Foi na década de 50. Nessa ocasião,
morávamos em uma cidadezinha do recôncavo. Os antigos casarios,
edificados em ruas enladeiradas, calçamentos em pedras naturais,
davam um toque nostálgico e pitoresco àquele lugar que parecia ter
parado no tempo.
O mosteiro com sua antiga arquitetura, seus
jardins floridos, bem cuidados, um verdadeiro santuário que emanava
paz. Nossos espíritos ficavam inebriados com aquela energia boa.
Era um misto de quietude, acalanto e respeito. Sua entrada imponente,
ornamentada com centenárias palmeiras imperiais, guarnecida por
antigas esculturas bem trabalhadas, completava aquele conjunto
majestoso. Não me cansava de apreciar as belezas daquele lugar.
Como não poderia deixar
de ser, dentre às traquinagens de menino, lembro-me dos tombos nas
ladeiras. Os artefatos utilizados, que mais pareciam uma concha
gigante de cabinho curto, eram feitos dos galhos das palmeiras.
Pegávamos os galhos caídos e separávamos a parte côncava
do restante da folhagem,
isto
é, o lado grosso do galho que ficava presa ao caule da palmeira.
Ensebávamos a parte de baixo, subíamos as ladeiras carregando os
artefatos, preferencialmente as mais íngremes, sentávamos no bojo e
descíamos ladeira abaixo, escorregando a toda velocidade.
Nas tardes de domingo,
quase que invariavelmente, lá estávamos nós, sentados nas cadeiras
pretas, envernizadas, olhos fixos na telinha, assistindo filmes de
bang bang. Era uma pequena sala de projeções pertencente ao
mosteiro, conservada e bem cuidada, que motivava muitas alegrias. Não
somente a nós e outras crianças, mas também a alguns adultos,
apreciadores da sétima
arte. Era uma verdadeira festa.
Por
falar em arte, também tínhamos as aulas de flauta, ministrada por
um professor sisudo
que não lembro o nome. Não eram tão interessantes quanto aos
outros folguedos, mas, segundo nosso genitor, faziam parte da
formação do indivíduo. Era muito importante esse verniz cultural.
Quem sabe, poderemos ter na família, futuramente, um Mozart ou um
Beethoven – dizia ele. Para mim, era perda de tempo e dinheiro.
Aquelas figurinhas no papel pareciam mais carocinhos de feijão
pendurados num varal. O professor, pacientemente, executava a peça
mostrando o significado e o som de cada uma das notas grafadas na
partitura. Em seguida era a nossa vez de executá-las. Aí era um
amontoado de sons desconexos, nada parecido com música.
Não
sabia o que era, mas depois entendi que desde
cedo existia entre eu e o mano primogênito uma sociedade de fato e
não de direito, ou talvez nem de fato. Foi a primeira. O patrimônio
da sociedade resumia-se a uma linda bicicleta vermelha e branca de
pneus maciços, que no fundo não passava de um velocípede de duas
rodas. Ainda assim
era nosso amado e precioso bem. A bicicletinha já estava bastante
desgastada e deteriorada quando o fato ocorreu. O mano cuidava da
proteção e guarda do bem, enquanto eu ficava responsável pela sua
manutenção e conservação. Apesar de não termos tido muito êxito
em nossas atribuições, fizemos o que estava ao nosso alcance. Foi
aí que tive a oportunidade de experimentar o regime socialista na
sua verdadeira essência. Um belo dia, procuramos nosso precioso bem
e descobrimos que não estava onde deveria estar, ou seja, num
cantinho improvisado do quintal sem muro, protegido apenas por uma
cerca em péssimo estado, juntamente com outras tranqueiras da
família. Nós, seres humanos, vivendo em grupo ou individualmente,
precisamos de espaços, físicos e/ou mentais, para guardar as
tranqueiras.
Onde
estaria nosso precioso patrimônio? Não
sabíamos nem por onde começar a procurar. Foi então que vimos os
filhos do vizinho, uma família humilde que sobrevivia com parcos
recursos, brincando com nossa bicicleta. Já
não
tão linda e reluzente como outrora, mais amarronzada que vermelha,
mas ainda assim continuava sendo nosso bem precioso. Foi aí que
entrou em ação nossa outra vizinha, moradora do lado oposto,
representando
o estado, exercendo
a força do direito e o direito ao uso da força.
Restabelecendo a ordem, tomou o bem e restituiu aos proprietários de fato e de direito.
Apesar
desse e outros pequenos contratempos, adorávamos aquele lugar. Vez
por outra eu era escolhido para acompanhar o genitor em suas viagens
à capital. As regras eram claras e rígidas. Não podia desobedecer
uma única vez, sob pena de não mais ser o eleito. Antes de iniciar
a maratona, tinha que beber água, fazer xixi, comer alguma coisa e
preparar-se para o reabastecimento quando fosse possível, ou seja,
sem hora determinada para acontecer. Costumeiramente, ao chegar ao
saguão
da repartição onde ele era um dos muitos funcionários, o genitor
determinava – sente e aguarde eu voltar. Eu perdia a noção das
horas. Às vezes, quando ele retornava eu já estava passando mal,
com a bexiga cheia. Mas, ainda assim, com todos esses sacrifícios,
era gratificante porque depois era só alegria. Os trajetos
percorridos pela cidade, de bonde ou de taxi, quase sempre naquelas
limusines pretas confortáveis, as paradas nos bares do Relógio São
Pedro, com direito a bolinhos de bacalhau regados com refrigerantes,
o café matinal da Pensão da Dona Cotinha, sem contar com a
indescritível viagem de navio, margeando a imensa baia com suas
águas calmas e tranquilas.
A
vida não é composta apenas de lembranças alegres. Também temos
nossos momentos tristes que, como válvula de segurança, conseguimos guardá-los em baús, no sótão de nossa consciência. Nem por isso
devemos deixar que esses percalços ofusquem essa beleza, esse
presente DIVINO que é nossa vida.
Foi
frustrante. Era mais uma véspera de São João, festa tradicional
que eu particularmente adoro. Para mim, é uma festa genuinamente
nordestina, simples, verdadeira, onde sentimos explodir alegria,
aconchego e muito calor humano. Como sempre, animado, munido de fogos
para queimar junto à fogueira, caprichosamente preparada e arrumada
por um nosso serviçal, tão próximo que chegava a confundir-se com
os membro da família. De início, tivemos dificuldade em entender
sua maneira de ser, principalmente seu particular “dialeto”.
Caladão, meio taciturno,
mas tinha o coração bom e gostava de todos nós. Sem maiores
dificuldades, foi abraçado pela família, inclusive o cachorro que
tornou-se seu
amigo
e fiel companheiro. Era engraçado, quando ele aperreado
apontava
para o objeto e gritava sacuda, sacuda!... Ficávamos com o objeto
sacudindo nas mãos, quando na realidade ele estava pedindo para
levarmos ou jogarmos o objeto solicitado em sua direção.
Nessa
véspera de São João, como outras tantas, a alegria era geral.
Sentados no batente da porta, aquecidos pelo calor da fogueira acesa,
cada um com seu toquinho de vela soltando os fogos na maior
algazarra. Era chuvinha, cobrinha, traque, traque de massa, um
verdadeiro festival. Vez por outra, a genitora preocupada, coração
apertado, mas sem querer estragar nossa festa, servia-nos um milho,
uma canjica ou um pedaço de bolo. Tudo levava a crer que seria mais
uma véspera de São João memorável, sem maiores incidentes. De
repente surge um pequeno grupo de rapazes jovens, baderneiros, e
um
deles joga uma enorme bomba em nossa fogueirinha. Foram brasas e
pedaços de lenha para todos os lados. Qual não foi a nossa tristeza
ao ver o que restou da nossa linda fogueira, elaborada com tanto
carinho pelo nosso serviçal. Apenas um punhado de brasas, dois ou
três tocos de lenha e uma pequena chama tentando resistir bravamente
para não se apagar de vez. A dor maior foi ouvir depois as risadas
sarcásticas dos inconsequentes. O prudente serviçal, sem dizer uma
palavra, seguiu em direção ao interior da nossa casa e retornou com
o cachorro. Nesses dias de festa ele
costumava
ficar preso em sua casinha, no fundo do quintal. Agachou-se junto à
porta e,
calmamente,
acariciando
o cachorro seguro pela coleira, aguardou.
Era um mestiço enorme, de pelos brancos e olhos avermelhados. Como
diz o ditado, “cão que ladra não morde”. O nosso cão não
ladrava.
- De que adianta o cão agora? –
imaginei. A fogueira apagou-se e, com ela, todo o brilho da festa.
Além do mais, os delinquentes não iriam mais retornar. Mal havia
terminado de concluir meu pensamento e eis que surge novamente o
mesmo grupo. Insatisfeitos, lançam mais uma bomba sobre os restos
mortais da nossa linda fogueirinha. Foi quando ouvi nosso serviçal
falar baixinho a voz de comando no ouvido do cão.
-
Sca,
pega. O
vulto branco partiu como uma flecha, atravessou a rua mal iluminada e
sumiu na escuridão da noite. Em seguida, ouvimos os gritos.
-
Ai, ai, socorro… Aos
gritos e em desabalada
carreira pela
rua afora,
o grupo desapareceu. O
cão retornou trazendo
entre as presas um pedaço de tecido manchado de sangue, e
depositou ao lado do serviçal. O serviçal apanhou o troféu,
fez um generoso afago no cão e seguiram em direção ao interior da
nossa residência. Em seguida, ao retornar, juntou os poucos tições
que sobraram e
reascendeu
a chama. A
lenha não
era muita, mas seria
o
suficiente para manter a pequena chama acesa por mais algumas horas.
Terminado o serviço, bateu as mãos, uma contra a outra e foi como
dissesse: espantem suas tristezas porque a festa continua. Como
mágica, a pequena labareda cresceu e aqueceu nossos corações. A
algazarra voltou a reinar no ambiente.
Sem
aviso prévio, o genitor anunciou
– vamos nos mudar. Todos nós
tínhamos
diplomas
de mestrado e PhD em mudanças. Os membros
mais
velhos passavam automaticamente as experiências aos recém-chegados.
Não
há de ser nada – pensei eu. Talvez seja uma morada igual ou melhor
que essa. Quando nada, teremos novos desafios a vencer. Afinal, é um
novo lugar. Certamente
haverão
coisas novas para conhecer e desbravar.
Não demorou muito e lá estávamos nós,
rumo ao aeroporto, prestes a realizar o sonho da nossa primeira
viagem aérea.
Avião - Douglas DC-3 da Cruzeiro do Sul.
A
emoção talvez tenha sido maior que quando vi a bicicletinha
vermelha e branca, deixada por Papai Noel, embaixo
da enorme árvore de natal.
Todos
os anos ela
era
armada na saleta, anexa à sala de visitas. Morávamos
nessa
época em um lugarejo, numa linda casa amarela. Mas
essa é uma outra estória.
Toda
verde,
com seus mais de dois metros de altura, enfeitada
de bolas coloridas, as
tiras
de algodão fofo serpenteando seus
galhos,
representando a neve, lá estava ela majestosamente
guarnecendo
os presentes. Dentre
eles, a
bicicletinha em
destaque,
prometendo nos dar muitos dias de alegria, acompanhada do recado
expresso
de Papai Noel – o presente é para os dois. Nesse
ano, as meninas ganharam lindas bonecas de louça. Tão
perfeitas que pareciam gente de verdade.
Quando
avistei aquele enorme pássaro prateado, reluzente, fui tomado por um
misto de medo e alegria. Era um bimotor
modelo Douglas DC-3 da Cruzeiro
do Sul. Voaria a cerca de vinte
mil pés
de altura, a uma velocidade fantástica de aproximadamente 300 km por
hora. A cabeça arredondada
com dois olhinhos de
vidro
lembrava um golfinho
gigante.
Duas
grandes hélices, impulsionadas
pelos
seus respectivos potentes motores,
brotavam das enormes asas. Um dorso grosso, roliço, enfeitado de
janelinhas e, sobre elas, lia-se em letras garrafais, “CRUZEIRO DO
SUL”. O fundo culminava como um rabo da baleia. Um grande leme
acompanhado de duas asinhas menores.
Seria
como o voo
da
cegonha?
- pensei. Eu era muito pequeno, não me lembro. E agora não posso
nem comparar. Estou bastante grandinho e, certamente a cegonha não
suportaria meu peso. Pensando bem, o voo da cegonha deve ser muito
lento, suave, para não assustar e nem machucar o bebê. Talvez seja
melhor comparar a um foguete transportando um astronauta em sua
compacta cápsula. Não deve ser tão rápido como um foguete, mas
certamente é mais rápido que a cegonha. É, prefiro o foguete –
concluí meu pensamento.
Como
um verdadeiro lider, o genitor
seguia na frente. Calmamente
ia executando os procedimentos
de praxe,
passando com o olhar aos demais membros que, na
medida do possível,
buscavam
imitá-lo da melhor forma.
Vez por outra,
sem muito alarde, vinha
em nosso auxílio,
procurando
sempre
nos
deixar
o mais confortável possível, passando
confiança e afastando
os
temores
e o constrangimento.
Devidamente
acomodado e mais tranquilo, passei a observar a paisagem pela
minúscula janela da
aeronave.
Eram carros e casas tão pequeninos que pareciam de
brinquedos. O mar tão calmo que dava vontade de deitar e dormir
sobre suas águas. Vez por outra passava apressadamente uma
nuvenzinha, tão alva e
fofa que
parecia ser
de
algodão.
Mal havia a aeronave levantado voo, e eis
que surgem lindas aeromoças de olhos verdes, cabelos loiros,
adornados por elegantes quepes, trazendo carrinhos cheios de quitutes
e guloseimas. Nesse momento, o pequeno grupo passa a ser comandado
pela genitora. Bastou um olhar de relance para relembrar-nos todo o
ensinamento, principalmente as regras básicas:
- nada de olhar com cara de fome;
- não pegar antes de oferecerem;
- receber e agradecer;
- preferir alimentos fáceis de ingerir;
-
evitar ao máximo alimentos líquidos ou pastosos para não se
sujar e dar
vexame;
-
não comer tudo e
deixar
sempre um restinho para não passar por morta-fome.
Acho
que quem introduziu essa regra de etiqueta nunca foi criança. Para
mim, era uma das mais difíceis. Deixar sempre um restinho. Que
tamanho seria esse restinho? Olhava para aquele pedaço e pensava: -
não, está muito grande e
comia
mais um pouquinho. Era sempre um tormento, principalmente aqueles
preferidos, saborosos, deliciosos.
Por
falar em tormento, vieram à memória uma
das
visitas em
que fui afortunadamente o escolhido para acompanhar a genitora. Eu
era bem menor, mais ainda me lembro. Nessas
visitas, geralmente no meio das tardes de domingo, escolhia sempre
um. Não ficava bem levar a filharada para as casas alheias.
- Faça xixi e beba água para não ficar
pedindo na rua. Dizia a genitora.
Sempre
evitava os horários próximos às refeições, para que o anfitrião
não se sentisse constrangido e obrigado a nos convidar para o almoço
ou jantar. Inesquecíveis
tardes maravilhosas. Tudo era novidade. Admirado,
ficava
sentado
observando
os
bons e os maus modos dos presentes, ouvindo o desenrolar das
conversas enquanto
imaginava
o que seria servido na
sobremesa. Era
um momento
ansiosamente
esperado,
o
ponto culminante da visita.
Eram bolos, cremes, doces variados. Até
mesmo um
simples cafezinho era
bem-vindo.
Pela maneira como ingeriam dava para imaginar que
não era um simples café. Aquela bebida quente tinha algo especial.
Em casa tomava sempre café com leite e biscoito. Não era a mesma
coisa. Um café preto, servido em porcelanas finas devia ter outro
sabor. Uns levantavam o dedo mindinho, acho que para demonstrar o
índice de satisfação. E tinha aquele que entornavam o café no
pires e sorvia fazendo um barulhinho característico, com um gosto de
fazer inveja. Ai daquele que ousasse fazer aquilo em casa. Mas ali,
naquelas visitas, tudo parecia ser permitido. Ninguém recriminava ou
tecia algum comentário. Então ficava eu sentado, lembrando um
coroinha, com carinha de anjo, aguardando a sua vez de participar da
missa. E finalmente estava chegando minha vez de ser servido. Pelo
canto dos olhos percebia a genitora concentrada, interagindo com o
assunto do momento, enquanto elegantemente degustava sua bebida. A
copeira simpática, sorridente, trajando aquele avental alvo, com uma
touca adornando os cabelos pretos ondulados, já estava terminando de
servir ao visitante do meu lado quando, invariavelmente, a genitora
dizia: - ele não gosta não. Restava-me o consolo de alguns
biscoitos.
Mas,
como em toda regra há exceção, acho que de tanto eu pedir, meu
anjo da guarda resolveu me dar uma mãozinha. Nesse dia de visita não
era café, nem bolo, nada disso. Era simplesmente deliciosos
favos
de mel cortado em pequenos cubos. Mel
de
abelhas
italianas criadas pela própria anfitriã
no
quintal da sua casa.
Quando olhei aquilo, a boca começou a salivar. Os visitantes, com
seus pratinhos cheios, mastigavam os tabletes de favo, como se fossem
chicletes, e depositavam o bolinho de cera alva no prato. O elogio à
iguaria foi geral. Alguns já estavam degustando o
segundo prato. Eu, contendo a saliva, praticamente imóvel, contrito
em minhas orações, aguardava o desfecho daquele episódio. Foi
então que ouvi a velha e conhecida sentença: - não, ele não
gosta. Era a voz da genitora, calma, suave e ao mesmo tempo enérgica.
Qual não foi a minha surpresa quando, imediatamente após, soou a
voz da anfitriã. - não gosta o que mulher?! Olha os olhinhos dele!
E
sentenciou. Venha meu filho, não olhe pra sua mãe porque com ela eu
me entendo. Carregou-me para a cozinha, improvisou um babador,
colocou um prato cheio de favo de mel cuidadosamente cortados e
determinou: - coma com a colher ou com as mãos, como você quiser.
Me senti como um verdadeiro urso. Foi o meu dia de Zé Colmeia.
Quando terminei, perguntou-me se ainda queria mais. Respondi
timidamente que não, balançando negativamente a cabeça, juntamente
com as bochechinhas gordas.
Levou-me a um lavatório, lavou minha boca, minhas mãos, deu
uma ajeitada em
minha roupa e
passou
as mãos nos
meus cabelos. Satisfeita,
sorridente, olhou para mim e disse: - está ótimo. E retornamos à
sala. Cabeça baixa, sem esboçar o mínimo de satisfação, com o
coraçãozinho transbordando de alegria, retornei ao meu lugar. E
para deixar-me ainda mais satisfeito e tranquilo, a anfitriã,
gozando dos privilégios e intimidade que tinha com a genitora,
fazendo
cara de brava,
acrescentou:
- e ai de você que toque num fio de cabelo dele porque vai se haver
comigo. Meu desejo foi correr e abraçar aquela maravilhosa senhora,
defensora implacável das crianças indefesas,
compulsivas
por guloseimas como eu. Obrigado meu anjinho. Fico te devendo mais
essa – pensei.
Depois
de algum tempo avistando somente aquela imensidão de água, eis que
surge uma linda cidade. Estava entardecendo. O sol, com seus
raios
mais brandos,
iluminava aquelas lindas praias e tudo o mais. Lá do alto, enquanto
o avião dava a volta preparando-se para o pouso, deu para avistar,
entre outras coisas, uma larga avenida serpenteando a praia que
parecia não ter fim. A avenida terminava em uma praça ornamentada
por uma imponente
catedral. Mal
o avião terminou de aterrissar,
alguns passageiros começaram a desafivelar seus cintos e preparar
para o desembarque. O primogênito, com a alegria estampada no rosto,
rapidamente libertou-se da poltrona, pôs-se
de
pé e, com o olhar procurou incentivar o restante da prole a
acompanhá-lo. Seus gestos foram imediatamente interrompidos pela voz
do comandante
geral da tropa.
- Calma moço. Estamos próximo, mas ainda não chegamos –
tranquilamente disse o genitor.
Novamente
a aeronave levantou voo. Era
começo
de noite
e
o
sol já havia
repousado.
Do alto avistávamos apenas uma imensa escuridão. Não demorou muito
e eis que surge aos nossos pés outra cidade. Parecia um imenso
presépio todo iluminado. À medida que a aeronave ia descendo
ficavam mais nítidas as inúmeras ruas, polvilhadas de carros, num
frenético vai e vem, ornamentadas por alguns edifícios e várias
lindas casas. A aeronave concluiu as manobras de pouso e os motores
foram
desligados.
Ainda assim, cautelosamente, o primogênito perguntou ao genitor:
- É aqui?
- Ainda não, mas vamos descer –
respondeu o genitor.
Pernoitamos num
majestoso hotel daquela prospera cidade. Após um belo
jantar,
fizemos um pequeno tour pela cidade, tomamos sorvete e retornamos ao
hotel. No dia seguinte, fomos recepcionados com um variadíssimo café
da manhã, cheio de iguarias. Em seguida, arrumamos nossos pertences
e ficamos aguardando na recepção. Pouco tempo depois, um automóvel
preto parou em frente ao hotel. As portas se abrem e descem do
veículo nosso genitor e o chofer.
Imediatamente começamos a embarcar.
Cadillac 1947, série 75
Era um reluzente Cadillac
1947, serie 75. Curiosamente, as portas da frente abriam para frente
e as portas de trás abriam para trás. Seguimos viagem. Minha mente
levou-me aos livros de estórias das mil e uma noites, e lá estava
eu a viajar num tapete voador. O veículo deslizava suave e
silenciosamente pela pista pavimentada enquanto eu, embevecido,
admirava a paisagem. A rodovia agora não era mais pavimentada. E
quanto mais a estrada ficava irregular, mais
o
automóvel parecia flutuar, transformando as precipitações da
pista em
suaves balanços. O
dia chuvoso, a
mata, cada vez mais densa, margeando a estrada,
cada vez mais estreita, completavam
aquela paisagem fumarenta e fúnebre. Alheio àquilo tudo, em animada
conversa com o chofer,
ouvi o genitor comentando que ali, daquelas pequenas árvores,
brotava um incalculável tesouro. Observei as referidas árvores,
margeando a estrada, sombreadas por outras gigantescas árvores, mas
não via tesouro algum, exceto algo, aparentando frutos amarelados,
brotando dos seus galhos e troncos.
Após algum tempo,
atravessando aquela paisagem hostil, começa a surgir novamente
vestígios de civilização. E aí deparamos com um vilarejo onde
quase todas as moradias tinham suas paredes construídas de madeira.
Pequenas casas toscas margeando a pista, umas empoleiradas e outras
incrustadas
nos barrancos. Chegando numa parte mais larga da pista, rua principal
e única do vilarejo, percebia-se um maior movimento de pessoas,
algumas pequenas barracas montadas, um vai e vem de carros de mão e
carroças de tração animal. Nossa limusine
diminuiu a marcha e parou em frente a uma das construções de
madeira, edificada num plano mais elevado, cujo acesso se fazia
através de uma escada também de madeira. Em sua fachada estava
pendurada uma tabuleta onde se lia “Pensão”.
O genitor foi o primeiro a saltar do
veículo. Em seguida, desceu a genitora com o caçula nos braços,
segurando o penúltimo da prole pela mão.
- Dona Rola! - com
intimidade e entusiasmo o genitor anunciou nossa chegada à dona da
Pensão. Sem muito sucesso, a genitora procurou disfarçar o
acabrunhamento
e a decepção. Buscando apoio, talvez, o genitor olhou para trás,
em busca de um olhar mais animador entre o restante da prole, mas
também não obteve
sucesso. Esboçou a vontade de entabular um diálogo, talvez na
tentativa de amenizar a situação, mas desistiu. Meteu a mão na
algibeira, retirou uma nota de vinte cruzeiros e entregou ao
primogênito dizendo: – vão pra
feira comprar doces.
Nota de Cr$ 20,00
Atravessamos a rua em
fila indiana. Eu
seguindo o primogênito
e, logo
atrás, vinham as duas
meninas. Esquivando por entre as carroças e animais, os sapatos de
citadinos e os vestidos de popeline
salpicados
de lama, conseguimos finalmente
chegar até
as barracas de doces. Era cocada, doce de leite, de banana, quebra
queixo e por aí vai. E
tinha
também um
chocolate
especial.
Pequenos
tabletes feitos
artesanalmente de cacau em pó.
Talvez pelo efeito da
feniletilamina
oriunda do puro chocolate, ou simplesmente pela nossa formação de
andarilhos, não sei bem ao certo, mas o fato é que já estávamos
nós, em pouco espaço de tempo, adaptados à nossa
nova
realidade. Não estávamos mais sentados naquelas cadeiras pretas da
pequena sala de projeção, no recôncavo,
assistindo às nossas películas prediletas do velho faroeste.
Estávamos agora, literalmente dentro da tela, vivendo uma verdadeira
aventura, em um dos redutos
tão magistralmente narrados pelo nosso saudoso Jorge Amado. E a
algazarra
voltou a reinar.