Há alguns dias acordei meio nostálgico, lembrei-me de Seu Carlos e, quando percebi, já estava rabiscando mentalmente a sua história. O turbilhão dos acontecimentos cotidianos, como é de praxe nessa nossa vida “moderna”, atropelou o pequeno projeto e impediu-me de colocá-lo no papel. Mas fica aquele desejo de externar, botar pra fora e, enquanto não o faço, sinto-me incomodado, angustiado, com uma espécie de sentimento de culpa que, enquanto eu não fizer acontecer, não passará. Não sei por onde anda Seu Carlos, muito pouco sei sobre sua vida, nem mesmo se Carlos é o seu verdadeiro nome. E eu, sei de onde venho, por onde ando, e pra onde vou? E minha vida, percorrendo novos caminhos, pra onde vai? Às vezes, imagino-me saindo sem destino pelo mundo, como Seu Carlos e, quem sabe, não encontraria, como Sidarta, respostas para tantos questionamentos conversando com um rio. Seria possível encontrar um lugar onde pudesse, como diz a canção de Elis, encontrar meus amigos leais, guardar meus discos e livros, e nada mais.
Lembro-me de quando Seu Carlos chegou. Era um final de tarde, estávamos terminando as tarefas do dia, alguns trabalhadores já se encontravam a caminho do córrego para o banho vespertino, meu pai passando ao capataz as ordens para o dia seguinte, e já havia no ar um cheiro de cuscuz e café fresco. Um homem descia pela estrada, chapéu de massa sobre a cabeça, terno de tropical inglês, cinza, sobre a camisa de cambraia branca, colarinho aberto, sem gravata, sapato preto de couro fino, legítimo, e sobre os ombros uma sacola de viagem. Tratava-se de um desconhecido, gente de fora. Vinha em seu passo lento, como se não tivesse pressa de chegar, com destino a lugar nenhum. Todos se entreolharam. Quem seria? Alguém arriscou. Talvez um fiscal. Um fiscal a pé, àquelas horas? Seu Carlos chegou. Esse era seu nome. Educadamente saudou a todos. Deduzindo acertadamente, dirigiu-se a meu pai como sendo o dono daquela propriedade rural, e pediu abrigo e trabalho. Meu pai ordenou então que providenciassem alimento e arrumassem um canto no armazém para ele descansar. Seu Russo, o capataz, ficou encarregado de arrumar-lhe algum trabalho nas proximidades da Sede.
Como eu, Seu Carlos tinha cabelos pretos, olhos castanhos escuros, pele clara, taciturno, pouca conversa. Naquela ocasião, eu contava pouco mais de dez anos. Seu Carlos, estatura mediana, aparentava seus trinta e cinco anos. No final da tarde, após o banho, ele costumava escalar um pequeno monte próximo, em frente à sede da fazenda, onde permanecia por um bom tempo, fumando, olhando, com imensa tristeza, o vazio do firmamento. O que estaria ele pensando, ou tentando esquecer? Quantas vezes acordei, durante a noite, às voltas com meus fantasmas, outras vezes buscando um carinho, um aconchego, e voltava a dormir, soluçando baixinho. Hoje, os meus fantasmas são outros, mas persistem as inseguranças, as incertezas, o medo do desconhecido, o medo do amanhã. O que teria acontecido lá em Minas Gerais? O que fez Seu Carlos chegar até esse fim de mundo? O que veio em sua bagagem e que ele gostaria de ter deixado lá, enterrado, sepultado? O que ele gostaria de ter trazido e, certamente, poderia abrandar-lhe o coração, dando-lhe um pouco de paz e felicidade.
Seu Russo, diferente de Seu Carlos, era um homem rude, cabelo e barba avermelhados, pele curtida, muito mal sabia ler. Eu não gostava de Seu Russo. Tinha um olhar de raposa. Certa feita, minha mãe descobriu, dentro da cozinha dele, guardada em uma caixa de madeira, uma leitoa esquartejada. A mulher de Seu Russo tratou de esclarecer, apressadamente, que tinha sido uma leitoa “das deles”. Tiveram de matar porque não era boa parideira.
Cedo, no dia seguinte, Seu Carlos, facão em punho, camisa branca social dobrada acima dos cotovelos, mostrava claramente que não tinha intimidade com a tarefa de roçagem. Seu Russo providenciou uma indumentária mais adequada, incluindo um chapéu de palha grande, pois as poucas horas de exposição ao sol foram o bastante para agredir a pele fina do moço citadino. Os poucos dias seguintes foram suficientes para Seu Carlos demonstrar a sua inteligência, força de vontade, a dedicação e o desejo em aprender, adaptando-se rapidamente ao seu novo habitat.
Com seu jeito calmo, educado e prestativo, Seu Carlos foi conquistando a amizade de todos, ou melhor, quase todos. É curioso como as pessoas sentem-se incomodadas, ameaçadas, quando alguém começa a sobressair, principalmente nos ambientes de trabalho, quando esse alguém é notado pelo chefe. Quanto trabalho brilhante é jogado na lata do lixo, simplesmente para não tornar-se uma ameaça, não motivar o destronamento de muitos incompetentes?
Seu Carlos falava muito pouco, principalmente sobre sua vida. Em momentos raros, talvez duas ou três ocasiões, tive a oportunidade de conversar com ele, ou melhor, de ouvi-lo. Acho que o meu jeito calado, discreto, propiciou-lhe eleger-me como seu ouvinte. Numa espécie de desabafo, falou-me sobre sua filha. Pouco mais nova que eu, loira, olhos verdes, bonita como a mãe. Mas o caráter, felizmente, herdara dele. Não tinha foto, nada dela. Somente lembranças. Apaixonei-me por ela. Via-a em meus sonhos, sorrindo para mim, segurando minhas mãos, fitando-me com aqueles lindos olhos verdes. Sentia o seu perfume, seus lindos cabelos loiros roçando minha pele. Não dizia nada, apenas sorria. Seu Carlos não oporia. Muito pelo contrario, teria muito gosto em nos ver unidos pelo matrimonio. Seu Carlos iria trazê-la, teríamos uma bela festa de casamento e viveríamos todos muito felizes, aqui na fazenda.
Seu Russo já havia tecido alguns comentários maledicentes, levantando dúvidas a respeito da idoneidade de Seu Carlos. Aproveitou o momento em que estávamos na sala, e enquanto Seu Carlos tomava banho no córrego, lá embaixo, na roça de cacau, indagou o que haveria na mochila dele. Talvez alguma coisa que desvendasse seu passado. E por que não espiar? Sem dar tempo a qualquer reação, pegou a mochila que estava pendurada, abriu-a e esparramou todo o seu conteúdo no meio da sala. Além cuecas, meias e duas mudas de roupa, saltaram aos nossos olhos uma faca trabalhada e um par de esporas de metal, pertencentes a meu pai, além de um rolo de nylon para pesca, anzóis e outras quinquilharias. Seu Russo não perdeu tempo. Estamos abrigando um ladrão, comentou. Isso não podia continuar, meu pai deveria tomar uma atitude. Quando Seu Carlos retornou do banho, meu pai, com os olhos marejados, pediu-lhe que pegasse seus pertences e fosse embora, no outro dia cedo. Seu Carlos, de cabeça baixa, sem dizer uma palavra, recolheu-se no armazém.
Desolado, fui ao armazém. Seu Carlos estava encostado na janela, fumando, enquanto olhava a escuridão, com aquele mesmo ar absorto. Aproximei-me. Seu Carlos abraçou-me em silencio. Senti seu corpo estremecer com um soluço, enquanto duas lágrimas rolavam em seu rosto. Não, pensei! Isso não pode ficar assim. Não é justo o que estão fazendo. Seu Carlos é um homem bom. Seu Russo preparou tudo por ciúme. E a estória da leitoa, e outros fatos já esquecidos, não bem esclarecidos, que fazem parte do currículo de Seu Russo, não contam? Meu pai há de me ouvir. Com os olhos marejados, retornei à sala da casa-sede, com o discurso de defesa preparado e ensaiado. Encontrei os homens tecendo os últimos comentários sobre o episódio, e outros assuntos já entrando em pauta. Preparado, respirei fundo e, quando ia abrir a boca, ouvi uma voz no fundo da minha consciência. Era a voz do meu pai: “criança não entra na conversa de adulto”. O discurso inflamado de defesa resumiu-se a um “bença meu pai” e um tímido boa-noite.
Deitado em meu quarto, entre lágrimas e soluços, pensei: a batalha ainda não esta perdida. Amanha cedo convencerei Seu Carlos a falar com meu pai, que irá ouvi-lo. Todo esse mal entendido se esclarecerá. Seu Russo será desmascarado e, quem sabe, Seu Carlos aproveitará a oportunidade para falar a meu pai sobre mim e sua filha. Meu pai, muito contente, pedirá a Seu Carlos para trazê-la, o mais breve possível. Embalado por esse desfecho, adormeci.
Zumbi 10/2011