segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

FUSCÃO

Andar de “Fuscão” naquela época era “Status”, mas andei num particularmente “Especial”.
 

Explico:
Estávamos em pleno verão de 1970. Eu, Saruê, Luisão e Tom resolvemos passar o carnaval num interiorzão desses por aí. Sem saber bem o quê, ou mesmo onde ia dar tudo aquilo, iniciamos a viagem. Na verdade foi idéia deles, o Tom tinha o Carro, Saruê providenciou a hospedagem, e por aí vai. Como era o mais velho do grupo, único que não vivia de mesada, fiquei com a maior parte das despesas. Mais que justo.


A bordo de um autêntico CHEVETTE seis cilindros, câmbio alemão, que na ocasião era a bola da vez, iniciamos nossa turnê de quase uma semana. Comparando minha idade, em detrimento dos demais, era quase que o dobro da média do grupo. Inicialmente, por conta da grande discrepância com relação aos pensamentos, idéias, o vocabulário repleto de gírias, próprio da idade me senti um verdadeiro alienígena. Imaginem o que é um adulto em meio a três adolescentes? De duas uma, ou ficava casmurro num canto, ou me tornava um deles; fiquei com a segunda opção. Ao ser aceito pelo grupo, de cara recebi a alcunha de “o velho”. A viagem transcorria maravilhosamente bem. Enquanto isso, como era de lei, enquanto rolava a bebida, surgiam os planos estratégicos para conquista das mulheres, acompanhados de resenhas, gozações, em fim, uma verdadeira zorra. 


Fomos todos para a casa do Saruê, Tom tratou de cuidar do carro, alias, sua maior preocupação, Luizão foi providenciar os ingressos para o baile de Carnaval, e eu sempre a observar, mais do que agir; Na verdade estava mais preocupado em explicar para mim mesmo o que estava fazendo ali, em meio àquele sertaozão, seco, longínquo e sem-graça (até então)


À noite, fomos ao baile no clube. Antes, porém, tomamos o segundo litro de Bacardí pelo gargalo. A partir daí, tudo começou a ficar lindo e maravilhoso. Quando chegamos, a festa já havia começado. As músicas de Moraes Moreira faziam o maior sucesso na época. Lambretinha, Máscara Negra e outras. Suponho que ainda toque em bailes de carnaval, se é que ainda existem. 


    “Olhos negros, tu és tentadores, nas multidões sem cantores...”


O som arrastava a multidão. Meu coração palpitou quando vi a máquina. Um tremendo “FUSCÃO”: Faróis impecáveis, empinados e majestosos, chassi, suspensão e carroceria, impecáveis; chaparia sem um arranhão sequer; mas em meio àquilo tudo o que mais me impressionou foram as Talas Largas, ou seja, a distância entre os eixos da “Traseira”; simplesmente, impressionante!!!!!


Sem pedir licença, cumprimentei discretamente aquela mulher, quer dizer,  aquele carrão, e saí para dar uma “voltinha”. Cara... vou te contar... Alias vou te deixar imaginar... pense o que é dar um passeio naquele “Fuscão” cheirando a novo, perfumado, sentir aqueles faróis firmes, potentes e sempre acesos, a iluminar a imaginação de qualquer exemplar de homem, seja ele idoso, seminarista ou abstêmio, imagine então eu, belo exemplar de “Macho Alfa”?


Olhe, minha habilidade de piloto me valeu, pois sob o meu pseudocontrole senti o poder da máquina. Tudo nele era maravilhoso, e me fazia sentir o quanto era bom ser Homem, e poder pilotar e desfrutar daquela “Máquina Poderosa”. Aquele Fuscão não tinha limites; motor de altíssima cilindrada, não respeitava subida ao contrario, “Adorava Uma Subida”, e saibam, o que ele menos queria mesmo era descer. Era potente, arrogante, enfrentava qualquer situação, por mais adversa que fosse; seja ela poeira, fumaça etc. Em fim, era “Pau Pra Toda Obra” ou, não sei bem se era melhor dizer, que era obra pra um bom “PAU”. Huuuuummm, não sei bem caro leitor, se é melhor lembrar, ou aquietar meu velho coração daquele passeio que até hoje permeia meus pensamentos.


Mas o fato é que passear de “Fuscão” vai além da imaginação de qualquer um de vocês, caros leitores, por mais que descreva aqui, nunca será a mesma sensação de poder dominar aquela máquina quente, ao mesmo tempo, doce, suave, perfumada, ardente, surpreendente, nova, magnífica e calorosa. 



                                                                                                                         Marcos

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