DO RECÔNCAVO AO REDUTO
Foi na década de 50. Nessa ocasião, morávamos em uma cidadezinha do recôncavo. Os antigos casarios, edificados em ruas enladeiradas, calçamentos em pedras naturais, davam um toque nostálgico e pitoresco àquele lugar que parecia ter parado no tempo.
O mosteiro com sua antiga arquitetura, seus jardins floridos, bem cuidados, um verdadeiro santuário que emanava paz. Nossos espíritos ficavam inebriados com aquela energia boa. Era um misto de quietude, acalanto e respeito. Sua entrada imponente, ornamentada com centenárias palmeiras imperiais, guarnecida por antigas esculturas bem trabalhadas, completava aquele conjunto majestoso. Não me cansava de apreciar as belezas daquele lugar.
Como não poderia deixar de ser, dentre às traquinagens de menino, lembro-me dos tombos nas ladeiras. Os artefatos utilizados, que mais pareciam uma concha gigante de cabinho curto, eram feitos dos galhos das palmeiras. Pegávamos os galhos caídos e separávamos a parte côncava do restante da folhagem, isto é, o lado grosso do galho que ficava presa ao caule da palmeira. Ensebávamos a parte de baixo, subíamos as ladeiras carregando os artefatos, preferencialmente as mais íngremes, sentávamos no bojo e descíamos ladeira abaixo, escorregando a toda velocidade.
Nas tardes de domingo, quase que invariavelmente, lá estávamos nós, sentados nas cadeiras pretas, envernizadas, olhos fixos na telinha, assistindo filmes de bang bang. Era uma pequena sala de projeções pertencente ao mosteiro, conservada e bem cuidada, que motivava muitas alegrias. Não somente a nós e outras crianças, mas também a alguns adultos, apreciadores da sétima arte. Era uma verdadeira festa.
Por falar em arte, também tínhamos as aulas de flauta, ministrada por um professor sisudo que não lembro o nome. Não eram tão interessantes quanto aos outros folguedos, mas, segundo nosso genitor, faziam parte da formação do indivíduo. Era muito importante esse verniz cultural. Quem sabe, poderemos ter na família, futuramente, um Mozart ou um Beethoven – dizia ele. Para mim, era perda de tempo e dinheiro. Aquelas figurinhas no papel pareciam mais carocinhos de feijão pendurados num varal. O professor, pacientemente, executava a peça mostrando o significado e o som de cada uma das notas grafadas na partitura. Em seguida era a nossa vez de executá-las. Aí era um amontoado de sons desconexos, nada parecido com música.
Não sabia o que era, mas depois entendi que desde cedo existia entre eu e o mano primogênito uma sociedade de fato e não de direito, ou talvez nem de fato. Foi a primeira. O patrimônio da sociedade resumia-se a uma linda bicicleta vermelha e branca de pneus maciços, que no fundo não passava de um velocípede de duas rodas. Ainda assim era nosso amado e precioso bem. A bicicletinha já estava bastante desgastada e deteriorada quando o fato ocorreu. O mano cuidava da proteção e guarda do bem, enquanto eu ficava responsável pela sua manutenção e conservação. Apesar de não termos tido muito êxito em nossas atribuições, fizemos o que estava ao nosso alcance. Foi aí que tive a oportunidade de experimentar o regime socialista na sua verdadeira essência. Um belo dia, procuramos nosso precioso bem e descobrimos que não estava onde deveria estar, ou seja, num cantinho improvisado do quintal sem muro, protegido apenas por uma cerca em péssimo estado, juntamente com outras tranqueiras da família. Nós, seres humanos, vivendo em grupo ou individualmente, precisamos de espaços, físicos e/ou mentais, para guardar as tranqueiras.
Onde estaria nosso precioso patrimônio? Não sabíamos nem por onde começar a procurar. Foi então que vimos os filhos do vizinho, uma família humilde que sobrevivia com parcos recursos, brincando com nossa bicicleta. Já não tão linda e reluzente como outrora, mais amarronzada que vermelha, mas ainda assim continuava sendo nosso bem precioso. Foi aí que entrou em ação nossa outra vizinha, moradora do lado oposto, representando o estado, exercendo a força do direito e o direito ao uso da força. Restabelecendo a ordem, tomou o bem e restituiu aos proprietários de fato e de direito.
Apesar desse e outros pequenos contratempos, adorávamos aquele lugar. Vez por outra eu era escolhido para acompanhar o genitor em suas viagens à capital. As regras eram claras e rígidas. Não podia desobedecer uma única vez, sob pena de não mais ser o eleito. Antes de iniciar a maratona, tinha que beber água, fazer xixi, comer alguma coisa e preparar-se para o reabastecimento quando fosse possível, ou seja, sem hora determinada para acontecer. Costumeiramente, ao chegar ao saguão da repartição onde ele era um dos muitos funcionários, o genitor determinava – sente e aguarde eu voltar. Eu perdia a noção das horas. Às vezes, quando ele retornava eu já estava passando mal, com a bexiga cheia. Mas, ainda assim, com todos esses sacrifícios, era gratificante porque depois era só alegria. Os trajetos percorridos pela cidade, de bonde ou de taxi, quase sempre naquelas limusines pretas confortáveis, as paradas nos bares do Relógio São Pedro, com direito a bolinhos de bacalhau regados com refrigerantes, o café matinal da Pensão da Dona Cotinha, sem contar com a indescritível viagem de navio, margeando a imensa baia com suas águas calmas e tranquilas.
A vida não é composta apenas de lembranças alegres. Também temos nossos momentos tristes que, como válvula de segurança, conseguimos guardá-los em baús, no sótão de nossa consciência. Nem por isso devemos deixar que esses percalços ofusquem essa beleza, esse presente DIVINO que é nossa vida.
Foi frustrante. Era mais uma véspera de São João, festa tradicional que eu particularmente adoro. Para mim, é uma festa genuinamente nordestina, simples, verdadeira, onde sentimos explodir alegria, aconchego e muito calor humano. Como sempre, animado, munido de fogos para queimar junto à fogueira, caprichosamente preparada e arrumada por um nosso serviçal, tão próximo que chegava a confundir-se com os membro da família. De início, tivemos dificuldade em entender sua maneira de ser, principalmente seu particular “dialeto”. Caladão, meio taciturno, mas tinha o coração bom e gostava de todos nós. Sem maiores dificuldades, foi abraçado pela família, inclusive o cachorro que tornou-se seu amigo e fiel companheiro. Era engraçado, quando ele aperreado apontava para o objeto e gritava sacuda, sacuda!... Ficávamos com o objeto sacudindo nas mãos, quando na realidade ele estava pedindo para levarmos ou jogarmos o objeto solicitado em sua direção.
Nessa véspera de São João, como outras tantas, a alegria era geral. Sentados no batente da porta, aquecidos pelo calor da fogueira acesa, cada um com seu toquinho de vela soltando os fogos na maior algazarra. Era chuvinha, cobrinha, traque, traque de massa, um verdadeiro festival. Vez por outra, a genitora preocupada, coração apertado, mas sem querer estragar nossa festa, servia-nos um milho, uma canjica ou um pedaço de bolo. Tudo levava a crer que seria mais uma véspera de São João memorável, sem maiores incidentes. De repente surge um pequeno grupo de rapazes jovens, baderneiros, e um deles joga uma enorme bomba em nossa fogueirinha. Foram brasas e pedaços de lenha para todos os lados. Qual não foi a nossa tristeza ao ver o que restou da nossa linda fogueira, elaborada com tanto carinho pelo nosso serviçal. Apenas um punhado de brasas, dois ou três tocos de lenha e uma pequena chama tentando resistir bravamente para não se apagar de vez. A dor maior foi ouvir depois as risadas sarcásticas dos inconsequentes. O prudente serviçal, sem dizer uma palavra, seguiu em direção ao interior da nossa casa e retornou com o cachorro. Nesses dias de festa ele costumava ficar preso em sua casinha, no fundo do quintal. Agachou-se junto à porta e, calmamente, acariciando o cachorro seguro pela coleira, aguardou. Era um mestiço enorme, de pelos brancos e olhos avermelhados. Como diz o ditado, “cão que ladra não morde”. O nosso cão não ladrava.
- De que adianta o cão agora? – imaginei. A fogueira apagou-se e, com ela, todo o brilho da festa. Além do mais, os delinquentes não iriam mais retornar. Mal havia terminado de concluir meu pensamento e eis que surge novamente o mesmo grupo. Insatisfeitos, lançam mais uma bomba sobre os restos mortais da nossa linda fogueirinha. Foi quando ouvi nosso serviçal falar baixinho a voz de comando no ouvido do cão.
- Sca, pega. O vulto branco partiu como uma flecha, atravessou a rua mal iluminada e sumiu na escuridão da noite. Em seguida, ouvimos os gritos.
- Ai, ai, socorro… Aos gritos e em desabalada carreira pela rua afora, o grupo desapareceu. O cão retornou trazendo entre as presas um pedaço de tecido manchado de sangue, e depositou ao lado do serviçal. O serviçal apanhou o troféu, fez um generoso afago no cão e seguiram em direção ao interior da nossa residência. Em seguida, ao retornar, juntou os poucos tições que sobraram e reascendeu a chama. A lenha não era muita, mas seria o suficiente para manter a pequena chama acesa por mais algumas horas. Terminado o serviço, bateu as mãos, uma contra a outra e foi como dissesse: espantem suas tristezas porque a festa continua. Como mágica, a pequena labareda cresceu e aqueceu nossos corações. A algazarra voltou a reinar no ambiente.
Sem aviso prévio, o genitor anunciou – vamos nos mudar. Todos nós tínhamos diplomas de mestrado e PhD em mudanças. Os membros mais velhos passavam automaticamente as experiências aos recém-chegados. Não há de ser nada – pensei eu. Talvez seja uma morada igual ou melhor que essa. Quando nada, teremos novos desafios a vencer. Afinal, é um novo lugar. Certamente haverão coisas novas para conhecer e desbravar.
Não demorou muito e lá estávamos nós, rumo ao aeroporto, prestes a realizar o sonho da nossa primeira viagem aérea.
Avião - Douglas DC-3 da Cruzeiro do Sul.
A emoção talvez tenha sido maior que quando vi a bicicletinha vermelha e branca, deixada por Papai Noel, embaixo da enorme árvore de natal. Todos os anos ela era armada na saleta, anexa à sala de visitas. Morávamos nessa época em um lugarejo, numa linda casa amarela. Mas essa é uma outra estória.
Toda verde, com seus mais de dois metros de altura, enfeitada de bolas coloridas, as tiras de algodão fofo serpenteando seus galhos, representando a neve, lá estava ela majestosamente guarnecendo os presentes. Dentre eles, a bicicletinha em destaque, prometendo nos dar muitos dias de alegria, acompanhada do recado expresso de Papai Noel – o presente é para os dois. Nesse ano, as meninas ganharam lindas bonecas de louça. Tão perfeitas que pareciam gente de verdade.
Quando avistei aquele enorme pássaro prateado, reluzente, fui tomado por um misto de medo e alegria. Era um bimotor modelo Douglas DC-3 da Cruzeiro do Sul. Voaria a cerca de vinte mil pés de altura, a uma velocidade fantástica de aproximadamente 300 km por hora. A cabeça arredondada com dois olhinhos de vidro lembrava um golfinho gigante. Duas grandes hélices, impulsionadas pelos seus respectivos potentes motores, brotavam das enormes asas. Um dorso grosso, roliço, enfeitado de janelinhas e, sobre elas, lia-se em letras garrafais, “CRUZEIRO DO SUL”. O fundo culminava como um rabo da baleia. Um grande leme acompanhado de duas asinhas menores.
Seria como o voo da cegonha? - pensei. Eu era muito pequeno, não me lembro. E agora não posso nem comparar. Estou bastante grandinho e, certamente a cegonha não suportaria meu peso. Pensando bem, o voo da cegonha deve ser muito lento, suave, para não assustar e nem machucar o bebê. Talvez seja melhor comparar a um foguete transportando um astronauta em sua compacta cápsula. Não deve ser tão rápido como um foguete, mas certamente é mais rápido que a cegonha. É, prefiro o foguete – concluí meu pensamento.
Como um verdadeiro lider, o genitor seguia na frente. Calmamente ia executando os procedimentos de praxe, passando com o olhar aos demais membros que, na medida do possível, buscavam imitá-lo da melhor forma. Vez por outra, sem muito alarde, vinha em nosso auxílio, procurando sempre nos deixar o mais confortável possível, passando confiança e afastando os temores e o constrangimento.
Devidamente acomodado e mais tranquilo, passei a observar a paisagem pela minúscula janela da aeronave. Eram carros e casas tão pequeninos que pareciam de brinquedos. O mar tão calmo que dava vontade de deitar e dormir sobre suas águas. Vez por outra passava apressadamente uma nuvenzinha, tão alva e fofa que parecia ser de algodão.
Mal havia a aeronave levantado voo, e eis que surgem lindas aeromoças de olhos verdes, cabelos loiros, adornados por elegantes quepes, trazendo carrinhos cheios de quitutes e guloseimas. Nesse momento, o pequeno grupo passa a ser comandado pela genitora. Bastou um olhar de relance para relembrar-nos todo o ensinamento, principalmente as regras básicas:
- nada de olhar com cara de fome;
- não pegar antes de oferecerem;
- receber e agradecer;
- preferir alimentos fáceis de ingerir;
- evitar ao máximo alimentos líquidos ou pastosos para não se sujar e dar vexame;
- não comer tudo e deixar sempre um restinho para não passar por morta-fome.
Acho que quem introduziu essa regra de etiqueta nunca foi criança. Para mim, era uma das mais difíceis. Deixar sempre um restinho. Que tamanho seria esse restinho? Olhava para aquele pedaço e pensava: - não, está muito grande e comia mais um pouquinho. Era sempre um tormento, principalmente aqueles preferidos, saborosos, deliciosos.
Por falar em tormento, vieram à memória uma das visitas em que fui afortunadamente o escolhido para acompanhar a genitora. Eu era bem menor, mais ainda me lembro. Nessas visitas, geralmente no meio das tardes de domingo, escolhia sempre um. Não ficava bem levar a filharada para as casas alheias.
- Faça xixi e beba água para não ficar pedindo na rua. Dizia a genitora.
Sempre evitava os horários próximos às refeições, para que o anfitrião não se sentisse constrangido e obrigado a nos convidar para o almoço ou jantar. Inesquecíveis tardes maravilhosas. Tudo era novidade. Admirado, ficava sentado observando os bons e os maus modos dos presentes, ouvindo o desenrolar das conversas enquanto imaginava o que seria servido na sobremesa. Era um momento ansiosamente esperado, o ponto culminante da visita. Eram bolos, cremes, doces variados. Até mesmo um simples cafezinho era bem-vindo. Pela maneira como ingeriam dava para imaginar que não era um simples café. Aquela bebida quente tinha algo especial. Em casa tomava sempre café com leite e biscoito. Não era a mesma coisa. Um café preto, servido em porcelanas finas devia ter outro sabor. Uns levantavam o dedo mindinho, acho que para demonstrar o índice de satisfação. E tinha aquele que entornavam o café no pires e sorvia fazendo um barulhinho característico, com um gosto de fazer inveja. Ai daquele que ousasse fazer aquilo em casa. Mas ali, naquelas visitas, tudo parecia ser permitido. Ninguém recriminava ou tecia algum comentário. Então ficava eu sentado, lembrando um coroinha, com carinha de anjo, aguardando a sua vez de participar da missa. E finalmente estava chegando minha vez de ser servido. Pelo canto dos olhos percebia a genitora concentrada, interagindo com o assunto do momento, enquanto elegantemente degustava sua bebida. A copeira simpática, sorridente, trajando aquele avental alvo, com uma touca adornando os cabelos pretos ondulados, já estava terminando de servir ao visitante do meu lado quando, invariavelmente, a genitora dizia: - ele não gosta não. Restava-me o consolo de alguns biscoitos.
Mas, como em toda regra há exceção, acho que de tanto eu pedir, meu anjo da guarda resolveu me dar uma mãozinha. Nesse dia de visita não era café, nem bolo, nada disso. Era simplesmente deliciosos favos de mel cortado em pequenos cubos. Mel de abelhas italianas criadas pela própria anfitriã no quintal da sua casa. Quando olhei aquilo, a boca começou a salivar. Os visitantes, com seus pratinhos cheios, mastigavam os tabletes de favo, como se fossem chicletes, e depositavam o bolinho de cera alva no prato. O elogio à iguaria foi geral. Alguns já estavam degustando o segundo prato. Eu, contendo a saliva, praticamente imóvel, contrito em minhas orações, aguardava o desfecho daquele episódio. Foi então que ouvi a velha e conhecida sentença: - não, ele não gosta. Era a voz da genitora, calma, suave e ao mesmo tempo enérgica. Qual não foi a minha surpresa quando, imediatamente após, soou a voz da anfitriã. - não gosta o que mulher?! Olha os olhinhos dele! E sentenciou. Venha meu filho, não olhe pra sua mãe porque com ela eu me entendo. Carregou-me para a cozinha, improvisou um babador, colocou um prato cheio de favo de mel cuidadosamente cortados e determinou: - coma com a colher ou com as mãos, como você quiser. Me senti como um verdadeiro urso. Foi o meu dia de Zé Colmeia. Quando terminei, perguntou-me se ainda queria mais. Respondi timidamente que não, balançando negativamente a cabeça, juntamente com as bochechinhas gordas. Levou-me a um lavatório, lavou minha boca, minhas mãos, deu uma ajeitada em minha roupa e passou as mãos nos meus cabelos. Satisfeita, sorridente, olhou para mim e disse: - está ótimo. E retornamos à sala. Cabeça baixa, sem esboçar o mínimo de satisfação, com o coraçãozinho transbordando de alegria, retornei ao meu lugar. E para deixar-me ainda mais satisfeito e tranquilo, a anfitriã, gozando dos privilégios e intimidade que tinha com a genitora, fazendo cara de brava, acrescentou: - e ai de você que toque num fio de cabelo dele porque vai se haver comigo. Meu desejo foi correr e abraçar aquela maravilhosa senhora, defensora implacável das crianças indefesas, compulsivas por guloseimas como eu. Obrigado meu anjinho. Fico te devendo mais essa – pensei.
Depois de algum tempo avistando somente aquela imensidão de água, eis que surge uma linda cidade. Estava entardecendo. O sol, com seus raios mais brandos, iluminava aquelas lindas praias e tudo o mais. Lá do alto, enquanto o avião dava a volta preparando-se para o pouso, deu para avistar, entre outras coisas, uma larga avenida serpenteando a praia que parecia não ter fim. A avenida terminava em uma praça ornamentada por uma imponente catedral. Mal o avião terminou de aterrissar, alguns passageiros começaram a desafivelar seus cintos e preparar para o desembarque. O primogênito, com a alegria estampada no rosto, rapidamente libertou-se da poltrona, pôs-se de pé e, com o olhar procurou incentivar o restante da prole a acompanhá-lo. Seus gestos foram imediatamente interrompidos pela voz do comandante geral da tropa. - Calma moço. Estamos próximo, mas ainda não chegamos – tranquilamente disse o genitor.
Novamente a aeronave levantou voo. Era começo de noite e o sol já havia repousado. Do alto avistávamos apenas uma imensa escuridão. Não demorou muito e eis que surge aos nossos pés outra cidade. Parecia um imenso presépio todo iluminado. À medida que a aeronave ia descendo ficavam mais nítidas as inúmeras ruas, polvilhadas de carros, num frenético vai e vem, ornamentadas por alguns edifícios e várias lindas casas. A aeronave concluiu as manobras de pouso e os motores foram desligados. Ainda assim, cautelosamente, o primogênito perguntou ao genitor:
- É aqui?
- Ainda não, mas vamos descer – respondeu o genitor.
Pernoitamos num majestoso hotel daquela prospera cidade. Após um belo jantar, fizemos um pequeno tour pela cidade, tomamos sorvete e retornamos ao hotel. No dia seguinte, fomos recepcionados com um variadíssimo café da manhã, cheio de iguarias. Em seguida, arrumamos nossos pertences e ficamos aguardando na recepção. Pouco tempo depois, um automóvel preto parou em frente ao hotel. As portas se abrem e descem do veículo nosso genitor e o chofer. Imediatamente começamos a embarcar.
Cadillac 1947, série 75
Era um reluzente Cadillac 1947, serie 75. Curiosamente, as portas da frente abriam para frente e as portas de trás abriam para trás. Seguimos viagem. Minha mente levou-me aos livros de estórias das mil e uma noites, e lá estava eu a viajar num tapete voador. O veículo deslizava suave e silenciosamente pela pista pavimentada enquanto eu, embevecido, admirava a paisagem. A rodovia agora não era mais pavimentada. E quanto mais a estrada ficava irregular, mais o automóvel parecia flutuar, transformando as precipitações da pista em suaves balanços. O dia chuvoso, a mata, cada vez mais densa, margeando a estrada, cada vez mais estreita, completavam aquela paisagem fumarenta e fúnebre. Alheio àquilo tudo, em animada conversa com o chofer, ouvi o genitor comentando que ali, daquelas pequenas árvores, brotava um incalculável tesouro. Observei as referidas árvores, margeando a estrada, sombreadas por outras gigantescas árvores, mas não via tesouro algum, exceto algo, aparentando frutos amarelados, brotando dos seus galhos e troncos.
Após algum tempo, atravessando aquela paisagem hostil, começa a surgir novamente vestígios de civilização. E aí deparamos com um vilarejo onde quase todas as moradias tinham suas paredes construídas de madeira. Pequenas casas toscas margeando a pista, umas empoleiradas e outras incrustadas nos barrancos. Chegando numa parte mais larga da pista, rua principal e única do vilarejo, percebia-se um maior movimento de pessoas, algumas pequenas barracas montadas, um vai e vem de carros de mão e carroças de tração animal. Nossa limusine diminuiu a marcha e parou em frente a uma das construções de madeira, edificada num plano mais elevado, cujo acesso se fazia através de uma escada também de madeira. Em sua fachada estava pendurada uma tabuleta onde se lia “Pensão”.
O genitor foi o primeiro a saltar do veículo. Em seguida, desceu a genitora com o caçula nos braços, segurando o penúltimo da prole pela mão.
- Dona Rola! - com intimidade e entusiasmo o genitor anunciou nossa chegada à dona da Pensão. Sem muito sucesso, a genitora procurou disfarçar o acabrunhamento e a decepção. Buscando apoio, talvez, o genitor olhou para trás, em busca de um olhar mais animador entre o restante da prole, mas também não obteve sucesso. Esboçou a vontade de entabular um diálogo, talvez na tentativa de amenizar a situação, mas desistiu. Meteu a mão na algibeira, retirou uma nota de vinte cruzeiros e entregou ao primogênito dizendo: – vão pra feira comprar doces.
Nota de Cr$ 20,00
Atravessamos a rua em fila indiana. Eu seguindo o primogênito e, logo atrás, vinham as duas meninas. Esquivando por entre as carroças e animais, os sapatos de citadinos e os vestidos de popeline salpicados de lama, conseguimos finalmente chegar até as barracas de doces. Era cocada, doce de leite, de banana, quebra queixo e por aí vai. E tinha também um chocolate especial. Pequenos tabletes feitos artesanalmente de cacau em pó.
Talvez pelo efeito da feniletilamina oriunda do puro chocolate, ou simplesmente pela nossa formação de andarilhos, não sei bem ao certo, mas o fato é que já estávamos nós, em pouco espaço de tempo, adaptados à nossa nova realidade. Não estávamos mais sentados naquelas cadeiras pretas da pequena sala de projeção, no recôncavo, assistindo às nossas películas prediletas do velho faroeste. Estávamos agora, literalmente dentro da tela, vivendo uma verdadeira aventura, em um dos redutos tão magistralmente narrados pelo nosso saudoso Jorge Amado. E a algazarra voltou a reinar.
Zumbi 12/2020.



Prendeu minha atenção do princípio ao fim. Estória bem escrita e bem contada.
ResponderExcluirPrendeu minha atenção do princípio ao fim. Estória bem escrita e bem contada.
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