sábado, 10 de dezembro de 2011

O TIO

Recebi uma foto, onde figuravam grandes personagens da atualidade, e lá estava ele. Pensei, esse é “O Tio”.

Este título é dado ao irmão da mãe, ou do pai, ao aderente, ou seja, aquele que, unido através do matrimonio, passa a fazer parte da família, ou até mesmo a alguém que simplesmente consegue arrancar de dentro de você essa qualificação, acompanhada de muito amor, carinho e afeição. Todos, ou na grande maioria, temos tios e “O Tio”.

A figura do tio, de modo geral, vem acompanhada de austeridade, respeito, por ser o responsável direto na ausência do pai. Ele, o Tio, não. Nunca impõe nada. Com o seu jeito cativante, consegue todos esses adjetivos, inerente às pessoas carismáticas, e muito mais. Figura esguia,  cabelos aloirados, pele clara, olhar triste, íntegro, leal... Não, não é a descrição do Dom Quixote. Considerando apenas o aspecto físico, está mais para Rok Hudson.

E nos tempos da brilhantina? Para quem não se lembra, foi importado dos Estados Unidos um corte de cabelo que, aqui, ficou conhecido como “Maracanã”. O Tio tinha orgulho de seu belo exemplar. Combinava muito bem com os seus dezoito anos. Fiz de tudo para conseguir imitá-lo, mas as dificuldades eram enormes. A começar pela a idade. No interior, o único corte para criança de dez anos era a famosa pastinha, ou seja, a cabeça toda pelada com uma franja na frente. Hoje, tenho certeza, aquele pimpão era inimitável. Até o Pat Boone e o Elvis teriam inveja dele.

 Contava os dias esperando sua chegada, durante as férias, trazendo as novidades da cidade. Camisa banlon, calça de tropical inglês, perfume Frances, tinham lugar cativo em sua bagagem. À noite, enquanto ele se arrumava para sair, eu ficava embevecido, ouvindo as coisas maravilhosas sobre a vida na cidade. Como num passe de mágica, bastava meia dúzia de escovadas e lá estava o seu “maracanã”, impávido, colossal.  Sentia-me envaidecido, desfilando na pracinha ao lado daquela estampa imponente, vendo os olhares languidos e os suspiros apaixonados das mocinhas casadoiras, ao passarem por ele.

Estávamos no quarto. Amplo, com duas camas patentes, colchões e travesseiros com enchimento de algodão, cobertos com lençóis de cambraia branca. Em uma das paredes ficava um guarda-roupa de madeira escura. Na outra extremidade, uma penteadeira, combinando em estilo com o guarda-roupa. Além de algumas roupas antigas, tinha, lá dentro, um velho bandolim, com cordas partidas que, em minhas noites de solidão, ficava sonhando, tirando canções maviosas do instrumento. Na cabeceira de uma das camas ficava pendurado um terço, com várias contas diferentes, montado com partes de outros terços. Eu rezava o terço todas as noites e não perdia uma novena. Queria ser agraciado como Marcelinho Pão e Vinho. A janela, de madeira pesada, abria para a varanda e o quintal, onde no centro tinha uma parreira. O Tio estava retirando as ultimas peças de roupa da mala, quando surgiu um calendário. Na estampa tinha a foto de uma moça loira, linda, vestida com uma blusa de malha amarelo ouro e um short curto vermelho, deixando à mostra suas pernas torneadas, sentada em uma monareta verde e branca. Eu não sabia, mas era uma propaganda da Gulivetti, uma marca de monareta das mais cobiçadas. Um dos sonhos do Tio era possuir uma daquelas máquinas maravilhosas, ou, talvez, as duas: a Gulivetti e a loira. Começamos então a elaborar um projeto para adquiri-la. A idéia era simples, e tinha tudo para dar certo. O pouco capital disponível seria empregado na compra de sementes e adubo. Já possuíamos o terreno e a ferramenta necessária, além dos braços e uma imensa vontade de ver nosso sonho realizado. Essas férias foram diferentes das outras. Quase todos os dias, descíamos para o roçado. Escolhemos uma área na vazante do rio e começamos a prepará-la para nosso plantio de “cibola”. Feliz, sonhando, eu não sentia cansaço. O trabalho era árduo. Capinando, fazendo leiras, plantando, fazendo valas para a irrigação, consertando a roda-dágua, matando a fome com melancia quente, mas o premio me fazia esquecer tudo isso. O Tio fazia as contas com base no preço de mercado, calculava quantas arrobas seriam colhidas, somava, dividia e ficava feliz com o resultado. Daria para comprar a Gulivetti e ainda sobraria dinheiro para adquirir algumas mudas de roupa, livros e muito disco. Acordado ou dormindo, invariavelmente o sonho era o mesmo. Sonhava com o Tio pilotando a Gulivetti reluzente, desfilando na praça, levando-me na garupa. Outra hora era a loira do calendário que me conduzia.

A plantação ficava cada dia mais viçosa. Finalmente chegou o dia da colheita. O alpendre ficou abarrotado de cebolas. Por alguns dias, dormi inalando aquele odor acre. O Tio providenciou tiras de caroá e contratou algumas mulheres da rua dos caboclos para trançá-las. Primeiro se junta e amarram-se três tiras de caroá. Depois escolhe-se as cebolas maiores e, com a própria palha do bulbo, juntamente com as tiras de caroá, vai-se formando uma trança, como as mulheres fazem nos seus cabelos, adicionando as “cabeças de cebola” em ordem decrescente de tamanho. No final, dá-se um nó com as próprias tiras de caroá.

Finalmente nossa safra estava pronta para ser embarcada. E se os compradores não chegarem logo? E se a cebola apodrecer? E se a cotação do preço cair ainda mais? Para alívio de todos, o caminhão parou na porta do sobrado. A notícia correu como o vento. Dos quatro cantos surgiam carregamentos de cebola, transportados das mais variadas formas. Uma mãe gritava para o filho se apressar, curiosos observavam à sombra dos tamarineiros, a praça fervilhava. As tranças de cebola eram colocadas sobre a balança, retiradas e arrumadas na carroceria do caminhão. Um homem anotava enquanto o outro pagava. Nossa pequena safra praticamente desapareceu naquela imensa carga.

Ainda não foi daquela vez que o Tio realizou seu sonho, ou melhor, nosso sonho. Aquela batalha foi ganha, mas, como muitas outras durante nossa existência, não ficamos com o troféu. Na sua trajetória, foram muitas batalhas. Hoje ele é um vitorioso e tem uma sala de troféus. E eu tenho orgulho em dizer: esse é o Tio.
    

                                                                                  Zumbi

ACONCHEGO


O mesmo bar, a mesma mesa, as mesmas músicas,
o mesmo perfume, o mesmo sorriso.

O mesmo bar, as mesmas lembranças,
a mesma bebida.

Trago o cigarro, e no bailado da fumaça vejo a imagem do teu rosto.

É tarde, preciso ir.
Chove lá fora.
Mas ir pra onde?!...
Talvez fique mais um pouco.
Talvez, quem sabe, você volte.

A mesma mesa, os mesmos pensamentos,
O mesmo bar, Aconchego.
Só não tenho o aconchego de você.
                                                                                     

                                                                                                      Zumbi

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

AUTOPSICOGRAFIA

                       
    O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.
    E os que lêem o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    Não as duas que ele teve,
    Mas só a que eles não têm.
    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a razão,
    Esse comboio de corda
    Que se chama coração.
                                                                            Fernando Pessoa
                                                                                  Colaboração:Lorena Márcia Cardoso

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

DEPOIMENTO


Jamais imaginei chegar a tal ponto. Externar, do fundo do meu eu, coisas até então desconhecidas, ou melhor, que eu mesmo recusava aceitar. Sinto-me agora, olhando para dentro do meu próprio ser, como a remexer naquela velha caixa, jogada num canto do sótão. Cada cartão, cada bilhete, cada fotografia, ou até mesmo um broche de cabelo roubado consegue, como num passe de mágica, trazer à tona pedaços de uma vida.

Pergunto-me onde encontro forças para superar as barreiras, para superar a timidez, o acanhamento de escrever tantas coisas intimas, tornando-as publica. Lá no fundo, sei perfeitamente a resposta. É que esse público, para mim, consiste em apenas uma pessoa, você. Sim, você que ao ler esses rabiscos está imaginando que eu não seria capaz, ou que talvez não seja você a que eu esteja me referindo. Não importa. Saiba apenas que o simples fato de pensar em seus lindos olhos devorando estas palavras, ávidos de curiosidade e incredulidade, me faz tremer. Meu coração palpita, minha boca fica seca, como no primeiro beijo de adolescente. 

E o meu crime. Quanto a este, nada negarei. Sou réu confesso. Diante da sua nítida imagem projetada em minha mente, sinto-me vulnerável, impotente, incapaz de qualquer omissão. A única vítima, meu pobre, velho e sofrido coração, cansado de tentar combater ao lado da razão. Chega de tanta luta, de querer negar a verdadeira razão de minha existência, de tentar ignorar algo tão palpável, tão plausível, um sentimento tão forte e verdadeiro. Meu pequeno delito é o imenso amor que sinto por você.
                                                                                                                            

                                                                                                                                    Zumbi

HEROINA...

... e se foi para sempre Walquiria, sem mais ilusão da casa, deixados aí
tantos mitos, gastos, esquecidos, saindo à cata de porto recém-encontrado,
após exaustiva busca, analisada aos poucos e só bem mais tarde.

(ficaram-se os demais: triturados, contidos no decoro em desuso,
desconfiança inútil, velhos hábitos mantidos sem pequeno esforço e
Mais por absurdo)

                        Walkiria sóbria, ereta, estática
                        exterminando em si angustiada espera
                        transpondo muros com as pernas altas de gazela esguia
                        alcançando o mundo

            -  de repente o sol, como se visto por primeira vez
               ainda o céu, igual azul redescoberto em firmamento côncavo
               opalina assessoria de casa antepassada
               (discreta prisão suave ate então insuspeitada)
            -  depois o pacto – mudo, denso, surdo
                selado com pés no chão
                firmado consigo mesma em canto escuso da imencidade
                                   (relembra agora sob morno sol da tarde
                                   lenta, languida, quase lasciva,
                                   buscando estilo ou método para seu vazio)
            -  é morna a tarde, escassa brisa, supérfluo vácuo
                intermezzo ate a noite aproximada
                Walqiria espera em tempo de limites imprecisos
                                   Walkiria vaga, vamp,
                                   veladas formas sob blusa negra
                                   ausente olhar sob franja ruiva
                                   achado porto lhe faltava ancora

            -  é longa a noite em passo lento/firme/exato,
                                                                                  salto no asfalto,
               miss/autômato, anônimo manequim
                                                                       alonga noite na calçada/passarela

                                   Walquiria ética, ácida, asséptica,
                                   água escorrendo em maciez de flancos,
                                   ventre, ancas,
                                                           vértice/coxas
                                   expulsa anêmona viscosa
                                   em que se fez e se detrita
                                                                           Walkiria cética

                                                                                                                                             Rosely

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

SEU CARLOS


Há alguns dias acordei meio nostálgico, lembrei-me de Seu Carlos e, quando percebi, já estava rabiscando mentalmente a sua história. O turbilhão dos acontecimentos cotidianos, como é de praxe nessa nossa vida “moderna”, atropelou o pequeno projeto e impediu-me de colocá-lo no papel. Mas fica aquele desejo de externar, botar pra fora e, enquanto não o faço, sinto-me incomodado, angustiado, com uma espécie de sentimento de culpa que, enquanto eu não fizer acontecer, não passará.
Não sei por onde anda Seu Carlos, muito pouco sei sobre sua vida, nem mesmo se Carlos é o seu verdadeiro nome. E eu, sei de onde venho, por onde ando, e pra onde vou? E minha vida, percorrendo novos caminhos, pra onde vai? Às vezes, imagino-me saindo sem destino pelo mundo, como Seu Carlos e, quem sabe, não encontraria, como Sidarta, respostas para tantos questionamentos conversando com um rio. Seria possível encontrar um lugar onde pudesse,  como diz a canção de Elis, encontrar meus amigos leais, guardar meus discos e livros, e nada mais.
Lembro-me de quando Seu Carlos chegou. Era um final de tarde, estávamos terminando as tarefas do dia, alguns trabalhadores já se encontravam a caminho do córrego para o banho vespertino, meu pai passando ao capataz as ordens para o dia seguinte, e já havia no ar um cheiro de cuscuz e café fresco.  Um homem descia pela estrada, chapéu de massa sobre a cabeça, terno de tropical inglês, cinza, sobre a camisa de cambraia branca, colarinho aberto, sem gravata, sapato preto de couro fino, legítimo, e sobre os ombros uma sacola de viagem. Tratava-se de um desconhecido, gente de fora. Vinha em seu passo lento, como se não tivesse pressa de chegar, com destino a lugar nenhum. Todos se entreolharam. Quem seria? Alguém arriscou. Talvez um fiscal. Um fiscal a pé, àquelas horas? Seu Carlos chegou. Esse era seu nome. Educadamente saudou a todos. Deduzindo acertadamente, dirigiu-se a meu pai como sendo o dono daquela propriedade rural, e pediu abrigo e trabalho. Meu pai ordenou então que providenciassem alimento e arrumassem um canto no armazém para ele descansar. Seu Russo, o capataz, ficou encarregado de arrumar-lhe algum trabalho nas proximidades da Sede.
Como eu, Seu Carlos tinha cabelos pretos, olhos castanhos escuros, pele clara, taciturno, pouca conversa.  Naquela ocasião, eu contava pouco mais de dez anos. Seu Carlos, estatura mediana, aparentava seus trinta e cinco anos.  No final da tarde, após o banho, ele costumava escalar um pequeno monte próximo, em frente à sede da fazenda, onde permanecia por um bom tempo, fumando, olhando, com imensa tristeza, o vazio do firmamento.  O que estaria ele pensando, ou tentando esquecer? Quantas vezes acordei, durante a noite, às voltas com meus fantasmas, outras vezes buscando um carinho, um aconchego, e voltava a dormir, soluçando baixinho. Hoje, os meus fantasmas são outros, mas persistem as inseguranças, as incertezas, o medo do desconhecido, o medo do amanhã. O que teria acontecido lá em Minas Gerais? O que fez Seu Carlos chegar até esse fim de mundo? O que veio em sua bagagem e que ele gostaria de ter deixado lá, enterrado, sepultado? O que ele gostaria de ter trazido e, certamente, poderia abrandar-lhe o coração, dando-lhe um pouco de paz e felicidade.
Seu Russo, diferente de Seu Carlos, era um homem rude, cabelo e barba avermelhados, pele curtida, muito mal sabia ler. Eu não gostava de Seu Russo. Tinha um olhar de raposa. Certa feita, minha mãe descobriu, dentro da cozinha dele, guardada em uma caixa de madeira, uma leitoa esquartejada. A mulher de Seu Russo tratou de esclarecer, apressadamente, que tinha sido uma leitoa “das deles”. Tiveram de matar porque não era boa parideira.
Cedo, no dia seguinte, Seu Carlos, facão em punho, camisa branca social dobrada acima dos cotovelos, mostrava claramente que não tinha intimidade com a tarefa de roçagem. Seu Russo providenciou uma indumentária mais adequada, incluindo um chapéu de palha grande, pois as poucas horas de exposição ao sol foram o bastante para agredir a pele fina do moço citadino. Os poucos dias seguintes foram suficientes para Seu Carlos demonstrar a sua inteligência, força de vontade, a dedicação e o desejo em aprender, adaptando-se rapidamente ao seu novo habitat.
Com seu jeito calmo, educado e prestativo, Seu Carlos foi conquistando a amizade de todos, ou melhor, quase todos.  É curioso como as pessoas sentem-se incomodadas, ameaçadas, quando alguém começa a sobressair, principalmente nos ambientes de trabalho, quando esse alguém é notado pelo chefe. Quanto trabalho brilhante é jogado na lata do lixo, simplesmente para não tornar-se uma ameaça, não motivar o destronamento de muitos incompetentes?
Seu Carlos falava muito pouco, principalmente sobre sua vida. Em momentos raros, talvez duas ou três ocasiões, tive a oportunidade de conversar com ele, ou melhor, de ouvi-lo. Acho que o meu jeito calado, discreto, propiciou-lhe eleger-me como seu ouvinte. Numa espécie de desabafo, falou-me sobre sua filha. Pouco mais nova que eu, loira, olhos verdes, bonita como a mãe. Mas o caráter, felizmente, herdara dele. Não tinha foto, nada dela. Somente lembranças. Apaixonei-me por ela. Via-a em meus sonhos, sorrindo para mim, segurando minhas mãos, fitando-me com aqueles lindos olhos verdes. Sentia o seu perfume, seus lindos cabelos loiros roçando minha pele. Não dizia nada, apenas sorria. Seu Carlos não oporia. Muito pelo contrario, teria muito gosto em nos ver unidos pelo matrimonio. Seu Carlos iria trazê-la, teríamos uma bela festa de casamento e viveríamos todos muito felizes, aqui na fazenda.
Seu Russo já havia tecido alguns comentários maledicentes, levantando dúvidas a respeito da idoneidade de Seu Carlos. Aproveitou o momento em que estávamos na sala, e enquanto Seu Carlos tomava banho no córrego, lá embaixo, na roça de cacau, indagou o que haveria na mochila dele. Talvez alguma coisa que desvendasse seu passado. E por que não espiar? Sem dar tempo a qualquer reação, pegou a mochila que estava pendurada, abriu-a e esparramou todo o seu conteúdo no meio da sala. Além cuecas, meias e duas mudas de roupa, saltaram aos nossos olhos uma faca trabalhada e um par de esporas de metal, pertencentes a meu pai, além de um rolo de nylon para pesca, anzóis e outras quinquilharias. Seu Russo não perdeu tempo. Estamos abrigando um ladrão, comentou. Isso não podia continuar, meu pai deveria tomar uma atitude. Quando Seu Carlos retornou do banho, meu pai, com os olhos marejados, pediu-lhe que pegasse seus pertences e fosse embora, no outro dia cedo. Seu Carlos, de cabeça baixa, sem dizer uma palavra, recolheu-se no armazém.
Desolado, fui ao armazém. Seu Carlos estava encostado na janela, fumando, enquanto olhava a escuridão, com aquele mesmo ar absorto. Aproximei-me. Seu Carlos abraçou-me em silencio. Senti seu corpo estremecer com um soluço, enquanto duas lágrimas rolavam em seu rosto. Não, pensei! Isso não pode ficar assim. Não é justo o que estão fazendo. Seu Carlos é um homem bom. Seu Russo preparou tudo por ciúme. E a estória da leitoa, e outros fatos já esquecidos, não bem esclarecidos, que fazem parte do currículo de Seu Russo, não contam? Meu pai há de me ouvir. Com os olhos marejados, retornei à sala da casa-sede, com o discurso de defesa preparado e ensaiado. Encontrei os homens tecendo os últimos comentários sobre o episódio, e outros assuntos já entrando em pauta. Preparado, respirei fundo e, quando ia abrir a boca, ouvi uma voz no fundo da minha consciência. Era a voz do meu pai: “criança não entra na conversa de adulto”. O discurso inflamado de defesa resumiu-se a um “bença meu pai” e um tímido boa-noite.
Deitado em meu quarto, entre lágrimas e soluços, pensei: a batalha ainda não esta perdida. Amanha cedo convencerei Seu Carlos a falar com meu pai, que irá ouvi-lo. Todo esse mal entendido se esclarecerá. Seu Russo será desmascarado e, quem sabe, Seu Carlos aproveitará a oportunidade para falar a meu pai sobre mim e sua filha. Meu pai, muito contente, pedirá a Seu Carlos para trazê-la, o mais breve possível. Embalado por esse desfecho, adormeci.

                                                                                                                             Zumbi  10/2011

VIA LÁCTEA


ai... as vagas estrelas da Ursa Maior
longas noites de Cabíria
amargos jardins dos Finzzi Contini
meu destino de Medéia
que não reza no Evangelho
de quem viu a Via Láctea
            Fellini
   Uccello
              Antonio
                          Luchino
               Paolo
                        Uccellino
onde estão que não respondem
em que mundo se escondem
            - esse real me apavora
              dia à dia me alucina –
mestre Bertô..,.
quero dançar com você
o último tango em Diamantina.

                                                               Rosely
                                                               M.Gerais, maio/1986.