafio era, com os parcos recursos que dispunha, conseguir torná-lo habitável, no menor prazo possível. O velho mestre, amigo de tantas jornadas, retirou o boné da cabeça, pondo à amostra os poucos fios de cabelos prateados, franziu a testa, ao tempo em que coçava a cabeça. Era a maneira de demonstrar que estava pensando. Seria um verdadeiro milagre, tornar habitável um apartamento de cerca de setenta metros quadrados, com tão pouco recurso. Até então, tinha apenas as paredes levantadas. E nada de solução do tipo: alterar o projeto original, construir um verdadeiro barraco, um cai duro, para depois desmanchar tudo e voltar a construir o projeto original.
Era nessas horas que Beto mais sentia a falta do velho Jairo. Certamente daria uma ajudinha financeira, um reforço e tanto na mão de obra, sem contar com as brilhantes ideias para reduzir o custo. Não. Seu Jairo já tinha muitos problemas. A labuta no campo é muito árdua e não é nada fácil. A idade avançada já não permitia ter a produtividade de outrora. Como aqui na cidade, também lá no campo, ele sentia muita dificuldade em conseguir um trabalhador sério, honesto, que fizesse jus ao seu salário. Para que não houvesse aborrecimento, além de maiores prejuízos, melhor continuar sozinho e ir realizando as tarefas na medida do possível. Essa era a filosofia de Seu Jairo.
Após analisarem, discutirem, projetar, reprojetar, fazer e refazer conta, Beto e o mestre, finalmente, chegaram a um consenso. Primeiramente definiram o que é tornar habitável. A construção não teria um acabamento conclusivo. Seriam colocadas uma porta na entrada, uma janela na sala, e outra no quarto de Marquinhos. Todas de segunda mão, ou improvisadas. O quarto e o banheiro ficariam sem porta. As portas do quarto de Martinha, e da suíte do casal, seriam fechadas com blocos, sem reboco. Essa estratégia tinha como finalidade isolá-los do resto do apartamento. Nessa primeira etapa, o apartamento ficaria reduzido à sala, a cozinha americana com a área de serviço, o quarto de Marquinhos e o sanitário social. Não seria colocado piso em nenhum cômodo, exceto o banheiro social. As paredes seriam somente rebocadas. Caso houvesse disponibilidade, seria colocado revestimento no banheiro social. A cobertura seria, provisoriamente, de telha de amianto. Para dar caimento no telhado seriam colocados três tocos de concreto, com aproximadamente quarenta centímetros de altura sobre uma das vigas (correntes) laterais. E sobre os tocos, seria assentada a peça de madeira para sustentação da cobertura. Toda a parte elétrica consistiria em apenas quatro lâmpadas e duas tomadas, ligadas através de uma gambiarra vinda da loja.
Aos poucos, a vida do casal foi retornando à rotina. Com os parcos recursos e os poucos braços para tocar aquela obra, foi um verdadeiro milagre chegar até onde chegaram. Ainda assim, era pouco. O tempo de permanência na pensão de Dona Romilda estava se alongando. Ritinha, sentindo-se constrangida, queria mudar-se a qualquer custo, de qualquer maneira. Para agravar a situação, Dona Romilda não queria nem ouvir falar em qualquer tipo de ajuda. Beto, por mais de uma vez, ensaiou alguma coisa nesse sentido, mas Dona Romilda foi categórica. Eles não eram qualquer um. Eram a sua família. E só sairiam da pensão, quando a morada deles estivesse pronta. E ponto final.
O apartamento estava quase habitável, mas ainda faltavam os móveis. Beto pensou em recorrer aos compadres e ao sócio, mas Ritinha foi taxativa. Todos eles já haviam ajudado, e até mais da conta. Agora era hora de fazerem um pouco de sacrifício. Compraram uma cama de casal à prestação, uma geladeira de segunda mão, mas ainda em perfeito estado, e o fogão, dona Romilda deu um que estava em desuso, porque o forno não funcionava. O mestre improvisou dois cavaletes e, sobre eles, deitou uma folha de tapume. Beto construiu quatro banquinhos com restos de madeira da construção, e Ritinha deu o seu toque feminino. Cobriu a “mesa” com uma toalha plástica e adornou com um singelo jarro de planta. O quarto, além da cama nova, recebeu, em uma das paredes, em lugar do guarda-roupa, três prateleiras, um cabideiro e um espelho barato.
Finalmente, chegou o dia da mudança. Na véspera, logo pela manhã, deram uma lavada nos poucos cômodos para tirar os detritos da obra. Ritinha aproveitou e deu uma lavada caprichada na geladeira e no fogão. A arrumação das roupas nas prateleiras ficou para o dia seguinte. Naquela noite, Dona Romilda esticou suas tarefas, o mais que pode, para evitar jantar em companhia de Beto e Ritinha. Pediu que não a esperassem porque ainda tinha muito a fazer. No fundo, ela não queria se deixar trair pela emoção. Ritinha, compreendendo seu verdadeiro motivo, procurou respeitar sua decisão. Serviu o jantar a Beto e a Marquinhos, comeu alguma coisa e, em seguida, foi para o quarto. Deu um banho em Martinha, alimentou-a e colocou-a no berço. Depois tomou o seu banho, arrumou-se e deitou. Tempos depois, quando Dona Romilda chegou, Ritinha ainda estava acordada, mas permaneceu com os olhos fechados, fingindo que estava dormindo. Dona Romilda entrou, dirigiu-se ao canto do quarto, onde se encontrava uma pequena oratória, abriu as portinholas, acendeu um toco de vela, incrustado em um velho castiçal, e colocou diante da imagem da Mãe Maria Santíssima. Aprendeu com a mãe. Peça com fervor à mãe, que o filho atende – dizia-lhe ela.
No dia que o pai expulsou Dona Romilda de casa, a mãe, coitada, sempre submissa, receosa de aborrecer ainda mais ao pai, não foi se despedir da filha. Sua vontade era entrar naquela sala, de cabeça erguida, tomar a filha nos braços, protegê-la com toda a força e coragem, jogar na cara do pai umas verdades, começando por dizer-lhe o quanto era mesquinho, insensível, desnaturado, que, sem o menor remorso, estava jogando a filha na sarjeta. Mas, e depois?! Era bem provável que as duas, mãe e filha, fossem jogadas porta afora. Ao invés disso, preferiu correr para dentro do seu quarto, e jogar-se aos pés da Mãe Maria Santíssima, implorando por um milagre. Após o incidente, aquela casa nunca mais foi a mesma. A mãe de Dona Romilda, às escondidas de todos, principalmente do pai, passou a guardar todo o trocadinho que conseguia economizar, na esperança de, um dia, sair pelo mundo seguindo o rastro da filha até encontrá-la. Esse seria o dia mais feliz de sua vida. Derramaria todas as lágrimas represadas por tanto tempo. Em pranto, abraçaria a filha, e teria a oportunidade de dizer-lhe o quanto a amava, o quanto tinha sofrido com aquela brutal separação. Os dias foram se passando e tornando-se cada vez mais longos. E quanto mais o tempo passava, mais remota ficava a possibilidade de a mãe poder realizar o seu sonho. Sem ânimo, sem vontade de viver, ela começou a definhar. O pensamento fixo de reencontrar a filha foi a única motivação que a fez perdurar por mais alguns poucos anos. Após sua morte, encontraram, por um acaso, inúmeras cédulas de pequeno valor, cuidadosamente dobradas e escondidas sob o forro do velho colchão.
Depois do ocorrido, Dona Romilda nunca procurou pela família. Vez por outra, ainda pensou em procurá-los, especialmente por sua mãe, mas preferiu sepultar de vez o seu passado. Tinha muita pena dela. Lembrava-se daqueles olhos tristes e, em suas orações, pedia sempre por ela. Que a Mãe Maria Santíssima continuasse dando-lhe forças, para continuar suportando aquela vida miserável. Quanto ao pai, nunca sentiu ódio, mas era um desprezo e uma mágoa muito grande. Ainda não havia conseguido perdoá-lo, mas fazia um esforço muito grande para livrar-se daqueles sentimentos fortes que a corroíam por dentro. Eram tempos difíceis, muito duros. A sociedade cobrava, de uma maneira implacável, atitudes drásticas, principalmente quando envolviam defesa da honra e da família. Um pai de família desonrado, jamais seria aceito pela sociedade. Em defesa da honra, portanto, eram praticados todos os tipos de atrocidades. E a sociedade, em cumplicidade com a própria justiça, corroborava e até, de certa forma, estimulava esses tipos de delitos, mesmo aqueles em que envolviam assassinatos e/ou suicídios.
O último pedido que houvera feito à sua Mãe Maria Santíssima, foi quando sentiu-se obrigada a cravar o punhal no peito daquele miserável, dentro do seu estabelecimento. Dona Romilda bateu os joelhos no chão, e pediu-A, com fervor, que intercedesse junto ao PAI. Que a livrasse de tudo aquilo, e guiasse seus passos em direção a uma vida mais digna e honrada. Mesmo sem os devidos merecimentos, foi agraciada. No início, foram muitos dias de temores e incertezas, diante do desconhecido. Com a ajuda da sua Mãe Santíssima, e o apoio do velho companheiro Raul, conseguiu se reerguer, virando mais uma página da sua vida nada fácil. Antes, porém, teve o cuidado de deixar suas meninas, de certa forma, protegidas e amparadas. Após vender todo o pequeno patrimônio, deu uma boa quantia em dinheiro a cada uma delas. Depois de muitos choros, abraços e despedidas, cada uma procurou seu novo rumo. Umas permaneceram no mesmo estabelecimento, sob nova direção, e outras mudaram de cidade em busca de dias melhores. Por onde andariam aquelas meninas, que, por um bom tempo, haviam sido sua família? Seus pensamentos retornaram imediatamente ao presente, e Dona Romilda voltou a concentrar-se no novo pedido a ser solicitado à sua MÃE. Sabia não ser merecedora de tanta graça, mas precisava, mais uma vez, que ELA protegesse e amparasse os seus filhos nessa nova jornada. Eram praticamente duas crianças, cuidando de outras duas. Pedia também que eles não esquecessem daquela velha mãe e avó, porque se ela perdesse mais essa família, tinha certeza que seu coração não suportaria. Após suas orações, deitou-se, mas, como Ritinha, não conseguiu conciliar o sono.
No dia seguinte, após uma noite maldormida, Dona Romilda não teve como evitar. Logo cedo, aconteceu o inevitável. O encontro da despedida.
– Vê se não disaparece e isquecem dessa veia – com a voz embargada falou Dona Romilda. Carinhosamente, com os olhos marejados, Ritinha enlaçou-a e disse-lhe – mãezinha, jamais vamos esquecer de você. Dona Romilda não aguentou a emoção, e desabou. Chorou copiosamente. Derramou todas as lágrimas reprimidas durante os muitos e muitos anos de sofrimento, agora com o coração transbordando de alegria.
O dia passou muito rápido. Ritinha não trabalhou no escritório. Levou Martinha para o apartamento, e lá permaneceu arrumando as últimas coisas. Toda a mudança é sempre assim. Falta uma coisa aqui, improvisa-se outra ali, é uma tomada que não funciona, um eletrodoméstico necessário e que não foi providenciado, e por aí vai. Marquinhos e Beto ficaram revezando entre a loja e o apartamento, dando apoio a Ritinha. Foi um sobe e desce o dia todo. Pouco depois do meio dia, Beto providenciou uma marmita com uma comidinha caseira, adquirida ali mesmo nas proximidades. Deram uma breve parada, apenas o tempo suficiente para saciar a fome e descansar um pouco. Já estava anoitecendo, quando, finalmente, Ritinha olhou em sua volta, e verificou que havia feito tudo que poderia ser feito, dentro das limitações disponíveis. Não era o ideal, mas ficou dentro do razoável. Dirigiu-se à cozinha, e improvisou um jantar com o que dispunha. Tomou seu banho, preparou Martinha, alimentou-a, e ficaram as duas deitadas na cama, aguardando a chegada dos rapazes. Ao entrarem na sala, Beto e Marquinhos ficaram surpresos. Como um toque feminino faz a diferença. O ambiente era bastante simples, mas acolhedor. Quando retornaram do banho, sentiram no ar um cheirinho de comida gostosa. Após o jantar improvisado, regado a uma animada conversa, cada um querendo relatar os feitos do dia, tomaram um café, feito na hora, e seguiram todos para o quarto de Marquinhos, único concluído nessa primeira etapa da construção. Exaustos, porém felizes, deitaram na camona e permaneceram ali, por um breve tempo, calados, saboreando aquele momento tão sonhado. Apesar da simplicidade, do quase imperceptível odor característico de massa fresca, de reboco novo, pairava no ar uma energia boa, uma sensação de leveza, uma paz indescritível. Ritinha e Marquinhos experimentavam, pela primeira vez, o prazer, a satisfação de estarem abrigados num ambiente seguro. Pela primeira vez sentiam o que é viver em harmonia, com sua família, num verdadeiro lar. Rompendo o silêncio mágico daquele momento ímpar, Marquinhos falou – vou sentir falta da pensão, mas aqui é bem melhor. Já não aguentava mais o ronco do vovô Raul. Todos caíram na risada. Até Martinha, parecendo que estava entendendo tudo, começou a gargalhar. Abraçados, exaustos, mas felizes, adormeceram.
Como os compadres gostavam muito da companhia das crianças, de vez em quando faziam isso. Beto levava os seus, passava na casa do sócio, pegava o filho dele, e deixava todos na casa dos compadres. Esses eram dias muito especiais. Martinha, já grandinha, não dava mais tanto trabalho, e, dependendo da brincadeira, se enfiava no grupo e participava ativamente. Não só ela, mas também os compadres. Ficava difícil saber quem divertia mais, se as crianças ou os adultos. Nesses dias, nada tradicional, tudo era de improviso. Tomavam banho de mangueira no quintalzinho da casa, e o almoço era no alpendre, sentados sobre uma esteira de palha de taboa. A comadre preparava uma grande tigela esmaltada, com feijão-tropeiro, torresmo e carne do sol, tudo cortadinho e misturado. E aí, pegava com a mão, amassava fazendo os bolinhos e enfiava um a um nas boquinhas famintas, ao tempo em que contava lindas estórias.
Era um domingo ensolarado, e Beto já havia deixado as crianças na casa dos compadres. Aproveitando a ausência das crianças, o casal foi refugiar-se no quartinho antigo de Beto no fundo da loja. Era o motelzinho particular. Aproveitavam aqueles momentos para descontrair um pouco. Ficavam como dois namorados, tomando vinho, comendo petiscos e trocando carícias. Quanto mais o tempo passava, sentiam-se cada vez mais enamorados. Já passava das treze horas, quando perceberam que ainda não tinham almoçado. Beto então subiu até o apartamento, a fim de providenciar algo para comerem, e Ritinha ficou deitada, aproveitando um pouco mais daquele descanso, mais do que merecido. Enquanto ouvia uma música suave, proveniente do pickup toca discos, acoplado ao velho rádio mullard, fez uma retrospectiva, e percebeu o quanto tinha sido agraciada por DEUS. Muito pouco a pedir e uma enorme gama a agradecer. Lembrou-se da mãe, e sentiu dó. Como gostaria de saber como ela estava. Como gostaria de compartilhar sua felicidade. Mas, como ela reagiria? Poderia até sentir-se ofendida, humilhada, debochada. E se ao reaproximar-se dela, todos aqueles medos e sofrimentos voltassem? Aí sentiu um frio correr-lhe pela espinha. Não, melhor não. Talvez não tivesse mais tanta força e energia, para suportar mais um viés em sua vida. Desde o trágico acontecimento, nunca mais soube, ou procurou notícias sobre ela. Marquinhos também nunca comentou nada, ou mostrou algum interesse em saber sobre ela. O mais próximo que chegavam, era quando iam à pensão, fazer visitas a Dona Romilda. Olhou para o teto e lembrou-se do apartamento. Uma das poucas coisas que se atrevia a pedir era o término do apartamento. Para Beto, estava tudo bem. Ele não entendia essas coisas. Só outra mulher para entender como incomoda uma moradia toda improvisada, sem um piso decente, e sem pintura. Como é maravilhoso limpar e arrumar uma casa, mesmo simples, mas tudo em seus devidos lugares. A Almari estava financeiramente bem e tinha saldo suficiente para fazer uma retirada, sem comprometer o capital de giro. Mas, ainda assim, ela preferia que essa iniciativa partisse de Beto. Olhou para a loira oxigenada do calendário de borracharia, e imaginou-a debochando dela. Tinha tudo, mais ainda faltava-lhe uma moradia decente. Olhou-a novamente e pensou – ainda assim, sou feliz, muito feliz. Sorriu por dentro, lembrando-se do tempo em que sentiu ciúmes dela. Hoje, é parte da nossa história – pensou. É peça fundamental do nosso acervo. Mesmo sabendo que não passava de uma fotografia retocada, é uma testemunha ocular desse amor, que sobreviveu a tantas tempestades e vendavais. Os pensamentos, a música suave, o efeito do vinho, fizeram-na entrar num estado alfa. Estava naquela madorna, quando ouviu uma voz.
– Os pais dele estão se sentindo muito só. Vá visitá-los, e leve as crianças.
Essa voz não lhes era estranha.
– Gabriel? – perguntou Ritinha com voz trêmula.
– Sim, é Gabriel.
Abriu os olhos, e deparou com ele dentro do quarto, olhando-a com ternura. Assustou-se e, instintivamente, cobriu todo o corpo com o lençol. Quase aos gritos, perguntou-lhe.
– O que você está fazendo aqui?
Desesperada, nervosa, começou a se questionar como ele havia entrado. E Beto, o que poderia pensar. Precisava mandá-lo ir embora. Acordou assustada, e constatou que não havia ninguém no quarto. Mas afinal, aconteceu ou foi um sonho? Se foi um sonho, foi muito real – pensou.
Quando Beto retornou com o almoço, Ritinha já estava refeita. Durante a refeição, ela continuou a pensar sobre o acontecido. Teria sido um sonho, ou imaginação da sua cabeça. Poderia ter sido um aviso, um pedido, um conselho, ou uma orientação, transmitida através de uma espécie de sonho.
Ao final da refeição, Ritinha abraçou e beijou Beto, tentando dizer-lhe o quanto estava feliz, demonstrar o amor e o carinho que sentia por ele. Agradeceu e elogiou a comida, apesar de ter deixado quase tudo pronto, e Beto ter feito apenas os complementos. Antes que perdesse a coragem, começou a relatar o acontecido.
– Sonhei com…
Parou no meio da frase porque, por mais que tentasse, não conseguiria explicar a Beto quem era Gabriel. Até ela mesmo não sabia. As poucas oportunidades que tivera, não aproveitou para indagar. A princípio, pensou que seria mais um aproveitador, que queria apenas tirar proveito do seu momento de vulnerabilidade. Depois, reconheceu nele uma pessoa muito especial, que, realmente, só queria ajudá-la. E, pelo visto, continua cumprindo o prometido. Sempre presente, ajudando-a a transpor os grandes obstáculos que surgem em sua vida. Mas, por quê? Qual o interesse em ajudá-la. E, afinal, quem é Gabriel? Eram muitas questões sem resposta. Falaria sobre Gabriel em outra oportunidade.
– Sonhei com sua mãe. Eles estão se sentindo muito só, e ela pediu que fossemos visitá-la, levando as crianças – complementou.
Beto ficou pensativo. Já haviam se passado dois anos, desde o nascimento de Martinha, quando tiveram o último encontro. De lá para cá, apenas conversas telefônicas. Lembrou-se também daquele primeiro natal que não pode passar com seus pais. Naquela ocasião, prometera nunca mais deixar de comparecer aos natais de Dona Zefa. Promessa não cumprida. Os anos foram passando, e ele, sempre protelando, aguardando as coisas melhorarem. Como Dona Zefa deve estar sofrendo. Em momento algum ela queixou-se. Realmente, seria mais do que justo, fazer-lhes uma visita. Quem sabe, poderiam até passar o natal juntos, agora com toda a família. Mas seria uma despesa extra. Tinham tantas prioridades... E a Almari. – Não, dessa vez iriam de qualquer jeito – pensou Beto. Durante o resto da tarde, analisaram as possibilidades, fizeram planos, desmancharam, e refizeram. Pararam de elucubrar, porque já estava ficando tarde, e precisavam ir buscar as crianças. Mas estavam satisfeitos, porque estava quase decidido. Fariam a viagem no final de novembro. Como era setembro, faltavam apenas dois meses, tempo suficiente para ajustar os detalhes. Beto adorava o mês de setembro, porque, segundo ele, era o mês que quase sempre aconteciam coisas boas em sua vida.
Ritinha estava radiante. Afinal, conciliariam a viagem com o término do apartamento.
Aguardariam o fim do ano letivo, data oportuna para Marquinhos viajar, sem se prejudicar nos estudos. Viajariam logo no início das férias, e permaneceriam em Riacho da Mata até meados de dezembro, tempo suficiente para concluir a obra do apartamento. Por conta da obra e da loja, Beto passaria apenas três ou quatro dias com os pais, conciliando com o final de semana, e retornaria em seguida. Quanto ao dinheiro para conclusão da obra, ficou acertado que Ritinha providenciaria a antecipação da distribuição dos lucros da Almari, e faria um reajuste nos investimentos para o semestre seguinte. O projeto da obra seria ajustado de acordo com os recursos disponíveis. Um estudante do curso de Ciências Contábeis, bem recomendado, foi contratado para substituir Ritinha, durante sua ausência.
Ao receberem a notícia que seus filhos e netos viriam passar uns dias em Riacho da Mata, Dona Zefa e Seu Jairo ficaram numa felicidade sem tamanho. Contando os dias e as horas, esmeravam nos preparativos. Finalmente, aproximava-se o dia da viagem. Na semana anterior, Beto providenciou uma revisão caprichada na velha camionete, mas de nada adiantou. Quando o seu sócio, o genro do compadre, soube que Beto pretendia fazer aquela viagem com a velha camionete, simplesmente o proibiu terminantemente. Disponibilizou a perua, mais nova e bem mais confortável, ideal para empreender aquela viagem. Esclareceu que o carro não faria tanta falta, porque era usado, eventualmente, pela esposa. Além disso, eram poucos dias. A viagem era um pouco longa, e seria muito cansativo para as crianças. Afinal, nossas famílias merecem o melhor. Beto, sem argumento, foi obrigado a aceitar.
Era pouco mais de seis horas da manhã de um sábado, e o carro já estava a quilômetros de distância da metrópole, rumo a Riacho da Mata. Como o carro ia relativamente vazio, Beto convidou aos compadres, que prontamente aceitaram ao convite. Passariam o final de semana em companhia de Dona Zefa e Seu Jairo, e retornariam, com Beto, na terça-feira bem cedinho. Para Ritinha e Marquinhos, marinheiros de primeira viagem, era uma festa para os seus olhos. Margeando a estrada, avistavam-se vários sítios, cada um mais bonito que o outro. As casas, os cercados com animais, as plantações, pareciam verdadeiros presépios a céu aberto. Vez por outra, passavam por um vilarejo, e Marquinhos ansioso, perguntava – é aqui? E o vô, pacientemente, respondia – calma, ainda não.
Ainda não eram dez horas da manhã quando Beto, guiando a perua do sócio, entrou na vila de Riacho da Mata. Parou para abastecer no único posto, localizado na praça principal. A pedido da comadre, Beto estacionou o carro sob a sombra de uma árvore. A comadre abriu uma sacola térmica onde trazia sanduíches, biscoitos, frutas e sucos, dos quais todos se serviram à vontade. Beto, em pé, ao lado do carro, avistou do outro lado da praça, o seu antigo grupo escolar. Suas lembranças viajaram no tempo, e sentiu novamente aquele cheiro suave de sabonete, há muito esquecido. Por onde andaria a sua professorinha? Quis perguntar à sua mãe, mas faltou-lhe coragem. Por muitas vezes, pensou em retornar, e saber notícias dela, mas nunca concretizou. Nas suas longas noites de insônia, curtindo a dor da solidão, sonhava reencontrá-la, dizer-lhe que ainda a amava muito e, somente ao seu lado, conseguiria encontrar a verdadeira felicidade. Mas aí vinha a incerteza e o medo de uma nova desilusão. Uma dor insuportável invadia-lhe o peito, como se duas mãos de ferro estivessem comprimindo o seu coração, esmagando-o até sentir sua última batida. Ritinha, com uma fruta na mão, foi em direção a Beto para oferecer-lhe, mas ao deparar com seu olhar fixo no vazio, respeitando o seu momento, parou, e aguardou. Ao despertar do seu devaneio, Beto deparou com Ritinha aproximando-se, ao tempo em que estendia a mão, oferecendo-lhe uma fruta. Ela não lhes disse nada, mas o seu olhar de ternura, carinho e muito amor, dizia tudo. Ele abraçou-a carinhosamente, osculou-lhe a fronte, pegou a fruta, e sorriu para ela. Ela retribuiu-lhe o sorriso, e, juntos, devoraram a saborosa maçã.
Rodaram cerca de mais alguns minutos, e chegaram diante da cancela do sítio. O compadre, bastante familiarizado com a rotina, saltou, e abriu-a. Beto atravessou a cancela aberta, com o carro, e aguardou. O compadre fechou-a e embarcou novamente. De longe, os visitantes avistaram a casa, e o casal de anfitriões plantados nos degraus da entrada da varanda.
O sítio não era dos mais bonitos. A casa modesta, avarandada, dava a impressão de ser bastante aconchegante. Ao lado, um pouco mais ao fundo, via-se um depósito e uma baia. Ao fundo, um galinheiro e um curral. Do outro lado tinha uma pequena horta, um pomar com diversas árvores frutíferas, cortado por um pequeno córrego. O restante do terreno era ocupado por pastagens e uma reserva florestal.
Quando o carro parou, Dona Zefa espantada, com as mãos na boca, exclamou.
– Jairo, os compadres também vieram!
Em seguida, foram trocas de abraços calorosos, acompanhados de uma enorme euforia. Dona Zefa tomou Martinha dos braços de Ritinha e começou a cobri-la de beijos e abraços. A princípio Martinha ficou um pouco assustada, mas, diante de tanto carinho e muitas risadas, acalmou-se e também começou a sorrir. Marquinhos, sentindo-se um pouco deslocado, permaneceu junto ao carro observando a cena. Foi então que Beto se tocou e lembrou-se que ele ainda não conhecia seus pais. Ele aproximou-se de Marquinho, agarrou-o enfiando debaixo do braço e, abraçados, aproximaram-se do grupo.
– Esse é seu vô Jairo e essa é sua vó Zefa – disse Beto a Marquinhos.
Seu Jairo então abriu os braços e, dirigindo-se a Marquinhos, falou.
– Dá cá um abraço.
Marquinhos, ainda um pouco tímido, aproximou-se lentamente de Seu Jairo e recebeu aquele forte abraço. Um pouco mais à vontade, retribuiu-lhe o abraço e pensou – aqui também estou em casa.
No dia seguinte, logo após o desjejum, seu Jairo recomeçou sua labuta diária, dessa vez acompanhado por Beto e Marquinhos. Enquanto executava as tarefas, seu Jairo ia inteirando Beto das mudanças e melhorias, bem como de algumas tarefas pesadas, que não estavam sendo feitas por falta de mão de obra. Beto, por sua vez, enquanto ajudava, fazia alguns comentários, e dava opiniões. Vez por outra eram interrompidos por Marquinhos que, diante de tanta novidade, ávido por aprender, não se continha e perguntava. Logo, logo, percebeu que o que aprendera nos livros era bem diferente da realidade. A começar pela carreira que tomou da galinha choca, quando foi pegar um dos seus pintinhos. Não encontrou nenhum porquinho dócil, limpo e asseado, como os dos livros. Pelo contrário, o que viu, foi um chiqueiro cheio deles, chafurdando na lama, com cara nada amistosa.
Os homens seguiram para o campo, e as mulheres permaneceram em casa. Dona Zefa, enquanto se inteirava das novidades, seguia no comando, preparando as diversas iguarias, principalmente sua especialidade, os famosos biscoitos assados no forno a lenha. Ritinha e a comadre, na retaguarda, auxiliando-a. E Martinha, divertindo a todas com suas peraltices.
Beto precisava cuidar dos negócios, e dar continuidade à obra do apartamento. Na segunda-feira cedo, como programado, ele e os compadres retornaram à metrópole.
Já havia transcorrido mais de duas semanas, desde a sua partida, e Ritinha já não suportava mais a dor da saudade. Desde quando se conheceram, nunca haviam passado tanto tempo sem se ver. Nesses últimos tempos, então, que passaram a viver juntos, é praticamente o tempo inteiro. Tanto em casa, como no trabalho. Acatando a sugestão de Dona Zefa, Ritinha resolve ir ao posto telefônico da vila, para falar com Beto. No dia seguinte, todos acordam mais cedo do que o habitual. Seu Jairo e Marquinhos permaneceram no sítio, cuidando das coisas, enquanto Dona Zefa, Ritinha e Martinha seguiram em direção à estrada que passa em frente ao sítio, onde ficaram aguardando o transporte, para conduzi-las até a vila.
Não demorou muito para o ônibus chegar. As três embarcaram. Dona Zefa cumprimentou o condutor, alguns sitiantes conhecidos cumprimentaram-na, ao que cordialmente respondeu e, orgulhosamente, apresentou a nora e a netinha. Outros, além de cumprimentá-la, perguntaram por Seu Jairo. – Está bem, com saúde, graças a DEUS. Continua na lida – respondeu.
Desde quando foram morar no sítio, raras eram as vezes que Dona Zefa vinha ao vilarejo. Ocupava a maior parte do seu tempo cuidando da casa e nos afazeres domésticos. Em suas horas de descanso, ficava na varanda, em sua cadeira de balanço, lendo um bom livro. Outras vezes, sentava-se no sofá da sala, em companhia de Seu Jairo, onde permaneciam por horas conversando, ouvindo músicas, petiscando e saboreando um licorzinho caseiro.
Daquele ponto da estrada, podia-se avistar a vila, no meio do vale. Meu pai tinha razão – pensou Dona Zefa. A pequena vila parecia um lindo presépio, erguido a céu aberto. E aí vieram as muitas outras recordações. A casinha de janelas verdes, o quintal, o recomeço, ou melhor, o começo de uma nova vida, os dias de incerteza, as desilusões, os sonhos e as realizações. Lembrou-se de Seu Jairo, homem simples, sem ambição, rude, mas com um coração de ouro. Ao seu lado, sentia-se feliz, amparada, e protegida. Daquela união, nascera Beto, seu maior tesouro. Na trajetória de sua vida, a essa altura, o débito com sua Santa Rita das Causas Impossíveis, estava enorme. Aventurava-se agora a pedir apenas vida e saúde para ela e Seu Jairo, para usufruírem esses momentos felizes de suas vidas. Olhou para o lado da poltrona, e viu sua nora com sua netinha no colo. Com os olhos rasos d'água, abraçou-as, carinhosamente, enquanto murmurava baixinho – obrigado meu DEUS.
– Beto, como você está?
– Ritinha! Aconteceu alguma coisa?
– Não, não. Estamos todos bem. É que… é que eu estou com muita saudade.
– Oh meu amor. Eu também. Estou dormindo aqui embaixo, no nosso cafofo. E tudo aqui me lembra você.
– E aí, quando você vem nos buscar?
– A obra está um pouco atrasada. Estamos com muito movimento na loja, e eu pouco tenho ajudado ao mestre. Ele está praticamente só com o ajudante. Acho que será concluída somente depois do natal.
– Agora, além da saudade, estou muito triste. Eu estava sonhando em armar nossa árvore de natal. Eu… eu nunca tive essa felicidade. Seria a minha primeira vez!
– Eu sinto muito. Mas teremos outros anos e…
– É, eu sei, eu sei… e também não posso pedir mais. Não tenho do que me queixar.
– Verdade. Devemos agradecer pelo que a vida tem nos oferecido. Pelos nossos sonhos realizados. E as nossas crianças, como estão, e meus pais?
– Estão todos bem, principalmente as crianças. Estão adorando. E prepare-se. Nas férias do ano que vem, vão querer voltar. Sua mãe está aqui, ansiosa para falar também. Beijo, beijo, beijo. Te amo muito, muito, muito meu galego.
– Também te amo muito meu docinho de jambo.
Retornaram ao sítio, mas, apesar do esforço, Dona Zefa não conseguiu afastar de Ritinha, a tristeza do seu semblante.
Por algum tempo, nós, quando crianças, acreditamos em Papai Noel, nos contagiamos e nos envolvemos com a magia do natal. Com o passar do tempo, descobrimos a realidade, mas continuamos guardando dentro nós aquele espírito natalino e, em todos os anos, deixamos aflorar novamente aquele espírito de criança adormecido. Ritinha não viveu essa fantasia. Logo cedo, a mãe expulsou Papai Noel da sua vida, pisoteou e esmigalhou toda a magia, e o seu espírito natalino. Ela, todos os anos, invejava os coleguinhas, seus brinquedos e suas fantasias. E por mais que a mãe tentasse, não conseguiu destruir o seu espírito criança que continuou adormecido por todos esses anos. Dona Zefa, fazendo de tudo para animá-la, descrevia como seria animado o natal deste ano, com toda a família reunida. Estava contando até com a presença dos compadres, mas, não sabia ao certo se viriam. Ritinha esforçava-se para demonstrar entusiasmo, mas, no fundo, sabia que para ela não seria a mesma coisa. Nos dois últimos anos, apesar de já estar debaixo do seu teto, não se sentiu animada para comemorar. O apartamento ainda por terminar, e tudo improvisado, não teria clima. Preferiu aguardar um pouco mais a realização do seu sonho natalino, acalentado por tantos anos. Pode soar como uma coisa boba, mas seu sonho é, no dia do natal, estar em sua casa, ao lado de Beto e das crianças, desembrulhando os presentes. Em sua visão, aparecem todos sentados na sala, sobre um lindo piso de cerâmica clara, todo limpo, cheirando a jasmim, ao lado de uma grande árvore de natal, toda enfeitada, cheia de luzes piscando, e, no cume, uma grande estrela de David.
Depois de falar ao telefone com Ritinha, Beto percebeu a imensa tristeza na voz da sua companheira. Conhecendo agora um pouco mais sobre sua vida, não foi difícil imaginar o quanto deve ter sido também dura a sua infância. Ele sabe que o débito para com Dona Zefa é enorme. Sempre foi uma boa mãe. Não devia dar-lhe nenhum desgosto. Sabe que é um bom filho, mas, ultimamente, tem deixado muito a desejar. Esse é o momento de reverter, e começar a cumprir o que prometera a si mesmo. Dona Zefa ficará muito feliz. Afinal, toda a família estará reunida, durante os festejos natalinos. Mas agora sabe a imensa tristeza que causará a Ritinha. O que fazer.
As vendas do final de ano estavam superando as expectativas. Poderia, perfeitamente, fazer um aditivo ao orçamento da obra, sem comprometer as finanças da Almari. Chamou o velho mestre de obra, e incumbiu-o de providenciar um bom profissional, para ajudá-lo na execução do projeto. A obra deveria estar concluída antes do natal. Para isso, estaria disposto a pagar um valor até acima do mercado, caso fosse necessário. O mestre esclareceu que não se tratava de valores. A dificuldade consistia em conseguir um bom profissional disponível, principalmente nessa época do ano, quando a grande maioria das pessoas estava reformando suas casas para os festejos de final de ano. Ainda assim, faria o possível. Cerca de dois dias depois, o mestre comunicou a boa nova a Beto. Foi um verdadeiro milagre. Conseguiu um bom profissional, que, por coincidência, tinha sido um dos seus estagiários. Por consideração ao mestre, ele conversou com o seu contratante, cujo serviço não demandava tanta urgência, e acertaram prorrogar o prazo da conclusão do serviço. Com essa manobra, tornou-se disponível para reforçar a equipe de trabalho do mestre.
Dona Zefa e Ritinha, enquanto preparavam as guloseimas para as festas de final de ano, conversavam animadamente, quando foram interrompidas com a entrada de Martinha no recinto.
Segurando cuidadosamente um pintinho, falou.
– Vó, vó! Posso levá pa casa?
Estava uma graça. Queimada do sol, de short e camiseta, e toda emborralhada. De branco, via-se apenas os dentes, e as escleras.
A vó toda sorridente, respondeu.
– Mas se você levar, ele vai morrer!
Com a carinha demonstrando impaciência e contrariedade, Martinha retrucou.
– Eu, eu dou cumida!
– Ainda assim, ele vai morrer de saudade da mãe e dos irmãos – complementou a avó.
A essa altura, Martinha já estava sentada no chão, dividindo seu biscoito com o pintinho. Balançando a cabecinha, enquanto abria os bracinhos, dando a impressão que queria abarcar o mundo inteiro, fechando os olhinhos para dar mais ênfase ao seu contra-argumento, respondeu.
– Eu levo tuuudo tudo tudo!
A vó não se conteve com a presença de espírito da neta.
– Mas menina! Quem te ensinou tanta sagacidade?
Martinha, de cabeça baixa, olhando para o chão, respondeu baixinho.
– Foi mamãe.
Dona Zefa e Ritinha não se contiveram e caíram na gargalhada. Martinha contagiou-se e também acompanhou a dupla. O pintinho, com o papo devidamente cheio, aproveitou a distração de sua pretensa dona e debandou.
Era o último sábado, anterior à véspera do natal. Ritinha triste, porém conformada, acabou de preparar a mesa para o desjejum, e foi levar a meia caneca de café preto, na varanda, para Seu Jairo. Essa era uma das tarefas de Dona Zefa, mas, aproveitando que a sogra ainda estava terminando os preparativos para o desjejum, Ritinha adiantou-se em fazê-la. Seu Jairo dizia que tomar um café bem quente ao amanhecer ajudava a despertar. Para Ritinha, foi mais um pretexto para espichar um olhar saudoso pela estrada, na esperança de, como um passe de mágica, seus desejos fossem concretizados. Mas, tudo em vão. Nem sombra de Beto.
Terminado os afazeres do dia, Seu Jairo, aproveitando o resto da manhã, foi com Marquinhos até o galpão para consertar alguns arreios. De repente, quebrando aquela quietude, ouviu-se, ainda muito distante, a insistente buzina de um carro. Saíram do galpão e avistaram a nuvem de poeira que um carro vinha deixando pela estrada, denotando que o motorista devia estar apressado. Ritinha estava passando a vassoura na casa, quando ouviu os gritos de Marquinhos – é Beto, é Beto! Correu para a varanda, e avistou o carro parando em frente à cancela. Jogou a vassoura para o lado, e correu para a frente da casa. Marquinhos, de uma só carreira chegou até a cancela, abriu-a, esperou o carro passar, fechou-a novamente, e pulou para dentro do carro. Feliz da vida, com o rosto para fora da janela, acenava para os demais, que já os aguardavam no terreiro. Quando Beto saltou, Ritinha, chorando de felicidade, foi a primeira a abraçá-lo euforicamente.
Passado a euforia da chegada, os homens ficaram na varanda, e as mulheres foram para a cozinha terminar de preparar o almoço. Enquanto degustavam um licor caseiro, Beto foi inteirando Seu Jairo sobre os últimos acontecimentos. No último mês, graças a DEUS, o volume de vendas na Almari cresceu acima do esperado. Por isso, foi possível acelerar o ritmo da obra, e terminar a tempo. Como Seu Jairo, Beto também se queixou da escassez de uma boa mão de obra. Mesmo com o dinheiro na mão, propondo pagar um valor acima do mercado, ainda assim, quase não conseguia alguém para ajudar no término da obra. É sempre assim. Os bons profissionais estão sempre abarrotados de serviço. O que mais aparece, são aqueles profissionais de meia-tigela, que dizem ter realizado obras magníficas, que já trabalharam para meio mundo de pessoas importantes e, quando contratados, a primeira coisa que fazem, é pedir um adiantamento do salário. O tempo estava escasso para colocarem tanto assunto em dia. Ora era Beto contando as novidades da cidade, ora era Seu Jaime falando do progresso de Marquinhos, sem contar com as narrativas de Dona Zefa, sobre as peraltices de Martinha. Durante o almoço, a conversa continuava animada, pois ainda tinham novidades para contar.
– Eu gostei muito daqui – disse Marquinhos, e continuou – se o vô concordar, eu vou estudar esse negócio de cuidar das plantas, e venho trabalhar com ele.
– Agronomia, você quer dizer – complementou Ritinha.
– Isso, isso – arrematou Marquinhos sorrindo.
– Fico muito feliz – respondeu Seu Jairo, cheio de orgulho.
Quem sabe, Seu Jairo não teria aquela tão almejada companhia de Beto, através de Marquinhos. Não era seu neto de sangue, é bem verdade, mas passou a gostar muito dele e já o considerava como tal. Certamente não seria aquele garanhão putanheiro, até porque o seu perfil era outro. Lembrava muito Beto, naquela mesma idade. Mas o tempo muda as pessoas. Os conceitos de Seu Jairo agora eram outros. Um homem de verdade, precisa ser sério, honesto e temente a DEUS. Companheiro, prestimoso, e amigo de todas as horas. Alegre, divertido, e amoroso. Se gostar de um rabo de saia, não faz mal. Vez por outra pode dar uma chamegada aqui, outra ali, desde quando seja discreto, não desonre, e não cause dissabores a ninguém.
– A senhora não comeu nada Dona Zefa! – comentou Ritinha.
– Estou sem apetite – respondeu Dona Zefa.
Seus pensamentos estavam longe, muito longe. Aquele almoço alegre, descontraído, aquela mesa cheia, com toda a família ali reunida, remeteu-a a tempos atrás, quando os dois jovens casais, ela, Seu Jairo, e os compadres, acompanhados de seus respectivos pais, festejavam os muitos, e inesquecíveis natais. O tempo foi passando, e, com a chegada dos filhos, as famílias foram crescendo, trazendo com eles mais alegria. Depois começaram as despedidas. Uns foram para não mais voltar. Esses últimos foram os mais tristes natais festejados, perdendo apenas por aqueles vividos no outro período de sua vida, há muito já esquecido, antes do seu recomeço em Riacho da Mata. Apenas ela e Seu Jairo, sentados à enorme mesa. Nunca se queixou. Sabe que os filhos não pertencem a quem os gera, ou os cria. Os filhos pertencem ao mundo. Assim como chegou o momento de os compadres ficarem sós, chegou também a sua vez. Esse ano, não seria diferente. Estariam ela e Seu Jairo festejando mais um natal, tristes, é bem verdade, mas agradecidos a Deus pela saúde, a mesa farta, e, principalmente, pela felicidade de seus entes queridos. Não é que ela tivesse desejado, mas, simplesmente aconteceu. Comungou com a tristeza de Ritinha, por não poder realizar o seu sonho de festejar o primeiro natal em sua casa. Ela é jovem, praticamente começando a vida, e terá muitos outros natais a comemorar. A roda da vida provocou as devidas mudanças, e fez com que rebrotasse então aquele sonho adormecido. Mesmo que fosse a última, mas teria novamente aquela mesa farta, com toda a sua nova família ao redor, comemorando mais uma inesquecível noite de natal.
Já haviam terminado de almoçar, e estavam todos na varanda, aguardando o café e a sobremesa. Beto, sabendo o motivo da tristeza de Dona Zefa, estava agora numa situação delicada. Encontrava-se, literalmente, entre a cruz e a espada. Sem mais delongas, precisava resolver aquela situação. Analisou rapidamente, e concluiu que aquele era o momento mais apropriado. Aguardou Dona Zefa retornar da cozinha com o café, e, depois de terminada a sua tarefa de servir, sem perda de tempo, delicadamente puxou-a para um lugar mais reservado da varanda, e disse-lhe.
– Eu sei que o seu problema não é falta de apetite. Está mais pra tristeza e decepção. E sei também que tem todos os motivos para sentir-se dessa forma.
– Não é nada disso. É impressão sua. Não tenho motivo algum para estar triste – disse Dona Zefa tentando despistar, mas seus olhos rasos d'água, aqueles olhos cinza esverdeado, traíram toda a sua narrativa.
Beto ficou ainda mais angustiado. Com tanta dor no coração, ainda assim, a mãe era incapaz de queixar-se.
– Ô mãe, me perdoa! – falou-lhe Beto, ao tempo em que a abraçava e beijava.
Beto estava sufocado com aquela angustia que o corroía por dentro, e precisava arrancá-la do peito. Emocionado, com os olhos marejados, começou a relatar, desde o seu descumprimento de trato, naquele primeiro natal. Disse-lhe que preferiu deixá-la triste com a sua ausência, a dar-lhe tamanho desgosto e decepção. E se não bastasse, também viriam juntos as preocupações prevendo ver um filho fracassado, sem futuro, com uma família para sustentar. E mais angustiado estava, por não ter cumprido o juramento que havia feito a si mesmo, o de não dar-lhe mais nenhum desgosto. Agora chega de sofrimento para ambos os lados. Já havia preparado o quarto para ela e Seu Jairo lá no apartamento. Tomara a liberdade de fazer um pequeno roteiro das atividades que fariam na metrópole, a começar pelas visitas aos compadres e Dona Romilda. Agora precisava do perdão, e só mais um pouquinho de compreensão da mãe. Conforme seus ensinamentos, natal é uma festa para se comemorar em família. É a oportunidade de renovar e fortalecer os laços consanguíneos e não consanguíneos. É congraçamento. É troca de energia entre espíritos afins. E não é apenas estarem fisicamente reunidos. É muito mais que isso. É momento de paz e harmonia, culminada com a alegria do espírito natalino. O local não importa. É mero detalhe. Nesse ano, em vez de comemorarem na casa do sítio, transfeririam a comemoração dos festejos para o apartamento.
Dona Zefa entende perfeitamente a situação delicada do filho. Transferindo os festejos para a cidade, ficará melhor para os seus negócios, e mais prático para ele se dividir em atenção entre a loja e a família. Mas, a causa principal da mudança de planos, é atender aos anseios de Ritinha. E porque não? Ambos se amam, e o amor tem dessas coisas. Ha uma necessidade de fazer um ao outro feliz. Um se realiza com a felicidade do outro. O amor, quando verdadeiro, é incondicional. É bem verdade que se sentiu magoada, e um pouco decepcionada com o filho. Mas tudo isso já passou. Coração de mãe não guarda mágoas, porque só tem espaço para muito amor e afeição pelos seus rebentos. É um filho maravilhoso e não pode exigir dele a perfeição, porque ela também é imperfeita. Ritinha é um doce de pessoa. Ama-o e o faz muito feliz. Ambos deram-lhe dois netos, que enchem seu coração de felicidade. O que mais pode pedir a sua Santa Rita das Causas Impossíveis?
– Não tenho nada a lhes perdoar meu filho. Eu é que te peço perdão e compreensão porque sou imperfeita. E todo ser imperfeito é assim. Quanto mais tem, mais quer. Vamos falar com Jaime para começar a providenciar as coisas para a viagem.
Abraçados, felizes, seguiram em direção ao grupo para anunciar a boa-nova.
Decidiram viajar no dia seguinte após o almoço, se possível, pois tinham ainda muita coisa para arrumar. Com a mudança do local dos festejos foi necessário alterar também toda a programação. A começar pelos abates que, certamente, Seu Jairo teria que antecipar. Uma parte das carnes seria congelada e a outra parte, defumada. As embalagens dos licores, e outras iguarias, ficariam por conta das mulheres. Com exceção de Martinha e Beto, porque ia bater volante no outro dia, durante quase toda à tarde, os demais quase não dormiram. Enquanto Dona Zefa e Ritinha cuidavam das embalagens dos comes e bebes, Seu Jaime e Marquinhos não arredaram pé do defumador. Já era quase madrugada, quando, finalmente, todos se recolheram ao merecido descanso. No dia seguinte, acordaram um pouco mais tarde, porém felizes, porque quase todas as tarefas haviam sido cumpridas. Apos o desjejum, Beto e Seu Jairo começaram a arrumar as coisas no bagageiro do carro. Preferiam sair logo após o almoço, como planejado, para chegarem ao destino antes do anoitecer. Beto aprendera com Seu Jairo. O melhor horário para iniciar uma viagem era na madrugada. E viajar à noite, somente em caso extremo.
Já era quase meio dia, e, como haviam tomado o café mais tarde do que o habitual, todos ainda estavam sem apetite. Mas precisavam almoçar no horário, para não atrasar a viagem. Dona Zefa, com sua vasta experiência, prevendo aquela situação, preparou então uma apetitosa refeição leve, que conseguiu despertar aquela fomezinha, e todos comeram satisfeitos.
Era o último almoço da temporada. Cada um dos presentes com seus secretos pensamentos. Dona Zefa, agradecida e feliz, em parte, porque passaria o natal com sua família reunida, mas gostaria que fosse na sua casa. E, quando retornassem, começaria a enfrentar aqueles longos dias, ansiosa por notícias do filho. Para Seu Jairo, seria muito difícil voltar a se acostumar com a solidão. A ausência do jovem parceiro deixaria uma enorme lacuna. O dócil Marquinho tinha essa peculiaridade de cativar, e se afeiçoar às pessoas. Marquinhos e Ritinha, que nunca tiveram uma família de verdade, viveram, naqueles poucos dias, uma experiência indescritível. Os pais de Beto, amorosos, compreensivos e pacientes, conquistaram, definitivamente, aqueles dois coraçãozinhos, tão carentes de amor e afeto. A magia da vida tranquila e sossegada do campo, deu o toque que faltava naquele cenário mágico. Diferentemente dos anteriores, alegres e descontraídos, aquele almoço começou a dar espaço para uma tristeza nostálgica. Nesse momento, o silêncio foi quebrado por Beto. Propositalmente, ou não, lembrou-se de Marquinhos ter expressado o desejo de trabalhar com Seu Jairo no sítio.
– E então Seu Jairo, porque não monta uma parceria com Marquinhos? Se é que ele ainda está interessado em trabalhar com o senhor, aqui no sítio. Eu gostaria mesmo é que ele continuasse meu parceiro, lá na Almari. Mas, para mim, acima de tudo está a felicidade dele. Torço para que tudo dê certo. Minha sugestão é que vocês produzam algo que eu possa comercializar na loja. Poderia ser produtos derivados de madeira, por exemplo.
– Eu me lembro de um cliente lá da loja que falou de uma madeira – disse Marquinhos. Não esqueci porque tem o nome engraçado. É balsa. É muito leve, forte, cresce ligeiro e é muito cara.
– Eu já ouvi falar – disse Seu Jairo. E é capaz de se dar bem aqui no sítio. Talvez precise fazer uma correção no solo, mas vale a pena.
– Olha só, estou gostando! – arrematou Beto animadamente. E continuou – e eu já tenho um nome para a empresa. Dando mais empolgação à sua fala, abriu os braços e disse: M&J Madeireira Ltda.
Todos sorriram do teatro improvisado de Beto.
Sério, Beto continuou – vocês podem achar que é brincadeira, mas eu acredito e boto fé em Marquinhos. Ele é um menino trabalhador e confiável.
Marquinhos sorriu encabulado.
– E quem disse que eu não estou levando a sério! – retrucou Seu Jairo. E continuou – eu tive prova do seu potencial, durante esses poucos dias que esteve me ajudando na labuta do sítio.
Marquinhos olhou firmemente para Seu Jairo, e disse-lhe – se o vô bota fé em mim, eu topo. Em seguida, com ar um pouco desolado, complementou – mas agora, agora, não vai dar porque tenho pouca idade e pouco dinheiro na poupança.
– Nã nã não! – retrucou Seu Jaime, meneando a cabeça. E concluiu – quando comecei a bater a cabeça por esse mundo afora, era só um pouquinho mais velho do que você. Enfrentei o mundo com Deus no coração, dois tostões no bolso, a cara e a coragem. Só não consegui chegar mais longe, hoje reconheço, porque abandonei os estudos. Mas você não vai abandonar não. Quanto ao dinheiro, deixa que o velho Jairo resolve. Sua poupança vai ficar guardadinha. Quanto à idade, isso não tem a menor importância. O que vale mesmo é o caráter, a responsabilidade, e a força de vontade. E num piscar de olhos você estará com dezoito anos. Pode acreditar.
Beto, que já tinha um bom conhecimento em planejamento, voltou a alimentar a ideia e começou a esboçar um projeto. Marquinhos aprofundaria nas pesquisas sobre a comercialização, onde e como vender, valor de venda no mercado, custo do plantio, média de produtividade, etc. Seu Jairo procuraria buscar informações sobre plantio, tipo de solo, espaçamento, e tipos de pragas mais comuns. Compartilhariam ao máximo todos os conhecimentos adquiridos. Inicialmente, seria uma parceria informal. Mais adiante, tudo dando certo, constituiriam uma empresa registrada. Durante as férias e feriados prolongados, Marquinhos ficaria no sítio trabalhando na execução do projeto com o avô. E os dias que permanecesse na cidade, dividiria seu tempo entre os estudos, a Almari, e pesquisas relacionadas aos projetos da parceria.
A ideia do projeto reascendeu em Seu Jairo aquele jovem destemido, determinado, obstinado, e, até mesmo um pouco utópico. Não que ele almejasse alcançar uma posição de destaque na área financeira, ou social. O casal passou por uns perrengues durante certos períodos, principalmente quando Beto ainda era criancinha. Mas como contribuintes do FUNRURAL – Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural, depois de muita peleja, conseguiram aposentar pelo INPS – Instituto Nacional de Previdência Social. Não eram ricos, mas agora, com as aposentadorias que recebiam, e mais alguma renda extraída do sítio, dava para viverem modestamente. Também, àquela altura da vida, não almejavam mais nada, além disso. A maior preocupação era o destino do único filho, que agora, graças a Deus, já estava encaminhado. Mas, dois fortes motivos impulsionaram-no a abraçar aquela causa. Primeiramente, o desejo de oferecer àquele menino homem, o Marquinhos, a grande oportunidade que o jovem Jairo acalentou por tantos anos, e nunca lhes foi dada. É bem verdade que, durante sua trajetória, encontrou pelo caminho muitas almas caridosas, que o socorreram nas horas mais difíceis. Mas nunca conseguiu realizar aquele sonho de amealhar uma boa soma, e apostar em um projeto relevante, ou alguém confiar e acreditar no seu potencial, a ponto de dizer-lhe: – pago pra ver, e agora me mostre o quanto você é capaz. O segundo motivo é a satisfação, e o prazer de encarar mais um desafio, e, mesmo depois de tantos anos, mostrar a si próprio o quanto ainda é capaz.
– A conversa está animada, mas agora vamos fazer uma pausa – disse Dona Zefa, em tom de ordenação. Haverá muito tempo para continuarmos o diálogo durante o trajeto. Agora vamos terminar de arrumar as coisas e iniciar nossa viagem. Não é bom viajarmos à noite – concluiu.
Acatando a ordem da matriarca, sem contestar, encerraram a conversa, e começaram a concluir os últimos detalhes para dar início à viagem.
Pouco tempo depois, devidamente acomodados na perua, seguiam viagem em direção à metrópole. Enquanto o veículo se movimentava, deixava para trás uma cortina de poeira. Absorto em seus secretos pensamentos, acompanhando os sacolejos, provenientes das irregularidades da estrada de chão batido, cada um dos passageiros, em silêncio, seguia sua viagem. Ha muito que a cancela do sítio havia sido deixada para trás, mas o pensamento de Seu Jairo continuava lá. A área mais apropriada para o plantio das balsas seria a do capoeirão. Seu tamanho é pouco mais de dez hectares. De cabeça, calculou que poderia, num espaçamento de cinco por cinco, plantar cerca de duzentas balsas, já levando em conta os carreirões entre as glebas, também com cinco metros, para facilitar a movimentação de tratores e caminhões. Descartou a possibilidade de aumentar o plantio, porque, para isso, teria que reduzir a sua reserva florestal. E isso ele não faria. Precisava agora saber se, com essa quantidade de árvores, o projeto seria viável. Sabia que em um plantio de cacau, por exemplo, a produção por hectare é de cinquenta a sessenta arrobas. E é economicamente viável quando a colheita anual atinge um mínimo de mil arrobas. Isso equivale a uma área plantada de, aproximadamente, vinte hectares. Mas os cacauais não servem como parâmetro, porque são plantios típicos de manejo manual, e, consequentemente, têm um custo elevado. É uma árvore que se adapta muito bem nos boqueirões, por necessitarem de bastante sombra e umidade. Quanto mais o terreno acidentado, melhor. São muitos os fatores que dificultam a mecanização de um cacaual. Esse, e muitos outros conhecimentos, eram passados de geração em geração, ou adquiridos da forma mais dolorida. Entre erros e acertos, até prosperar ou falir. Pensou em alguma coisa que pudesse dar-lhe um norte, mas nada lhe ocorreu. Com a mente cansada de tanto pensar, Seu Jaime rompeu o silêncio.
– Beto, calculo que, num espaçamento de cinco por cinco metros, o mesmo espaçamento usado no plantio de coqueiros, conseguirei plantar cerca de duzentas balsas naquela área do capoeirão. Preciso saber agora se, inicialmente, com essa quantidade de árvores, o projeto já seria viável.
Imediatamente, Beto lembrou-se dos cursos gratuitos, que havia feito antes, e durante a abertura da Almari. Mas, para surpresa de todos, inclusive do próprio Beto, foi Ritinha que tomou a palavra e começou a explanar.
– Seu Jairo, para encontrar essa resposta, é necessário fazer uma análise de viabilidade econômica e financeira. Primeiramente, elabora-se um pré-projeto. Após estudos sobre a produção média por hectare, o custo de produção, o valor da venda do produto praticado no mercado, o percentual médio das perdas. Em seguida faz-se uma projeção de receitas, custos, despesas e investimentos. Também deverá fazer parte da análise, as taxas e impostos que incidirão sobre a comercialização, além do custo de materiais, maquinários, e insumos a serem utilizados no projeto. É importante que esses números utilizados nas projeções, sejam os mais reais possíveis. Dessa forma é possível traçar um perfil de como o projeto se comportará financeiramente por um determinado período. Feito isso, operando com alguns indicadores e parâmetros econômicos, chega-se a um valor estimado do lucro líquido. Esse lucro líquido, em termos percentuais, é conhecido como a TIR (taxa interna de retorno). Outra taxa também importante é a TMA (taxa mínima de atratividade). O indicador payback, mede quanto tempo será necessário para que um projeto gere o retorno de todo o investimento inicial.
– Bravo Ritinha, é isso aí! – disse Beto entusiasmado e cheio de orgulho. Em seguida complementou – e por último, faz-se uma análise comparativa entre o lucro líquido, o montante do capital aplicado, e o percentual de risco. Caso a TIR seja maior que a TMA, significa que o projeto é viável e tem tudo para dar certo. Caso contrário, deve-se descartar ou reavaliar o projeto.
Os tempos mudaram. Já se foi o tempo em que o empreendedor perdia dinheiro entre os erros e acertos, ou às vezes pagava bem caro, até mesmo com a própria falência. Ainda existem pessoas, que continuam teimando e insistindo em ir pelo caminho errado. Seu Jairo sabia disso, mas não imaginava a complexidade para avaliar a viabilidade de um projeto, e o grau de conhecimento daqueles dois. Mais confiante e aliviado, acrescentou.
– Ótimo. Então peço que vocês me ajudem nessa parte, porque, sinceramente, essa não é a minha praia. E esses dados que vocês vão precisar, Marquinhos fornece.
Marquinhos já estava preocupado, sem saber se daria conta de tantas novas incumbências, e ainda chegando mais! Ressabiado e receoso de não corresponder à tamanha expectativa, ponderou, quase que implorando.
– Mas vocês vão me ajudar, não vão?
– Mas é claro que vamos – disse Beto. Nós também não somos papa no assunto. Temos o conhecimento, mas não temos muita prática. Fique tranquilo. Vamos estudar e trabalhar juntos nesse projeto.
– Pensei na sua antiga professora, Marquinhos. Ela gosta de ler e tem uma biblioteca enorme. Tem até duas enciclopédias: o Tesouro da Juventude e a Delta-Larousse – reforçou Ritinha.
– É, ela gosta de ler, e tem muitos livros – disse Marquinhos. – E pode também me ajudar a pesquisar na Biblioteca Municipal.
– É, mas agora chega de falar em trabalho – atalhou Dona Zefa. Já estamos na semana do natal. E onde está nosso espírito natalino?
Seu Jairo, prontamente, respondeu cantando.
– Jingle bel, jingle bel. Acabou o papel…
E todos sorriram.
Ao chegarem à cidade, primeiramente passaram na casa dos compadres. O objetivo maior da visitinha curta, além de matarem um pouco a saudade, era deixar logo o peru porque estava fresco. Dona Zefa sabia que a comadre gostava de temperar ao seu modo. O outro, já estava temperado ao gosto de Dona Zefa. Deixaram também requeijão, queijo e doce. Não poderiam faltar os biscoitos assados no forno a lenha.
A tarde já estava findando, quando, finalmente, chegaram ao apartamento, ou melhor, ao novo apartamento. A primeira mudança foi o acesso. Não precisavam mais entrar por dentro da loja. O apartamento agora tinha uma porta de ferro independente, que dava acesso à escada. Por sua vez, a escada recebeu um piso antiderrapante. Carregando algumas coisas, Beto e Ritinha subiram as escadas. Ao chegarem ao patamar, no final da escada, Ritinha deparou com uma porta trabalhada, envernizada, que Beto abriu. Sorridente, com um gesto de cavalheiro à moda antiga, fez menção para Ritinha entrar. Ritinha olhou demoradamente a porta, e, vagarosamente, entrou na sala. Beto colocou os objetos no chão e, em seguida, abriu o janelão. Ritinha ficou encantada com o que viu. O teto todo branco, as paredes pintadas de um branco Areia, e o chão todo coberto com uma cerâmica marrom bem clarinha, um pouco mais escura que as paredes. O balcão da cozinha americana, confeccionado com pedra de granito corumbá cinza, estava ladeado por dois bancos altos. A velha geladeira e o fogão foram substituídos por novos eletrodomésticos. E, no meio da sala, em lugar da mesa improvisada, tinha agora uma linda mesa de seis lugares. Sem palavras, com os olhos brilhando, Ritinha abraçou Beto e aconchegou seu rosto em seu peito. O tempo parou por alguns segundos, enquanto eles permaneceram ali abraçados, no meio da sala. Seus pensamentos viajaram, revivendo as incertezas de cada um dos dias difíceis que passaram, para chegarem até ali. Desfilaram em suas mentes, cada uma daquelas etapas vividas durante tão poucos anos, mas que pareceram uma eternidade. Desde o primeiro toque das mãos, no colégio, ao lado da cantina, o primeiro beijo trocado na formatura de Ângelo, as brigas, as reconciliações, os encontros no quartinho da loja, as juras de amor trocadas… O momento foi interrompido pela algazarra das crianças, acompanhadas pelos avós. Beto encheu-se de orgulho diante de tantos elogios, principalmente de Seu Jairo.
Cansados da viagem, fizeram uma leve ceia e não demoraram a se recolher. Com o término da obra, o apartamento agora passou a ter uma suíte e dois quartos. Não era grande, mas todos ficaram confortavelmente acomodados.
Marquinhos, compenetrado, agora tinha um quarto somente dele. Não era cheio de brinquedos, como sempre sonhara, até porque agora já era um homenzinho, mas estava muito feliz. Em sua mente, não havia mais registros de seus verdadeiros pais. Tinha apenas vagas lembranças.
No tempo em que moravam naquele minúsculo quartinho, ele e sua mãe Ritinha, teve muito medo de ser abandonado. Marquinho sempre fora um menino precoce, porque a vida o fez amadurecer bem cedo. Teve apenas um breve período de infância. Por mais de uma vez, Ritinha prometera que nunca iria abandoná-lo, mas ele tinha consciência que, por mais que se esforçasse, Ritinha não poderia cuidar sozinha de duas crianças. Ela precisava da ajuda de Beto. Se Beto não o aceitasse, ela seria obrigada a abandoná-lo, sob pena de sucumbirem os três. Como ele poderia sobreviver sem o amor da mãe Ritinha, e agora, também sem o amor da irmãzinha que estava para chegar. Mas, quando conheceu Beto sentiu-se verdadeiramente acolhido e, de imediato, aceitou-o como seu pai. Até então, sentia-se órfão. Nunca reconheceu Zé do Ouro como seu progenitor, e vice versa. Com Beto foi diferente. Aquela criancinha de olhos negros, tão carente de afeto, conquistou, imediatamente, o coração de manteiga do galego. Desde então, Marquinhos foi ficando cada vez mais confiante, e seus temores foram se dissipando. Sentindo-se protegido e amparado por uma família de verdade, começou a ter um pouco de paz e felicidade.
Beto já havia armado o berço de Martinha na suíte. Dona Zefa, com a aquiescência da própria neta, conseguiu transferir o berço da suíte para o quarto de Martinha, onde dormiriam Seu Jairo, Dona Zefa e a neta. Nada mais justo. Afinal, após tanto tempo de convivência, seria a primeira noite que o casal dormiria em seu próprio aposento. Era mais uma nova experiência. Sem contar com os dias que ficaram separados. Nem no tempo de namoro ficaram tanto tempo sem se ver. Beto ainda tentou relutar, alegando que Martinha poderia estranhar e, certamente iria incomodá-los, mas foi voto vencido. Dona Zefa e Seu Jairo estavam muito felizes com a presença da neta.
Ainda faltavam os lustres da sala e dos quartos, espelhos dos banheiros, e outras coisinhas, mas Beto preferiu deixar essa parte a critério de Ritinha. Ela tinha um gosto mais refinado. Nada mais agradável do que uma moradia, por mais simples que seja, decorada ao gosto do casal. O ambiente fica mais agradável e a energia flui melhor.
Em fim, sós. Abraçados, os dedos dos pés entrelaçados, Beto afagando os cabelos de Ritinha, com o rosto aninhado em seu peito, relembrava aquela primeira noite no pequeno terraço da república de um amigo, sob a luz das estrelas. Não havia passado tanto tempo assim, mas é como se fosse uma eternidade. Após tanta tempestade, tinha que haver uma bonança. Não foi fácil. Tiveram muita ajuda, sim. Muitos momentos de desanimo, vontade de desistir e abandonar tudo, mas o que pesou mesmo na balança foram o trabalho incansável, e, principalmente, a força e a perseverança de Ritinha. A guerreira agora tinha o descanso merecido. No aconchego do quarto, desfrutava o conforto da cama macia, sentindo o cheiro de lençóis limpos.
Como num filme, Ritinha relembrou quantas vezes sonhara com este momento, deitada em seu beliche, no minúsculo quartinho improvisado. Um quarto amplo e arejado só seu e de Beto. Seus utensílios e suas roupas limpas e arrumadas como devem ser. O banheiro cheiroso e perfumado seu, de Beto, e de mais ninguém. Sentiu a mão de Beto acariciando seu corpo, a maciez da camisola nova, de seda, comprada e guardada para aquela noite especial. Como Ritinha gostaria de ver, agora, a cara da loira platinada, do calendário de borracharia. Como gostaria que ela visse, com seu olhar provocante, o seu ninho de amor. Mas isso seria impossível, porque a loira jamais entraria naquele quarto. Ela nunca terá o direito, sequer, de dar uma espiadinha pela porta entreaberta da suíte.
Foi uma noite memorável.
No dia seguinte, logo cedo, após o café da manhã, todos desceram para a loja, com exceção de Dona Zefa, que ficou cuidando de Martinha.
Ritinha dirigiu-se ao escritório e, acompanhada do seu substituto, começou a examinar a papelada. Foram muitos dias de ausência, e ela sabia o quanto é importante para uma empresa manter o controle administrativo e financeiro devidamente organizado, alinhado com a contabilidade. Beto é bastante conhecedor do assunto, até mais que ela, mas isso só não basta. É preciso não descuidar do controle orçamentário, acompanhar diariamente o fluxo de caixa, e, principalmente, não misturar as finanças da empresa com as finanças pessoais. Não querendo usar de má-fé, mas por displicência, ou equívoco, ocasionado pelo excesso de trabalho, Beto poderia mandar lançar indevidamente, ou deixar de mandar lançar, alguma receita ou despesa. Organização e disciplina. É disso que toda a empresa necessita para manter sua saúde em dia.
Enquanto Beto seguiu com o encarregado para a área externa, a fim de acompanhar a chegada de mercadorias, Marquinhos permaneceu no interior da loja com Seu Jairo. Puxando-o pelo braço, Marquinhos disse-lhe sorrindo.
– Venha. Ainda não sei muita coisa, mas vou te ensinar algumas tarefas.
Em seguida, pegou uma prancheta com formulários rodados em mimeógrafo, e começaram a fazer um rápido levantamento do material com estoque baixo, para fazer novos pedidos. Alguns itens, mesmo ainda tendo uma quantidade razoável, ele pedia a Seu Jairo para anotar, porque sabia que o pedido demoraria a chegar. Outros, além da quantidade a ser pedida, colocava também a marca e o nome do fornecedor. O valor daquela marca era mais caro, mas era preferível, porque a qualidade era bem superior à dos concorrentes. Concluída a tarefa, levaram o formulário devidamente preenchido para o escritório. Ao retornarem, Marquinhos pegou uma agenda com os nomes e telefones de alguns clientes, aproximou-se do telefone e começou a fazer ligações. Quando o cliente atendia, ele puxava a conversa naturalmente, perguntando a uns sobre o andamento da obra, a outros sobre a saúde, comunicava que já estava de volta dos breves dias de férias, e aproveitava para desejar os votos de “feliz natal e próspero ano novo”.
Após o almoço, Ritinha, Martinha e a sogra, foram visitar Dona Romilda. Era o melhor horário, porque sempre tinha pouco movimento na pensão. Levaram também alguns mimos trazidos do sítio. Beto aproveitou a ausência de Ritinha, e, com a ajuda de Seu Jairo e Marquinhos, levaram a árvore de natal, que estava escondida no depósito, para o apartamento. Armaram-na e deixaram os enfeites para serem colocados pelas mulheres, quando chegassem. Ao retornarem da visita, qual não foi a surpresa de Ritinha, quando viu, armada no canto da sala, aquela linda árvore, com mais de dois metros de altura. Seu coração encheu-se de alegria. Imaginou que Beto, tão atribulado com o término do apartamento, e cuidando da loja, havia se esquecido desse importante detalhe. Homem não se preocupa muito com essas coisas – pensou. Já era final de tarde, e Beto não demoraria a subir. Sem perda de tempo, com a ajuda de Dona Zefa, começaram a enfeitar a belezura.
Dona Zefa estava na cozinha terminando de preparar o jantar, e Ritinha estava junto à árvore dando os retoques finais, quando a porta da sala se abriu. Ritinha virou-se e deu de cara com Beto, segurando uma caixinha. Ele a abriu, retirou de dentro uma brilhante Estrela de Davi e colocou nas mãos de Ritinha. Em seguida puxou-a para perto da árvore e suspendeu-a pelas pernas. Ritinha colocou delicadamente a estrela no topo da árvore, e Beto desceu-a vagarosamente. Ritinha enlaçou o pescoço do seu amado, e retribuiu-lhe com um caloroso beijo na boca. O torpor daquele momento íntimo, de troca de afetos, foi interrompido por um ran ran. Era Dona Zefa, tentando avisar que havia menores na platéia. Martinha, como uma sombra, estava sentadinha, embaixo da árvore, tentando colocar em seus galhos duas bolinhas que haviam sobrado. Compenetrada, sem tirar os olhos do trabalho que estava realizando, falou.
– O Prispe beijou Xinderela e… e ela acordouuu.
Para não perder a compostura, corrigiu Ritinha. – Não foi a Cinderela. Foi a Bela Adormecida.
Como se não tivesse ouvido a correção de Ritinha, Martinha continuou.
– E foi morá com o Prispe no castelo qui… qui tinha uma ave de natal bemmm grandona.
Aí foi que todos entenderam que ela, Martinha, estava contando a sua versão da estória. Para ter certeza de que era isso mesmo, Ritinha complementou – e a linda filha do Príncipe, e da Cinderela, ajudou a enfeitar a enorme árvore de natal, armada num canto da sala do castelo, correto? Martinha virou-se para ela, e respondeu com uma gostosa gargalhada, como se dissesse: matou a charada. Todos sorriram com a gargalhada contagiante de Martinha. Como não poderia deixar passar em branco aquela oportunidade, Dona Zefa, sem parar o seu serviço na cozinha, profetizou, cheia de orgulho.
– Quando essa menina crescer, vai se tornar uma grande escritora. Escrevam o que estou dizendo.
O cheiro gostoso do peru assado rescendeu no ambiente. Era véspera do natal e todos estavam animados para a ceia. Apenas Seu Jairo, Dona Zefa, Beto, Ritinha e as crianças estavam presentes. Sentaram-se à mesa, e, antes de dar início ao banquete, fizeram uma oração, e agradeceram pelas dádivas recebidas, principalmente pela Graça da família estar reunida novamente. Os compadres não vieram, porque o genro e a filha ceariam com eles. Mas combinaram que, no dia seguinte, estariam todos reunidos para o almoço, na casa do genro dos compadres.
Apesar de muita coisa ter sido adiantada no sítio, ainda assim, as mulheres tiveram muito trabalho para preparar a ceia. Dona Zefa, acostumada com a sua cozinha, sentia-se agora como uma sardinha enlatada. Mas valeu. No fim, deu tudo certo, e a recompensa veio em forma de elogios. Tudo estava maravilhoso, diziam. Ritinha, fazendo bico, reclamou.
– Será que a ajudante não recebe nem meio elogio!
Marquinhos levantou-se muito sério, apontou para Dona Zefa e Ritinha, e com a voz empostada, disse.
– Vocês são os esteios de sustentação desta pequena falange, ou melhor, da primeira e da segunda geração desta família. Unidas novamente, tornar-se-ão mais fortes, e estarão prontas para resistir aos vendavais e furacões dessa jornada. Em seguida, carinhosamente, abraçou e osculou cada uma das mães. Todos atônitos, inclusive o próprio Marquinhos, esqueceram os elogios mendigados por Ritinha, e começaram a elucubrar sobre o acontecido. Talvez tenha sido o efeito da taça de vinho. Pela primeira vez, Marquinhos ingeriu uma bebida alcoólica. Mas, e o vocabulário rebuscado! O mais apropriado seria uma pilheria de bêbado. Ritinha, lembrando-se do episódio acontecido com Dona Firmina, percebeu que o assunto era mais sério, e nenhum dos presentes estaria apto a dar alguma explicação. Tratou de desviar o rumo da conversa e, logo, logo, o episódio caiu no esquecimento.
Vinte e cinco de dezembro é a data em que os Cristãos comemoram o nascimento de Jesus Cristo. Segundo a tradição Cristã, os Três Reis Magos, guiados por um sinal dos Céus, a estrela de Belém, encontram o recém-nascido, o Menino Jesus, deitado sobre uma manjedoura. Nessa visita, presentearam-no com ouro, incenso e mirra. Tornou-se então tradição, nesse dia, a troca de presentes.
Para a criança Ritinha, todos os anos, o dia vinte e cinco era um verdadeiro martírio. Deitada em seu quartinho improvisado, entre soluços, ouvia a algazarra das crianças com seus novos brinquedos. Para ela, há muito que o Papai Noel deixara de existir, mas o seu espírito natalino, teimosamente, permanecia imortal. Naqueles momentos de angustia e tristeza, quantas e quantas vezes sonhara, vivendo em sua verdadeira casa, arrodeada de seus entes queridos. Em sua visão, apareciam todos na sala, sentados sobre um lindo piso de cerâmica clara, todo limpo, cheirando a jasmim, ao lado de uma grande árvore de natal. Com exceção de Marquinho, não conseguia ver os demais, mas sentia fortemente suas presenças.
Uma cena bastante comum é a troca de presentes no dia de natal, com a família reunida. Um momento de paz e harmonia, que nem todos têm o privilegio de vivenciar, enquanto outros são agraciados, e não dão o devido valor. Mas, para Ritinha, aquele era um sonho acalentado durante muitos anos, agora transformado em realidade. Uma forte emoção tomou conta do seu ser, quando viu sua pequena família, querida e amada, ali reunida, todos alegres, felizes, sentados sobre o piso claro, ao lado de uma grande árvore de natal, exatamente como aparecia em seus sonhos. Em um momento ímpar, imbuídos pelo espírito natalino, eram todos verdadeiramente crianças. Somente quem teve a oportunidade de vivenciar a realização de um grande sonho, é capaz de mensurar a doce dor sentida por Ritinha, naquele momento.
Perante Deus, a família e os amigos mais chegados, Beto e Ritinha já estavam casados de fato. Mas, perante a justiça, ainda não tinham realizado a legalização do estado civil. Para eles, não havia muita diferença. Apenas mais uma burocracia a ser cumprida. Analisaram, questionaram, ponderaram, e chegaram à conclusão que deveriam dar mais esse passo. Não que houvesse dúvidas quanto à idoneidade de qualquer um dos membros da família, ou alguma imposição, mesmo de uma maneira sutil. Talvez, sim, de forma bastante discreta, astuciosa, o preconceito social não deixa de existir. A sociedade hipócrita, através de seus preceitos, é cruel. Procura atingir aos membros mais vulneráveis da família, que são, certamente, as crianças. Seria uma forma de dar uma resposta, com luvas de pelica, a esses preconceituosos. Com o casamento civil, os cônjuges passam a ter plena comunhão de vida, e assumem mutuamente a condição de consortes, companheiros, e responsáveis pela entidade familiar, que deverá ser exercida em colaboração por ambos os cônjuges, sempre no interesse do casal, e dos filhos. Mas esse compromisso de companheirismo, e responsabilidade pela entidade família, já havia sido assumido pelos nubentes, desde aquela noite em que conceberam a ideia de montar uma loja de Materiais de Construção. O ato civil poderia acalentar, um pouco, os anseios de Dona Zefa e da Comadre. Mas, pela vontade das duas, há muito que os seus filhos já deveriam ter, não somente casado civilmente, mas também recebido as bênçãos do matrimônio na Casa de Deus.
As nubentes, em geral, sonham adentrando na Igreja, lindamente florida, vestidas de princesa, e, ao final da cerimônia, oferecer aos convidados uma recepção digna de destaque em colunas sociais, culminada com o corte de um bolo de cinco andares, a duas mãos. Ritinha era uma exceção. O mais importante para ela, era uma família estruturada, e um teto para abrigá-los, impregnado de boas energias, muita paz e harmonia. Uma cerimônia coletiva no Fórum seria o bastante. A princípio pensaram em surpreender a todos, na noite de natal, exibindo simplesmente a certidão lavrada, registrada, e festejariam com um brinde. Mas aí, como seria a reação de seus pais, seus familiares. Considerariam uma grande desfeita, uma tremenda falta de consideração. Poderiam sentir-se cerceados, por não participarem de algo tão importante na vida dos dois. Agindo dessa maneira, certamente estariam cobertos de razão. Além do mais, o tempo era bastante curto para a tramitação da papelada. Então decidiram postergar para logo após as férias forenses.
Dona Zefa e a Comadre não se conformaram com a decisão dos dois. Como poderia um evento tão importante na vida do casal, o sagrado matrimônio, ser relegado a uma simples assinatura de um papel, na presença do juiz, e ainda por cima em conjunto com vários desconhecidos. Sonhavam com os filhos e padrinhos, elegantemente trajados, entrando na igrejinha de Riacho da Mata, toda enfeitada, repleta de convidados, ao som do grupo regional. Depois da cerimônia iriam todos para o sítio, onde seria realizada uma festança com muita música, comida e bebida à vontade. Esgotados todos os argumentos, sem alternativa, prevaleceu a vontade dos dois.
Ainda assim, foi melhor do que o esperado. Ritinha optou por um vestido midi de renda floral, azul-celeste, gola em v, forrado com seda da mesma cor. A faixa de seda, da mesma tonalidade, amarrada na cintura, dava-lhe um ar de menina moça, ao tempo em que ressaltava as linhas do seu corpo. A bolsa pequena de mão, preta, com detalhe prateado, e sapato de salto, igualmente preto, completavam o look. Beto estava também muito elegante, trajando um blazer de linho azul-marinho. Ao entrarem no salão do Fórum, acompanhados dos filhos, ficaram surpresos com a quantidade de casais, que, como eles, queriam oficializar a união perante a Lei. O recinto estava repleto de nubentes e seus convidados. Eram casais de todos os tipos. Jovens, idosos, e também, como eles, com filhos. Como nas cerimônias religiosas, no ato jurídico, do mesmo modo, é exigido o tão sonhado “sim”. A cerimônia do Casamento Civil, por força do artigo 1.538 do Código Civil Brasileiro, exige que os nubentes, perante um oficial designado para tal, respondam “sim”, de forma clara e objetiva, sob pena da suspensão imediata da cerimônia.
Apesar do ambiente solene e austero, quando ouviram o “sim” como resposta à pergunta de praxe, proferida pelo juiz de paz, a emoção tomou conta dos presentes, principalmente a Comadre e Dona Zefa. Naquele momento, diante de Beto, como um filme em velocidade acelerada, passaram pela cabeça de Ritinha, os raros momentos de felicidade, e todas as dificuldades passadas, durante sua vida vivida tão precoce. Pensou em sua mãe. Como gostaria que ela estivesse presente, vibrando emocionada pela sua felicidade. Mas aí veio uma nuvem negra, acompanhada da imagem do estrupício. Um arrepio tomou-lhe o corpo. Fazendo um grande esforço, tratou de recompor-se. O melhor agora é esquecer essas lembranças sombrias que só lhes fazia mal. E a mãezinha Dona Romilda, como estaria? Ritinha convidou-a por convidar, mas sabia que ela não viria. Não era do seu feitio assistir a essas cerimônias, tão pouco participar de festas e eventos. Apesar de demonstrar ser aquela mulher durona, casca grossa, tinha o coração de manteiga. De fato, naquele momento, Dona Romilda estava ajoelhada diante da imagem da Mãe Maria Santíssima, humildemente agradecendo e pedindo-Lhe proteção para sua família. Era ali que ela, no cantinho do seu quarto, em raros momentos, se permitia desnudar-se do personagem, e deixar seu velho coração comandar suas emoções.
Depois da cerimônia, dirigiram-se todos à casa do genro dos Compadres, sócio de Beto e Ritinha, onde os recém-casados foram recepcionados com um delicioso e agradável jantar. Além dos familiares, estavam também presentes alguns poucos amigos mais chegados.
No dia seguinte, como era final de semana, resolveram todos ir à praia, na vizinha cidade litorânea. Como Riacho da Mata fica distante da costa, Seu Jairo e Dona Zefa não poderiam deixar de aproveitar a oportunidade. O dia estava convidativo. O céu límpido e o sol propício, é a perfeita combinação para um excelente banho de mar. Chegaram cedo, caminharam pela areia, e brincaram nas ondas. Antes do sol do meio dia, já estavam abrigados sob a cobertura de um dos bares, próximo à praia, admirando aquela linda paisagem. Ritinha, distraidamente, bebia uma água de coco, quando avistou Gabriel sentado em outra mesa, não muito distante da sua. Ele olhou para ela, sorriu, ergueu a taça de vinho em uma das mãos, e brindou. Ritinha retribuiu-lhe o sorriso, e, o primeiro impulso foi de dirigir-se até ele. Sem sequer tomar fôlego, crivar-lhe com todas as perguntas acumuladas durante tanto tempo. E ainda mais, pediria, aliás, exigiria o seu contato, a começar pelo telefone, endereço residencial, comercial e tudo o mais. Não importa o que ele pensaria. Ela é que não iria continuar, nem mais um dia, com aquelas perguntas, sem resposta, martelando seu juízo. Olhou em volta e percebeu que apenas Martinha se fazia presente. Não poderia ir ao encontro de Gabriel deixando Martina sozinha, muito menos saírem as duas e deixar os pertences sobre a mesa. – Acalme-se Ritinha – pensou. Ele não vai sair por agora, porque está, calmamente, bebericando seu vinho. Seu Jairo e Dona Zefa podem até demorar um pouco mais, porque foram buscar acarajé, e, provavelmente, estão esperando terminar a fritura. Acarajé só é bom quentinho, feito na hora. Mas Beto e Marquinhos foram ao sanitário, e, pela hora, já devem estar de volta. Para certificar-se, olhou mais uma vez e constatou que Gabriel estava sozinho, porque havia apenas a garrafa de vinho e uma taça sobre a mesa. – Melhor assim – pensou Ritinha. Diante das tantas perguntas que iria lhes fazer, a mulher que estivesse com ele pensaria um monte de besteira. – E Beto, meu Deus, o que irá imaginar – pensou novamente aflita. É, mas Beto não haveria maiores problemas. Não faltariam oportunidades para novos encontros. Gabriel era uma pessoa maravilhosa, e seria uma grande honra tê-lo como amigo do casal.
– Ah! Finalmente – exclamou Ritinha aliviada, quando avistou Beto e Marquinhos retornando. Em seguida, fez sinal para apressarem o passo. Antes mesmo que eles chegassem até a mesa, Ritinha levantou-se e começou a falar.
– Venha que eu preciso te apresentar uma pessoa.
– Quem? – indagou Beto – tentando entender o motivo da importância.
– Venha – continuou Ritinha, virando-se e seguindo na direção da mesa onde se encontrava Gabriel. E aí espantou-se quando avistou a mesa completamente vazia. Mas não é possível – pensou. Seria bastante improvável, em alguns segundos, Gabriel ter pago a conta e saído. Descartada também a possibilidade de ter saído sem pagar, porque a taça e a garrafa de vinho já haviam sido recolhidas. Olhou em volta, e constatou que era realmente aquela mesa, porque as outras estavam ocupadas. Pensou em chamar o garçom para elucidar o caso, mas, ao aproximar-se um pouco mais da mesa, constatou que ela estava sem cadeiras, e até um pouco suja, com um aspecto nítido de abandono. Sentiu o sangue gelar e um calafrio a correr-lhe pelo corpo.
Mais uma vez sem resposta, se perguntou baixinho.
– Será o Anjo Gabriel?
