Recebi uma foto, onde figuravam grandes personagens da atualidade, e lá estava ele. Pensei, esse é “O Tio”.
Este título é dado ao irmão da mãe, ou do pai, ao aderente, ou seja, aquele que, unido através do matrimonio, passa a fazer parte da família, ou até mesmo a alguém que simplesmente consegue arrancar de dentro de você essa qualificação, acompanhada de muito amor, carinho e afeição. Todos, ou na grande maioria, temos tios e “O Tio”.
A figura do tio, de modo geral, vem acompanhada de austeridade, respeito, por ser o responsável direto na ausência do pai. Ele, o Tio, não. Nunca impõe nada. Com o seu jeito cativante, consegue todos esses adjetivos, inerente às pessoas carismáticas, e muito mais. Figura esguia, cabelos aloirados, pele clara, olhar triste, íntegro, leal... Não, não é a descrição do Dom Quixote. Considerando apenas o aspecto físico, está mais para Rok Hudson.
E nos tempos da brilhantina? Para quem não se lembra, foi importado dos Estados Unidos um corte de cabelo que, aqui, ficou conhecido como “Maracanã”. O Tio tinha orgulho de seu belo exemplar. Combinava muito bem com os seus dezoito anos. Fiz de tudo para conseguir imitá-lo, mas as dificuldades eram enormes. A começar pela a idade. No interior, o único corte para criança de dez anos era a famosa pastinha, ou seja, a cabeça toda pelada com uma franja na frente. Hoje, tenho certeza, aquele pimpão era inimitável. Até o Pat Boone e o Elvis teriam inveja dele.
Contava os dias esperando sua chegada, durante as férias, trazendo as novidades da cidade. Camisa banlon, calça de tropical inglês, perfume Frances, tinham lugar cativo em sua bagagem. À noite, enquanto ele se arrumava para sair, eu ficava embevecido, ouvindo as coisas maravilhosas sobre a vida na cidade. Como num passe de mágica, bastava meia dúzia de escovadas e lá estava o seu “maracanã”, impávido, colossal. Sentia-me envaidecido, desfilando na pracinha ao lado daquela estampa imponente, vendo os olhares languidos e os suspiros apaixonados das mocinhas casadoiras, ao passarem por ele.
Estávamos no quarto. Amplo, com duas camas patentes, colchões e travesseiros com enchimento de algodão, cobertos com lençóis de cambraia branca. Em uma das paredes ficava um guarda-roupa de madeira escura. Na outra extremidade, uma penteadeira, combinando em estilo com o guarda-roupa. Além de algumas roupas antigas, tinha, lá dentro, um velho bandolim, com cordas partidas que, em minhas noites de solidão, ficava sonhando, tirando canções maviosas do instrumento. Na cabeceira de uma das camas ficava pendurado um terço, com várias contas diferentes, montado com partes de outros terços. Eu rezava o terço todas as noites e não perdia uma novena. Queria ser agraciado como Marcelinho Pão e Vinho. A janela, de madeira pesada, abria para a varanda e o quintal, onde no centro tinha uma parreira. O Tio estava retirando as ultimas peças de roupa da mala, quando surgiu um calendário. Na estampa tinha a foto de uma moça loira, linda, vestida com uma blusa de malha amarelo ouro e um short curto vermelho, deixando à mostra suas pernas torneadas, sentada em uma monareta verde e branca. Eu não sabia, mas era uma propaganda da Gulivetti, uma marca de monareta das mais cobiçadas. Um dos sonhos do Tio era possuir uma daquelas máquinas maravilhosas, ou, talvez, as duas: a Gulivetti e a loira. Começamos então a elaborar um projeto para adquiri-la. A idéia era simples, e tinha tudo para dar certo. O pouco capital disponível seria empregado na compra de sementes e adubo. Já possuíamos o terreno e a ferramenta necessária, além dos braços e uma imensa vontade de ver nosso sonho realizado. Essas férias foram diferentes das outras. Quase todos os dias, descíamos para o roçado. Escolhemos uma área na vazante do rio e começamos a prepará-la para nosso plantio de “cibola”. Feliz, sonhando, eu não sentia cansaço. O trabalho era árduo. Capinando, fazendo leiras, plantando, fazendo valas para a irrigação, consertando a roda-dágua, matando a fome com melancia quente, mas o premio me fazia esquecer tudo isso. O Tio fazia as contas com base no preço de mercado, calculava quantas arrobas seriam colhidas, somava, dividia e ficava feliz com o resultado. Daria para comprar a Gulivetti e ainda sobraria dinheiro para adquirir algumas mudas de roupa, livros e muito disco. Acordado ou dormindo, invariavelmente o sonho era o mesmo. Sonhava com o Tio pilotando a Gulivetti reluzente, desfilando na praça, levando-me na garupa. Outra hora era a loira do calendário que me conduzia.
A plantação ficava cada dia mais viçosa. Finalmente chegou o dia da colheita. O alpendre ficou abarrotado de cebolas. Por alguns dias, dormi inalando aquele odor acre. O Tio providenciou tiras de caroá e contratou algumas mulheres da rua dos caboclos para trançá-las. Primeiro se junta e amarram-se três tiras de caroá. Depois escolhe-se as cebolas maiores e, com a própria palha do bulbo, juntamente com as tiras de caroá, vai-se formando uma trança, como as mulheres fazem nos seus cabelos, adicionando as “cabeças de cebola” em ordem decrescente de tamanho. No final, dá-se um nó com as próprias tiras de caroá.
Finalmente nossa safra estava pronta para ser embarcada. E se os compradores não chegarem logo? E se a cebola apodrecer? E se a cotação do preço cair ainda mais? Para alívio de todos, o caminhão parou na porta do sobrado. A notícia correu como o vento. Dos quatro cantos surgiam carregamentos de cebola, transportados das mais variadas formas. Uma mãe gritava para o filho se apressar, curiosos observavam à sombra dos tamarineiros, a praça fervilhava. As tranças de cebola eram colocadas sobre a balança, retiradas e arrumadas na carroceria do caminhão. Um homem anotava enquanto o outro pagava. Nossa pequena safra praticamente desapareceu naquela imensa carga.
Ainda não foi daquela vez que o Tio realizou seu sonho, ou melhor, nosso sonho. Aquela batalha foi ganha, mas, como muitas outras durante nossa existência, não ficamos com o troféu. Na sua trajetória, foram muitas batalhas. Hoje ele é um vitorioso e tem uma sala de troféus. E eu tenho orgulho em dizer: esse é o Tio.
Zumbi
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